Capítulo 1 Capítulo 1 — Uma vida com alguns traumas

Dylan King Snyder tinha quarenta anos e praticamente criara sozinho uma família formada por duas irmãs e um filho pequeno. Evelyn tinha trinta anos e Bonnie, dezoito.

Evelyn tinha apenas doze anos quando a mãe delas morreu ao dar à luz Bonnie. Na época, Dylan tinha vinte e dois e foi obrigado a cuidar do próprio pai, um alcoólatra que, por causa do vício, acabou atropelado e morto cerca de dois anos depois de perder a esposa. Mesmo assim, Dylan acreditou nas irmãs e não desistiu delas, como seus pais haviam desistido dele.

Evelyn nunca lhe dava trabalho, pelo contrário, ajudava muito nos dois negócios da família. Era uma jovem calma, tranquila, com aquele jeito quase zen de encarar a vida.

Bonnie, por outro lado, carregava a culpa pela morte da mãe, como se pudesse ter evitado que ela não resistisse ao parto. Quem contou isso a ela, ainda criança, foi uma babá, que Dylan demitiu no mesmo dia e puniu por ousar dizer algo assim a uma menina de nove anos, na véspera do próprio aniversário. Desde então, Dylan passou a odiar babás. Para ele, eram inconvenientes, intrusivas, gente que não se podia confiar.

Houve um tempo em que sua vida parecia completa. Um casamento perfeito, dois sonhos realizados ao lado de uma mulher extraordinária, uma verdadeira joia de alma. Mas o destino tirou dele a mãe do seu único filho. Leah Howard, sua esposa, foi assassinada quando o pequeno Drake tinha apenas um ano. Leah tinha vinte e sete anos, e Dylan jamais teve dúvida: descobriria quem tirou a vida do grande amor dele, custasse o que custasse.

Depois daquilo, ele se viu sozinho outra vez, mas não podia se dar ao luxo de desmoronar. As irmãs e o filho precisavam dele inteiro, eram o motivo pelo qual mantinha a sanidade e seguia existindo.

Comandava o Império King do Uísque, a bebida mais vendida do estado. A alcunha vinha de um antigo membro da família que teve a ideia de acrescentar um toque de especiarias à receita, um capricho que a esposa dele adorava. Quando assumiu a empresa, aos dezoito anos, encontrou o legado praticamente destruído pelo vício do pai, que arruinara os negócios. Levou pouco mais de dez anos para reerguer tudo e devolver à empresa a riqueza e o prestígio de outrora.

Seu segundo império era a máfia dos cassinos. Dylan detinha noventa e cinco por cento de dois cassinos da cidade, usados também para outros "negócios" com máfias de confiança do submundo.

Para que tudo funcionasse, contava com Brooke Keer, sua assistente fiel de vinte e nove anos, sempre ao seu lado.

Mas o que mais o incomodava ultimamente era o próprio filho. Drake completaria oito anos dali a um mês, e o menino andava visivelmente triste, o que deixava Dylan arrasado, afinal, criança deveria gostar de aniversário, e ver o filho infeliz o fazia infeliz também.

Drake era o coração fora do peito de Dylan, o motivo de sua existência fazer sentido. Ele largava qualquer coisa, a qualquer hora, sempre que o filho precisasse dele.

Naquele dia, Dylan voltou para casa mais cedo, decidido a conversar com o menino, tentar consertar as coisas e arrancar dele um sorriso, igual ao seu. Foi direto ao quarto de Drake e o encontrou estudando.

— Oi, filhão — cumprimentou, dando um beijo no topo da cabeça do menino e dando uma olhada rápida no caderno. — Seu exercício está certinho, como sempre. Que orgulho de você.

Sentou-se ao lado dele.

— Ainda não me disse qual tema você quer para sua festa de aniversário. Estamos praticamente no limite do prazo. A Brooke precisa organizar tudo logo, para que seus amigos possam curtir junto com você.

Drake não desviou os olhos do caderno.

— Pai... eu não gosto da Brooke. Já falei isso antes. E eu não quero festa de aniversário este ano. Principalmente se for ela quem organizar.

Dylan suspirou.

— Filhão, a Brooke não vai nem estar lá, exatamente porque sei que você não gosta dela. Eu gostaria de entender de onde veio essa implicância toda com ela. Ela organiza seus aniversários desde que você tinha três anos, e nunca decepcionou, nunca economizou nos temas que escolhe para as suas festas. Mas não é sobre isso que eu quero falar agora. Por que você não quer comemorar seu aniversário este ano? Isso é importante pra você, e pra nossa família inteira.

Drake apertou o lápis na mão.

— Eu não quero que você fique insistindo numa pergunta que eu não quero responder, porque as pessoas sempre decepcionam. Pai, por que a gente não pode ter uma babá, como as outras crianças? Todos os meus amigos têm, e dizem que é como ter uma segunda mãe. Que na ausência da mãe, elas são isso: uma segunda mãe. Que são carinhosas, fazem sanduíche, fazem bolo, são divertidas, brincam com a gente, ajudam em casa mesmo quando a gente não precisa.

— Eu também faço sanduíche pra você — respondeu Dylan, tentando não deixar a mágoa transparecer. — Eu brinco com você, suas tias brincam com você. E todos nós ajudamos na limpeza da casa. Eu sei que às vezes você faz algumas coisas sozinho, mas não vejo por que você precisaria de uma babá. Você já é tão responsável, mais até que sua tia Bonnie, que sempre me dá cabelo branco.

— Pai, o senhor nunca vai entender — disse Drake, num tom cansado, mais velho do que sua idade permitia. — Tem coisa que eu nem preciso dizer, é só o senhor abrir os olhos. Eu preciso terminar meu dever de casa, por favor. Feche a porta quando sair. Eu vou comer um sanduíche, não vou descer para jantar agora.

O menino virou-se de volta para a mesa e voltou a se concentrar no caderno, encerrando a conversa. Dylan reconheceu ali o próprio temperamento, quando o assunto acabava para ele, acabava de verdade, e o que restava era o silêncio.

Ele não queria, de jeito nenhum, um estranho se intrometendo em sua casa e virando a cabeça do filho contra ele. Uma babá. Só de pensar, sentia o estômago revirar.

Mas sabia, no fundo, o que Drake realmente queria, e era algo que nem todo o dinheiro do mundo podia comprar: amor materno. Só que o menino não deixava ninguém se aproximar dele.

Sem conseguir pensar mais no assunto, Dylan seguiu para o segundo compromisso da noite. Aquele trabalho sempre exigia mais dele do que ele gostaria, heranças de família cobravam o dobro do preço.

Ao chegar ao Cassino Império, Henry Pollock, um dos seus subchefes, veio ao seu encontro e disse algo que mudou completamente o humor de Dylan.

— A pequena trapaceira voltou — informou Henry. — Dessa vez ela está com dinheiro, sentada na mesa de vinte e um.

Dylan sentiu a raiva subir. Como aquela rata tinha conseguido entrar de novo no cassino, se já estava proibida? Procurou o outro lado do salão e viu Doug Saunders, seu outro chefe assistente, caminhando em sua direção, só de ver a cara dele, Dylan já soube que vinha mais problema.

— A trapaceira chegou acompanhada de um amigo milionário — explicou Doug. — Como ela é convidada dele, não temos como barrá-la.

— Não tirem os olhos dessa rata trapaceira — ordenou Dylan, os olhos fixos na mesa de vinte e um ao longe. — Da próxima vez que ela pisar em falso, eu mesmo cuido dela, do jeito que eu quiser, onde eu quiser.

Doug baixou a voz antes de continuar.

— Dylan... a Bonnie não está bem. Ela está bêbada de novo. Eu pedi para não servirem mais bebida pra ela, vou falar com a Evelyn pra vir buscá-la, mas parece que ninguém quis contrariar a Bonnie.

— Quero na rua, agora, quem serviu o primeiro copo pra ela — rugiu Dylan. — Eu já avisei a todo mundo aqui que não era pra servir nenhuma bebida pra minha irmã. E se ela insistisse, era pra me chamarem, e isso não aconteceu. Quero todo mundo reunido aqui em cinco minutos.

Depois de repreender Doug, Dylan seguiu direto para a área VIP, e encontrou a irmã caçula desmaiada, completamente embriagada. Ele odiava quando suas ordens mais simples não eram cumpridas. Bastava um pouco de bom senso para que aquilo nunca tivesse acontecido.

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