Capítulo 4 Capítulo 4 — Uma Doida Sem Noção

Hayley reconheceu, incomodada, que o pirralho era esperto. Ele a tinha colocado justamente no quarto de frente para o dele, onde havia dois seguranças de plantão. Drake entrou junto com ela e ficou parado, encarando-a.

— O que mais você quer, pirralho? — perguntou ela, cansada. — Já não me colocou numa cilada enorme?

— Eu te salvei — respondeu Drake, sério. — E estou esperando que você troque de roupa e depois me conte uma história, para eu conseguir dormir. Você já está oficialmente trabalhando, então precisa me ajudar a ter uma boa noite de sono.

— Ok, Drake — cedeu Hayley, suspirando. — Eu não tenho roupas aqui, e só sei três histórias de princesas da Disney. Acho que você não vai querer ouvir, então vai logo para o seu quarto dormir. Já está tarde para uma criança estar acordada, e você já é grandinho, pode dormir sozinho.

— Acho que vou chamar meu pai e dizer que a babá está sendo má comigo — ameaçou o menino, com um sorriso de quem sabia exatamente o que estava fazendo. — E que ele pode te levar para a fazenda, onde as pessoas trabalham para ele dia e noite, com só uma hora de descanso.

Hayley revirou os olhos internamente, sabendo que aquilo provavelmente era mentira, mas cedeu de qualquer jeito.

— Qual história você quer ouvir? Que tal Chapeuzinho Vermelho? Vamos para o seu quarto — disse ela, resignada, seguindo o menino enquanto pensava, por dentro, que aquele pirralho a tinha bem nas mãos.

Terminou de contar a história fazendo carinho na cabeça de Drake, surpresa ao notar que o cabelo do garoto era mais macio que o dela, gostoso de mexer. Ele a abraçou, e ela acabou adormecendo ali mesmo, ao lado dele.

Acordou no próprio quarto sem lembrar como tinha chegado ali, e ao se sentar na cama encontrou Dylan furioso, encarando-a.

— Bom dia para você também — disse ela, ignorando a cara fechada dele.

— Não durma no quarto do meu filho — cortou Dylan, sério. — Seu quarto é esse. Eu não quero que ele fique emocionalmente dependente de você. Não faça isso de novo. Tenho algumas regras para você cumprir.

— Não fiz por mal, eu estava cansada — respondeu Hayley, irritada. — Quer saber? Retiro o meu bom dia e acrescento um vai para o inferno.

Ela esqueceu, naquele momento, que falava com um homem capaz de fazê-la parar de respirar, e nem de um jeito romântico. Sem tomar sequer o café da manhã, já estava sendo atormentada por ele. Caminhou em direção ao que acreditava ser o banheiro, mas antes de chegar sentiu a mão dele puxá-la pela nuca, virando-a de frente para si.

— Não sou gentil, e muito menos paciente — disse Dylan, olhando fundo nos olhos dela. — Então vou tentar ser legal e te avisar: evite abrir essa boquinha atrevida e irritante perto de mim. Da próxima vez, vou calar você de um jeito que vai livrar o mundo de você. Aqui nessa casa todo mundo cuida bem do meu filho, mas ele escolheu você para ficar ao lado dele, e como não gosto de vê-lo triste, atendi o pedido dele. Agradeça a ele por você ainda estar respirando.

Ele a soltou e se afastou.

— Deixei ali na mesa o que você pode e não pode fazer, falar ou dar ao meu filho, por escrito — completou. — Leia com atenção, não suporto erros bobos. Durma enquanto ele estiver na escola, porque assim que ele dormir mais tarde, mando alguém buscar você para o seu segundo trabalho. Quanto antes você quitar comigo, antes eu me livro de você.

Dylan saiu do quarto como se nada tivesse acontecido, deixando Hayley parada ali, prometendo a si mesma que, se saísse viva daquela casa, nunca mais entraria num cassino na vida.

Desceu para tomar café da manhã e encontrou uma mesa enorme, com dez cadeiras e fartura de comida. Ficou salivando ao ver um bolo de mel quentinho, e quando se aproximou para pegar um pedaço, ouviu uma voz atrás de si. Era Evelyn King.

— Se eu fosse você — disse Evelyn, caminhando até a mesa — não tocaria nesse bolo antes do Dylan e do Drake. É o preferido dos dois, e vai te arrumar um problema com meu irmão.

— Sério que vou ter que esperar pelo rei e o príncipe para poder comer? — reagiu Hayley, sarcástica. — Estamos na era medieval e eu não sabia? Será que ao deitar para dormir eu voltei no tempo sem perceber? Me diz uma coisa, o ego de vocês cabe aqui dentro dessa mansão gigante, ou vocês têm outra mansão só para guardar o excesso?

— Você é chata, e barulhenta — resmungou Bonnie, entrando na sala. — Como fala, meu Deus. Que irritante.

— Ratinha, acho que você não esqueceu da nossa última conversa, não é? — disse Dylan, aparecendo logo atrás, com Drake ao lado. — Prefiro acreditar que não.

Hayley olhou para trás e viu os três se aproximando da mesa. Evelyn se sentou, e os outros a seguiram.

— Você também não é nem um pouco doce, Bonnie King — provocou Hayley. — E sim, senhor King, eu me lembro da tal conversa. Não se pode fazer nada nessa droga de casa, prefiro as ruas, muito mais acolhedoras.

— Que conversa? — perguntou Drake, preocupado. — Pai, o senhor não está fazendo bullying com a minha babá, está? Lá na escola falam que isso é uma coisa horrível, e eu concordo.

— Não, meu amor — respondeu Dylan, suavizando o tom. — Ela precisa saber o que você pode e não pode comer, suas alergias, coisas que um pai precisa acertar. Ela é uma estranha, ainda não te conhece bem, é normal que a gente converse sobre isso.

— Por mim, ela nunca chegaria perto do Drake — declarou Bonnie, com desprezo. — Eu não confio nela. Parece uma dessas pessoas sem educação nenhuma.

— Só para vocês saberem, eu também não confio em nenhum de vocês — rebateu Hayley. — Mas já que o Drake me quer aqui, engula, Bonnie.

— Sua vadia, vou te fazer engolir um membro — ameaçou Bonnie, os olhos acesos de raiva. — Não duvide do que eu posso fazer com você.

— Parem, agora — interveio Evelyn, séria. — Dylan, vai ficar só assistindo? Olha, o Drake está bem do seu lado. Vai deixar isso acontecer na frente dele e não vai fazer nada?

— Ok, crianças, parem — disse Dylan, finalmente se metendo. — Drake, você sabe que sua tia Bonnie não vai encostar na sua babá, né? Elas só estão tendo uma conversa um pouco exaltada.

— Só para você saber, Bonnie, para me fazer engolir alguma coisa você precisaria ter o quê fazer eu engolir, o que não é bem o seu caso — provocou Hayley, sem se conter.

Bonnie se levantou, o braço comprido alcançando o pescoço de Hayley com força, apertando enquanto falava, o hálito forte de bebida quase visível no ar.

— Não ande pela casa sozinha, principalmente à noite — avisou Bonnie, soltando-a assim que Drake pousou a mão em seu braço.

Bonnie beijou a testa do sobrinho, pediu desculpas apenas a ele, pegou dois sanduíches e um suco, e anunciou que iria tomar café na piscina antes de se retirar.

Hayley se sentou novamente, passando a mão pelo próprio pescoço, pensando que, se aquilo continuasse, ia acabar sem ele. Dylan e Evelyn se levantaram, beijaram a testa de Drake e saíram em seguida, ignorando-a completamente. Foi quando ouviu a voz do menino ao seu lado.

— Hayley, não continue com essa postura na frente deles — pediu Drake, preocupado. — Você parece uma boa pessoa, e eu não quero te ver machucada, ou... você entendeu.

— Você não precisa se preocupar comigo — respondeu ela, tentando soar indiferente. — Tenho certeza que, se acontecer alguma coisa comigo, seu pai coloca outra no meu lugar num estalar de dedos. É para isso que serve o dinheiro, não é?

— Mas eu não quero outra babá — insistiu Drake. — Já foi difícil convencê-lo a te aceitar, não teria a mesma sorte duas vezes.

Hayley suspirou fundo.

— Está quase na hora de ir para a escola, e hoje você vai comigo — anunciou o menino. — Hoje tem festa de aniversário na sala, e disseram que a gente podia levar uma pessoa para fazer companhia. Vamos?

— Eu não tenho roupa para ir, ainda estou usando o vestido de ontem, não está vendo? — protestou Hayley. — Não posso ir para uma festa de escola com um vestido de noite desse jeito.

— Acho que você ainda não olhou o seu closet — disse Drake, sorrindo. — Vamos lá, eu te ajudo a escolher algo mais decente para uma sala cheia de crianças. Não se preocupe.

Ele saiu puxando-a pela mão, e Hayley achou até engraçado a situação, lembrando que estava sem o celular, e que Wendy provavelmente estava preocupada, já que ela tinha sumido do cassino sem deixar rastro. Como avisaria a amiga agora?

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