Capítulo 1 PRÓLOGO

Eu estava sorrindo quando subi os três lances de escada até o apartamento de Rafael.

Lembro disso porque, durante muito tempo, aquela foi a parte mais cruel da lembrança:

Eu estava feliz. Ridiculamente feliz. Carregava uma caixa de papelão branca amarrada com uma fita vermelha, dentro dela o bolo de chocolate que ele adorava, uma garrafa de vinho barato que nosso orçamento de recém-formados permitia e, escondida sob um guardanapo, a cópia do contrato que eu havia assinado naquela manhã.

Meu primeiro emprego como médica-veterinária na  Fazenda Horizonte. Outro estado.

Um salário que parecia uma fortuna para alguém que passou metade da faculdade calculando se podia comprar um livro sem comprometer o dinheiro do mercado.

Eu queria contar pessoalmente. Queria ver o rosto do meu noivo quando dissesse que finalmente tinha conseguido.

Queria conversar sobre distância, mudança, futuro e sobre como faríamos para continuar juntos até ele poder ir ao meu encontro.

Talvez por isso eu não tenha telefonado antes.

Uma surpresa só funciona quando a pessoa não sabe que você está chegando.

Eu tinha a chave.

Rafael me entregou uma cópia seis meses antes, quando me pediu em casamento.

Naquela ocasião, segurou meu rosto entre as mãos e disse que não queria mais que existisse uma porta entre nós que eu não pudesse abrir.

Para uma mulher que cresceu num orfanato e passou a infância inteira vendo portas se fecharem, aquela frase teve um significado que ele provavelmente jamais compreenderia.

Abri a porta sem fazer barulho.

— Rafael?

Nenhuma resposta.

Entrei ainda sorrindo, equilibrando a caixa sobre uma das mãos. A televisão estava ligada na sala, embora sem som. Havia duas taças sobre a mesa de centro.

Duas.

Parei.

Não sei explicar por que aquele detalhe me incomodou antes de qualquer outra coisa. Talvez porque eu conhecesse Rafael demais.

Ele não bebia vinho sozinho. Talvez porque uma das taças tivesse uma marca de batom na borda.

Meu coração bateu diferente.

— Rafa?

Então ouvi uma risada.

Feminina.

Vinha do quarto.

O corpo percebe algumas tragédias antes da mente.

Meus dedos ficaram frios. O sorriso desapareceu.

A caixa pareceu repentinamente pesada demais, mas continuei andando pelo corredor, enquanto alguma parte desesperada de mim inventava explicações.

Poderia ser a irmã dele. Uma amiga. A televisão. Qualquer coisa.

A porta estava entreaberta.

Empurrei.

E descobri que existem segundos capazes de apagar anos inteiros.

Rafael estava na cama com outra mulher.

Por alguns instantes, ninguém se mexeu.

A mulher puxou o lençol contra o corpo. Rafael virou o rosto e seus olhos encontraram os meus. Vi surpresa primeiro. Depois medo.

E foi justamente a ausência de vergonha que me destruiu.

— Clara...

A caixa escapou das minhas mãos.

O bolo atingiu o chão, a garrafa se partiu e o vinho se espalhou pelo piso claro como uma mancha escura.

— Clara, espera.

Eu recuei.

— Há quanto tempo?

— Não é o que você está pensando.

Soltei uma risada que saiu estranha, quase sem ar.

— Você está nu numa cama com outra mulher, Rafael. Acho que, pela primeira vez na vida, estou pensando exatamente o que deveria.

Ele se levantou procurando a calça, e aquilo tornou tudo ainda mais humilhante.

— Eu posso explicar.

— Há quanto tempo?

A mulher desviou os olhos. Rafael ficou em silêncio.

Foi ela quem respondeu.

— Quatro meses.

Quatro meses.

Eu balancei a cabeça devagar.

Quatro meses significava que ele me traía quando comemoramos minha formatura.

Quando escolhemos alianças. Quando eu passava noites estudando para processos seletivos e ele dizia que tinha orgulho de mim.

Quatro meses significava dezenas de mentiras cuidadosamente colocadas entre beijos, mensagens e planos.

Tirei a aliança.

Rafael empalideceu.

— Clara, não faça isso.

— Você já fez.

Coloquei a aliança sobre o móvel ao lado da porta e fui embora antes que ele pudesse me tocar.

Não chorei na escada.

Não chorei na rua.

Não chorei no ônibus.

Só desabei quando abri a porta do pequeno apartamento que dividia com Manuela e Cecília e encontrei as duas sentadas no chão da sala, cercadas por caixas da mudança.

Manuela ergueu os olhos.

— Cadê o bolo?

Eu tentei responder.

Em vez disso, chorei.

Cecília foi a primeira a levantar. Não perguntou nada. Apenas me abraçou.

Manuela levou menos de cinco segundos para entender que alguma coisa muito séria havia acontecido e veio para o outro lado.

Foi assim que fiquei, esmagada entre as duas mulheres que conheciam todas as versões de mim:

A menina assustada do orfanato, a adolescente que estudava escondida depois do horário de apagar as luzes, a universitária que sobrevivia com café e macarrão instantâneo e a idiota de vinte e poucos anos que acreditara que finalmente alguém havia escolhido ficar.

— Ele me traiu. Consegui dizer.

Manuela endureceu inteira.

— Eu vou matar aquele desgraçado.

— Você não vai matar ninguém.  Cecília respondeu, sem me soltar.

— Posso quebrar uma perna?

— Também não.

— Um dedo?

Apesar das lágrimas, eu ri.

Foi uma risada minúscula, dolorida, mas existiu.

Era isso que elas faziam comigo.

Transformavam sobrevivência em família.

Nós três havíamos crescido no mesmo orfanato.

Não tínhamos o mesmo sangue, sobrenome ou história, mas aprendemos muito cedo que família também podia ser construída.

Quando uma chorava, as outras duas apareciam. Quando faltava dinheiro, dividíamos. Quando uma conseguia alguma coisa, comemorávamos como se as três tivessem vencido.

Nos dias seguintes, elas fizeram comigo o que sempre fazíamos umas pelas outras:

Não permitiram que eu afundasse.

Cinco dias depois, nossas malas estavam prontas. Na manhã seguinte, pegaríamos a estrada rumo à Fazenda Horizonte.

Eu começaria como veterinária, Cecília assumiria sua primeira oportunidade como engenheira agrônoma e Manuela trabalharia como técnica em agropecuária.

Éramos recém-formadas, sem experiência suficiente, sem contatos e com uma quantidade assustadora de coragem.

Eu só queria partir.

Manuela tinha outros planos.

Ela entrou no meu quarto naquela tarde segurando três envelopes pretos.

— Não.

— Eu nem falei nada.

— Conheço essa sua cara.

Cecília apareceu atrás dela.

— Pela primeira vez, sou obrigada a concordar com a ideia.

Olhei de uma para a outra.

— Que ideia?

Manuela ergueu os envelopes.

— Baile de máscaras do Imperial.

Eu quase ri.

Era o evento mais comentado do ano. Luxuoso, disputado e absurdamente caro.

— Nós vamos mudar amanhã.

— Exatamente.

— Precisamos acordar cedo.

— Por isso inventaram café.

— Manuela...

Ela sentou-se ao meu lado.

— Clara, você passou cinco dias chorando por um homem que passou quatro meses dormindo com outra mulher.

—Amanhã nós vamos embora desta cidade. Começamos nossos primeiros empregos. Uma vida nova.

—Você realmente quer que sua última lembrança daqui seja Rafael?

Aquilo me atingiu.

Cecília cruzou os braços.

— Não precisamos ficar até tarde.

Manuela olhou para ela.

— Precisamos, sim.

— Estou tentando convencê-la.

— Ah. Então não precisamos ficar até tarde.

Revirei os olhos.

— Vocês são insuportáveis.

Manuela sorriu.

— Mas somos tudo o que você tem.

— Infelizmente.

Ela me abraçou.

— E você é tudo o que nós temos.

Duas horas depois, eu estava diante do espelho usando um vestido que Manuela jurava ser capaz de curar qualquer coração partido.

Não curava. Mas ajudava.

Minha máscara era delicada, negra, com pequenos detalhes prateados.

Manuela escolheu uma vermelha.

Cecília, contra todos os nossos protestos, uma azul-escura discreta.

Quando chegamos ao Imperial, entendi porque aquele baile era tão famoso.

Lustres enormes iluminavam o salão, máscaras transformavam os desconhecidos em mistérios, a música se espalhava entre mesas repletas de bebidas, e centenas de pessoas dançavam como se, escondidas atrás de seda, renda e veludo, pudessem ser qualquer coisa por algumas horas.

Manuela colocou três taças em nossas mãos.

— Uma regra.

— Isso nunca termina bem. Cecília murmurou.

— Hoje ninguém pergunta nome, profissão, passado ou futuro.

Olhei para minha taça.

— E amanhã?

Manuela encostou a dela na minha.

— Amanhã nós vamos embora.

Cecília brindou conosco.

— À Fazenda Horizonte.

— Aos nossos empregos. Acrescentei.

Manuela sorriu.

— E aos homens que não merecem nossas lágrimas.

Bebemos.

Depois bebemos novamente.

Dançamos como não fazíamos havia anos.

Rimos até minha barriga doer.

Pela primeira vez desde aquele quarto, consegui passar vários minutos sem pensar em Rafael.

Então eu o vi.

Do outro lado do salão.

Um homem de terno escuro e máscara negra estava parado perto do bar, segurando um copo enquanto conversava com outros dois homens mascarados.

Ele virou o rosto.

Nossos olhos se encontraram.

Alguma coisa estranha percorreu meu corpo.

— Não! Murmurei para mim mesma.

Manuela ouviu.

— Não o quê?

— Nada.

Quando tornei a olhar, ele continuava me observando.

Ao lado dele, um dos amigos dizia alguma coisa para o outro.

Nenhuma de nós percebeu quando o olhar de Manuela encontrou o de um deles.

Nem quando Cecília, tão racional e cuidadosa, começou a observar o terceiro.

Naquele momento, éramos apenas três amigas órfãs, recém-formadas e um pouco bêbadas, comemorando a última noite antes de começar uma vida nova.

Eles eram apenas três desconhecidos escondidos atrás de máscaras.

Nós não sabíamos seus nomes.

Eles não sabiam os nossos.

Não sabíamos que, antes do amanhecer, cada uma de nós faria uma escolha impossível de apagar.

Muito menos que uma daquelas escolhas deixaria de ser apenas uma lembrança.

Naquela noite, brindamos para esquecer o passado.

Nenhuma de nós desconfiava que estávamos brindando justamente à noite que mudaria para sempre o nosso futuro.

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