Capítulo 2 2

Acordei com a sensação desagradável de que alguém havia colocado uma britadeira dentro da minha cabeça e, durante alguns segundos, permaneci de olhos fechados, tentando entender por que o colchão parecia mais macio do que o meu e por que havia um perfume masculino tão próximo de mim.

Foi somente quando tentei me virar e senti um braço pesado envolvendo minha cintura que todas as lembranças da noite anterior começaram a voltar de uma vez:

O baile, as luzes, a música, as taças que Manuela insistia em colocar na minha mão, Cecília rindo mais do que eu a vira rir durante toda a faculdade e, principalmente, o desconhecido de máscara negra que havia me observado do outro lado do salão antes de se aproximar.

Meu corpo enrijeceu quando percebi onde estava.

Eu, Clara Vasconcelos, que cinco dias antes ainda tinha um noivo e que deveria estar pegando a estrada naquela manhã para começar meu primeiro emprego como médica-veterinária, havia acordado nua na cama de um homem cujo nome sequer conhecia.

Virei o rosto devagar.

Ele ainda dormia, parcialmente coberto pelo lençol, com os cabelos escuros desalinhados e uma das mãos aberta sobre o travesseiro. Uma tatuagem na coxa chamava a atenção

Sem a máscara, eu só conseguia enxergar seu perfil, e a penumbra do quarto e minha urgência não me permitiam observá-lo como a curiosidade desejava.

Era bonito. Irritantemente bonito. O tipo de homem que fazia uma mulher questionar se determinadas decisões deveriam realmente ser classificadas como erros.

Balancei a cabeça, repreendendo a mim mesma, e retirei cuidadosamente o braço dele da minha cintura.

Ele resmungou alguma coisa e se virou, fazendo meu coração disparar.

Fiquei imóvel até sua respiração voltar a ficar profunda e então saí da cama, recolhendo minhas roupas pelo chão enquanto tentava ignorar lembranças muito mais nítidas do que deveriam estar depois de tantas taças.

Eu precisava ir embora.

Não havíamos trocado nomes completos, telefones ou qualquer promessa. Na noite anterior, aquela ausência de identidade parecia exatamente o que eu precisava:

Algumas horas nas quais eu não fosse a órfã recém-formada, a noiva traída ou a garota que estava prestes a atravessar o estado para tentar construir uma vida completamente nova.

Para ele, eu também não deveria ter sido nada além de uma desconhecida.

Terminei de me vestir e procurei minha máscara, mas não a encontrei. A máscara negra estava sobre o criado-mudo.

Peguei-a quase automaticamente e a coloquei dentro da bolsa antes que pudesse pensar melhor.

Saí antes que ele acordasse.

Cheguei ao corredor do prédio pouco depois e quase deixei minha bolsa cair quando vi Manuela surgindo do elevador.

Ela estava descalça, segurava os saltos numa das mãos e tinha os cabelos tão desarrumados que parecia ter atravessado uma tempestade.

Paramos uma diante da outra e permanecemos em silêncio por alguns segundos.

— Não diga absolutamente nada. Ela avisou.

— Eu não disse.

— Mas sua cara disse.

— Seu cabelo está contando uma história inteira.

Manuela estreitou os olhos e então observou minhas roupas amassadas. Um sorriso lento apareceu em seu rosto.

— Você dormiu com o máscara negra.

— Manuela...

— Dormiu.

— Isso não interessa.

— Então dormiu.

Antes que eu pudesse responder, ouvimos passos. Cecília surgiu na outra extremidade do corredor usando o mesmo vestido azul-escuro da noite anterior, os sapatos nas mãos e uma máscara masculina azul-marinho pendurada entre os dedos. Manuela olhou para ela, depois para mim e finalmente começou a rir.

— Não. Não pode ser.

Cecília fechou os olhos por um instante.

— Se você rir mais alto, eu empurro você pela escada.

— Nós três?

— Dentro do apartamento. Ordenei.

— Agora.

Assim que fechamos a porta, Manuela retirou da bolsa uma máscara prateada e colocou-a sobre a mesa.

Cecília, com uma expressão que misturava vergonha e incredulidade, deixou a azul-marinho ao lado.

Eu suspirei antes de tirar a máscara negra da minha bolsa. Ficamos encarando as três como se fossem provas materiais de um crime coletivo.

— Isso nunca aconteceu. Cecília decretou.

— Concordo. Respondi imediatamente.

— Discordo.  Manuela rebateu.

— Isso aconteceu muito e, considerando meu estado físico, aconteceu por bastante tempo.

— Manuela!

Ela começou a rir outra vez.

— Está bem. Regra oficial:

O baile morreu aqui!

Menos de duas horas depois, nossas malas estavam dentro do carro e a cidade começava a desaparecer pelo retrovisor.

Manuela dirigia, Cecília ocupava o banco do passageiro e eu estava atrás, com óculos escuros apesar do céu parcialmente nublado, tentando decidir o que doía mais:

Minha cabeça ou minha dignidade. Havia algo quase absurdo naquela viagem.

Em menos de uma semana, eu descobri uma traição, terminei um noivado, fui convencida pelas minhas duas irmãs de coração a comparecer ao baile mais badalado do ano e acordei na cama de um desconhecido.

Agora atravessamos centenas de quilômetros para assumir nossos primeiros empregos.

— Quero acrescentar outra regra. Cecília anunciou.

— Nenhuma decisão importante será tomada depois da segunda taça de bebida.

— Ditadura! Manuela resmungou.

— Prevenção!

— Tenho uma regra melhor. Manuela disse, olhando para nós pelo retrovisor.

— Nenhuma das três vai se apaixonar pelo fazendeiro.

Inclinei-me entre os bancos.

— De onde surgiu isso?

— Estamos indo morar numa fazenda. É uma questão estatística.

— Você não sabe o que significa estatística. Cecília respondeu.

— Sei que homem bonito usando bota costuma dar problema.

Dessa vez eu ri, e o som me surpreendeu.

Cinco dias antes, eu achava que demoraria meses para conseguir rir sem sentir o peso de Rafael.

Talvez fosse exatamente por isso que Manuela e Cecília nunca me deixavam sozinha.

Havíamos nos encontrado ainda meninas no orfanato e, desde então, sobrevivíamos daquele jeito:

Quando uma caía, as outras duas seguravam.

Não possuíamos pais para telefonar quando as coisas davam errado, casas de família para onde voltar ou contas bancárias capazes de nos proteger dos nossos erros.

Tínhamos umas às outras. E naquele momento isso precisava bastar.

Quase oito horas depois, a paisagem mudou.

A estrada foi ficando mais estreita, cercada por campos extensos, pastagens e plantações que pareciam desaparecer no horizonte.

Máquinas agrícolas trabalhavam à distância e o fim da tarde derramava uma luz dourada sobre a vegetação.

Quando finalmente avistei a enorme placa com os dizeres FAZENDA HORIZONTE — HOLDING MONTEVERDE AGRO, endireitei-me no banco e senti a brincadeira desaparecer.

— Chegamos!  Cecília murmurou.

A propriedade era muito maior do que parecia durante o processo seletivo.

Depois da portaria ainda percorremos quilômetros até o núcleo administrativo, passando por currais, galpões, silos, pastagens e estruturas que fizeram meu coração bater mais depressa.

Aquilo era o mundo real.

Não existiriam professores corrigindo meus erros ou supervisores explicando cada decisão. Eu teria animais dependendo do meu conhecimento.

Um homem de aproximadamente cinquenta anos nos aguardava diante do prédio administrativo. Apresentou-se como Joaquim Ribeiro, gerente-geral da propriedade, e depois de conferir nossos nomes apertou nossas mãos.

— Três recém-formadas chegando juntas.

—Espero que tenham entendido durante a seleção que aqui amizade não segura emprego. Competência segura.

Manuela perdeu o sorriso.

Cecília ergueu discretamente o queixo.

Eu senti o aviso me atingir exatamente onde a insegurança que vinha tentando se esconder desde que assinei o contrato.

— Foi por competência que conseguimos as vagas. Respondi.

— Pretendemos mantê-las pelo mesmo motivo.

Joaquim sustentou meu olhar por um momento e apenas assentiu antes de iniciar a apresentação da propriedade.

No setor veterinário, conheci Antônio, encarregado da pecuária havia mais de vinte anos. Ele me examinou dos cabelos às botas quando Joaquim me apresentou.

— Essa é a nova veterinária?

— Doutora Clara Vasconcelos. Informou Joaquim.

— Recém-formada?

— Sim. Respondi.

Antônio cruzou os braços.

— Curral não é sala de faculdade, doutora.

A provocação queimou, principalmente porque atingia um medo verdadeiro.

Eu sabia teoria, havia feito estágios e atendimentos supervisionados, mas também sabia que aquele homem possuía mais anos de campo do que eu tinha de vida adulta.

Ainda assim, respeito não poderia significar aceitar humilhação.

— Ainda bem. Respondi, sustentando seu olhar.

— Eu não estudei todos esses anos para ficar dentro de uma sala.

O canto da boca de Joaquim se moveu.

Antônio permaneceu sério por mais alguns segundos antes de estender a mão.

— Amanhã, cinco e meia.

Apertei-a.

— Estarei aqui.

— Cinco e meia significa cinco e vinte.

— Então chego às cinco e quinze.

Dessa vez ele quase sorriu.

Quando finalmente entramos na pequena casa destinada às três funcionárias, já estava escuro.

Manuela largou a mala no chão e declarou que todos na Fazenda Horizonte nos odiavam.

Cecília respondeu que ninguém nos conhecia o suficiente para isso, e eu comecei a rir de puro cansaço.

As duas acabaram rindo comigo até nos sentarmos juntas no sofá.

— Assustadas? Perguntei.

Cecília assentiu.

— Muito.

— Eu não.  Manuela respondeu, antes de respirar fundo.

— Está bem. Estou apavorada.

Estendi a mão. Cecília segurou-a imediatamente e Manuela colocou a dela sobre as nossas. Era um gesto antigo, nascido ainda no orfanato.

— Nós conseguimos chegar até aqui. Falei.

— Agora precisamos provar que merecemos ficar. Cecília completou.

Naquela noite, ao procurar uma camiseta na mala, encontrei a máscara negra escondida entre minhas roupas.

Passei os dedos pela superfície e, contra minha vontade, lembrei da voz grave do desconhecido, do seu olhar e da sensação de seus braços ao meu redor.

Fechei a gaveta depressa.

Ele pertencia à noite que eu havia deixado para trás.

A Fazenda Horizonte era meu futuro.

E eu ainda não fazia ideia de como aquelas duas coisas estavam perigosamente ligadas.

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