Capítulo 5 5
Duas semanas depois de chegar à Fazenda Horizonte, meu despertador já não parecia um instrumento de tortura e eu começava a reconhecer os sons da propriedade antes mesmo de abrir os olhos.
Sabia distinguir o barulho das caminhonetes que seguiam para os setores mais afastados, os mugidos que vinham dos currais próximos e até os passos de Manuela no corredor quando ela acordava atrasada e tentava convencer a si mesma de que cinco minutos eram suficientes para tomar banho, vestir-se e beber café.
A rotina ainda me cansava de uma maneira que a faculdade jamais havia conseguido, mas havia algo reconfortante em perceber que, aos poucos, aquele lugar deixava de parecer emprestado.
Eu começava a saber onde cada coisa ficava, alguns funcionários já me chamavam pelo nome sem acrescentar “a veterinária nova” e Antônio havia reduzido suas provocações pela metade, o que, vindo dele, provavelmente equivalia a uma declaração formal de confiança.
Naquela manhã, porém, encontrei-o esperando por mim junto à caminhonete do setor veterinário.
— Vai comigo.
— Bom dia para você também.
— Bom dia. Agora entra.
Coloquei minha bolsa no banco traseiro e me sentei ao lado dele.
— Para onde vamos?
— Pasto dezenove. Um lote de novilhas foi transferido ontem. Quero conferir duas que estavam em observação.
Seguimos por uma estrada interna cercada por pastagens ainda úmidas de orvalho.
A extensão da Horizonte continuava me impressionando. Havia dias em que eu me esquecia de que tudo aquilo pertencia à mesma propriedade.
Passávamos por quilômetros de cercas, plantações, áreas de manejo, pequenos reservatórios e grupos de trabalhadores espalhados em tarefas diferentes.
Eu observava pela janela enquanto Antônio explicava o histórico dos animais, até perceber que ele estava me fazendo perguntas sem aquele tom de prova das primeiras manhãs.
— E se uma delas apresentar queda de consumo sem alteração evidente de temperatura?
Respondi.
Ele acrescentou outra variável.
Respondi novamente.
— Você pergunta demais. Comentou.
— Pensei que isso fosse uma crítica.
— Era. Agora ainda não decidi.
Sorri, mas antes que pudesse provocá-lo de volta, o rádio da caminhonete chiou. Uma voz informou que havia um animal caído próximo ao corredor de manejo do setor vinte e um. Antônio mudou imediatamente a rota.
Quando chegamos, dois funcionários estavam junto a uma vaca deitada.
Desci antes mesmo de a caminhonete parar completamente e me aproximei, fazendo uma avaliação rápida enquanto ouvia o relato do peão que a encontrara.
O animal havia sido movimentado naquela manhã e começara a apresentar fraqueza pouco depois.
— Ela pariu recentemente? Perguntei.
— Ontem à noite. Respondeu um deles.
Olhei para Antônio.
— Quero saber como foi o parto e se houve qualquer complicação.
Enquanto um funcionário buscava as informações, iniciei o exame.
A vaca estava alerta, mas tinha dificuldade para se manter na estação.
O histórico chegou poucos minutos depois: parto recente, alta produção, evolução rápida da fraqueza.
— Hipocalcemia é uma possibilidade importante. Falei.
— Mas quero avaliar antes de tratar como se fosse a única.
Antônio assentiu.
Eu já havia aprendido que ele gostava mais dessa resposta do que de certezas apressadas.
O tratamento foi iniciado depois da avaliação e, durante algum tempo, permanecemos acompanhando a resposta do animal.
Quando ela começou a demonstrar melhora, senti aquela satisfação silenciosa que ainda me parecia nova. Não era euforia. Era algo mais sólido:
A percepção de que eu conseguia aplicar o que aprendera e, principalmente, reconhecer quando precisava confirmar alguma coisa antes de agir.
— Está aprendendo. Antônio disse.
Olhei para ele.
— Vou precisar de uma testemunha. Ninguém vai acreditar que você falou isso.
— Não exagere. Eu disse que está aprendendo, não que aprendeu.
— Sabia que tinha uma armadilha.
Ele balançou a cabeça, mas sorriu.
Meu pequeno triunfo durou até o rádio tocar novamente. Dessa vez, não era uma emergência veterinária.
Joaquim queria todos os responsáveis pelos setores no prédio administrativo depois do almoço.
— Aconteceu alguma coisa? Perguntei.
Antônio fechou a porta da caminhonete.
— Quando a administração chama todo mundo ao mesmo tempo, normalmente significa trabalho.
— Pensei que já estivéssemos trabalhando.
— Então significa mais trabalho.
No almoço, descobri que Manuela e Cecília também haviam recebido o aviso.
Manuela estava estranhamente satisfeita porque Geraldo a deixara coordenar parte de um manejo naquela manhã, enquanto Cecília carregava terra nas botas e uma mancha no rosto que parecia não ter percebido.
— Você está suja. Avisei.
Ela passou a mão na bochecha e conseguiu piorar.
Manuela começou a rir.
— Engenheira agrônoma sofisticada.
— Passei a manhã coletando amostras de solo.
— E aparentemente experimentando algumas.
Cecília atirou um guardanapo nela.
A brincadeira terminou quando Joaquim entrou no refeitório e pediu que os responsáveis se reunissem às duas.
Ninguém parecia saber o motivo. Isso foi suficiente para alimentar a imaginação de Manuela.
— Talvez os donos venham.
— Você pensa nos donos dessa fazenda com uma frequência preocupante. Cecília comentou.
— Nunca vi um bilionário pessoalmente.
— E pretende fazer o quê quando vir? Pedir autógrafo?
— Avaliar.
— Avaliar o quê?
Manuela sorriu.
— O patrimônio.
Quase engasguei com a água.
— Você é impossível.
— Estou falando da holding.
— Claro que está. Cecília respondeu.
Às duas, ocupamos uma sala de reuniões que rapidamente ficou pequena para tanta gente.
Eu me sentei entre Antônio e uma responsável pelo setor de reprodução, enquanto Manuela permaneceu algumas cadeiras adiante e Cecília perto de seu supervisor.
Joaquim esperou todos se acomodarem antes de ligar o projetor.
— A holding vai iniciar uma avaliação completa da Horizonte.
A conversa cessou.
Ele explicou que a propriedade entraria em uma nova fase de investimentos, com revisão dos indicadores de produtividade, protocolos sanitários, uso de tecnologia, manejo, custos e projetos de expansão.
Equipes administrativas começariam a chegar nas semanas seguintes, e cada setor teria de atualizar relatórios e apresentar resultados.
Meu estômago se contraiu.
Eu mal havia aprendido onde ficavam todos os currais e já precisaria participar de uma avaliação corporativa.
— Outra coisa. Joaquim continuou.
— Não quero ninguém inventando resultado para deixar relatório bonito.
—Se houver problema, será apresentado como problema.
—Se houver erro, quero saber onde está.
—A diretoria não precisa de teatro.
Um dos funcionários perguntou:
— Quem vem da sede?
— Ainda não tenho a lista completa. Supervisores, auditores e alguns diretores. Existe possibilidade de um dos sócios acompanhar parte do processo, mas nada confirmado.
Vi Manuela virar discretamente a cabeça na minha direção.
Levantei um dedo em advertência.
Ela reprimiu o sorriso.
Quando a reunião terminou, Antônio me entregou uma pasta grossa.
— O que é isso?
— Indicadores sanitários dos últimos seis meses.
Folheei as primeiras páginas.
— Antônio, eu estou aqui há duas semanas.
— Eu sei contar.
— E espera que eu faça o quê com isso?
— Leia. Veja o que entende. Amanhã conversamos.
Olhei para a quantidade de tabelas.
— Você me odeia.
— Se odiasse, não perderia tempo ensinando.
A frase me fez ficar em silêncio.
Ele saiu antes que eu pudesse responder.
Naquela noite, a mesa da cozinha desapareceu sob relatórios. Cecília tinha mapas e planilhas de produtividade espalhados de um lado, eu, dados sanitários do outro, Manuela ocupava o pouco espaço restante com anotações de manejo.
— Olhem para nós. Ela comentou, abrindo um pacote de biscoitos.
— Três mulheres adultas, independentes, vivendo o sonho.
Cecília ergueu os olhos.
— Estamos trabalhando depois de doze horas de expediente e jantando biscoito.
— Ninguém disse que o sonho era bom.
Eu ri, mas minha atenção voltou aos números.
Alguns meses antes, meu maior medo era não conseguir emprego depois da formatura.
Agora eu estava sentada dentro de uma das maiores propriedades rurais que já vira, analisando dados que poderiam ser apresentados à direção de uma holding gigantesca.
— E se não formos boas o suficiente? Perguntei antes de conseguir impedir.
As duas ficaram quietas.
Manuela deixou o biscoito sobre a mesa.
— Para quê?
— Para isso tudo.
Cecília fechou a pasta.
— Nós não precisamos ser boas o suficiente para “isso tudo” hoje, Clara. Precisamos ser melhores amanhã do que fomos ontem.
Olhei para ela.
Manuela assentiu.
— E se alguém tentar nos mandar embora, eu me acorrento no curral.
— Estávamos tendo um momento bonito. Reclamei.
— Eu achei minha contribuição emocionante.
Rimos, e continuamos trabalhando.
Mais tarde, quando as duas já tinham ido dormir, saí para a varanda. A noite cobria a Horizonte, mas algumas luzes permaneciam acesas ao longe.
Pensei no orfanato, nas três meninas que dividiam sonhos debaixo dos cobertores depois do horário de dormir e juravam que um dia teriam profissões, dinheiro suficiente para não contar moedas e uma casa onde ninguém pudesse mandá-las embora.
Ainda estávamos muito longe de tudo o que imaginávamos.
Mas havíamos começado.
Quando voltei para o quarto, passei diante da gaveta onde guardara a máscara negra e, pela primeira vez em vários dias, não senti vontade de abri-la.
Talvez eu estivesse finalmente conseguindo deixar aquela noite para trás.
Na manhã seguinte, porém, uma mensagem da administração apareceu nos celulares corporativos de todos os responsáveis pelos setores.
Visita da diretoria confirmada para a próxima semana.
Fiquei olhando para a tela por alguns segundos antes de guardar o aparelho no bolso.
Para mim, significava apenas que precisávamos trabalhar ainda mais.
Eu não tinha qualquer motivo para imaginar que aquela visita pudesse trazer algo além de relatórios, cobranças e homens de terno fazendo perguntas difíceis.
E era exatamente assim que eu preferia.
