Capítulo 2 Suzana Soprano..
Capítulo 1 — Suzana
O cheiro do hospital nunca muda. Não importa o dia, a hora ou a quantidade de gente entrando e saindo com esperança nos olhos. É sempre o mesmo ar pesado, misturado com desinfetante barato e algo que eu nunca soube nomear, mas que aprendi a reconhecer como medo. Medo velho, gasto, que gruda na pele. Eu respiro fundo antes de atravessar a porta automática, como se isso pudesse me preparar para ver minha avó daquele jeito outra vez. Como se algum dia eu fosse me acostumar.
Ela está dormindo quando chego. Ou fingindo. Às vezes penso que a gente aprende a fingir desde cedo quando não pode se dar ao luxo de desabar. Minha avó sempre foi assim. Forte até quando não havia força nenhuma sobrando. O corpo dela parece menor na cama branca, fino demais, frágil demais para ter carregado uma vida inteira de trabalho, renúncia e fé. A mão dela repousa sobre o lençol, marcada por veias saltadas e pequenas manchas que o tempo desenhou sem pedir licença. Eu seguro aquela mão como se fosse a única coisa que me mantém em pé.
Rezo em silêncio. Não sei se rezo por ela ou por mim. As palavras se misturam, tropeçam, saem tortas. Peço tempo. Peço um milagre que eu já sei que não vem do jeito que a gente imagina. Peço perdão por pensar coisas feias às vezes, por sentir inveja de quem entra aqui e sai com boas notícias, por sentir raiva de um sistema que coloca preço até na chance de continuar respirando. A fé, quando testada, não vira dúvida. Vira cansaço.
Quando saio do quarto, sento no corredor por alguns minutos. Olho para o chão, para os meus próprios sapatos gastos, e penso em como a vida parece uma fila invisível. Alguns passam na frente sem nem perceber. Outros ficam parados, esperando um nome ser chamado que nunca chega. A médica já foi clara. Um transplante. Um coração. Uma espera longa demais para quem não tem dinheiro, influência ou sobrenome que pese. Eles nunca dizem isso diretamente. Não precisam. A gente aprende a ler nos intervalos.
Vou embora antes que ela acorde. Não gosto que me veja chorando. Não gosto que ela sinta que eu estou com medo. Ela já carrega coisa demais para ter que carregar o meu desespero também.
A cafeteria ainda está vazia quando chego para trabalhar. Gosto desse horário. As mesas limpas, as cadeiras alinhadas, o silêncio antes da tempestade de vozes, pedidos e conversas que não me pertencem. Trabalho ali há dois anos e ainda me surpreendo com o tipo de gente que passa por aquelas portas. Homens de terno caro, mulheres impecáveis, encontros rápidos, olhares calculados. Aprendi a servir café e, ao mesmo tempo, observar. Não por curiosidade fútil, mas porque observar sempre foi meu jeito de entender o mundo. As pessoas falam muito quando acham que ninguém está prestando atenção.
Enquanto preparo as primeiras xícaras, lembro dos livros empilhados no meu quarto. Psicologia, comportamento, mente humana. Nunca pisei numa universidade. Nunca tive dinheiro para isso. Mas sempre tive fome de entender. Entender por que algumas pessoas ferem sem sentir nada. Por que outras se sacrificam até desaparecer. Por que o amor, às vezes, é mais cruel do que o ódio. Ler virou meu refúgio e minha arma silenciosa. Mesmo assim, há coisas que nenhum livro explica direito. O poder é uma delas.
Por volta do meio-dia, a cafeteria enche. O barulho cresce, os pedidos se acumulam. É quando escuto pela primeira vez naquele dia um nome sendo sussurrado. Não presto atenção de imediato. Nomes circulam ali o tempo todo, como moedas. Mas algo no tom me faz olhar de relance para a mesa perto da janela. Dois homens conversam baixo, inclinados um na direção do outro. Um deles parece nervoso demais para estar apenas tomando café.
— Dizem que ele volta hoje — o homem murmura.
— Tem certeza? — o outro pergunta, quase sem mover os lábios.
— Nunca se tem. Com ele, nada é certo.
Não sei de quem falam. Não me importo. Pelo menos não naquele momento. Levo cafés, recolho pratos, sorrio por educação. Mas quando passo de novo perto da mesa, escuto o apelido, dito como se fosse uma blasfêmia.
Anjo da Morte.
Meu corpo reage antes da minha cabeça. Um arrepio rápido, instintivo. Não porque eu saiba quem é. Mas porque algumas palavras carregam peso próprio. Como se fossem avisos. O homem engole em seco antes de continuar.
— Se ele estiver mesmo de volta, muita coisa muda.
— Sempre muda — o outro responde. — E nunca para melhor.
Eles se calam quando percebem minha aproximação. Sorrio, deixo a conta sobre a mesa e sigo adiante. Aquilo deveria ser só mais um rumor. A Sicília vive de rumores. Mas o nome fica. Ecoa. Se instala num canto da minha mente onde eu não pedi para entrar.
No intervalo, sento no fundo da cafeteria com um copo de água. Penso na minha avó, nos aparelhos, na espera. Penso em como existem mundos inteiros que se movem longe da gente, decidindo coisas que nunca vamos entender. Homens que mudam destinos sem sujar as mãos. Outros que sujam as mãos e dormem em paz depois. Não sei por que aquele apelido volta à minha cabeça. Talvez porque morte seja um assunto íntimo demais quando se tem alguém amado à beira dela.
O restante do dia passa arrastado. Mais cochichos. Mais silêncios estranhos. Uma mulher sai chorando depois de uma conversa curta com um homem que não demonstra emoção alguma. Um aperto no peito que não sei explicar. Às vezes penso que meu trabalho ali é testemunhar coisas que não posso comentar, sentir coisas que não posso dividir. Quando finalmente tiro o avental, já está escuro lá fora.
Volto para casa a pé. O vento da noite é frio, mas eu gosto. Me faz sentir viva. O apartamento é pequeno, simples, mas limpo. Foi ali que minha avó me criou. Foi ali que aprendi a rezar antes de dormir, a agradecer pelo pouco, a dividir tudo. Sento na cama, pego um dos livros abertos sobre a mesa de cabeceira, mas não consigo ler. As palavras não entram. O nome volta outra vez, como um sussurro indevido.
Anjo da Morte.
Não sei quem é. Não sei o que faz. E ainda assim, sinto como se algo tivesse se deslocado dentro de mim. Como se uma engrenagem invisível tivesse começado a girar.
No dia seguinte, a ligação do hospital vem cedo demais. Não é a notícia que eu queria. Não é o fim. É o meio cruel. Minha avó foi entubada. Precisa de ajuda para respirar. O tempo agora é contado em dias, talvez semanas. A médica fala com cuidado, como se cada palavra fosse uma lâmina. Eu agradeço, desligo e deslizo até o chão da cozinha. Fico ali, sentada, com as costas na parede, tentando respirar junto com ela, mesmo à distância.
Choro. Muito. Depois me levanto. Sempre me levanto. Tomo banho, visto o uniforme, amarro o cabelo. A vida não para porque a sua está desmoronando. Aprendi isso cedo demais.
Na cafeteria, o clima está diferente. Mais tenso. Mais contido. O mesmo nome circula, agora com mais frequência. Eu não pergunto. Não me envolvo. Mas observo. Um homem menciona que o Don está inquieto. Outro fala em casamento como se fosse sentença. Uma palavra que deveria significar começo, mas ali soa como fim.
No fim do expediente, vou ao hospital. Vejo minha avó ligada a máquinas, pequena demais naquele leito. Seguro o rosto dela entre minhas mãos e encosto minha testa na dela. Rezo em voz baixa. Peço força. Peço coragem. Peço algo que eu nem sei mais nomear. Lembro do que ela sempre dizia quando eu era criança: “Às vezes, Deus não tira a gente do caminho difícil. Ele só observa como a gente atravessa.”
Naquela noite, não durmo. Fico encarando o teto, ouvindo os sons da cidade, pensando em escolhas que ainda não existem, mas que já pesam. Penso em como o certo e o errado nem sempre são linhas claras. Às vezes são áreas cinzentas, perigosas, onde a gente pisa sabendo que pode afundar.
No terceiro dia, tudo acontece rápido demais. A cafeteria cheia. O ar pesado. Uma presença diferente, embora eu não saiba dizer de quem. As conversas cessam por segundos longos demais. Um silêncio respeitoso, quase reverente. Eu não vejo ninguém específico. Não vejo rosto, não vejo gesto. Só sinto. Como quando a tempestade se aproxima antes da chuva.
Alguém sussurra atrás de mim:
— Ele está na cidade.
Não pergunto quem. Não preciso. O nome não é dito. Não precisa ser. O Anjo da Morte já não é apenas rumor. É expectativa. É medo compartilhado.
Vou para casa com a sensação de que algo, em algum lugar, foi decidido sem que eu tivesse qualquer chance de opinar. Não sei ainda que meu rosto é igual ao de outra mulher. Não sei que existe alguém observando à distância. Não sei que minha vida simples está prestes a ser arrancada pela raiz.
Tudo o que sei é que, naquela noite, ajoelho ao lado da cama e rezo diferente. Não peço mais apenas pela cura da minha avó. Peço discernimento. Peço que, se uma escolha impossível surgir, eu tenha coragem de sustentá-la.
Sem saber que, muito em breve, eu escolheria o erro com plena consciência.
E que esse erro teria nome, rosto e peso demais para ser carregado em silêncio.
SUZANA 20 anos.
