Capítulo 3 Ariana Santinno....
CAPÍTULO 3— Ariana Santinno
Eu sempre soube.
Desde pequena.
Desde o primeiro vestido branco escolhido por outra pessoa. Desde o primeiro sorriso ensaiado na frente do espelho enquanto minha mãe corrigia minha postura e meu pai observava em silêncio, avaliando como se eu fosse um investimento de longo prazo. Sempre soube que meu corpo não me pertencia por inteiro. Só nunca pensei que o dia chegaria com tanta brutalidade, com um nome que pesa mais do que qualquer outro nesse mundo podre em que eu nasci.
Meu pai mandou que eu entrasse no escritório depois do jantar. Não pediu. Mandou. A casa estava silenciosa demais, aquele tipo de silêncio que antecede desgraça. Eu fechei a porta atrás de mim e fiquei de pé, como fui ensinada. Ele estava atrás da mesa, o rosto sério, a expressão controlada. Não havia bebida, não havia cigarros. Aquilo já me deixou em alerta. Meu pai só fica sóbrio assim quando algo grande está para acontecer.
— Ariana — ele disse.
Só isso. Meu nome. Nenhum carinho, nenhum adorno. Meu estômago se contraiu.
— O Don fez uma escolha.
Eu não respondi. Meu corpo entendeu antes da minha cabeça. As mãos começaram a suar, o coração bateu mais rápido. Escolhas do Don nunca recaem sobre ele. Sempre recaem sobre alguém mais fraco. Sempre recaem sobre mulheres.
— Você foi escolhida para o casamento.
Por um segundo, achei que não tinha ouvido direito. Casamento. A palavra ecoou dentro de mim como um tiro abafado. Eu respirei fundo, tentando manter o rosto neutro, tentando sustentar a personagem que construí a vida inteira.
— Com quem? — perguntei.
Meu pai demorou a responder. Foi só um segundo, mas eu vi. Vi o desconforto. Vi o respeito misturado com medo. Vi tudo.
— Com o subchefe.
Não precisei de mais nada. Não precisei que ele dissesse o nome. Não precisei de explicações. O mundo inteiro conhece o apelido. O homem que não precisa aparecer para ser temido. O homem que não negocia sentimentos. O homem que não perdoa desvios.
— Não — eu disse. Não me casarei com o demônio da máfia.
Minha voz saiu firme, mas por dentro tudo tremia.
Meu pai franziu o cenho, impaciente.
— Não reclame, Ariana. Você sempre soube que isso ia acontecer. Desde criança.
Eu sabia. Claro que sabia. Fui criada para isso. Para ser entregue quando fosse conveniente. Para ser usada como ponte, como acordo, como garantia de lealdade. Mas saber não torna a coisa menos repulsiva quando o momento chega.
— Por que ele me escolheu? — perguntei.
Meu pai respirou fundo, como se estivesse se preparando para dizer algo sagrado.
— Ele exigiu apenas uma coisa.
Meu corpo gelou.
— A sua pureza.
Foi automático.
— É claro que sou virgem.
As palavras saíram rápidas demais. Ensaiadas demais. Meu pai assentiu, satisfeito, como se aquilo encerrasse qualquer dúvida. Para ele, bastava a aparência. Sempre bastou. Ele não perguntou nada. Não quis saber nada. A verdade nunca foi prioridade naquela casa.
Eu me virei e saí antes que ele dissesse mais alguma coisa. Subi as escadas com passos duros, sentindo cada batida do coração na garganta. Entrei no quarto e fechei a porta com força. O clique da fechadura soou mais alto do que deveria.
Foi ali que tudo caiu.
Ariana Santinno, a boa filha, a moça exemplar, a jovem respeitável… morreu no chão do meu quarto.
— Merda — eu murmurei.
Joguei a bolsa em cima da cama, comecei a andar de um lado para o outro, passando a mão pelos cabelos, respirando rápido demais. O espelho me devolvia a imagem perfeita, intocada, limpa. Uma mentira bem construída.
Se ele soubesse.
Se ele encostasse em mim e percebesse.
Se ele descobrisse.
Eu estaria morta.
Não em teoria. Não em fofoca. Morta de verdade. Eu conhecia histórias suficientes para saber como isso terminava. O Anjo da Morte não aceita desvio. Não aceita engano. Não aceita mulheres “usadas”. A exigência da pureza não era moral. Era controle. Era posse absoluta.
E eu não era pura.
Nunca fui.
Sentei na beira da cama e ri, um riso curto, nervoso, quase histérico. Eu sempre joguei esse jogo. Sempre usei o que tinha. Beleza, acesso, silêncio. Soldados, aliados, homens importantes. Nunca vi problema nisso. Nunca me senti culpada. Aqueles homens me usaram tanto quanto eu os usei. Era assim que funcionava.
Mas agora… agora o preço tinha mudado.
Levantei de novo, comecei a andar pelo quarto, lembrando de cada toque, cada noite, cada escolha que fiz sem pensar nas consequências. Não por prazer, não por amor. Por sobrevivência. Por vantagem. Por poder.
E agora tudo isso podia me matar.
Não chorei. Não ajoelhei. Não rezei. Eu não acredito em salvação. Nunca acreditei. O mundo não salva mulheres como eu. O mundo cobra.
Preciso pensar.
Essa frase martelava na minha cabeça enquanto eu respirava fundo, tentando organizar o caos. Fugir não era opção. Ninguém foge da máfia. Dizer a verdade era suicídio. Pedir ajuda ao Don era ridículo. Ele não protege peças defeituosas.
Eu precisava de tempo.
Eu precisava de uma saída.
Eu precisava não morrer.
Olhei para o relógio na parede. Cada segundo parecia uma contagem regressiva invisível. O casamento não seria imediato, mas a decisão já estava tomada. E decisões, nesse mundo, não voltam atrás.
Fui até o banheiro e joguei água no rosto. Observei meus próprios olhos no espelho. Um deles tremeu levemente. Ódio. Medo. Raiva. Tudo misturado. Não havia arrependimento. Nunca houve.
— Eu não vou morrer por isso — eu disse em voz baixa.
Não sabia ainda como. Não sabia ainda o quê. Mas sabia uma coisa com clareza assustadora: eu não aceitaria aquele destino passivamente. Não pisaria naquele altar como uma cordeira. Não entregaria meu corpo para ser julgado e descartado.
Voltei para o quarto, sentei na cama e fiquei ali, imóvel, encarando a parede. Minha mente corria, descartando ideias, avaliando riscos. Eu conhecia o sistema. Conhecia as falhas. Conhecia as pessoas. Sempre há uma brecha. Sempre há alguém que paga o preço no lugar de outro.
Só ainda não sabia quem.
A noite avançou sem que eu percebesse. Não dormi. Não fechei os olhos. Fiquei ali, pensando, calculando, respirando com dificuldade. Pela primeira vez na vida, senti medo real. Não medo social. Não medo de perder status. Medo físico. Medo de morrer.
Quando o sol começou a nascer, eu já não era mais a mesma. Algo tinha endurecido dentro de mim. Uma decisão silenciosa, ainda sem forma, mas viva. Eu não sabia o caminho. Só sabia que não aceitaria o fim imposto.
Se este mundo exige sacrifícios, eu escolheria qual não seria o meu.
E foi assim, naquela madrugada sem fé, sem consolo e sem esperança, que eu entendi uma coisa simples e cruel:
sobreviver, às vezes, exige destruir outra possibilidade de vida.
E eu estava disposta a sobreviver.
ARIANA 20 ANOS.
