Capítulo 1 Capítulo 1
Algumas pessoas ficam vazias por dentro por causa de um trauma, e outras por causa de um determinado fator emocional que não foi causado por ninguém específico. Damian De Santis se enquadrava nos dois casos. Aos trinta e quatro anos, nunca havia se casado e não tinha filhos. As pessoas ouviam o nome dele por aí e, mesmo assim, jamais saberiam quem era de verdade o homem temido como o Rei da Máfia.
As pessoas às vezes o julgavam apenas pelo sobrenome, mas ele havia parado de se importar com isso desde a adolescência. Sua vida era ótima até seus pais serem assassinados, dez anos atrás. Terminou de criar sua irmã, que na época tinha apenas quinze anos, e claro, matou o desgraçado responsável pela morte deles.
Bianca, sua única irmã, namorava havia uns dois anos Diego Romano, um dos soldados mais fiéis de Damian, e o casamento estava marcado para o mês seguinte. Ele amava a felicidade dos dois, apesar de não ser feliz, isso nunca o impediu de se sentir bem perto deles.
Desde o início de tudo, Damian também contava com seus sócios e únicos amigos, Sofia Morelli, de vinte e nove anos, e Luca Ferretti, de trinta e quatro. Seu pai havia comandado os negócios por dez anos, até ser assassinado, deixando tudo em suas mãos quando ele tinha apenas vinte e cinco. Os dois se tornaram seus sócios e o ajudavam bastante desde então.
Era época de Natal, a época do ano que ele mais odiava. Bianca adorava, ele, não. Fazia a ceia por causa dela e participava apenas do jantar. Quando as comemorações começavam, subia para o quarto e ficava por lá, bebendo até pegar no sono.
O motivo de não estar em um relacionamento era a desilusão. As poucas mulheres que haviam passado por sua vida só queriam seu dinheiro, e nada mais. Ele havia se acostumado com a solidão, já não a via como algo frio, mas como algo acolhedor.
Como estava naquela época do ano de que não gostava, passava mais tempo no escritório que mantinha no centro da cidade. Naquele dia, revisava alguns relatórios quando percebeu que um dos clubes estava recebendo um número maior de clientes e também um lucro maior. Decidiu que faria uma visita pessoal ainda naquela noite, para ver com os próprios olhos o que tornava aquele lugar um sucesso tão diferente dos outros.
No meio da revisão, alguém bateu à porta.
— Pode entrar — disse Damian.
Sofia entrou primeiro.
— Você tem noção de que horas são? — perguntou ela.
— Acho que ele está fugindo da Bianca — comentou Luca, logo atrás. — Já que estamos na semana em que decoram a casa, compram os presentes e decidem o cardápio da ceia.
— Vocês poderiam parar de encher o meu saco e ir embora. Não estou segurando ninguém aqui. E, só para constar, quem compra os presentes de vocês é a Bianca. Eu não tenho vocação nem paciência para isso.
— Ok, senhor Simpatia — respondeu Sofia. — Nossa, você é tão doce que ninguém corre o risco de ter diabetes perto de você.
— Agora sim me senti ofendido — disse Luca. — Não foi você que comprou aquele suéter cinza que o meu gato adora usar para dormir confortável desde que ganhei? Vou contar ao Senhor Bigodes que fomos enganados.
— O que vocês querem aqui? Tenho relatórios para revisar e não vou para casa agora. Será que dá para economizar meu tempo e minha paciência indo embora?
Sofia se jogou no sofá e abriu uma das garrafas de conhaque.
— Quero não — disse ela.
Luca se jogou ao lado dela.
— Quero não — repetiu ele.
— Vocês… Que seja. Me deixem trabalhar e não acabem com toda a minha bebida.
Eles riram e começaram a beber e conversar, enquanto Damian apenas escutava.
— E aí, você pegou aquele cara ontem? — perguntou Luca. — E não minta para mim, eu vi vocês se beijando e se agarrando no estacionamento.
— Peguei sim — respondeu Sofia. — Você acha mesmo que eu sairia de mãos abanando daquela festa?
— Ele é bom? Te deu canseira? Vocês fizeram alguma coisa nova?
— Da próxima vez faço um vídeo para você, já que quer todos os detalhes. Mas ele é gostoso, sim, e valeu a minha noite.
— Vocês podem usar a sala de vocês para isso — cortou Damian. — Não estou a fim de ouvir sobre as noites de vocês fora daqui.
— Sabe o que falta para o Damian, Luca? — provocou Sofia.
— Sei sim… Uma noite selvagem com uma mulher — respondeu Luca. — Nós dois competimos para ver quem saía com mais gente ontem, e ela ganhou. Você podia sair uma noite com a gente e fazer o que seres humanos normais fazem.
— Você ainda paga acompanhantes para dormir com você? — perguntou Sofia. — Acho isso sem graça, não dá nem tesão. Você está ali sabendo que a pessoa está fazendo aquilo sem prazer nenhum, só por dinheiro.
— Eu pago justamente para que não falem comigo e apenas façam o trabalho delas. E acho que isso não é da conta de vocês, não é mesmo?
— Por que somos amigos dele mesmo? — perguntou Sofia a Luca.
— Porque somos iguais a ele — respondeu ele.
— Sim… verdade. Kkkkk.
Eles continuaram ali, ignorando-o completamente. Ao verificar alguns vídeos das câmeras de segurança do clube que vinha rendendo um bom lucro, Damian viu um casal, não muito jovem, apostando junto ali, e aquilo o deixou inquieto. Desligou tudo, se levantou e vestiu o casaco do terno.
Sofia e Luca se levantaram rápido.
— Aonde vamos? — perguntou Sofia.
— Espero que tenha bebida — disse Luca.
— Eu vou para casa trocar de roupa antes de visitar um dos nossos clubes. Vocês, eu não sei.
— Em qual você vai? — quis saber Sofia.
— A gente pode se encontrar lá — sugeriu Luca.
— Vou ao clube do centro. Está nos rendendo um bom dinheiro e quero ver como tudo está funcionando por lá.
— Da última vez que você foi a um dos nossos clubes de aposta, matou dois homens — lembrou Luca.
— Tivemos que limpar sua bagunça, porque você estava bêbado — completou Sofia.
— Não vou para beber, e sim para trabalhar. Estamos perdendo tempo à toa aqui. Vamos.
Damian foi para casa. Encontrou Bianca e Diego na sala da mansão, abraçados, assistindo a um filme. Quando ela percebeu sua presença, foi até ele e o abraçou.
— Chegou mais cedo hoje — disse Bianca, apertando o abraço. — Te amo, meu irmão.
— Eu também te amo. Tenho um compromisso de trabalho daqui a pouco, vim me trocar e tomar um banho.
— Eu queria passar mais tempo com você, como era antes — disse ela. — Diego e eu passamos o dia fora comprando algumas coisas para o Natal, e estamos exaustos.
— Diego, explique para ela que o nosso trabalho exige muito de mim.
— Tenho que concordar, amor — disse Diego. — O Damian tem muito trabalho mesmo.
— Acho que não vai ter casamento, já que você não consegue concordar comigo — provocou Bianca.
— Amor, você está certa. Cunhado, desculpa, mas você entende, né?
— No sábado ficaremos juntos, e você poderá escolher o lugar — disse Damian.
— Você jura? Não vai voltar atrás na sua palavra?
— Você sabe que eu cumpro o que prometo. Agora preciso ir.
Ele subiu para o quarto, foi até o banheiro e tomou um longo banho. Depois foi ao closet, ves
tiu um terno preto sem gravata, ajeitou o cabelo com a própria mão e desceu novamente para a sala, agora vazia.
