Capítulo 3 capítulo 3
Isabella Bellatorre era muito independente, mas ainda morava com os pais, Carl Bellatorre, de cinquenta e nove anos, e Lais Bellatorre, de cinquenta e seis. O motivo era óbvio, eles não sabiam se cuidar. Viciados em jogos de azar, e ela ainda não havia conseguido ajudá-los a se livrar do vício.
Descobriu recentemente que os dois haviam hipotecado a casa para pagar uma dívida alta de jogo, o que a levou a trabalhar três turnos na cafeteria, tentando juntar dinheiro para reaver o imóvel antes que o perdessem de vez, o banco já havia mandado o primeiro aviso.
Sua irmã mais velha, Elynor Bellatorre Sander, de trinta anos, era casada havia cinco com Henry Sander, e agora esperavam o primeiro filho. A gravidez estava no início, e Isabella não pretendia preocupar Elynor com as confusões dos pais.
Seu irmão do meio, Elijah Bellatorre, de vinte e nove anos, também era casado havia três com Kyllie Müller, e os dois enfrentavam algumas dificuldades, já que ainda pagavam pela casa em que moravam. Haviam decidido aumentar a família só depois de quitá-la, mas os planos mudaram, Kyllie estava grávida de gêmeos, com pouco mais de três meses de gestação. Isabella não podia sobrecarregar Elijah com mais problemas, não com a vida dele já tão agitada.
Sobrava tudo para ela. Os pais muitas vezes esperavam que ela pegasse no sono para sair, era o único jeito de não ouvirem o discurso dela sobre como aquilo estava afundando a família por causa de algo que eles poderiam ter controlado.
Isabella contava com os melhores amigos desde a infância. Tinham se conhecido no primário e nunca mais se desgrudaram. Austin Marverick, de vinte e quatro anos, era incrível, havia se tornado gerente da cafeteria onde trabalhavam seis meses atrás e não perdera a essência ao subir de cargo. Os três começaram a trabalhar ali havia dois anos, e ele, por se destacar, virou o gerente querido de todos. Lindsay Valker, de vinte e três anos, era a melhor amiga que alguém poderia ter, mais doida que o Chapeleiro Maluco e mais desnorteada que a própria Alice, mas com um coração enorme, talvez por isso ainda sem sorte no amor.
Eram os amigos que mantinham a sanidade mental de Isabella em dia, que não a deixavam cair nos momentos mais difíceis da vida, como o que ela vivia agora.
Isabella estava servindo uma mesa na área VIP quando Austin a chamou até a gerência. Terminou de atender a mesa, e a senhora que estava nela pagou a conta e ainda lhe deu cem dólares de gorjeta, a mais alta que já recebeu na área VIP. Foi até a sala da gerência, e Austin pediu que entrasse.
— Minha linda amiga, você bateu sua meta do mês de novo, antes mesmo do fim do mês — disse ele. — Como consegue isso?
Na cafeteria, haviam criado um sistema no aplicativo para que os clientes avaliassem o atendimento e, se quisessem, deixassem um valor extra de gorjeta. Como estava com aquela dívida no banco, Isabella decidira abordar os clientes de acordo com a personalidade de cada um, e quase sempre acertava na escolha do que eles queriam comer ou beber. Aquilo vinha rendendo um bom dinheiro.
— Meu charme, minha simpatia e o jeito como trato os clientes — respondeu ela, olhando para Austin.
— Tô impressionado. Sua avaliação já bateu a meta com apenas quinze dias, e o seu percentual de gorjetas já chegou a mil dólares. Se continuar assim, mês que vem você já vai ter os cinco mil dólares que o banco pediu de entrada da dívida.
— Na verdade, eles pediram dez mil. E eu não quero que vocês sintam pena de mim e me emprestem esse dinheiro. Sei que você e a Lind ainda estão pagando o apartamento que compraram; não posso fazer isso com vocês.
— Isso não é justo — protestou Austin. — Você está com uma dívida de cento e cinquenta mil dólares para pagar sozinha, já trabalhando três turnos na cafeteria. Amiga, você precisa de ajuda, sim. E nunca vai ser por pena.
— Eu agradeço, de verdade, mas enquanto eu vir as pessoas ao meu redor batalhando para conseguir seus próprios objetivos, eu me recuso a atrapalhar isso. Vai chegar a minha vez, pode ter certeza.
Alguém bateu à porta e entrou. Era Lindsay, que se jogou no colo de Isabella assim que a viu sentada conversando com Austin.
— Vocês esqueceram de mim, foi? — fez um biquinho, com a carinha triste.
— Na verdade eu já ia mandar te chamar — disse Austin. — Você está quase batendo a mesma meta da Isabella. Como vocês conseguem isso? Eu me lembro de ter que ralar muito para bater a meta em um mês, e às vezes nem conseguia. Tive sorte de o outro gerente me indicar antes de sair, e aqui estou eu.
— Você não tem o nosso charme, loirinho. Falta um certo rebolado — provocou Lindsay, rindo.
— Lind! Não faz isso com ele, você sabe que ele é um péssimo dançarino — riu Isabella.
— Vocês duas têm a audácia de zombar do seu querido, lindo e perfeito gerente? Estão suspensas, as duas. Não falem mais comigo!
Isabella e Lindsay riram ainda mais, e Austin não resistiu e riu junto.
— Vamos logo, Lind, antes que nosso lindo, querido e perfeito gerente nos demita por falarmos a verdade.
— Lindo, querido e perfeito gerente, não esquece que combinamos de beber hoje — disse Lindsay.
— Se vocês me esperarem fechar a cafeteria, com certeza vamos — respondeu Austin.
— A gente te ajuda a fechar tudo.
A verdade era que Isabella nem deveria ir, já que não podia gastar dinheiro, mas era uma mulher de vinte e três anos trabalhando como uma louca, precisava de uma noite normal. Isabella Bellatorre ia sair para beber com os amigos, e o mundo que se preparasse.
Voltaram para o salão, e Lindsay se virou para ela.
— Eu pensei que você e o Austin fossem começar a namorar depois daquele beijão que vocês deram na minha casa, no meu aniversário.
— Aquilo foi só o álcool e a carência que a gente estava sentindo, amiga. Nem pensamos mais nisso. Aliás, depois daquilo ele ficou com a Debby, que trabalha no turno da manhã, mas descobriu que ela estava voltando com o ex e decidiu parar.
— Eu fiquei sabendo, ele me contou uns três dias atrás. Ele estava mesmo curtindo ela.
— Ela podia ter dado uma chance para ele, né, amiga. Acho que não foi legal ela voltar para o ex que a traiu com a prima dele. Mas a gente não pode julgar nem se meter, mesmo tendo opiniões diferentes.
— Verdade... Mas essa noite a gente pode ajudar nosso amigo a encontrar alguém legal.
— Sim, podemos, e vamos.
Cada uma voltou para sua área do salão. O dia de Isabella, além de agitado, tinha sido bom em gorjetas. Poderia gastar pelo menos cem dólares se divertindo, sem peso na consciência. Na cafeteria, Austin dividia a área VIP entre as funcionárias, uma por dia da semana, e naquele dia era a vez de Isabella, quando atendia lá, saía com uns quinhentos ou seiscentos dólares fácil, e
naquele dia havia ganhado cem a mais, que gastaria consigo mesma.
