Capítulo 6 O jardim

Me senti livre correndo entre os arbustos e segurando a mão do jardineiro, que até agora não me disse o seu nome. Então parei no meio do caminho, ainda meio ofegante e perguntei:

— Qual o seu nome? Eu nunca lembro de perguntar — ele parou de andar e pareceu surpreso. — O que foi? — questionei e sorri com o espanto dele.

— Meu nome?

— Sim.

— É... Hélio — respondeu sem graça e de repente voltou a andar, me puxando novamente, achei engraçado o jeito dele, deve ser tímido.

Quando chegamos ao jardim, ele conhecia um caminho secreto que dava acesso à área interna, e por mais preocupada que eu estivesse por desobedecer ao meu tio e invadir o terreno alheio, a emoção falava mais alto.

— É lindo, aqui. Aquele rio parece de mentira, e olha quantas flores diferentes tem — comentei olhando tudo. Vi que ele tocava as rosas com delicadeza.

— Tem um banco especial aqui. Vem ver?

— Por que, especial? — perguntei enquanto caminhava junto a ele.

— Você já vai ver — o acompanhei pelo jardim que é muito bonito. A grama estava muito bem cuidada, com pedrinhas que marcavam o caminho para passarmos, e então subimos numa ponte, que era toda trabalhada com pedras que foram certamente pintadas e coladas.

Atravessamos o rio e do outro lado havia um local parecido com uma tenda, onde os próprios galhos formavam a parte de cima, e embaixo havia um banco para até três pessoas se acomodarem.

Ele se sentou sorridente e o olhando de perto e sem boné, vejo que é lindo, me lembra alguém, mas não sei quem.

— O que foi?

— Você é bem bonito, principalmente sem o boné — falei envergonhada.

— Você acha, é? — se sentou bem perto de mim. — E o seu noivo é feio? Não sei se eu posso perguntar isso? — me olhava sem graça.

— Bom, eu não reparei muito... ele usa muitas roupas sofisticadas, boina e óculos, eu não gravei seu rosto... e no segundo dia eu não consegui reparar em nada além dos óculos, eu mal o olhei, pois fiquei muito nervosa... ele sempre me deixa nervosa.

— Nossa, que pena. Espero que um dia você consiga.

Assim que ele respondeu, vários beija-flores vieram em sua direção, e não demorou muito para eles chegarem até mim. Pareciam ser acostumados com isso, estavam tranquilos e achei tudo muito lindo.

— Você sempre vem aqui? — perguntei.

— Sou jardineiro... quem você acha que ajudou a criar esse jardim? — sorriu.

— Caramba. Você é ótimo nisso.

Naquele lugar conversamos sobre o jardim e sobre mim. O jardineiro é descontraído, me sinto leve com ele e já estou me preocupando com o fato de que precisarei esquecê-lo depois que formos embora.

Agora a minha vida será cercada de dor e destruição, pois se o Don fez aquilo comigo antes de me casar, nem quero imaginar o que fará depois de tudo concretizado.

— Deita aqui no meu colo. Assim você descansa — ele propõe e então olho para a minha roupa.

— Não se importa de eu estar malvestida?

— Para mim, você está linda. Por quê?

— Não é nada... O Don me fez tomar banho e trocar de roupa para ter acesso a ele — o jardineiro começou a tossir, e pensei que tivesse engasgado com alguma coisa, bati nas costas dele tentando ajudar.

— Caramba, você está bem?

— Estou... é que certamente foi por algum outro motivo que ele pediu isso, será que ele não estava acompanhado? — neguei.

— Ele não se importa com isso, não sou nada pra ele. Mas, vamos mudar de assunto? — me deitei no colo dele e os beija-flores continuavam vindo.

— Claro — ele puxou todo o meu cabelo para trás e esticou as minhas pernas, colocando no braço do banco.

O jardineiro ficou em silêncio por um bom tempo enquanto me acariciava lentamente e cheguei a fechar os olhos, nem a minha mãe me tratava assim, me senti muito bem.

Ele me olhava demais, e parecia ser capaz de conhecer todos os detalhes do meu rosto e eu do dele. Diversas vezes senti seu toque passeando na minha pele, aquelas carícias suaves que me encantavam. A sua mão no meu cabelo me fazia suspirar e até fechei os olhos por mais vezes.

Fiquei analisando seu rosto bem desenhado, o queixo levemente quadrado, as sobrancelhas parcialmente feitas, e o cabelo desajeitado que o deixava mais descontraído. Seu olhar era profundo, seus pensamentos pareciam estar tão longes, que me intrigava.

— Como hoje é o seu último dia solteira, acho que ainda pode me deixar te dar um beijo — passou o dedo indicador nos meus lábios e os encarou com malícia.

— Mas estou noiva.

— E escolheu estar noiva? — neguei. — Então quem está noivo é ele — brincou e eu sorri.

Levantei meu corpo indo mais para cima, e ele percebendo que eu cederia me puxou para seu colo, literalmente, nos deixando em uma posição bem íntima. Palavras eram desnecessárias. Ao nos olharmos sabíamos o que aconteceria, e aos poucos fomos nos aproximando e então o beijo tão esperado, aconteceu.

Fui tomada por um sentimento novo que me levou para outra dimensão. Senti uma conexão profunda, um arrepio que parecia alcançar a minha alma, e levá-la a uma dança gostosa onde eu me perdia nos meus próprios pensamentos.

Esqueci de tudo à minha volta e o deixei me guiar. Encostei completamente meu corpo no dele e senti uma ansiedade que jamais havia conhecido.

Sua língua passeava pela minha, e seus lábios macios de quem mantém a barba bem aparada, chupavam os meus me deixando em completo êxtase e satisfação.

Não sei quanto tempo ficamos assim, mas sei que foi muito, pois o sol começava a sumir. Senti a mão do jardineiro inquieta e encostou na minha coxa, então já estava na hora de parar.

— Preciso ir.

— Não vou fazer nada, apenas te acariciei.

— É que estou com fome, e já está tarde. Tenho medo do meu tio me dedurar para o Don.

— Fica aqui um pouquinho, vou roubar um pedaço de bolo da casinha dos fundos, eu conheço a dona, sempre tem bolo lá.

— Não precisa.

— Eu te peço... fica mais um pouco.

— Está bem... com você pedindo desse jeito, não consigo negar — ele sorriu, me deu um último beijo e então se foi.

Eu fiquei pouco tempo ali esperando, ele logo voltou com um bolo maravilhoso de morangos com creme e acho que nunca comi um bolo tão gostoso. O jardineiro me sujou de bolo no nariz e eu o sujei também.

— Foi divertido passar esse dia com você.

— Não fique triste. Eu sempre estarei aqui pra você.

— O Don não vai aceitar. Certamente nunca mais nos veremos — falei desanimada.

— A gente nunca sabe o dia de amanhã. Nunca esqueça isso — suspirei.

— Ok.

— Quer voltar? Logo ficará escuro, né?

— Sim... Nosso passeio chegou ao fim.

O jardineiro me abraçou e fomos juntos para minha casa, fazendo o mesmo caminho de antes.

— Parece que o meu tio não está — comentei.

— Se quiser, eu fico com você e resolvo a situação — comentou.

— Acho que seria pior, é melhor você ir — pedi. Ele me deu um último beijo e foi.

Entrei em casa e comecei a arrumar algumas coisas que eu levaria para a casa do Don. Tomei um banho e vesti a minha melhor roupa, embora eu tenha encontrado um furinho na blusinha, mas é difícil de perceber, aquele ogro parente do Shrek terá que engolir.

De repente ouvi um barulho alto lá fora e fui correndo ver o que era. O meu tio parecia bêbado e estava derrubando todas as coisas que separei da reciclagem, bagunçando sacos prontos e até atacou coisas na parede.

— Tio Amador... O que aconteceu? — ele voou para cima de mim e me deu dois tapas na cara, um de cada lado que chegou a cortar um pouquinho a minha pele.

— Sua vadia. Onde esteve, sua maldita? — tentei sair de perto dele, mas ele veio vindo pra cima de mim e me encurralou na mureta.

Ele levantou a mão para me bater de novo, mas uma voz suficientemente forte o fez parar.

— O que pensa que está fazendo seu figlio de puttana maledetto?

Era o Don. Estava escuro, mas reconheci o estilo da roupa, que tinha botões grandes na frente, e ia até embaixo, usava boina e cachecol.

— Ela ainda não se casou, então eu... — antes do meu tio terminar, o Don meteu duas porradas nele, o fazendo sagrar.

— Eu deveria te matar seu maledetto. Não quero te ver perto da minha mulher, nunca mais! — Don Antony quase gritava ao falar, uma voz firme.

— Ele bebeu — falei apavorada com as mãos no rosto.

— Venha, Fabiana. O meu carro está lá embaixo. Não ficará mais nem um segundo com esse homem.

— Eu vou pegar a bolsa que arrumei.

— Soldado. A acompanhe e traga a mala — ele falou mais calmo e tive uma sensação estranha de conhecer aquela voz.

Um sentimento diferente, um aperto... tenho quase certeza que já ouvi e não foi do Don, mas não demorei para ir ao meu quarto, ele não gosta de repetir as coisas, já percebi.

Entrei no carro dele morrendo de medo, mas não tinha para onde fugir, agora eu teria problemas e teria que aprender a me defender dele.

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