Capítulo 1
Ponto de vista de Bella:
A vibração do telefone estilhaçou o silêncio às 4h47 da manhã.
Acordei sobressaltada, a mão alcançando instintivamente o outro lado da cama king-size antes mesmo de eu abrir os olhos direito. Meus dedos encontraram lençóis frios. Vazio. De novo. Já fazia três dias desde a última vez que Ethan dormira no nosso quarto.
Tateei o criado-mudo em busca do celular, semicerrando os olhos contra a luz azul dura da tela. Número desconhecido. A mensagem continha um único arquivo criptografado. Toquei para abrir.
O vídeo carregou devagar, a barra de progresso se arrastando pela tela. Quando a imagem enfim se definiu, meu fôlego travou.
Fiquei ali, sentada no escuro, o coração martelando nas têmporas, nos pulsos, no vão da garganta.
Respira, eu disse a mim mesma. Só respira.
Mas respirar parecia engolir vidro quebrado.
Peguei o celular, enfiei no bolso e empurrei as cobertas para trás. Então fui até a porta.
A instalação subterrânea de treinamento se espalhava sob a Casa da Matilha Eclipse. Fui direto para os sacos de pancada pendurados em vigas reforçadas no teto, sob a iluminação fraca de emergência.
Meus pés descalços não faziam som nenhum no piso emborrachado. Não me dei ao trabalho de usar ataduras nem luvas. Apenas me posicionei diante do saco mais próximo e enfiei o punho nele com toda a força que eu tinha.
O impacto mandou um choque pelo meu braço, mas eu acolhi a dor. Soquei de novo, e de novo, caindo num ritmo que não tinha nada a ver com técnica e tudo a ver com a necessidade de quebrar alguma coisa, de ferir alguma coisa do jeito que eu estava ferida. Gancho de esquerda. Direto de direita. Cotovelada. Joelhada. O saco balançou violentamente na corrente, os elos de metal gritando em protesto.
O suor encharcou minha regata cinza, colando o tecido à minha pele. Meus nós dos dedos se abriram, sangue se espalhando pelo couro do saco, mas os ferimentos se fechavam quase tão rápido quanto surgiam.
Perdi a noção do tempo, perdida na violência do movimento, no baque satisfatório da carne encontrando resistência.
Eu estava me preparando para mais um chute quando as luzes do teto se acenderam com força, inundando a sala de treino com um brilho fluorescente e agressivo.
— Bella! Eu estava justamente te procurando—
A voz de Ethan ecoou de algum lugar atrás de mim. Eu já estava comprometida com o golpe, meu corpo em movimento, e ouvi os passos dele vindo rápido. Rápido demais, e quando girei para o chute circular, ele estava de repente bem ali, na minha trajetória, perto demais para eu conseguir recuar.
Minha canela acertou a maçã do rosto esquerda dele com um estalo sólido.
Ethan cambaleou dois passos para trás, a mão voando até o rosto, os óculos de armação preta tortos. Por um instante breve e satisfatório, vi choque e raiva lampejarem nas feições dele.
— Porra — ele sibilou, endireitando-se e ajeitando os óculos com movimentos bruscos, irritados.
Abaixei a perna devagar, meu rosto cuidadosamente neutro.
— Eu não te vi aí.
Ele soltou o ar com força pelo nariz, esfregando a mandíbula.
— É. Bom. Eu me empolguei, corri e entrei direto no seu chute. — O tom dele era curto, impaciente, já descartando o incidente enquanto avançava para o que realmente tinha vindo fazer.
Ele pôs as mãos nos meus ombros. Fiquei rígida sob o toque, cada músculo do meu corpo gritando para eu me afastar, mas me forcei a ficar parada.
— Bella, escuta — disse ele, a voz aguda de uma alegria mal contida. — Faye teve o bebê. Um menino. Ele é perfeito. Totalmente saudável.
As palavras me atingiram como socos separados, cada uma acertando com precisão o vazio atrás das minhas costelas.
— A mamãe chorou quando viu ele — Ethan continuou, falando mais rápido agora, as frases tropeçando umas nas outras na pressa de sair. — Ela disse que foi um presente da Deusa da Lua. A vovó nem conseguiu falar, de tão feliz. E a Faye… Deus, Bella, pobre Faye. O parto foi tão pesado pra ela, ela está exausta. Ela precisa mesmo descansar agora.
Eu encarei Ethan, esse homem com quem eu me ligara três anos atrás, esse Alfa que ficara ao meu lado no Altar da Pedra da Lua e prometera me honrar como sua Luna, sua igual, sua parceira.
— Você voltou só pra me dizer isso? — Minha voz saiu lisa, sem emoção.
As mãos de Ethan se soltaram dos meus ombros. O maxilar dele se contraiu.
— Eu voltei porque você não estava atendendo o telefone. A mãe queria que eu te lembrasse de ir ao hospital hoje. A Faye está na ala VIP de maternidade do Emberhold General. Ela quer muito te ver.
— Que atencioso.
— Bella. — O tom dele mudou, assumindo aquela ponta de aviso que eu conhecia bem demais. — Eu sei que talvez seja difícil pra você ouvir isso, mas a Faye está no momento mais vulnerável agora. Ela ficou preocupada até adoecer, achando que você ia ressentir ela por causa disso, que isso ia criar divisão na matilha. A última coisa que ela quer é que esse bebê fique entre nós.
A risada que me escapou era afiada o bastante para cortar.
— Então talvez você não devesse ter feito isso em primeiro lugar.
Ethan ficou imóvel.
— O que foi que você acabou de dizer?
— Você ouviu. — Eu encarei os olhos dele sem desviar, deixando que ele visse o gelo nos meus. — Volta pro seu filho, Ethan. Tenho certeza de que ele precisa mais de você do que eu.
Eu dei ênfase extra na palavra filho, deixei escorrer com todo o veneno que eu estava segurando, e vi o rosto dele escurecer de vergonha.
— Pelo amor de Deus. — Ele passou a mão pelos cabelos. — Quantas vezes a gente vai ter que ter essa conversa? Foi assistência médica. Inseminação artificial. Usaram o meu esperma, sim, mas eu e a Faye nunca— nós não—
— Então por que você não conseguiu me contar desde o começo? — interrompi, com a voz mortalmente baixa.
Ele abriu a boca, fechou.
A verdade era que Ethan não tinha sido o único ausente da Casa nesses últimos dias. A família Grave inteira tinha se instalado no Hospital Geral de Emberhold, esperando Faye dar à luz. Faye Porter, filha do Alfa da Matilha Duskcrown, que tinha se casado na Matilha Eclipse três anos atrás junto comigo. Nós tivemos uma cerimônia dupla de vínculo — eu fui ligada ao irmão mais velho, Ethan, enquanto Faye foi ligada ao mais novo, Evan. O evento tinha sido o assunto de Emberhold: duas filhas de Alfa entrando em uma das matilhas mais poderosas da região.
Mas a felicidade não durou muito. Na noite anterior àquela em que Ethan e Evan deveriam competir pela posição de Alfa, Evan morreu num acidente repentino. A família Grave ficou devastada, consumida pela culpa. Eles imploraram para que Faye seguisse em frente, encontrasse outro companheiro, mas ela se recusou. Ela escolheu ficar, honrar a memória de Evan permanecendo como parte da família dele.
E os Graves a amaram por isso. Adoraram aquela garota devota e leal que sacrificara o futuro por amor ao filho morto deles. Adoraram a ponto de encontrar um jeito de dar a ela o que ela mais queria — uma criança carregando sangue Grave. Com Evan morto, sobrava apenas uma fonte para aquela linhagem.
O maxilar de Ethan se contraiu.
— Você quer saber por que a gente não te contou? Porque a gente sabia que você ia reagir exatamente assim. Fazendo escândalo, sendo irracional. — Os olhos dele endureceram. — Você é a Luna desta matilha, Bella. Você devia estar comemorando que a Eclipse finalmente tem um herdeiro. A Deusa da Lua sabe que você não conseguiu fornecer um em três anos.
Eu sustentei o olhar dele por um longo momento, deixando o silêncio se esticar entre nós, deixando que ele visse alguma coisa nos meus olhos que fez a expressão dele vacilar. Então me virei, me abaixando para pegar meu celular de onde eu o tinha deixado no chão.
— Volta pro hospital, Ethan. Tenho certeza de que a Faye está esperando por você.
Eu o ouvi inspirar, ouvi quando ele começou a dizer outra coisa, mas então o telefone dele vibrou. Ele puxou do bolso, olhou para a tela, e seja lá o que viu ali o fez praguejar entre dentes.
— Eu tenho que ir — disse ele, já se movendo em direção à porta.
A porta bateu atrás dele, me deixando sozinha na sala de treino clara demais, com os nós dos dedos ensanguentados e minhas ilusões estilhaçadas.
Olhei para o meu celular, para a tela de bloqueio exibindo a foto da nossa cerimônia de vínculo de três anos atrás. Eu, no vestido tradicional de Luna prateado-acinzentado; Ethan, no azul profundo cerimonial da Matilha Eclipse; nós dois sorrindo à luz da lua diante do Altar de Pedra da Lua.
Deslizei para desbloquear. A tela se acendeu, mostrando o vídeo que eu tinha assistido mais cedo naquela manhã.
O paletó do terno de Ethan jogado no chão. O vestido de verão de Faye enrolado na cintura. Os corpos dos dois se movendo juntos num ritmo que contava a verdadeira história por trás do bebê milagroso da Matilha Eclipse. Aquela era a verdade do que eles chamavam de “assistência médica”.
