Capítulo 2
Ponto de vista de Bella:
Fiquei um bom tempo sob o jato do chuveiro, deixando a água escaldante levar embora o sangue e o suor da sala de treinamento. Meus nós dos dedos já tinham cicatrizado por completo. Se ao menos feridas emocionais se fechassem com a mesma rapidez.
Mantive a expressão neutra enquanto ia até a sala de jantar, onde o aroma de café fresco e coisas assadas me recebeu. Jane Garcia, a chef principal da casa da matilha — que estava com a Eclipse Pack havia vinte anos — ergueu os olhos de onde organizava doces numa travessa. Seus olhos castanhos e calorosos se franziram de preocupação quando me viu.
— Luna — ela disse, baixinho, largando a bandeja para vir até mim. — Você parece exausta. Você dormiu alguma coisa ontem à noite?
O cuidado genuíno na voz dela fez minha garganta apertar. Jane sempre tinha sido gentil comigo, uma das poucas integrantes da matilha que me tratavam com calor de verdade, e não com a polidez fria à qual eu tinha me acostumado nos últimos três anos.
— Estou bem, Jane — consegui dizer, oferecendo um sorrisinho.
Ela apontou para o que tinha preparado na mesa de jantar. Panquecas de mirtilo, frutas frescas e uma jarra de suco de mirtilo. Tudo de que eu mais gostava.
— Sente, por favor — insistiu Jane, já puxando uma cadeira para mim. — Você precisa comer alguma coisa. Seu corpo precisa de energia, principalmente com todo o estresse pelo qual você tem passado.
As panquecas estavam perfeitas, fofinhas e douradas, cobertas com uma porção generosa de mirtilos frescos. Em circunstâncias normais, eu teria devorado a refeição. Hoje, cada mordida parecia engolir pedras.
Pelo vínculo de companheiros, eu conseguia sentir as emoções de Ethan vazando para dentro de mim. Alegria. Alegria pura, sem filtros. Um tipo de felicidade que ele nunca sentira comigo, nem na nossa noite de acasalamento.
— Jane — larguei o garfo, mantendo a voz firme —, você pode preparar um pacote de cuidados para uma mãe de primeira viagem? Algo nutritivo e fácil de digerir. Quero visitar a Faye no hospital.
Jane parou no meio do passo, e o sorriso caloroso dela vacilou. Seus olhos buscaram meu rosto por um longo momento, e eu vi algo cintilar ali — compreensão, talvez, ou pena.
— Claro, Luna — disse ela em voz baixa, sem o brilho de antes. E então se virou para a cozinha sem dizer mais nada.
A ala VIP de maternidade ocupava o último andar. Subi de elevador em silêncio, com a bolsa térmica apertada entre as mãos.
O corredor estava quieto, todo de iluminação suave e cores discretas. O quarto de Faye foi fácil de achar — a porta estava entreaberta.
Pela fresta, eu pude vê-los.
Ethan estava ao lado da cama de Faye, uma mão sustentando o cotovelo dela, a outra firmemente em volta da cintura enquanto ele a ajudava a dar passos lentos e cuidadosos pelo quarto. Ela vestia um robe rosa-claro, o cabelo caindo em ondas suaves sobre os ombros, e se apoiava pesadamente nele, o rosto pálido, mas iluminado de felicidade. Conversavam baixo demais para eu distinguir as palavras, mas eu via a ternura no jeito como Ethan a guiava, a curva protetora do corpo dele enquanto suportava quase todo o peso dela.
A luz do sol entrava pelas janelas do chão ao teto, banhando os dois num dourado quente. Pareciam cena de romance: o marido devotado cuidando da esposa frágil. Bonitos. Perfeitos. Tudo aquilo que, um dia, eu tinha acreditado — tolamente — que o meu próprio acasalamento seria.
Em três anos de casamento, Ethan nunca tinha me tocado daquele jeito. Nunca tinha me olhado com tanta ternura. A única vez em que ele me dava atenção de verdade era na cama e, mesmo assim, parecia errado — como se ele usasse o meu corpo para descarregar frustrações destinadas a outra pessoa.
Ash rosnou na minha mente, querendo sangue. Mas eu a contive.
Eu precisava ver isso. Precisava assistir ao alcance total da traição deles se desenrolar diante de mim, para que até o último fiapo de esperança, cada fantasia patética à qual eu me agarrara sobre salvar esse casamento, finalmente morresse.
Ethan ajudou Faye a se acomodar de volta na cama, os movimentos cuidadosos e precisos enquanto ajustava os travesseiros e puxava a manta sobre as pernas dela. Serviu um copo de água da jarra na mesa de cabeceira, verificando a temperatura com a ponta dos dedos antes de entregar a ela.
Foi então que Faye ergueu o olhar e me viu parada na porta.
— Bella! Ai, meu Deus, você veio! Estou tão feliz de te ver!
A voz dela era suave e doce, enfraquecida pelo parto, mas ainda conseguia transmitir calor e afeto. Aqueles olhos castanho-claros brilhavam com algo que qualquer outra pessoa teria tomado por alegria sincera. Ela era boa. Eu tinha que admitir. Muito, muito boa.
Ethan se virou, enfim notando minha presença. Endireitou-se, pegando o casaco que estava jogado sobre uma cadeira próxima. “Bella.”
Entrei no quarto, erguendo a bolsa térmica que Jane tinha preparado. “Pedi para a Jane preparar algumas refeições de pós-parto para você. Achei que você talvez precisasse de uma boa nutrição.”
Os olhos de Faye se iluminaram de gratidão. “Bella, muito obrigada por vir. Isso significa tudo para mim.”
“Preciso buscar algumas coisas para a Faye”, disse Ethan, já se movendo em direção à porta. Pegou a carteira e as chaves na mesa de cabeceira. “Já volto.”
Ele saiu sem me dirigir mais nenhuma palavra, sem sequer olhar para trás.
Faye deu uns tapinhas no espaço ao lado dela na cama, a expressão mudando para algo vulnerável e suplicante. “Bella, por favor. Senta comigo um minuto. Eu sei que isso deve estar sendo tão difícil para você, e eu quero que você entenda.”
Continuei de pé, as mãos entrelaçadas à minha frente, o rosto como uma máscara de interesse educado.
“Eu amava tanto o Evan”, continuou Faye, a voz falhando. “Quando ele morreu, eu senti como se o meu mundo inteiro tivesse acabado. A única coisa que me manteve de pé foi a ideia de que talvez, de algum jeito, eu pudesse preservar uma parte dele. É só isso que esse bebê é, Bella. Um pedaço do Evan que eu posso guardar.”
“Usar o material genético do Ethan era a única opção”, ela prosseguiu, enxugando os olhos com um lenço. “Ele e o Evan eram irmãos. O bebê carregaria o sangue Grave, seria o mais próximo que eu poderia chegar de um filho do Evan. Mas eu juro pra você, Bella, não houve nada romântico entre nós. Eu nunca, nunca iria querer te machucar ou prejudicar seu casamento.”
Senti alguma coisa se deslocar no meu peito, um lampejo de algo que eu não conseguia nomear. Abri a boca para falar, mas antes que eu dissesse qualquer coisa, a porta se abriu.
Margaret Grave, a mãe de Ethan, entrou no quarto como um vendaval, embalando um pequeno embrulho envolto em cobertores macios azul-claro.
“Faye, querida”, arrulhou Margaret, a voz pingando preocupação enquanto corria até a beira da cama. “Por que você está chorando? O que aconteceu?”
Faye balançou a cabeça depressa, limpando as lágrimas. “Não é nada, mãe. Eu só estou emotiva. Hormônios.”
Mas Margaret não estava ouvindo. Ela já tinha decidido quem era a culpada. Virou-se para mim por completo, os olhos frios de acusação.
“O que foi que você fez?”, exigiu Margaret, a voz baixa e perigosa. “A Faye acabou de dar à luz. Ela está exausta e vulnerável. O que você disse pra ela?”
Sustentei o olhar dela, me recusando a desviar.
“Ela usou o esperma do Ethan para engravidar”, continuou Margaret, o tom ficando mais cortante. “E daí? Foram algumas células genéticas, Bella. Só isso. E você vai ficar aqui e fazê-la chorar por causa disso? Dá pra ser mais mesquinha?”
Ela fez uma pausa, e eu vi algo cruel atravessar suas feições. “Embora eu ache que eu entenda. Três anos de casamento e você não conseguiu dar um filho ao Ethan. Deve ser difícil ver outra pessoa conseguir onde você falhou de forma tão espetacular.”
Na sociedade dos lobisomens, uma Luna que não conseguia produzir um herdeiro era considerada quebrada. Margaret sabia exatamente o que estava fazendo.
Faye tentou intervir imediatamente, a voz fraca e chorosa. “Mãe, por favor, não. Não era isso que eu queria. Eu nunca quis causar problemas entre nós.”
Margaret se suavizou na hora, voltando-se para Faye com uma preocupação materna. “Eu sei, querida. Você é boa demais, pura demais. Sempre pensa nos outros antes de você.”
Ela se acomodou na cadeira ao lado da cama, ajeitando o bebê nos braços com uma facilidade prática. “Olha pra ele, Faye. Olha pra esse anjinho perfeito.”
Faye estendeu as mãos, e Margaret transferiu o embrulho com cuidado para os braços dela. As duas mulheres olharam para o bebê com expressões idênticas de adoração, completamente absorvidas na nova vida entre elas.
Fiquei ali, observando aquela cena perfeita de avó e mãe criando laços com um recém-nascido, e não senti absolutamente nada. O bebê era pequeno, os traços ainda indefinidos e enrugadinhos, impossível dizer com quem ele se parecia.
Meu celular vibrou no bolso. Tirei-o e lancei um olhar para a tela.
Emberhold Women's Health Center: Seus resultados de exame estão prontos. Por favor, venha para uma consulta de acompanhamento assim que possível.
Olhei para a mensagem, guardei o celular de volta no bolso e fui embora.
