Capítulo 5

Ponto de vista de Bella:

A propriedade Moonhunt. Ethan tinha comprado o imóvel três anos antes, em Azure Moon Ridge, localizado na borda do território da Matilha Eclipse, onde as montanhas encontravam a água. A região era conhecida por sua abundância de luar — ideal para a transformação e a recuperação de lobisomens. A propriedade estava totalmente mobiliada e pronta para ser ocupada de imediato, mas Ethan nunca a tinha usado sequer uma vez. Durante três anos, ficou vazia.

— Aquela propriedade está desocupada há anos — continuei, mantendo o tom casual. — Você não usa. Então por que não me dá de presente de aniversário?

Ethan franziu a testa.

— O que você faria com um lugar daqueles?

Virei-me para encará-lo de frente, sustentando o olhar dele.

— Eu preciso de segurança.

— Segurança? — ele repetiu.

Assenti, deixando um tremor entrar na minha voz.

— Depois que a gente se vinculou, eu abandonei a minha carreira — eu disse, em voz baixa. — Não tenho renda nenhuma além da mesada que você me dá. E o meu pai… — pausei, deixando as palavras travarem na garganta. — Brandon nunca vai me deixar nada. Tudo vai para o Bryan. A empresa, os bens, tudo vai para o filho biológico dele.

O rosto de Ethan mostrou algo que podia ser compaixão. Ele estendeu a mão e segurou a minha.

— Bella, você tem a mim. Por que você precisaria…

— Porque você tem um filho agora — interrompi, desviando o olhar do dele. — Um herdeiro de verdade. E eu tenho medo de que um dia você não me queira mais.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— Isso não vai acontecer — ele disse por fim, a voz baixa e sincera. — Eu não vou te abandonar.

Soltei uma risada baixa e amarga e puxei minha mão para longe da dele.

— Você não me dá o Moon Crest, e a Matilha Eclipse controla tanto território, mas não pode abrir mão de uma propriedadezinha?

— Tudo bem — ele disse, com a mandíbula tensa. — Eu te dou a propriedade.

A vitória correu por dentro de mim, mas mantive a expressão neutra.

— Então a gente precisa assinar um termo de doação.

Os olhos de Ethan se estreitaram.

— Você não confia em mim?

— Não é que eu não confie em você — eu disse. — Mas sem um documento, isso vira só bem do casal, não vira? Que tipo de presente é esse — me dar uma coisa que, de qualquer jeito, já é metade minha?

Por um instante, achei que ele fosse recusar. Mas então Ethan assentiu, relaxando um pouco os ombros.

— Certo. Vamos reconhecer firma e transferir para o seu nome.

Um sorriso verdadeiro tocou meus lábios.

— Obrigada.

Ethan me estudou, e algo na expressão dele mudou.

— Você parece… mais feliz hoje. Mais você.

Eu sorri mais, sem dizer nada. Ele não fazia ideia de como estava certo. Hoje eu estava mais eu mesma do que tinha estado em três anos. Por três anos, eu tinha abandonado a minha carreira, a minha independência, a minha própria identidade para ficar ao lado dele. Eu tinha querido ver o mundo com ele, construir algo bonito juntos. Em vez disso, ele só me mostrou frieza e negligência. Ele tinha me descartado com a mesma facilidade com que se joga fora uma ferramenta quebrada.

Mas eu tinha acabado de ser descartada. Eu tinha acabado de ser a idiota que o amava incondicionalmente enquanto ele dava o coração a outra pessoa.

Depois de um cochilo, dirigi até o território da Matilha Wildfire. Conforme me aproximei da casa, ouvi vozes alteradas antes mesmo de chegar à porta da frente.

— O que você quer que eu faça? — a voz de Brandon ecoou pelo hall de entrada. — Ela é uma Moore. É agora que ela precisa ajudar a família. Quem mais vai ajudar a gente?

— E aqueles seus amigos todos? — a voz de Diana soou cansada, gasta por anos lidando com o temperamento e o orgulho de Brandon.

— Nem menciona! — Brandon rosnou. — Quando a Matilha Wildfire estava prosperando, eles mal podiam esperar para se aproximar da gente. Agora que estamos com problemas, sumiram todos.

Empurrei a porta e abri, e a discussão cessou de repente. Diana apareceu no corredor, e a expressão dela se suavizou na hora quando me viu.

— Bella? Eu não sabia que você vinha. — Ela lançou a Brandon um olhar de reprovação.

Entrei e fechei a porta atrás de mim.

— O que está acontecendo?

Diana veio na minha direção, as mãos se erguendo como se quisesse alisar meu cabelo do jeito que fazia quando eu era mais nova.

— Não é nada, querida. Só estresse com negócios.

— Não minta para ela — Brandon entrou, avançando pelo corredor. O rosto estava avermelhado, a gravata afrouxada, e ele parecia mais velho do que eu lembrava. — A empresa está afundando em dívidas. A gente já vendeu uma fábrica e dois prédios de escritório, e mesmo assim não é suficiente.

O rosto de Diana se contraiu.

— Brandon…

— Eu preciso que você peça um empréstimo ao Ethan — Brandon continuou, ignorando completamente a esposa. — Só para atravessar essa fase difícil.

—Você não pode pedir isso a ela —Diana protestou, colocando-se entre nós. —Se chegar a esse ponto, a gente declara falência. A empresa não vale…

—Falência? —a voz de Brandon subiu até virar um brado. —Eu passei trinta anos construindo essa empresa! Não vou simplesmente jogar tudo fora!

—Quanto ainda falta pagar? —perguntei, em voz baixa.

Os dois pararam e se viraram para me olhar.

Brandon fez um gesto de desdém com a mão. —Não é muito. Só cem milhões.


Ponto de vista de Ethan:

Empurrei a porta do quarto de hospital de Faye, carregando as marmitas térmicas que Jane havia preparado. A suíte privativa estava silenciosa; a luz do fim da tarde entrava filtrada pelas cortinas diáfanas. Faye estava recostada na cama, os cachos castanho-claros caindo sobre os ombros, e ergueu o olhar com um sorriso cansado quando me viu.

—Ethan, você está aqui de novo —disse baixinho, o rosto se iluminando com um sorriso acolhedor.

Pousei os recipientes na mesinha com rodinhas e ajustei a inclinação da cama para que ela ficasse sentada com mais conforto.

—A Jane fez seus pratos preferidos. Você precisa manter as forças.

O sorriso de Faye se alargou, mas havia algo frágil em sua expressão.

—A Bella está em casa? Espero que ela não se incomode com você passando tanto tempo aqui.

—Ela está bem —respondi, talvez rápido demais. —Você acabou de ter um bebê. Ela entende.

A mão de Faye alcançou a minha e me segurou; seus dedos estavam frios e trêmulos.

—Mas eu dei à luz seu filho, Ethan. Isso… isso é diferente. E se ela me guardar rancor por causa disso? E se ela pedir para você desfazer o vínculo por causa disso?

A pergunta me pegou desprevenido. Olhei para nossas mãos entrelaçadas, sentindo o puxão familiar de proteção que eu sempre sentira por Faye.

—Ela não vai —afirmei com firmeza. —A Bella nunca faria isso.

Eu nem considerava uma possibilidade real. Bella era apenas uma filha adotiva, e a Matilha Wildfire já não era o que costumava ser. Ela não tinha para onde ir. Podia ficar chateada por causa do bebê, podia até se magoar, mas não iria embora. Não podia se dar ao luxo de ir embora.

—Espero que você esteja certo —sussurrou Faye. —Eu não suportaria se eu causasse problemas entre vocês dois.

Apertei a mão dela com cuidado.

—Você não causou problema nenhum. A vida da Bella está melhor agora do que jamais esteve. Ela sabe disso.

As palavras soaram verdadeiras quando as disse. Ser a Luna da Matilha Eclipse significava status, segurança, luxo. Por que ela abriria mão disso?

Faye ergueu os olhos para mim, o olhar brilhando com lágrimas ainda não derramadas.

—Não pense nisso agora —disse com delicadeza. —Só se concentre em se alimentar bem e cuidar de você.

Ela assentiu devagar, depois hesitou.

—Ethan… se eu quisesse ter outro bebê no futuro… você aceitaria?

A pergunta me fez parar. Pensei nos anos após a morte de Evan, em como eu ficara ao lado de Faye durante o luto dela. Em como, aos poucos, ela se abrira comigo, dissera que eu era mais maduro do que meu irmão, mais estável, mais… tudo.

Eu amava Faye desde o começo. Aquelas palavras que ela dissera só confirmavam o que eu sempre esperara —que ela pudesse me ver, me ver de verdade, não apenas como o irmão mais velho de Evan.

Mas agora, olhando para o rosto exausto dela e para o bebê dormindo no bercinho ao lado da cama, eu senti algo que não esperava. Não o calor que eu deveria sentir. Não a satisfação de enfim ter o que eu sempre quisera. Apenas uma vaga sensação de inquietação, que eu não conseguia nomear.

E aquela culpa parecia se intensificar sempre que eu pensava em Bella.

Mas eu não amava Bella. Nunca a amei. Então por que eu me sentia culpado?

—Vou ver o bebê —disse, abruptamente, levantando-me e indo até o bercinho. —Talvez ele precise trocar a fralda.

Faye me observou por um momento, e eu pude sentir a decepção dela diante da minha evasiva. Mas então a expressão suavizou quando peguei o recém-nascido, acomodando-o com cuidado.

—Você é tão bom com ele —murmurou ela. —Fico feliz de ver isso.

Concentrei-me no bebê, conferindo a fralda e preparando uma mamadeira —qualquer coisa para evitar as emoções complicadas rodopiando na minha cabeça. Enquanto eu fazia isso, meus pensamentos voltaram ao pedido de Bella naquela manhã. A Propriedade Moonhunt. O jeito como ela pedira com tanta calma, tão deliberadamente. Havia algo diferente nela hoje, algo que eu não conseguia identificar.

Mas afastei a ideia. Se Bella queria aquilo, se aquilo lhe daria tranquilidade, então eu podia dar. Afinal, era só uma propriedade vazia que eu nunca usara.

Que mal isso poderia fazer?

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