Capítulo 6

Ponto de vista de Bella:

Cem milhões de dólares. Brandon falou aquilo com tanta naturalidade, como se o número não pesasse absolutamente nada.

— Me dá um tempo — eu disse, em voz baixa.

Os olhos de Brandon se arregalaram. Era óbvio que ele não esperava que eu concordasse com tanta facilidade.

— Quer dizer que você vai falar com o Ethan sobre isso? Ou está dizendo que pode garantir que ele vai mesmo emprestar o dinheiro?

Uma ideia se formou na minha mente.

— Tenho uma condição — eu disse, encarando Brandon de frente.

— Diga — ele respondeu na hora.

— Se eu conseguir esse empréstimo, vou precisar de um acordo formal — continuei. — As condições de pagamento vão ser decididas por mim, e o dinheiro tem que ser transferido primeiro para a minha conta.

Brandon franziu a testa.

— E se você exigir o pagamento rápido demais? A gente não consegue devolver tudo isso de uma vez.

— Eu não vou — eu disse. — Vou deixar vocês pagarem aos poucos, num ritmo que consigam suportar.

— Sério? — a desconfiança de Brandon era evidente. — E você tem certeza de que consegue esse dinheiro?

— Se eu consigo ou não, isso é problema meu — eu disse, firme. — Eu resolvo.

Saí da Casa da Matilha Wildfire e fiquei um bom tempo sentada no carro, encarando, através do para-brisa, as torres góticas da propriedade. Então peguei o celular e disquei o número de Skylar.

— Vou vender tudo — eu disse, sem rodeios, quando ela atendeu. — Todas as minhas ações, e também estou pronta para vender o sistema ARIA.

— Seu pai te procurou de novo só para pedir dinheiro, não foi? — disse Skylar, seguida de uma inspiração brusca. — Eu sabia. Eu te disse que, uma hora, ele ia vir atrás de você por dinheiro. Ele quer que você implore ao Ethan por um empréstimo, né?

— Você é esperta — eu disse, apenas.

— Aquele desgraçado! — a voz de Skylar subiu, de raiva. — Todos esses anos você sofreu em casa e ele não se importou nem um pouco. Mas no instante em que ele precisa de alguma coisa, de repente lembra que tem uma filha. O que ele quer? Quanto?

— Cem milhões — eu respondi, baixinho.

A enxurrada de palavrões que veio em seguida me fez afastar o telefone um pouco da orelha. Quando Skylar finalmente ficou sem insultos criativos, eu continuei:

— Esta é a última vez, Sky. Estou comprando a minha liberdade. Vou usar esse dinheiro para acertar cada dívida, inclusive essa suposta bondade de ter me criado.

Skylar ficou em silêncio por um momento e, quando voltou a falar, sua voz estava mais calma, mas carregada de preocupação.

— Deixa eu fazer as contas. Sua carteira de ações deve render uns quarenta e dois milhões se a gente liquidar rápido. O sistema ARIA, se conseguirmos forçar uma venda acelerada, pode trazer mais quarenta milhões. Soma suas economias de quinhentos mil e ainda faltam treze milhões.

Fechei os olhos, recostando no banco de couro. Treze milhões. Tentei pensar no que mais eu poderia vender para cobrir essa diferença.

— Bella, deixa eu ajudar — Skylar insistiu. — Eu posso…

Algo cintilou na minha mente — uma última coisa que eu poderia sacrificar.

— Não — eu a interrompi, firme. — Eu tenho um jeito. Eu vou dar conta.

Skylar suspirou, mas ela sabia que era melhor não discutir.

— Tá. O que você precisa?

— Aquele comprador misterioso que queria comprar o sistema ARIA — eu disse. — Você ainda tem o contato dele?

— Tenho o número da assistente dele — Skylar respondeu. — Vou procurar hoje à noite e ver se consigo acertar alguma coisa.

Encerramos a ligação, e eu dirigi de volta ao território da Matilha Eclipse enquanto o crepúsculo descia sobre a cidade. A propriedade enorme se ergueu à frente, as janelas brilhando com uma luz quente que agora me parecia fria e nada acolhedora.

Fui direto para o meu apartamento, ignorando completamente a casa principal. No meu quarto, parei diante do cofre embutido na parede, com os dedos pairando sobre o teclado. Eu mesma instalara aquele cofre três anos antes, usando protocolos de segurança que nem os melhores especialistas em tecnologia da Matilha Eclipse conseguiriam quebrar. Lá dentro estavam as poucas posses que eu realmente valorizava, as coisas que mantive escondidas de Ethan e da família dele.

Digitei o código de dezesseis dígitos, depois me inclinei para o escaneamento de retina. A pesada porta de titânio se abriu com um silvo suave, revelando o estojo forrado de veludo preto repousando no compartimento mais interno.

Minhas mãos tremeram de leve quando tirei o estojo e o coloquei sobre a escrivaninha. Eu sabia o que havia ali dentro, tinha olhado para aquilo incontáveis vezes ao longo dos anos, mas abri-lo agora parecia diferente. Definitivo.

A coroa reluziu sob a luminária da escrivaninha: ouro de dezoito quilates cravejado com dezenas de diamantes de alta pureza; no centro, um raro diamante rosa de cinco quilates que capturava a luz e a devolvia em fragmentos de arco-íris. Era magnífica, uma obra-prima de ourivesaria, e representava o único gesto genuinamente bondoso que Diana já conseguira fazer sem o conhecimento ou a aprovação de Brandon.

Ela tinha me dado aquilo no meu décimo oitavo aniversário, entrando de fininho no meu quarto tarde da noite, com o estojo de veludo apertado contra o peito. “Isso era para ser da minha filha”, ela tinha sussurrado, lágrimas escorrendo pelo rosto. “Mas você é minha filha, Bella. Sempre foi, não importa o que o Brandon diga.”

Eu tinha usado exatamente uma vez, naquela noite do aniversário, parada sozinha diante do espelho e me sentindo como uma princesa de algum conto de fadas. Depois eu tranquei aquilo, com medo demais da reação do Brandon se ele algum dia descobrisse que um presente tão caro tinha sido dado à filha adotiva dele, em vez de ser guardado para uma futura neta.

Agora eu abri o site de uma casa de leilões no meu laptop e procurei peças comparáveis. Uma coroa semelhante tinha sido vendida no ano passado por 1,2 milhão de dólares. Outra, um pouco menos ornamentada, tinha saído por pouco menos de um milhão. Se eu conseguisse 1,3 milhão por esta, somando com todo o resto, eu teria exatamente o que precisava.

Meu celular vibrou com uma mensagem da Skylar: O comprador quer te encontrar pessoalmente antes de fechar o negócio. Você topa?

Encarei a coroa cintilando sobre a minha mesa e então digitei de volta: Topo.

Três pontinhos apareceram na tela enquanto Skylar digitava a resposta. Então chegou outra mensagem: Amanhã, meio-dia, Moonlight Palace. Sala privativa 222.

Gravei o endereço na memória. Amanhã ao meio-dia, eu venderia o sistema que passei quatro anos desenvolvendo. Depois eu providenciaria uma venda rápida dessa coroa. Entre as ações, o sistema ARIA e o presente da Diana, eu teria meus cem milhões de dólares.

Meu telefone tocou, me sobressaltando. O nome de Diana brilhou na tela.

“Bella, querida”, a voz dela veio suave e preocupada. “Você não precisa mesmo pedir esse dinheiro ao Ethan. Eu vou dar outro jeito. Seu pai só está em pânico, mas a gente vai resolver. Você se concentre em cuidar de você, em manter seu casamento estável. É isso que mais importa.”

“Mãe, nós somos família”, eu disse com delicadeza. “Os seus problemas também são meus.”

“Cem milhões de dólares”, Diana disse, e eu consegui ouvir o desespero na voz dela. “Como você poderia conseguir uma quantia dessas?”

Eu abri a boca para responder, mas me contive. Eu queria contar a verdade, mas não podia correr o risco de o Brandon descobrir.

Brandon sempre teve medo de eu competir com Bryan pelo controle da Moore Industries — e, por extensão, pela liderança da Matilha Wildfire. O sucesso da empresa estava diretamente ligado à força e à influência da matilha. Se eu algum dia assumisse o negócio, a matilha inteira, na prática, ficaria nas minhas mãos. Isso o aterrorizava.

Então ele despejou recursos enormes na educação do Bryan, determinado a transformar o filho mimado num herdeiro capaz. Quanto a mim, Brandon nunca se importou nem um pouco com o meu desempenho acadêmico.

E eu fiz questão de manter assim, escondendo minhas conquistas para evitar as suspeitas dele.

“Mãe, eu—”, comecei a dizer, mas o som de gritos cortou a linha.

“Se escondendo e ligando pra ela pelas minhas costas!”, a voz de Brandon trovejou ao fundo. “Me dá esse telefone!”

“Ela também é nossa filha!”, Diana protestou, e eu ouvi o som de uma briga. “Você não consegue tratar ela com um mínimo de carinho?”

“Carinho?”, a voz de Brandon veio afiada de indignação. “Eu já dei tudo pra ela! Desde o dia em que trouxe essa menina pra esta casa, ela já ficou sem alguma coisa? Comida, roupa, as melhores escolas — ela teve o mesmo que o Bryan!”

“Você deu essas coisas pra manter as aparências”, Diana rebateu. “Pra ninguém dizer que os Moore maltratavam a filha adotiva. Pra ninguém te chamar de sem coração.”

“E daí se foi por isso?”, Brandon rugiu. “O que importa é que eu tratei ela muito bem. Melhor do que ela tinha qualquer direito de esperar.”

“Ela não quer coisas, Brandon”, Diana disse, com a voz falhando. “Ela quer se sentir amada. Quer sentir que realmente pertence a esta família. É pedir demais?”

“Ela devia ser grata pelo que tem”, Brandon retrucou. “Quando eu penso onde ela estaria se eu não—”

“Não.” Diana o interrompeu, a voz de repente feroz. “Não ouse bancar o herói. Se não fosse por você—”

A ligação caiu com um clique seco, e eu fiquei encarando o celular no silêncio repentino.

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