Capítulo 8
Ponto de vista de Bella:
Dirigi pelo centro de Emberhold com os vidros abaixados, deixando o ar do fim da manhã clarear minha cabeça. A rodovia se estendia à frente, relativamente vazia àquela hora, e eu me peguei pegando o celular para ligar para Skylar.
— Oi — ela atendeu no segundo toque. — Você parece animada. O que foi?
— Vendi uma joia hoje de manhã… consegui um milhão e trezentos mil por ela — eu disse, incapaz de esconder a satisfação na voz.
— Pera, o quê? — a voz de Skylar subiu, empolgada. — Bella, isso é incrível! Então, entre isso e as ações, você tem o suficiente pra dívida do Brandon?
— Exatamente — confirmei, pegando a saída em direção ao distrito empresarial. — O um milhão e trezentos mil cobre a diferença perfeitamente. Agora eu só preciso que a ARIA seja concluída, e finalmente vou estar livre.
— Meu Deus, que alívio — Skylar riu. — Eu estava preocupada com aquela parte que faltava. Mas você conseguiu mesmo… eu sabia que você ia conseguir.
— Falando em ARIA — Skylar continuou. — Eu não sei muito sobre esse comprador misterioso, mas pelo que eu consegui levantar, ele não está brincando. A ARIA é o único sistema desse tipo no mercado agora — literalmente não existe nada que possa substituir. Você pode manter o preço firme.
— Quatro milhões — eu disse, firme. — Nem um dólar a menos.
— Isso. Não deixa ele baixar o seu preço. A tecnologia fala por si.
Cheguei ao Moonlight Palace às onze e quarenta.
O prédio se ergueu à frente, todo de vidro e aço, no coração do centro. O Moonlight Palace tinha a reputação de ser um dos locais de negócios mais exclusivos de Emberhold — o tipo de lugar onde acordos de milhões aconteciam no almoço e a discrição era garantida.
Entrei na garagem subterrânea e encontrei uma vaga perto dos elevadores. Meu reflexo me encarava nas portas de cromo polido enquanto eu esperava — o vestido vermelho-escuro que eu tinha escolhido naquela manhã parecia profissional, mas sem rigidez, e eu deixara o cabelo solto, em ondas suaves.
O elevador abriu direto na recepção. Uma recepcionista, num elegante terno preto, levantou os olhos do tablet.
— Bom dia. Tem reserva?
— Sala duzentos e vinte e dois — eu disse. — No nome de Hunt.
Ela conferiu a tela e assentiu.
— Por aqui, por favor.
Empurrei a porta e entrei.
A sala era exatamente o que eu esperava de um lugar como aquele — moderna e minimalista, com paredes cinza-escuras realçadas por detalhes metálicos prateados. Uma mesa oval de reuniões dominava o centro, cercada de cadeiras de couro preto. Arte abstrata pendia das paredes, do tipo que era cara precisamente porque não significava nada. Janelas do chão ao teto ocupavam uma parede inteira, oferecendo uma vista panorâmica do horizonte de Emberhold.
Mas o que chamou minha atenção foi a figura parada junto àquelas janelas, de costas para a porta.
Mesmo de costas, a presença dele era inegável. Devia ter pelo menos um metro e noventa e oito, com ombros largos e uma postura impecável que falava de autoridade natural.
O som da porta se fechando fez com que ele se virasse.
— Olá — eu disse, avançando com a mão estendida. — Eu sou Bella Moore. Vim por causa do sistema ARIA.
Ele cruzou a sala em algumas passadas longas, e eu tive a primeira visão nítida dele. Cabelo loiro-escuro, com cachos soltos; olhos castanho-claros que me avaliavam com atenção cuidadosa. Mandíbula marcada, nariz reto e, quando sorriu, um leve covinha apareceu no canto da boca, suavizando toda a presença dele.
— Victor Hunt — disse ele, com uma voz grave e comedida. Ele pegou minha mão com um aperto firme e profissional. — É bom finalmente conhecer você.
Quando soltou minha mão, ele flexionou os dedos por um instante, num gesto que pareceu nervoso, quase tímido — um contraste estranho com o ar imponente.
— Por favor, sente-se — disse, indicando a mesa de reuniões.
Sentei-me de frente para ele, pousando minha pasta sobre a mesa e tirando meu tablet. Quando levantei o olhar, Victor me observava com uma expressão que eu não consegui decifrar. Ele desviou o olhar depressa.
— Vamos direto ao assunto — ele disse. — A oferta inicial do Hunt Group pela ARIA é de vinte milhões de dólares, com compra total da propriedade intelectual.
Eu não reagi; apenas abri o arquivo de demonstração no tablet e o virei na direção dele.
— Antes de discutirmos preço, deixe eu mostrar exatamente o que você está comprando.
Nos vinte minutos seguintes, eu o conduzi pelas funcionalidades centrais da ARIA. Mostrei os algoritmos de aprendizado adaptativo capazes de analisar e responder a sinais emocionais complexos em tempo real. Demonstrei as aplicações corporativas, abrindo estudos de caso que mostravam melhorias de trezentos por cento na eficiência das operações de atendimento ao cliente, ao mesmo tempo que reduziam os custos de mão de obra em sessenta por cento.
Victor se inclinou para a frente, com a atenção completamente focada na tela.
— O modelo de investimento aqui — eu disse, abrindo minhas projeções financeiras — mostra um retorno de oito para um em três anos. Você investe vinte milhões agora e, no terceiro ano, estamos falando de cento e sessenta milhões em receita. Isso é conservador — acho que os números reais vão ser mais altos.
— Com base em condições ideais de mercado — disse Victor, com os dedos tamborilando de leve na mesa. — Vinte milhões já é uma aposta considerável, srta. Moore.
— Eu não aposto, sr. Hunt — respondi, sustentando o olhar dele com firmeza. — O código-base da ARIA é insubstituível. Não existe mais nada no mercado capaz de igualar a eficiência de custo e a capacidade de adaptação dela. Se você quer revolucionar a divisão de IA empresarial, é assim que você faz.
Ele ficou em silêncio por vários segundos, aqueles olhos castanho-claros analisando meu rosto como se estivesse tentando resolver uma equação. Então aquele sorrisinho apareceu de novo, o da covinha.
— Quatro milhões — ele disse. — Fechado.
— Mas tenho uma condição — Victor continuou, enfiando a mão no paletó. — O sistema vai precisar de manutenção e atualizações contínuas. Quero que você cuide disso pessoalmente. O Hunt Group vai pagar uma taxa separada de consultoria técnica.
Ele tirou um cartão de visitas — papel grosso, com letras douradas em relevo — e o deslizou pela mesa.
— Vá à sede do Hunt Group na próxima segunda-feira. Assinamos os contratos oficiais lá.
Peguei o cartão, passando o polegar sobre as letras altas do nome dele. — Para mim, funciona.
— Ótimo. — Ele olhou o relógio. — Tenho outra reunião em duas horas, mas eu gostaria de continuar essa conversa, se você tiver tempo. A área de IA está evoluindo rápido — eu teria interesse em ouvir sua opinião sobre para onde isso está indo.
Eu deveria ter ido embora. Já tinha conseguido o que vim buscar. Mas alguma coisa no jeito como ele perguntou — curiosidade genuína, e não aquele networking vazio — me fez assentir.
— Tenho tempo.
O que eu esperava que fosse uma troca profissional breve virou uma discussão de uma hora, que foi de frameworks de deep learning a arquitetura de redes neurais e protocolos de cibersegurança. Victor não só entendia teoria de IA — entendia num nível que batia com o meu. Ele desafiou minhas premissas, propôs alternativas que eu não tinha considerado e, de algum jeito, me fez pensar mais sobre o meu próprio trabalho do que eu vinha pensando havia meses.
— Sabe — eu disse em certo momento, recostando na cadeira com uma admiração sincera —, conversar com você me faz perceber o quanto eu ainda tenho a aprender. É… humildante.
A expressão de Victor mudou — algo que podia ser surpresa ou, talvez, satisfação. — Isso é recíproco, srta. Moore. Sua abordagem para algoritmos adaptativos é brilhante. Eu venho trabalhando em problemas parecidos há anos e nunca cheguei a resolvê-los exatamente do jeito que você resolveu.
A conversa fluiu com naturalidade, jargão técnico misturado com um entusiasmo verdadeiro pelo trabalho em si. Eu me vi relaxando de um jeito que não relaxava havia anos, falando com alguém que realmente entendia o que eu fazia sem precisar que eu explicasse ou simplificasse.
Então o tom de Victor mudou um pouco, ficando mais casual.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
— Por que não vender a ARIA para o seu marido? — Ele observou minha reação com cuidado. — Pelo que eu sei, a Grave Industries também está investindo pesado em desenvolvimento de IA. Parece que seria a escolha óbvia.
Estendi a mão para a xícara de café, usando o movimento para esconder o breve lampejo de amargura nos meus olhos.
— Um bom trabalho deveria pertencer a pessoas que realmente o entendem — eu disse, tomando um gole antes de pousar a xícara. — Além disso, de que outro jeito eu conseguiria cobrar quatro milhões de dólares? Não dá exatamente para negociar com a família.
Victor sorriu. — Justo.
Ele olhou o relógio e se levantou.
— Eu devia te liberar. Mas obrigado por essa conversa. Foi esclarecedora.
— Obrigada — eu disse, juntando minhas coisas. — Estou ansiosa para trabalhar com o Hunt Group.
Fomos juntos até a porta. Quando eu já estava prestes a sair, Victor falou de novo.
— Srta. Moore? Mais uma coisa.
Eu me virei.
— Não se subestime — ele disse, sério. — A ARIA vale cada centavo desses quatro milhões, e provavelmente mais. Você construiu algo notável.
A sinceridade na voz dele me pegou desprevenida. Consegui esboçar um sorrisinho.
— Eu agradeço.
As portas do elevador se abriram e eu entrei, puxando o celular enquanto descia. Várias chamadas perdidas de Ethan. Deslizei a tela para ver as mensagens.
Atende o telefone, Bella. Essa atitude precisa acabar.
Você pegou a Brianna?
Me liga de volta. Agora.
A Brianna ainda não chegou em casa e não está atendendo. Que porra é essa, onde você está?
Se acontecer alguma coisa com a minha irmã, a culpa é sua.
