Capítulo 10 VOLTEI !
MANDRAKE NARRANDO
O último sábado chegou, mas, dessa vez, só tive um horário de visita.
Confesso que aproveitei cada minuto.
A loira apareceu como sempre, com suas sacolas, aquele jeito debochado e uma disposição que parecia não acabar nunca. A visita foi tranquila, sem discussão e sem nenhuma daquelas respostas atravessadas que ela gostava de me dar quando eu resolvia provocar.
Eu até estava pensando em conversar com ela sobre continuar vindo no mês seguinte.
Afinal, a companhia da garota era boa, a gente se entendia e eu já estava acostumado com aquela rotina. Não tinha motivo para fingir que não gostava de tê-la por perto.
Só que a vida resolveu mudar meus planos.
Meu advogado entrou em contato comigo, trazendo a notícia que eu estava esperando havia semanas.
Meu alvará tinha saído.
Eu estava livre.
Depois de tanto tempo atrás das grades, finalmente poderia voltar para a rua, respirar sem aquela sensação de estar preso a cada minuto e retomar as coisas que ficaram pendentes.
A notícia foi melhor do que qualquer visita.
Quando deixei aquele lugar para trás, senti como se estivesse tirando um peso enorme das costas. Não era apenas a liberdade física. Era a possibilidade de voltar a organizar minha vida do meu jeito, rever meus parceiros e descobrir o que tinha mudado durante minha ausência.
E, quando finalmente cheguei ao meu morrão, precisei admitir uma coisa.
Como eu senti falta desse lugar!
Estava tudo na maior movimentação. A rapaziada circulava, as conversas se espalhavam pelas esquinas e a música vinha de diferentes direções. As pessoas me cumprimentavam, algumas paravam para trocar uma ideia e outras apenas acenavam de longe.
O ambiente parecia familiar, como se eu nunca tivesse saído dali.
Respirei fundo, deixando aquele sentimento de pertencimento tomar conta de mim.
Minha casa.
Meu lugar.
Minha vida estava começando outra vez.
Claro que ainda havia problemas para resolver, responsabilidades e decisões importantes pela frente. Eu não tinha esquecido nada disso. Mas, naquele momento, queria apenas aproveitar a sensação de estar de volta.
Foi quando avistei Vaguinho vindo na minha direção.
O menor estava com aquela energia de sempre, falando com um, cumprimentando outro e parecendo ter três corpos para dar conta de tudo.
Assim que me viu, abriu um sorriso enorme.
— Aí, viado! Finalmente voltou, hein! Está curtindo sua liberdade de boa?
Apertei sua mão e o puxei para um abraço.
— Estou suave, menor. E tu? Como estão as coisas por aqui?
— Tudo na disciplina, chefe. Pode ficar tranquilo.
Observei o rapaz por alguns segundos.
Durante minha ausência, ele tinha segurado muita coisa, cuidado das responsabilidades e mantido a organização dentro do que precisava ser feito. Eu sabia que não era fácil assumir tantas tarefas, principalmente com a pressão de ter que resolver problemas que antes ficavam sob minha responsabilidade.
— Soube que tu segurou a bronca enquanto eu estava fora — falei. — Valeu pela disciplina. Não tenho nada para reclamar.
Vaguinho abriu um sorriso satisfeito.
— Tamo junto, chefe! Fiz o que tinha que fazer.
Continuamos conversando, colocando os assuntos em dia. Eu queria saber das novidades, das mudanças e de tudo o que tinha acontecido durante os meses em que estive longe.
Em determinado momento, perguntei:
— Mas fala aí, menor. Tu estava aonde que sumiu a tarde toda?
Ele começou a rir antes mesmo de responder.
— KKKKKKK! Aí, viado, estou todo quebrado!
Franzi a testa.
— Que porra tu arrumou agora?
— A Luna, chefe!
Pronto.
Bastou ouvir aquele nome para minha atenção mudar de direção.
— O que tem a loira?
Vaguinho passou a mão pelo rosto, ainda rindo.
— A mandada estava de folga hoje e comprou uma cômoda para a casa dela. Só que os caras não quiseram mandar montador porque ficaram com medo de subir aqui. Aí a doida me chamou para ajudar a montar a parada!
Não consegui segurar a gargalhada.
— Tu está de sacanagem comigo!
— Queria eu! Passei a tarde inteira montando aquela desgraça. A mulher não parava quieta, perguntava se estava certo, dizia que a gaveta estava torta e ainda queria ajudar. Não dou conta daquela garota, não, porra!
Comecei a rir ainda mais.
Eu conseguia imaginar a cena perfeitamente.
Luna provavelmente tinha ficado andando de um lado para o outro, dando opinião sobre cada parafuso e fiscalizando o serviço como se Vaguinho fosse funcionário contratado por ela.
Aquela garota não sabia ficar quieta nem para montar um móvel.
— E tu foi fazer isso por quê? — perguntei, ainda divertido. — Virou montador agora?
— Ah, vai se lascar, chefe! A menina precisava de ajuda. Eu ia deixar a coitada tentando montar aquilo sozinha?
Dei de ombros, fingindo indiferença.
— Sei.
Vaguinho me olhou com desconfiança.
— Qual foi?
— Nada.
— Tu está com uma cara estranha, viado.
— Minha cara é essa.
Ele começou a rir novamente.
— Está bom, Mandrake. Vou fingir que acredito.
Olhei ao redor, procurando discretamente pela loira.
Desde que tinha chegado, ainda não a tinha visto.
— E a Luna? Não vi ela desde que voltei.
Vaguinho arqueou as sobrancelhas, e o sorriso debochado apareceu imediatamente.
— Ih, chefe! Já está procurando a loira?
Lancei um olhar atravessado na direção dele.
— Estou perguntando porque quero saber das pessoas que conheço, porra!
— Sei, sei…
— Vaguinho!
— Parei, chefe! KKKKK!
O menor parecia se divertir cada vez mais com aquela situação.
Depois de alguns segundos, respondeu:
— Se quiser encontrar ela, brota lá na base dela. A garota quase não fica andando à toa. Normalmente sai para ir a algum baile ou pagode, mas vive ocupada com o trabalho e as coisas da casa. É gente boa, na disciplina.
Assenti, fingindo que aquela informação não tinha importância.
— Tu elogia tanto essa garota que parece até estar a fim dela.
Vaguinho soltou uma gargalhada tão alta que algumas pessoas olharam em nossa direção.
— Eu? Está maluco, chefe? Tenho a Luna como uma irmã, tá ligado? Ajudo porque gosto dela e porque sei que a garota está correndo atrás das coisas dela. Mas não passa disso.
Ele fez uma pausa e abriu um sorriso ainda maior.
— Até porque sou afinzão da Mônica.
Balancei a cabeça.
— Ah, então está explicado. O menor tem interesse na amiga e fica usando a outra como desculpa para aparecer na casa dela!
— Vai se lascar, Mandrake! — respondeu, rindo. — O senhor acabou de sair da cadeia e já voltou querendo cuidar da vida dos outros?
— Estou só observando, menor.
— Observa a sua, então!
Começamos a rir, e a conversa seguiu por mais algum tempo. Vaguinho me contou outras novidades, falou sobre as mudanças que tinham acontecido e depois precisou sair para resolver seus próprios assuntos.
Fiquei ali, aproveitando minha liberdade.
A noite estava agradável, a música tocava e a movimentação não diminuía. Algumas garotas se aproximaram para cumprimentar, outras puxaram conversa e logo a minha volta ficou cheia de gente.
Uma das novinhas sentou ao meu lado, outra tentou chamar minha atenção e uma terceira começou a brincar comigo, perguntando se eu tinha sentido saudade dali.
— Claro que senti, pô! — respondi, rindo. — Vocês acham que ficar preso é passeio turístico?
Ela gargalhou.
— Então vai ter que compensar o tempo perdido, Mandrake!
— Calma, garota! Acabei de chegar!
Continuei conversando, tranquilo, sem pressa de fazer nada além de aproveitar a noite.
Até que, pelo canto do olho, vi uma figura conhecida passando pela rua.
Shortinho.
Cabelo loiro.
Passo despreocupado.
Era ela.
Luna.
A garota caminhava na direção da sorveteria, aparentemente concentrada no próprio destino. Quando nossos olhares se encontraram, pensei que ela fosse pelo menos acenar ou se aproximar para perguntar alguma coisa.
Mas não.
A loira simplesmente virou o rosto e continuou andando, como se eu fosse um desconhecido qualquer.
Fiquei olhando para ela por alguns segundos.
Ah, não!
A garota estava de brincadeira comigo.
Eu tinha acabado de sair da cadeia, estava de volta ao meu lugar e ela nem sequer tinha parado para me cumprimentar?
Não que eu estivesse esperando uma recepção especial.
Mas um simples boa-noite não matava ninguém!
Continuei sentado, tentando não demonstrar que tinha percebido a atitude. Afinal, não ia ficar chamando a atenção de todo mundo por causa de uma mulher que estava apenas seguindo seu caminho.
Pouco depois, Luna saiu da sorveteria com um pote nas mãos.
E foi aí que a situação ficou ainda mais interessante.
Por onde passava, os caras olhavam para ela. Alguns cumprimentavam, outros sorriam e havia até quem tentasse puxar conversa.
A loira parecia não perceber metade da atenção que recebia.
Ou fingia muito bem.
Eu acompanhei a cena por alguns instantes, sentindo uma irritação que não fazia o menor sentido.
Qual era o problema dela?
Na última visita, tinha conversado comigo durante horas, contado histórias do trabalho, rido das minhas provocações e até dormido perto de mim como se estivesse na própria casa.
Agora, bastava me ver na rua para agir como se nunca tivéssemos trocado uma palavra.
Que mulher complicada!
Uma das garotas ao meu lado percebeu que eu estava olhando para outra direção.
— Está procurando alguém, Mandrake?
Desviei o olhar imediatamente.
— Não. Por quê?
Ela sorriu, desconfiada.
— Nada. Só perguntei.
Voltei minha atenção para a conversa, decidido a não dar importância à atitude de Luna.
Eu estava livre, tinha acabado de voltar para casa e não precisava ficar correndo atrás de ninguém.
Se ela queria fingir que eu não existia, problema dela.
Eu também sabia fazer o mesmo.
A noite continuou animada, e procurei aproveitar cada momento. Conversei com os parceiros, ouvi as novidades e tentei me concentrar naquilo que realmente importava.
Mas, de vez em quando, meus olhos procuravam involuntariamente a loira no meio da movimentação.
E aquilo começou a me irritar ainda mais.
Eu tinha passado meses esperando pela liberdade e, agora que finalmente estava de volta, estava perdendo tempo pensando em uma garota que nem tinha me dado boa-noite.
— Ah, vai se lascar, Luna! — murmurei, pegando minha bebida.
Dei um gole e voltei a conversar, fingindo que estava tudo tranquilo.
Só que uma coisa era certa.
A loira podia até fingir que eu era um desconhecido.
Mas eu ainda queria saber por que ela tinha feito aquilo.
E, conhecendo aquela garota, eu desconfiava de que a resposta não seria nada simples.
O pior?
Uma parte de mim estava começando a gostar daquele desafio.
