Capítulo 2 VINTE MIL MOTIVOS!

— Ai, garota, você tem tanta coisa! Credo, eu não aguento mais subir essa escadaria! Deus é mais! Estou ficando toda suada!

Sabrina parou no meio da escada, apoiando uma das mãos no joelho enquanto tentava recuperar o fôlego. A outra segurava uma mala que, segundo ela, pesava mais do que todos os pecados da humanidade juntos.

Olhei para trás e segurei a risada.

— Ai, Sabrina, como você é reclamona! Anda logo, mulher! Vem terminar de me ajudar. Faltam só duas malas!

— Só duas malas? — Ela arregalou os olhos, indignada. — Luna, você está se mudando ou está planejando fugir do país?

— Estou me mudando, criatura. Quer que eu leve o quê? Uma escova de dentes e a roupa do corpo?

— Por mim, você levava só a roupa do corpo. Ia economizar bastante espaço e poupar minhas pernas.

Comecei a rir enquanto puxava a última mala alguns degraus acima.

Depois de muito esforço, reclamação e ameaças de abandono por parte da minha querida amiga, finalmente conseguimos chegar ao meu novo endereço. Eu estava determinada a começar uma nova fase da minha vida, e nada melhor do que sair da casa dos meus pais para dar o primeiro passo.

Ou, pelo menos, era isso que eu repetia para mim mesma enquanto tentava ignorar o fato de que ainda havia caixas espalhadas pela sala.

Sabrina largou a mala no chão e passou a mão pelos cabelos.

— Pronto! Acabou! Agora, se você inventar de se mudar novamente, vai contratar uma empresa. Eu não nasci para ser carregadora de móveis.

— Anotado, princesa. Quer que eu mande fazer uma plaquinha para você colocar na testa?

— Quero. E escreve também que sou uma mulher delicada, que merece ser tratada como uma rainha.

— Rainha do drama, só se for!

Ela me mostrou o dedo do meio, e eu caí na gargalhada.

De repente, Sabrina pegou o celular e olhou a própria imagem na tela. Sua expressão mudou imediatamente.

— Ai, meu Deus! O Vaguinho vai passar aqui daqui a pouco e eu estou horrorosa! Você me paga, Luna!

Cruzei os braços, apoiando o quadril na parede.

— KKKKKKK! Vão se assumir quando, hein? Porque esse chove e não molha de vocês existe desde quando conheci os dois. Já estou cansada desse romance que nem começa nem termina!

Sabrina virou para mim com uma expressão assassina.

— Vai arrumar uma piroca para sentar, garota! Cuida da sua vida!

— Ih, ficou nervosinha! Acertei na ferida?

— Você é insuportável!

Antes que eu pudesse responder, uma buzina soou do lado de fora.

Sabrina arregalou os olhos e correu para a janela.

— Ai, meu Deus! É ele! Você me paga, Luna!

— Vai lá, mulher! Seu príncipe chegou!

— Cala a boca!

Ela saiu praticamente voando para o banheiro, e eu precisei me apoiar na parede para não cair de tanto rir.

Poucos minutos depois, ouvi outra buzina.

Caminhei até a entrada e abri a porta.

— ESTÁ ABERTOOOO! ENTRA AÍ!

Vaguinho apareceu com aquele sorriso debochado de sempre, usando uma camisa larga, bermuda e chinelos. Parecia que tinha acabado de sair de um passeio tranquilo, e não de resolver os problemas de metade do morro.

Ele olhou para as malas espalhadas pela sala.

— Caramba! Trouxe a pista toda para cá?

Revirei os olhos.

— Ai, garoto, até você? Já não basta a Mônica reclamando na minha cabeça! Mas ainda bem que você veio. Quero te perguntar uma coisa.

Vaguinho entrou, cumprimentou-me e se jogou no sofá como se estivesse na própria casa.

— Manda o papo rápido, porque tenho que voltar para a boca.

Sentei na poltrona à frente dele, tentando organizar as palavras.

— Você sabe onde consigo um emprego aqui no morro?

Ele me olhou com mais atenção.

— Emprego? Que tipo de emprego?

— Ah, sei lá! Um trabalho que me dê dinheiro. Pode ser numa loja, num salão, numa lanchonete… Estou precisando começar a ganhar o meu. Quero me organizar, pagar minhas coisas e não depender de ninguém.

Vaguinho coçou o queixo, pensativo.

— Cara, não sei te dizer um lugar certo agora. Posso olhar essa meta para tu, mas tenho uma proposta parada há um mês. E vai te render vinte mil.

Arregalei os olhos.

— Vinte mil?!

— Isso mesmo.

Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando entender se tinha ouvido direito.

Vinte mil reais.

Na minha cabeça, o dinheiro já estava dividido entre aluguel, compras, roupas, contas e uma pequena reserva para emergências. Pela primeira vez desde que começara a planejar minha independência, senti que talvez pudesse dar um passo muito maior do que imaginava.

Mas havia uma coisa que precisava ficar clara.

— Olha aqui, Vaguinho, já vou avisando: eu não vou levar droga para ninguém, hein!

Ele soltou uma gargalhada e balançou a cabeça.

— Vou te dar uma carnetada, abusada! Fica quieta e me escuta antes de sair falando besteira.

— Ué, estou perguntando! Hoje em dia, quando alguém aparece oferecendo vinte mil assim, eu já fico desconfiada.

— E está certa em desconfiar. Mas deixa eu terminar.

Vaguinho se ajeitou no sofá e ficou sério.

— Tu sabe que o dono do morro está preso há um ano, né?

Assenti devagar.

Eu sabia quem ele era de ouvir falar, embora nunca tivesse tido contato direto com aquele homem. Seu nome circulava pelas conversas, e todo mundo parecia conhecer alguma história envolvendo seu poder, seu temperamento ou as coisas que aconteciam sob suas ordens.

— Então — Vaguinho continuou. — Ele está precisando de uma visita íntima. É um esquema de quatro sábados, durante um mês. Ele não costuma repetir as mesmas mulheres, e a maioria das minas daqui já foi. Além disso, ele não quer nenhuma delas de novo. Está difícil encontrar alguém que aceite.

Meu sorriso desapareceu aos poucos.

— Peraí… Você está me dizendo que quer que eu vá visitar um homem preso?

— É exatamente isso.

Olhei para ele, depois para a porta, como se pudesse encontrar uma resposta escrita em algum lugar.

— Vaguinho, eu nem conheço esse cara!

— Eu sei, Luna. Por isso estou te explicando. São vinte mil pelo mês. Tu consegue se organizar, pagar suas coisas e ter um dinheiro guardado. E ele está perto de sair também.

Passei a mão pelo rosto.

Vinte mil reais.

Quatro sábados.

Um homem que eu nunca tinha visto pessoalmente.

A proposta parecia simples quando colocada daquela maneira, mas havia alguma coisa que me deixava inquieta. Eu não sabia como ele era, como se comportava ou o que esperava de uma mulher que aceitasse aquele acordo.

E, por mais que eu gostasse de me aventurar, não era maluca a ponto de entrar em qualquer situação sem pensar.

— Não sei se isso vai dar certo, Vaguinho. Nunca fiz uma coisa dessas. Nem sequer vi esse homem de perto!

Nesse momento, Mônica apareceu na sala, atraída pela conversa. Ela tinha o péssimo hábito de surgir justamente quando alguém estava prestes a tomar uma decisão importante.

— Relaxa, mulher! Você vai tirar isso de letra! Está precisando de dinheiro, e um mês passa rapidinho. Quatro sábados voam!

Virei a cabeça lentamente para ela.

— Nossa, obrigada pela análise profunda, doutora. Quase me formei em economia só de te ouvir.

Mônica revirou os olhos.

— Ah, vai se catar! Estou tentando ajudar!

— Percebi. Quase chorei com tanta sensibilidade.

Vaguinho riu, balançando a cabeça.

— Vocês duas não conseguem ficar cinco minutos sem se provocar, né?

— Ela começou! — respondemos juntas.

Nos encaramos por um instante e caímos na risada.

Mas, assim que o silêncio voltou, minha atenção se concentrou novamente na proposta.

Eu precisava de dinheiro. Queria minha independência e não estava disposta a voltar atrás no que havia planejado. Por outro lado, não queria trocar a liberdade que tanto desejava por uma situação que pudesse me trazer problemas.

— E para quando seria isso? — perguntei.

Vaguinho pegou o celular, conferiu alguma coisa e respondeu:

— Preciso da tua resposta hoje para agilizar a carteirinha. A visita é sábado já.

— Sábado? — Olhei para ele, incrédula. — Você está me dizendo isso numa terça-feira e quer que eu decida hoje? Não existe um prazo para a pessoa respirar, não?

— Existe. Mas eu preciso resolver isso logo.

Mordi o lábio, pensando.

Quatro sábados.

Vinte mil reais.

Era dinheiro suficiente para me dar um bom começo, mas eu ainda precisava saber exatamente como funcionaria aquela visita, quais seriam as condições e o que esperariam de mim.

Não queria aceitar algo tão importante apenas porque estava empolgada com a quantia.

— Antes de confirmar, quero saber como vai funcionar. Não vou entrar em nada sem entender as regras, ouviu?

Vaguinho assentiu.

— Justo. Eu volto com as informações e com a lista das coisas que tu precisa levar. Mas preciso saber se posso dar andamento à papelada.

Olhei para Mônica, que me encarava com uma expressão de quem já estava imaginando o que faria com a própria parte do dinheiro, mesmo sem ter sido convidada para nada.

— Para de me olhar assim! — reclamei.

— Assim como?

— Como se você fosse receber comissão!

Ela começou a rir.

Respirei fundo e voltei a olhar para Vaguinho.

Eu queria minha independência. Queria deixar de depender dos meus pais, construir minha própria vida e provar a mim mesma que conseguia me virar. Aquela oportunidade tinha surgido justamente quando eu mais precisava de uma saída.

Ainda assim, eu sabia que precisava agir com cuidado.

— Tá. Pode dar andamento, mas quero todas as informações antes de sábado. Não vou às cegas.

Vaguinho abriu um sorriso satisfeito.

— Fechou. Depois volto aqui com tudo que tu precisa saber.

Ele se levantou, despediu-se de nós e caminhou até a porta.

— Valeu, Luna. E pensa direito, hein!

— Pode deixar!

Assim que ele saiu, fiquei parada no meio da sala, olhando para o nada.

Mônica se aproximou lentamente.

— Amiga…

— Nem começa.

— Eu nem falei nada!

— Mas eu conheço essa sua cara.

Ela segurou meu braço, tentando conter o sorriso.

— Tu percebeu que pode estar prestes a viver a história mais doida da tua vida?

Soltei uma risada nervosa.

— Percebi. E o pior é que nem sei se estou animada ou se preciso de um psicólogo.

Sabrina apareceu no corredor, já arrumada e com o cabelo ajeitado.

— Psicólogo para quê?

Olhei para ela, depois para Mônica.

As duas começaram a rir.

— Gente, eu vou embora por cinco minutos e vocês aprontam o quê?

Balancei a cabeça, tentando encontrar as palavras certas para explicar a situação.

Mas, antes mesmo de abrir a boca, uma certeza começou a tomar forma dentro de mim.

Minha vida estava prestes a mudar.

Eu só não sabia se aqueles vinte mil reais seriam a minha melhor oportunidade ou o começo de uma confusão gigantesca.

E, conhecendo a minha sorte, havia uma boa chance de serem as duas coisas.

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