Capítulo 3 A LOIRA AMIGA DO VAGUINHO
MANDRAKE
Eu estava suavão no pavilhão, sem muita coisa para fazer além de esperar o tempo passar, quando meu celular vibrou com uma mensagem do Vaguinho.
Peguei o aparelho e li o que meu parceiro tinha mandado.
A parada estava certa. A mina já estava a caminho.
Só isso.
Nem o nome da criatura aquele desgraçado teve a consideração de me passar!
Franzi a testa e respondi perguntando quem era, mas ele não deu sinal de vida. Fiquei olhando para a tela por alguns segundos, esperando outra mensagem, até desistir e jogar o celular de lado.
— Ah, Vaguinho, tu gosta de me testar, hein, filha da mãe! — resmunguei.
Não era questão de ser chato. Eu simplesmente não tinha paciência para certas situações.
As minas daqui do complexo tinham uma mania que me tirava do sério. Tu ficava com uma delas uma vez, tudo tranquilo, cada um seguia sua vida. Agora, bastava repetir a dose que algumas já começavam a agir como se tivessem recebido uma aliança e um pedido de casamento.
Era mensagem de bom-dia, cobrança de atenção, pergunta sobre outras mulheres e, quando eu menos esperava, já tinha alguém querendo saber quando eu ia assumir um relacionamento.
Pelo amor de Deus!
Eu estava preso, caralho. Ia arrumar uma fiel para quê?
Faltavam dois meses para eu sair, e minha cabeça estava ocupada com outras coisas. Precisava organizar minha vida, resolver algumas pendências e entender como seria minha volta para a rua. Não estava procurando compromisso nem prometendo futuro para ninguém.
As visitas, por outro lado, ajudavam a quebrar a monotonia daquele lugar.
Quem vive aqui dentro sabe que os dias podem parecer todos iguais. Acordar, comer, conversar com os mesmos caras, ouvir as mesmas histórias e esperar pelas notícias de fora. Qualquer mudança na rotina acaba chamando a atenção.
Por isso, quando o carcereiro apareceu para avisar que eu tinha visita, levantei sem perder tempo.
Como a visita já estava previamente organizada, não precisei ficar esperando na fila. Segui pelo corredor até a sala reservada, tentando imaginar quem Vaguinho tinha conseguido convencer dessa vez.
Só esperava que não fosse alguma conhecida querendo inventar história depois.
Quando abri a porta, encontrei uma loira de costas.
E, porra…
O cabelo da garota era enorme, caindo pelas costas até quase chegar à bunda. Ela estava ocupada organizando algumas sacolas sobre a mesa e parecia tão concentrada que nem percebeu minha entrada imediatamente.
Fechei a porta.
O barulho fez com que ela se virasse.
Foi aí que parei por um instante.
Eu conhecia aquele rosto.
Tinha certeza disso.
Fiquei tentando puxar a lembrança, observando os traços delicados, os olhos atentos e a expressão de quem estava tentando parecer tranquila, embora não estivesse conseguindo muito bem.
Onde eu já tinha visto aquela garota?
— Qual é teu nome, garota? — perguntei, aproximando-me da mesa.
Ela ajeitou o cabelo atrás da orelha.
— Luna. Sou amiga do Vaguinho e da Mônica. Eu morava em outro lugar, mas agora estou na Penha.
Luna.
Foi só ela mencionar os nomes que a lembrança apareceu.
Caralho! Era a loira que eu costumava ver nos bailes, quase sempre acompanhada da Mônica. Eu já tinha cruzado com ela algumas vezes, mas nunca havíamos conversado de verdade.
Olhei para ela novamente, agora reconhecendo o rosto.
— Ah, tá explicado. Já te vi nos bailes com a Mônica.
— Imaginei que já tivesse me visto por aí — respondeu ela, tentando disfarçar o nervosismo.
Não comentei mais nada. Fui até a mesa e examinei as sacolas.
— Trouxe o rango?
— Trouxe. Fui eu que fiz.
Olhei para ela por um segundo.
— Foi tu?
— Foi. Algum problema?
A resposta veio mais rápida do que eu esperava.
Quase sorri.
A garota podia estar nervosa, mas pelo visto não tinha perdido a língua.
— Problema nenhum, garota. Só perguntei.
Abri as sacolas e encontrei a comida cuidadosamente embalada. O cheiro estava bom, então me sentei e comecei a comer.
Naquela manhã, eu já tinha conseguido organizar meus horários, e a visita tinha sido marcada para um momento em que eu estava mais tranquilo. Aproveitei para comer sem pressa, porque a comida feita por alguém de fora sempre tinha um gosto diferente daquele a que eu estava acostumado.
E, para minha surpresa, estava boa pra caralho.
A loira sabia cozinhar.
Não falei nada, claro. Não ia ficar distribuindo elogios por aí como se tivesse descoberto o sentido da vida depois de experimentar um prato de comida.
Continuei comendo enquanto ela permanecia sentada do outro lado da mesa, mexendo nos dedos e olhando para os lados de vez em quando.
Era evidente que estava desconfortável.
Eu não precisava ser nenhum especialista para perceber.
A garota não sabia onde colocar as mãos, não sustentava meu olhar por muito tempo e parecia estar tentando adivinhar o que aconteceria em seguida.
Primeira visita, pensei.
Não era difícil chegar a essa conclusão.
Terminei de comer, limpei a boca e me levantei. Ela acompanhou meus movimentos com os olhos, ficando ainda mais quieta.
— Tu está nervosa? — perguntei.
— Um pouco.
— Um pouco? Parece que está esperando uma prova de matemática.
Ela me lançou um olhar atravessado.
— Engraçadinho você, hein?
Dessa vez, deixei escapar uma risada curta.
— Às vezes.
— Imagino que seja insuportável na maior parte do tempo.
Olhei para ela, surpreso com a resposta.
— Olha só! A garota está começando a se soltar.
— Não se empolga.
Balancei a cabeça, divertido.
Pelo menos ela não era daquelas que ficavam concordando com tudo o que eu dizia. Eu gostava de gente que sabia responder, desde que entendesse os limites e não confundisse brincadeira com falta de respeito.
Ainda assim, havia uma questão que eu precisava deixar clara.
A visita tinha sido combinada por Vaguinho, e eu não conhecia Luna o suficiente para saber como ela estava encarando aquela situação. Não queria passar o tempo inteiro lidando com constrangimento, nem transformar aquele encontro numa discussão.
— Escuta, garota — comecei, apoiando as mãos na mesa. — Não precisa ficar tentando adivinhar o que eu estou pensando. Se tiver alguma coisa que tu queira perguntar, pergunta logo.
Ela ergueu o rosto.
— E se eu perguntar e você não gostar?
— Aí eu respondo que não gostei. Não sou adivinho.
Luna soltou uma risadinha, parecendo relaxar um pouco.
— Você sempre fala desse jeito?
— Desse jeito como?
— Como se estivesse brigando com alguém até quando está conversando normalmente.
Pensei por um instante.
— Talvez.
— Nossa, que homem agradável.
— E tu fala demais para quem acabou de chegar.
Ela cruzou os braços.
— Pronto. Agora estamos quites.
Aquela resposta me arrancou outra risada.
Eu não esperava que a visita fosse tão diferente. Na minha cabeça, Vaguinho mandaria alguma garota que já conhecesse aquele ambiente, alguém que soubesse exatamente o que esperar e que não ficasse constrangida com a situação.
Mas Luna era outra história.
Tinha um jeito espontâneo, uma expressão que entregava seus pensamentos e uma língua afiada que aparecia sempre que eu a provocava.
E, mesmo nervosa, continuava ali, tentando manter a postura.
Olhei para o relógio e depois voltei a atenção para ela.
Não fazia sentido fingir que éramos íntimos quando mal nos conhecíamos. Eu não sabia o que ela esperava de mim, assim como ela provavelmente não fazia ideia do que esperar de um homem que passara tanto tempo preso.
— Luna, tu sabe que pode falar comigo se estiver desconfortável com alguma coisa, né?
Ela pareceu surpresa com a pergunta.
— Sei.
— Então pronto.
O silêncio que veio depois foi diferente dos anteriores. Já não parecia tão pesado, embora ainda existisse uma certa tensão entre nós.
Eu não sabia se voltaria a encontrar aquela garota depois daquele dia. Também não tinha motivos para imaginar que uma simples visita pudesse mudar alguma coisa na minha rotina.
Para mim, era apenas mais uma tarde dentro daquele lugar.
Só que, quando Luna voltou a me olhar e soltou um sorriso discreto, percebi que talvez aquela visita não fosse tão comum quanto eu tinha imaginado.
E isso, sinceramente, me deixou curioso.
Curioso para saber como uma garota que parecia tão determinada a conquistar a própria independência tinha acabado sentada diante de mim.
Curioso para entender por que Vaguinho havia escolhido justamente ela.
E, principalmente, curioso para descobrir se aquela língua afiada continuaria funcionando tão bem quando eu resolvesse provocá-la de verdade.
Dois meses.
Era o tempo que faltava para eu sair dali.
Eu só precisava manter a cabeça no lugar até lá.
Pelo menos, era o que eu pensava antes de conhecer Luna de verdade.
