Capítulo 4 QUEM ESSE HOMEM PENSA QUE É?
LUNA
Quando entrei naquela sala, não tinha ninguém me esperando.
Ainda bem, porque eu precisava de alguns minutos para respirar e organizar meus pensamentos. Eu já tinha ouvido as explicações da Mônica sobre como funcionavam as visitas, mas uma coisa era escutar as histórias dos outros; outra, completamente diferente, era estar ali, prestes a conhecer um homem que eu nunca tinha visto de perto.
Vinte mil reais, Luna.
Repeti mentalmente o valor algumas vezes, como se isso fosse me dar coragem.
Eu precisava do dinheiro, queria minha independência e tinha aceitado aquela proposta sabendo que não seria um passeio no shopping. Mesmo assim, não conseguia evitar o nervosismo.
Fiquei sentada, mexendo nos dedos, até ouvir a porta se abrir.
Levantei o rosto.
Eita, minha nossa senhora!
O homem que entrou era moreno, alto, tinha os braços tatuados, um olhar intenso e uma voz grossa que parecia preencher a sala inteira. Era bonito de um jeito irritantemente convencido, daqueles que provavelmente estavam acostumados a perceber o efeito que causavam nas mulheres.
Meu cérebro, que até então estava ocupado tentando me convencer de que tudo daria certo, resolveu fazer uma pausa para admirar o cidadão.
Ah, pronto, Luna! Era só o que faltava.
Eu precisava manter o foco. Estava ali por um acordo, não para ficar reparando na aparência do homem.
Ele fechou a porta, olhou para mim e perguntou meu nome. Depois de algumas palavras, percebi que já tinha me visto pelos bailes com a Mônica.
A conversa foi curta, mas suficiente para eu notar que Mandrake tinha um jeito provocador. Parecia gostar de testar a paciência das pessoas só para ver como elas reagiam.
E eu, infelizmente, não era conhecida por ficar calada quando alguém me tirava do sério.
A visita começou, e logo descobri que as explicações da Mônica não tinham me preparado para tudo. Eu ainda estava aprendendo a lidar com aquela situação, tentando esconder o nervosismo e não deixar que ele percebesse o quanto aquele ambiente era novo para mim.
Mandrake, por outro lado, parecia muito à vontade.
Aquilo me deixava ainda mais consciente da diferença entre nós naquele momento: ele conhecia aquele mundo; eu estava apenas começando a descobrir como funcionava.
A intimidade aconteceu, mas não foi exatamente como eu havia imaginado. Houve momentos de intensidade, desconforto e sensações que eu ainda não sabia muito bem como interpretar. Tentei acompanhar o ritmo daquele encontro, embora minha cabeça continuasse cheia de pensamentos contraditórios.
Quando tudo terminou, fiquei alguns instantes tentando recuperar a compostura.
Eu estava cansada, confusa e, para ser sincera, ainda não tinha decidido se aquela experiência merecia ser chamada de boa ou simplesmente de inesquecível pelos motivos errados.
Foi então que Mandrake resolveu abrir a boca.
— Falou aí, mina. Até sábado que vem. Vê se não vai dar para outro e me trazer rebaba de malandro.
Por alguns segundos, fiquei olhando para ele, tentando entender se tinha ouvido aquilo mesmo.
Não.
Não era possível.
O homem tinha acabado de falar comigo como se eu fosse uma propriedade dele!
Senti a raiva subir tão depressa que precisei respirar fundo para não responder da pior maneira possível. Eu podia estar ali por dinheiro, podia ser inexperiente naquele tipo de situação e podia até estar tentando descobrir como lidar com aquele homem, mas isso não significava que ele tivesse o direito de falar comigo daquele jeito.
Quem ele pensava que era?
O dono do mundo?
O prefeito do presídio?
A última bolacha do pacote?
Porque, sinceramente, a humildade daquele cidadão parecia ter sido esquecida em algum lugar do caminho.
Virei o rosto para ele e sustentei seu olhar.
— Não precisa se preocupar. Não sou uma das mulheres com quem você está acostumado a lidar.
Minha voz saiu firme, apesar da vontade enorme de jogar na cara dele tudo o que estava pensando.
Mandrake me observou por alguns segundos, como se não esperasse aquela resposta.
Pois que se acostumasse.
Eu podia ser muitas coisas, mas não era obrigada a aceitar desaforo sorrindo.
Peguei minhas coisas, ajeitei a roupa e caminhei até a porta. Cada passo parecia me ajudar a recuperar um pouco da dignidade que aquele comentário tinha tentado arrancar de mim.
Quando saí, finalmente soltei o ar que estava prendendo.
— Abusado do caramba! — murmurei para mim mesma.
A vontade era voltar naquela sala e dar uma resposta que ele jamais esqueceria. Se eu tivesse ficado mais cinco minutos, provavelmente teria começado uma discussão capaz de fazer o carcereiro aparecer para descobrir o motivo da gritaria.
Mas não.
Eu tinha coisas mais importantes para fazer.
Como, por exemplo, não deixar que aquele homem estragasse meu dia.
Desci o corredor com a cabeça erguida, embora por dentro estivesse fervendo de raiva.
Vinte mil reais.
Era por isso que eu precisava me lembrar de manter os pés no chão. Eu havia aceitado um acordo e sabia que encontraria situações desconfortáveis pelo caminho, mas não precisava permitir que ninguém confundisse isso com o direito de mandar na minha vida.
Mandrake podia ser bonito, ter aquela voz grave e carregar uma presença capaz de chamar a atenção de qualquer mulher.
Mas, naquele momento, tudo o que eu conseguia enxergar era um homem convencido que precisava aprender a diferença entre fazer um acordo e ser dono de alguém.
E eu estava mais do que disposta a deixar isso bem claro.
Quando finalmente cheguei à saída, encontrei Mônica me esperando. Bastou olhar para o meu rosto para ela perceber que alguma coisa tinha acontecido.
— Amiga, o que foi? Por que está com essa cara?
Parei diante dela e cruzei os braços.
— Porque o seu querido Mandrake é um tremendo de um abusado!
Mônica arregalou os olhos.
— O que ele fez?
Soltei uma risada sem humor.
— O que ele fez? O bonito acha que pode me dar ordem sobre com quem eu fico, como se eu tivesse assinado um contrato de exclusividade com ele!
Ela levou a mão à boca, tentando segurar uma risada.
— Não acredito que ele falou isso!
— Acredita, porque falou! E ainda teve a coragem de dizer que eu não podia trazer rebaba de malandro!
Dessa vez, Mônica não conseguiu segurar a gargalhada.
Olhei para ela, indignada.
— Está rindo de quê, criatura?
— Desculpa! É que eu consigo imaginar a sua cara na hora!
— Pois imagine também a cara dele quando eu resolver responder à altura!
Ela segurou meu braço, ainda rindo.
— Calma, Luna. Você só precisa aprender a lidar com o jeito dele.
— Ah, não. Ele é que vai aprender a lidar com o meu!
Continuei andando, decidida a não pensar mais naquele homem pelo resto do dia.
Só havia um pequeno problema.
Por mais que eu tentasse me convencer de que Mandrake era apenas um homem arrogante com quem eu teria de lidar durante quatro sábados, uma parte de mim continuava lembrando daquele olhar e daquela voz.
Que ódio!
Além de abusado, o desgraçado ainda tinha que ser bonito?
Não era justo.
Eu já estava começando a desconfiar de que aqueles vinte mil reais me dariam muito mais trabalho do que eu havia previsto.
E, se Mandrake achava que eu seria mais uma mulher disposta a aceitar todas as suas ordens sem reclamar, estava prestes a descobrir que tinha feito uma avaliação completamente equivocada.
Meu nome era Luna.
Eu tinha acabado de entrar naquela história.
E não seria um homem convencido que me faria esquecer quem eu era.
