Capítulo 5 O OGRO E A LOIRA
LUNA NARRANDO
Quem aquele carinha abusado pensava que era?
Não, sério! Eu precisava entender de onde vinha tanta marra. O homem estava preso, faltavam poucos meses para sair e, mesmo assim, agia como se fosse o dono do mundo inteiro.
Saí daquele presídio tão vermelha de raiva que, se alguém me perguntasse alguma coisa no caminho, provavelmente receberia uma resposta atravessada sem nem saber o motivo.
O rapaz que tinha me levado até lá estava me esperando no mesmo lugar. Quando me viu chegando, abriu a porta do carro, e eu entrei tentando controlar minha expressão.
Ele não tinha culpa de nada, né? Não ia descontar minha raiva no coitado.
— Obrigada por me esperar — falei, colocando o cinto.
— Tranquilo, Luna. Tudo certo por lá?
Olhei para ele.
— Tudo ótimo. Uma maravilha. Estou até pensando em voltar amanhã para tomar um cafezinho com o príncipe que conheci.
O rapaz soltou uma risada.
— Ih, pelo visto não foi tão tranquilo assim.
— Meu querido, se eu começar a contar, a gente chega à Penha e ainda vou estar falando!
Ele riu novamente, ligou o carro e seguimos viagem.
O caminho de Bangu até a Penha era longo, e eu estava tão cansada que, depois de alguns minutos reclamando mentalmente da existência de Mandrake, acabei encostando a cabeça no banco e cochilando.
Acordei quando o carro parou diante da minha casa.
— Chegamos, dorminhoca.
Abri os olhos devagar, ainda tentando entender em que planeta estava.
— Já? Caramba, apaguei mesmo!
— Você estava precisando descansar.
Agradeci pela carona, desci do carro e me despedi do rapaz. Assim que entrei em casa, deixei a bolsa sobre o sofá e tirei os sapatos.
Eu só queria tomar um banho, comer alguma coisa e esquecer que existia um homem chamado Mandrake no mundo.
Será que era pedir demais?
Pelo visto, o universo tinha decidido testar minha paciência naquele dia, porque não demorou muito para eu ouvir alguém chamando do portão.
Reconheci a voz imediatamente.
Vaguinho.
— Ah, não! — murmurei. — Hoje eu não tenho estrutura para mais um homem me dando trabalho!
Mesmo assim, fui até a entrada e abri o portão.
— Fala, Vaguinho. Perdeu alguma coisa aqui?
Ele me olhou com aquele sorriso debochado que parecia fazer parte do rosto dele.
— Boa tarde para você também, loira!
— Boa tarde. Agora desembucha, porque estou cansada.
Vaguinho entrou e se acomodou como se fosse da família. Eu me sentei à sua frente, já desconfiada de que aquela visita não seria apenas para perguntar como eu estava.
E não deu outra.
— Quero saber o que rolou naquela visita. O chefe me ligou pedindo para eu puxar teu fundamento!
Arregalei os olhos.
— Como é que é?!
— Tu ouviu. O homem me ligou querendo saber quem era você, de onde tinha saído e qual era a tua relação comigo e com a Mônica.
Fiquei encarando Vaguinho por alguns segundos.
Depois, comecei a rir de nervoso.
— Não acredito! O homem resolveu investigar minha vida agora? Daqui a pouco vai pedir minha certidão de nascimento, meu histórico escolar e saber se eu passei de ano sem recuperação!
Vaguinho caiu na gargalhada.
— Tu é muito abusada, garota!
— Eu? Eu sou abusada? Seu amigo é que precisa aprender a conversar com as pessoas!
Ele balançou a cabeça, ainda rindo.
— Calma, loira. Conta logo o que aconteceu.
Respirei fundo e comecei a narrar o encontro, desde o momento em que Mandrake entrou na sala até a despedida que quase me fez voltar para dar uma resposta ainda pior.
Contei sobre o jeito convencido dele, as provocações e, principalmente, a exigência absurda de que eu não ficasse com mais ninguém.
Quando terminei, Vaguinho estava rindo tanto que precisou passar a mão no rosto.
Fiquei olhando para ele, indignada.
— Eu estou tentando entender essa risaiada toda, viu? Não achei graça nenhuma!
— Foi mal, loira! — respondeu, tentando recuperar o fôlego. — É que tu conseguiu fazer uma coisa que eu nunca vi ninguém fazer.
— O quê? Passar raiva?
— Contrariar o chefe logo na primeira visita!
Cruzei os braços.
— Ah, pronto! Agora sou obrigada a concordar com tudo o que ele fala só porque o bonito tem fama?
Vaguinho ficou um pouco mais sério.
— Não é isso. É que o chefe nunca foi muito de ouvir um não. A maioria das pessoas prefere ficar quieta para evitar problema.
— Então está na hora de ele conhecer alguém que não fica quieta.
— Tu não tem jeito mesmo!
— Tenho, sim. Só não tenho paciência para homem mandão.
Vaguinho soltou uma risada curta e se recostou no sofá.
— Relaxa, loira. Na certa, tu deixou o homem intrigado. Ele não está acostumado a encontrar alguém que responda daquele jeito.
Fiz uma careta.
— Problema dele.
— Só estou te avisando uma coisa: não abusa. Mandrake não é nenhum amorzinho, não. Ele pode até ter gostado da tua atitude, mas isso não significa que tu deva ficar provocando o cara sem necessidade.
Revirei os olhos.
— Eu não provoco ninguém. Só respondo quando me enchem a paciência.
Vaguinho me lançou um olhar desconfiado.
— Sei. E eu sou o homem mais comportado da Penha.
Acabei rindo, apesar de tudo.
Era impossível ficar séria perto daquele infeliz por muito tempo.
— Tá bom, engraçadinho. Mas me conta uma coisa: ele realmente vai sair mês que vem?
Vaguinho assentiu.
— Pelo que o advogado me falou, existe uma boa possibilidade. Ainda não está tudo confirmado, então ninguém pode bater o martelo, mas o alvará dele pode sair depois da última visita.
Fiquei pensativa.
Então Mandrake estava mesmo perto de voltar para a rua.
Não que isso mudasse alguma coisa para mim. Eu tinha aceitado um acordo de quatro sábados e pretendia cumprir o que havia combinado, desde que tudo acontecesse dentro das condições acertadas.
Depois disso, cada um seguiria seu caminho.
Simples.
Pelo menos, era o que eu queria acreditar.
— Bom, que se lasque! — falei, dando de ombros. — Ele pode sair amanhã, semana que vem ou daqui a seis meses. Não muda nada para mim.
Vaguinho ergueu as sobrancelhas.
— Não muda nada?
— Não!
— Nem um pouquinho?
— Vaguinho, você quer que eu te expulse da minha casa?
Ele levantou as mãos, rindo.
— Calma, mulher! Só estou perguntando!
— Então pergunta outra coisa!
Continuamos conversando por um bom tempo. Falamos sobre minha mudança, os planos para conseguir um emprego e as dificuldades de começar uma vida independente. Vaguinho também me explicou algumas coisas sobre as próximas visitas, deixando claro que eu deveria perguntar sempre que tivesse alguma dúvida.
Apesar das brincadeiras, agradeci por ele ter aparecido para conversar comigo.
Eu ainda estava tentando entender aquele acordo e tudo o que ele significava. Vinte mil reais faziam diferença na minha vida, mas eu não queria deixar que o dinheiro me colocasse em uma situação que eu não pudesse controlar.
Quando finalmente se levantou para ir embora, Vaguinho parou perto da porta.
— Sábado que vem, hein, loira. Não vai esquecer!
— Como eu esqueceria? Meu primeiro encontro com o ogro já está gravado na minha memória!
Ele começou a rir novamente.
— Tu ainda vai me matar de rir!
— Vai embora, Vaguinho!
Ele se despediu e saiu, deixando a casa finalmente em silêncio.
Fechei o portão, voltei para dentro e me joguei no sofá.
Que dia!
Eu tinha conhecido um homem bonito, arrogante e convencido, descoberto que ele queria saber mais sobre mim e recebido o aviso de que provavelmente o encontraria novamente por mais três sábados.
Três sábados.
Olhei para o teto e soltei um suspiro.
— Eu mereço um aumento por insalubridade emocional!
Comecei a rir sozinha.
A verdade era que Mandrake tinha conseguido me irritar como poucas pessoas. Aquele jeito mandão era de tirar qualquer uma do sério, e eu não tinha a menor intenção de fingir que gostava.
Só que havia um detalhe que me incomodava admitir.
Apesar de toda a arrogância, do comentário absurdo e da vontade que eu tinha de dar uns bons gritos naquele homem, a visita não tinha sido exatamente ruim em todos os sentidos.
A atração existia. Eu não era cega.
E, sim, a intimidade tinha sido mais intensa do que eu esperava.
Mas isso não significava que eu estivesse apaixonada, interessada em assumir compromisso ou disposta a aceitar suas exigências.
Uma coisa era sentir atração.
Outra, completamente diferente, era dar liberdade para um homem mandar na minha vida.
E Mandrake precisava aprender essa diferença.
Peguei o celular, coloquei uma música para tocar e fui preparar alguma coisa para comer.
Eu tinha planos, contas para pagar e uma vida inteira pela frente. Não podia ficar gastando energia pensando em um homem que mal conhecia.
Ainda assim, enquanto mexia na cozinha, uma pergunta insistia em voltar à minha cabeça.
Por que ele tinha ligado para Vaguinho para descobrir quem eu era?
Será que estava apenas desconfiado?
Será que queria garantir que eu voltaria no sábado seguinte?
Ou será que, pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha despertado sua curiosidade de verdade?
Balancei a cabeça, tentando afastar aquelas ideias.
— Ah, quer saber? Que ele descubra sozinho!
Mas, mesmo dizendo isso, acabei sorrindo.
Eu não sabia o que me esperava no próximo sábado.
Só sabia que, se Mandrake pensava que teria vida fácil comigo, estava muito enganado.
Porque uma coisa era certa: eu podia até estar entrando naquele jogo por dinheiro, mas não tinha a menor intenção de perder minha personalidade para agradar homem nenhum.
E, se ele quisesse testar minha paciência outra vez…
Bom, que viesse preparado.
Porque a loira aqui não levava desaforo para casa.
