Capítulo 6 A LOIRA É TODA APARECIDA
MANDRAKE NARRANDO
Caralho, aquela mina me deixou encucado!
Passei um rádio para o Vaguinho assim que tive oportunidade, mandando o menor puxar o fundamento daquela loira. Queria saber quem era, de onde tinha saído e por que diabos tinha tanta coragem para me responder daquele jeito.
Não era como se eu estivesse preocupado com ela, não.
Eu só gostava de saber com quem estava lidando. Ainda mais quando a pessoa aparecia do nada, sentava na minha frente e agia como se não estivesse nem aí para quem eu era.
Pelo menos, era essa a desculpa que eu estava dando para mim mesmo.
A tarde passou devagar, e eu já estava começando a achar que o Vaguinho tinha esquecido minha ligação quando o celular finalmente tocou.
Atendi na mesma hora.
— Fala, menor. Puxou o fundamento da garota?
Do outro lado, ouvi uma gargalhada.
— Ih, chefe! Está interessado na vida da loira, é?
Fechei a cara.
— Está de palhaçada comigo, porra? Perguntei se puxou o fundamento!
— Calma, patrão! Já vou falar. Só queria aproveitar a oportunidade para gastar um pouquinho com a sua cara.
— Tu está muito engraçadinho ultimamente. Continua assim que, quando eu sair, vou arrumar um serviço para tu descarregar caminhão o dia inteiro.
Ele riu ainda mais.
— Tá bom, tá bom! Vou falar antes que o senhor fique nervosinho.
Encostei na parede, esperando.
Vaguinho começou a me passar as informações que tinha conseguido. Luna tinha acabado de completar dezoito anos e estava tentando conquistar a própria independência. Tinha saído da casa dos pais, estava organizando a vida e queria ganhar seu próprio dinheiro.
Segundo ele, a garota tinha aceitado a proposta não apenas pela grana, mas também porque Mônica havia colocado pilha na cabeça dela.
Soltei uma risada pelo nariz.
— A Mônica é uma figura mesmo. Deve ter enchido a cabeça da garota até ela aceitar.
— Pior que foi quase isso, chefe. Mas a Luna também estava querendo uma oportunidade. O dinheiro vai ajudar bastante nos planos dela.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Dezoito anos.
Independente, atrevida e com aquela língua afiada.
Não era difícil entender por que tinha respondido daquele jeito. A garota queria mostrar que não precisava baixar a cabeça para ninguém.
O problema era que eu também não gostava de gente tentando me ensinar como deveria agir.
— E tu tem certeza de que ela entendeu como funciona o acordo? — perguntei.
— Expliquei o que precisava explicar. E ela deixou claro que quer saber das condições antes de continuar. Não é nenhuma maluca que aceita qualquer coisa sem perguntar.
Aquilo me fez sorrir discretamente.
— Pelo menos tem juízo em alguma coisa.
— Olha só! Já está defendendo a loira!
— Vaguinho…
— Parei, chefe! Parei!
Desliguei depois de mais algumas orientações e fiquei olhando para o celular.
Aquela garota tinha conseguido fazer meu parceiro perder um bom tempo falando dela, e agora eu estava ali, pensando numa pessoa que tinha conhecido havia poucas horas.
Que palhaçada!
Eu estava preso, com problemas suficientes para ocupar minha cabeça, e ainda tinha que ficar curioso por causa de uma loira abusada?
Nem pensar.
Peguei o celular novamente e entrei na minha conta privada nas redes sociais. Digitei o nome dela na busca e não demorei a encontrar o perfil.
Luna.
Abri a página e comecei a olhar as publicações.
Eita, porra!
A garota gostava mesmo de aparecer.
Tinha foto sorrindo, foto com as amigas, vídeos dançando e uma coleção de publicações que pareciam feitas para chamar atenção. Em uma delas, estava com um biquíni, aproveitando o sol, enquanto os comentários se acumulavam logo abaixo.
Cliquei na imagem.
@Luna
Dia propício, aquele banhozinho de laje pique terrorista.
Soltei uma gargalhada.
— Ah, não! Essa garota não existe!
Continuei olhando a publicação, curioso com a quantidade de comentários. Os caras estavam todos se oferecendo, elogiando, mandando indiretas e tentando chamar a atenção dela.
Era um atrás do outro.
Que agonia, caralho!
Um dizia que ela estava linda. Outro perguntava quando teria uma oportunidade. Um terceiro mandava uma cantada tão ruim que tive vontade de responder no lugar dela.
Aquele ali merecia ser bloqueado por falta de criatividade.
Passei os olhos pelos comentários, cada vez mais incomodado com a quantidade de homens dando em cima da garota.
Até que parei.
Desde quando eu estava perdendo tempo lendo comentário de macho em foto de mulher?
Fechei a cara e bloqueei a tela.
— Ah, vai se lascar, Mandrake!
Falei comigo mesmo, indignado com a situação.
A mina era bonita, sim. Não ia ficar mentindo para mim mesmo. Tinha um sorriso bonito, um jeito atrevido e uma aparência que chamava atenção.
Mas também não era tudo isso!
Quer dizer… talvez fosse.
Não, porra! Eu estava ficando maluco?
Joguei o celular na cama e me levantei. Precisava ocupar a cabeça com coisas mais importantes.
Minha vida não parava porque eu estava atrás das grades. O comando daqui de dentro precisava continuar funcionando, e eu não podia permitir que os problemas se acumulassem enquanto eu ficava perdendo tempo com rede social.
Passei a organizar minhas pendências, respondi às mensagens que precisava responder e cuidei dos assuntos que exigiam minha atenção.
Mesmo preso, eu precisava continuar atento.
As notícias de fora chegavam o tempo inteiro, e qualquer mudança podia trazer consequências. Eu tinha responsabilidades, pessoas contando comigo e decisões que não podiam esperar até o dia em que eu voltasse para a rua.
Minha mente estava a milhão.
Faltavam dois meses, talvez menos, dependendo de como as coisas se resolvessem. Eu precisava deixar tudo encaminhado para não sair dali e encontrar minha vida virada de cabeça para baixo.
Era nisso que eu deveria estar pensando.
Não em Luna.
Não na resposta atravessada dela.
Muito menos nos comentários daqueles caras na foto.
Só que, por mais que eu tentasse me concentrar, a imagem da loira insistia em aparecer na minha cabeça.
Lembrei da expressão que ela fez quando percebeu que eu não tinha gostado de ser contrariado. Lembrei também da maneira como respondeu antes de sair da sala, sem demonstrar o menor interesse em me agradar.
A maioria das mulheres que eu conhecia naquela situação tentava descobrir o que eu queria ouvir.
Luna parecia muito mais interessada em dizer o que pensava.
Aquilo era diferente.
E talvez fosse justamente essa diferença que estivesse me incomodando.
Ou despertando minha curiosidade.
Eu ainda não tinha decidido qual das duas coisas era pior.
Peguei o celular novamente, apenas para conferir se havia alguma mensagem importante. A notificação de uma rede social apareceu na tela, e meu dedo quase voltou automaticamente para o perfil dela.
Quase.
Travei a tela e guardei o aparelho.
— Chega dessa porra!
Eu tinha problemas reais para resolver.
Luna era apenas uma garota que aceitou uma proposta, faria suas visitas e seguiria a própria vida quando o acordo terminasse.
Era isso.
Não havia motivo para pensar nela além do necessário.
Só que uma pergunta continuava martelando na minha cabeça.
Se eu encontrasse aquela loira fora dali, sem a pressão daquele ambiente e sem o dinheiro envolvido, será que ela continuaria me enfrentando daquele jeito?
A ideia me arrancou um sorriso involuntário.
Eu descobriria no tempo certo.
Por enquanto, precisava cuidar do que era meu, organizar as coisas para minha saída e manter a cabeça no lugar.
Mas uma coisa eu já sabia.
No próximo sábado, eu não deixaria Luna sair daquela sala sem descobrir mais alguma coisa sobre aquela personalidade atrevida.
E, se ela achava que seria fácil me deixar falando sozinho outra vez, estava prestes a descobrir que eu também sabia provocar.
Afinal, a loira podia ter uma língua afiada.
Mas eu tinha tempo de sobra para aprender a responder à altura.
E ainda faltavam três visitas.
