Capítulo 7 ESSA LOIRA É UMA FIGURA
MANDRAKE NARRANDO
A semana passou voando e, quando me dei conta, já era sábado outra vez.
Mais uma visita.
Mais uma oportunidade de quebrar a monotonia daquele lugar e, pelo visto, mais uma chance de descobrir por que diabos aquela loira não saía da minha cabeça.
Não que eu estivesse contando os dias para vê-la, obviamente.
Eu tinha mais o que fazer.
Pelo menos era o que repetia para mim mesmo enquanto caminhava em direção à sala reservada para as visitas íntimas.
Quando entrei, encontrei Luna sentada à mesa, com as sacolas que tinha trazido. O cabelo loiro estava solto, caindo pelas costas, e as bochechas levemente coradas davam a impressão de que ela tinha vindo apressada.
Ela ergueu os olhos na minha direção.
— Até que enfim! — comentou.
Franzi a testa.
— Está reclamando de quê, garota? Acabei de chegar.
— Não estou reclamando. Só fiz uma observação.
— Sei. Tu adora fazer observações, né?
Ela deu um sorriso de canto.
— E você adora achar que todo mundo está reclamando de alguma coisa.
Olhei para ela por alguns segundos.
A língua continuava afiada.
Pelo visto, eu não seria poupado dessa vez também.
Aproximei-me da mesa, conferi o que ela havia trazido e me sentei. Normalmente, aproveitava a visita para comer com calma, mas naquele dia tinha outro horário marcado e não queria perder tempo.
Comi apenas o necessário, enquanto Luna permanecia do outro lado, observando tudo em silêncio.
De vez em quando, nossos olhares se encontravam, mas ela logo desviava o rosto, como se não quisesse me dar o gostinho de perceber que estava me observando.
Aquela atitude me divertia.
A garota tinha um jeito curioso de demonstrar as coisas. Não fazia questão de agradar, não ficava puxando assunto à toa e tampouco parecia interessada em descobrir o que eu pensava dela.
Ou talvez fosse exatamente isso que ela queria que eu acreditasse.
Quando terminei, afastei a embalagem e me levantei.
Luna acompanhou meus movimentos, ficando quieta por alguns instantes.
A proximidade entre nós trouxe de volta a lembrança da primeira visita. Havia uma atração evidente, mas também uma resistência que tornava tudo diferente. Eu estava acostumado a lidar com mulheres que tentavam descobrir como me agradar.
Luna parecia mais preocupada em não permitir que eu achasse que tinha algum poder sobre ela.
E isso mexia com a minha curiosidade.
A intimidade aconteceu sem muita conversa. Naquele segundo encontro, já não existia o mesmo constrangimento inicial, embora continuasse havendo uma tensão difícil de ignorar. Entre beijos, carícias e provocações silenciosas, os dois acabaram se entregando ao momento.
Não havia declarações, promessas ou qualquer tentativa de transformar aquilo em algo que ainda não era.
Era apenas um encontro intenso entre duas pessoas que estavam começando a descobrir a química que existia entre elas.
Quando tudo terminou, ficamos alguns instantes tentando recuperar o fôlego.
Eu me acomodei no meu lugar, procurando manter a expressão tranquila de sempre, enquanto Luna ajeitava o cabelo e organizava suas coisas.
Ela continuava calada.
Nem uma piadinha.
Nem uma provocação.
Nem sequer uma reclamação sobre o meu jeito.
Aquilo era estranho.
A garota que tinha me enfrentado na primeira visita agora parecia determinada a fingir que eu não existia além do necessário.
E, por algum motivo, aquilo me incomodava mais do que deveria.
Foi então que alguns caras passaram pelo corredor.
— Ih, rapaziada! Parece que alguém está aproveitando a visita! — um deles gritou, seguido por uma imitação exagerada de gemidos.
Outro começou a rir.
— Respeita o casal, pô!
Tentei manter a expressão séria.
Juro que tentei.
Mas a palhaçada foi tão grande que acabei soltando uma gargalhada.
Olhei para Luna, esperando encontrar uma expressão indignada.
Para minha surpresa, ela também estava rindo.
Uma risada espontânea, daquelas que escapam antes que a pessoa consiga controlar.
Por alguns segundos, ficamos olhando um para o outro, compartilhando a mesma diversão.
E foi estranho perceber como aquele momento simples pareceu diminuir a distância entre nós.
Só que, assim que percebeu que eu estava olhando, Luna interrompeu a risada e assumiu uma expressão séria.
Eu ergui uma sobrancelha.
Ela cruzou os braços.
Fiquei encarando a garota, tentando entender aquela mudança repentina.
— Qual foi? — perguntei.
— Qual foi o quê?
— Estava rindo e agora parece que eu te devo dinheiro.
— E deve?
Soltei uma risada curta.
— Tu não presta, garota!
— E você é muito convencido.
— Já falou isso na semana passada.
— É porque você continua dando motivos.
Balancei a cabeça, divertido.
Era impressionante como ela conseguia transformar qualquer conversa em uma disputa para ver quem teria a última palavra.
E o pior era que eu estava começando a gostar daquilo.
Não que fosse admitir.
Nunca.
Luna pegou suas coisas e se levantou.
— Vou me trocar. Até sábado que vem.
Olhei para ela.
— Já vai?
— Ué, você queria que eu ficasse até amanhã?
— Não foi isso que eu disse.
— Então pronto.
Ela se afastou antes que eu pudesse responder.
Fiquei observando enquanto organizava tudo, ajeitava a roupa e se preparava para sair. Não tentou prolongar a conversa, não perguntou nada sobre mim e não demonstrou qualquer curiosidade sobre a minha vida.
Era como se estivesse determinada a cumprir o acordo e ir embora sem deixar espaço para envolvimento.
Quando chegou à porta, virou o rosto.
— Até semana que vem, Mandrake.
— Até, loira.
Ela saiu.
E eu fiquei ali, olhando para a porta fechada, com aquela sensação irritante de que tinha deixado passar alguma coisa importante.
A visita tinha sido tranquila.
Não houve discussão, nem resposta atravessada que me fizesse perder a paciência. Pela primeira vez, Luna tinha ido embora sem me deixar com vontade de discutir com ela.
E, ainda assim, eu estava mais intrigado do que antes.
Apoiei os cotovelos nos joelhos e passei a mão pelo rosto.
Que porra estava acontecendo comigo?
Eu deveria estar aproveitando o tempo que faltava para sair dali, resolvendo minhas pendências e organizando minha vida. Em vez disso, estava pensando em uma garota que mal conhecia e tentando entender por que ela não fazia questão de me impressionar.
Talvez fosse isso.
Luna não parecia interessada em conquistar minha atenção.
E, justamente por isso, tinha conseguido chamar minha atenção mais do que qualquer outra pessoa naquele lugar.
Soltei um suspiro e me levantei.
Ainda faltavam algumas semanas para terminar aquele acordo, e eu não tinha a menor intenção de transformar quatro visitas em uma história de amor.
Não estava procurando namorada.
Não queria compromisso.
E muito menos precisava de alguém complicando minha vida quando eu estava prestes a voltar para a rua.
Só que havia uma coisa que eu não conseguia negar.
Eu queria descobrir quem era a garota por trás daquele sorriso debochado.
Queria saber por que tinha tanta pressa para conquistar a própria independência, o que sonhava fazer da vida e por que parecia tão determinada a não depender de ninguém.
Talvez fosse apenas curiosidade.
Talvez fosse atração.
Ou talvez eu estivesse começando a perceber que Luna era muito mais interessante do que tinha imaginado na primeira visita.
Balancei a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos.
— Ah, Mandrake, tu está ficando maluco!
Mas, enquanto voltava para minha rotina, uma certeza incômoda continuava me acompanhando.
No próximo sábado, eu tentaria conversar mais com aquela loira.
E, se ela viesse com as respostas atravessadas de sempre, eu já sabia que provavelmente acabaria rindo.
Afinal, podia até fingir que Luna não mexia comigo.
Mas estava ficando cada vez mais difícil convencer a mim mesmo.
