Capítulo 8 A FOFOCA CORRE SOLTA

LUNA NARRANDO

Eu estava cansada pra caralho!

E, antes que alguém pense besteira, o motivo não tinha nada a ver com a visita de sábado passado. O problema era que agora eu estava trabalhando de verdade, e descobri que ganhar o próprio dinheiro era maravilhoso, mas vinha acompanhado de uma dor nas costas capaz de fazer qualquer pessoa repensar suas escolhas.

Mônica tinha conseguido uma vaga para mim no salão onde trabalhava, ali mesmo no morro. Eu ajudava as meninas lavando e hidratando os cabelos, aplicando os produtos e secando os fios. Não fazia escova porque ainda estava aprendendo algumas coisas, mas já conseguia adiantar bastante o serviço das profissionais.

Só que, minha filha, trabalhar em salão não era moleza!

Eu passava boa parte do dia em pé, lavando cabelo, organizando os produtos e atendendo uma cliente atrás da outra. Minhas mãos estavam doloridas, minhas costas reclamavam e eu ainda tinha que subir aquela ladeira quando chegava em casa.

E pensar que eu estava trabalhando havia apenas uma semana!

Se continuasse assim, aos trinta anos eu estaria andando igual a uma senhora de noventa.

Mas não podia reclamar demais. Eu queria minha independência, e agora estava correndo atrás dela. Meu dinheiro era meu, minhas contas começavam a ser pagas por mim e, mesmo com o cansaço, eu sentia um orgulho enorme de estar conseguindo.

Além disso, graças a Deus, faltavam apenas dois sábados para terminar o acordo das visitas.

Dois sábados!

Eu já estava contando os dias.

Para não levantar suspeitas sobre minhas saídas, tinha contado à dona do salão que estava fazendo provas do supletivo aos sábados. Uma mentira descarada, porque eu já tinha terminado os estudos, mas preferia assim.

Naquele lugar, as fofocas corriam mais rápido do que notícia de traição em grupo de família. Se eu desse qualquer informação sobre minhas visitas, em pouco tempo teria gente querendo saber o nome do homem, quanto eu ganhava e até a cor da roupa que usava.

E eu não estava nem um pouco interessada em virar assunto.

Naquela tarde, eu estava trabalhando tranquilamente, lavando o cabelo de uma senhora que frequentava o salão praticamente só para isso.

A mulher gostava de conversar, então eu já tinha ouvido histórias sobre os filhos, os vizinhos, a novela e uma discussão que acontecera na rua dela três semanas antes.

Tudo enquanto massageava o couro cabeludo da coitada.

Eu estava tão concentrada no serviço que quase não percebi quando algumas meninas começaram a conversar perto da bancada dos produtos.

Até ouvir um nome conhecido.

Mandrake.

Pronto.

Minha atenção, que estava quase dormindo em pé, despertou na mesma hora.

Não virei o rosto nem parei o que estava fazendo. Continuei lavando o cabelo da cliente, mas meus ouvidos ficaram mais atentos do que nunca.

— Pois é, menina! — uma delas comentou. — Não sei se ele suspendeu as visitas ou se está com alguém fixo, mas este mês não soube de ninguém que tenha ido visitar o homem.

A outra soltou uma risadinha.

— Também ouvi isso! E parece que rolou um comentário de que ele pagou vinte mil pelo pacote de visitas deste mês. Só que ninguém disse o nome da mulher.

Quase engasguei com o ar.

Vinte mil reais.

Eu sabia muito bem quem era a mulher daquela história, mas continuei quietinha, fazendo meu trabalho como se estivesse completamente desinteressada.

Por dentro, porém, eu estava prestando atenção em cada palavra.

— Quando a Sandra foi visitar ele, recebeu quatro mil pelos quatro sábados — continuou a primeira. — Foi o que ela contou.

A outra arregalou os olhos.

— Hum! Então essa garota deve ser conhecida de alguém de fora ou alguma patricinha. Daqui não é, porque eu conheceria.

Olha a ousadia!

Patricinha era ótimo!

Se aquela criatura me visse chegando em casa depois de um dia inteiro lavando cabelo, subindo ladeira e contando moeda para organizar as contas, provavelmente pediria desculpas pela comparação.

Mas fiquei quieta.

Eu não precisava provar nada para ninguém.

Continuei massageando o couro cabeludo da senhora, que parecia estar quase dormindo na cadeira, enquanto tentava controlar a expressão.

Foi quando olhei discretamente para Mônica.

A desgraçada estava me encarando com um sorriso enorme, segurando a vontade de rir.

Eu conhecia aquela cara.

Ela estava adorando cada segundo daquela conversa!

Aproveitava o mistério em torno da identidade da mulher que visitava o todo-poderoso como se estivesse assistindo à melhor novela da televisão.

Lancei um olhar ameaçador na direção dela.

Mônica apenas ergueu as sobrancelhas, fingindo inocência.

Ah, se eu pudesse jogar um secador naquela criatura!

— E tem mais! — a primeira garota voltou a falar.

Pronto. Lá vinha outra bomba.

— A Sandra reclamou que ele não beija nenhuma mulher que vai visitar. Disse que, até aqui no presídio, é só sexo mesmo. Não sei o que passa pela cabeça daquele homem!

Minha mão parou por uma fração de segundo.

Foi rápido, mas suficiente para eu perceber que aquela informação tinha despertado minha curiosidade.

Ele não beijava as mulheres?

Fiquei olhando para o cabelo da cliente, tentando fingir que aquela conversa não tinha nada a ver comigo.

Só que minha cabeça já estava trabalhando.

Na primeira visita, Mandrake realmente não tinha me beijado na boca. Eu me lembrava disso, embora não tivesse dado muita importância na hora.

Mas, na segunda…

Na segunda, ele tinha me beijado.

Foi rápido, sim. Um beijo breve, sem declaração ou qualquer demonstração de carinho que pudesse significar alguma coisa.

Mas aconteceu.

Franzi a testa.

Será que ele tinha mudado de ideia?

Será que nem se lembrava daquele beijo?

Ou será que existia alguma razão para agir daquela maneira?

Tentei formular uma hipótese, mas não consegui chegar a conclusão nenhuma.

— Luna, querida, está tudo bem? — a senhora perguntou, abrindo os olhos.

Voltei imediatamente à realidade.

— Está, sim! Desculpa, dona Célia. Estava pensando numa coisa aqui.

Ela sorriu.

— Ah, minha filha, cuidado! Pensar demais dá dor de cabeça.

Se a senhora soubesse!

Naquele momento, minha cabeça parecia uma reunião de condomínio, com cada pensamento querendo falar mais alto do que o outro.

Terminei de lavar o cabelo dela, ajudei-a a se levantar e acompanhei a cliente até a cadeira onde seria finalizado o serviço.

Depois disso, voltei para minhas tarefas, tentando esquecer a conversa.

Mas a curiosidade continuava ali.

Eu não gostava de admitir, principalmente porque se tratava de Mandrake, um homem que tinha conseguido me irritar em tempo recorde.

Só que era impossível não pensar naquilo.

Se ele não costumava beijar as mulheres que o visitavam, por que tinha me beijado?

Será que era apenas parte daquele encontro?

Ou eu estava dando importância demais a uma coisa que não significava absolutamente nada?

— Luna!

Quase pulei quando ouvi Mônica me chamar.

— Que foi, mulher?!

Ela se aproximou com uma expressão que me fez desconfiar imediatamente.

— Nada. Só queria saber se você está gostando do assunto.

Fuzilei a infeliz com os olhos.

— Mônica, eu vou jogar água oxigenada na sua cabeça enquanto você dorme!

Ela caiu na gargalhada.

— Ai, amiga! Você precisava ver sua cara!

— Minha cara está ótima. A sua é que está pedindo uma tesourada!

— Sei…

Mônica se inclinou um pouco, falando mais baixo.

— Mas você ouviu, né? O homem não beija ninguém, mas resolveu beijar você.

Revirei os olhos.

— Foi um beijo rápido, criatura. Não significa nada.

— Eu não disse que significava.

— Mas está pensando!

— Estou pensando tanta coisa que nem você imagina!

A vontade que tive foi de puxar aquela mulher pelos cabelos.

Em vez disso, peguei uma toalha e joguei na direção dela.

— Vai trabalhar, fofoqueira!

Mônica saiu rindo, satisfeita por ter conseguido me irritar.

Eu voltei ao serviço, decidida a não tocar mais naquele assunto.

Mandrake era apenas parte de um acordo que terminaria em breve. Eu tinha um emprego, contas para pagar e planos para realizar. Não precisava ficar tentando descobrir o significado de um beijo.

Ainda assim, a conversa das meninas continuou martelando na minha cabeça durante o resto do expediente.

Quando finalmente fechamos o salão, minhas pernas estavam implorando por descanso.

Guardei os produtos, limpei minha bancada e me despedi das meninas. Mônica ainda tentou fazer mais uma piadinha antes de ir embora, mas fingi não ouvir.

Eu precisava chegar em casa.

No caminho, passei pelo mercadinho e comprei tudo o que precisava levar para a visita do dia seguinte. Conferi a lista no celular para não esquecer nada e voltei carregando as sacolas.

Quando entrei em casa, deixei as compras sobre a mesa e comecei a organizar tudo.

Dei uma geral rápida na sala, arrumei as coisas espalhadas e separei os produtos de higiene que precisaria levar comigo.

Depois, tomei um banho demorado, esperando que a água aliviasse um pouco a dor nas costas.

Quase dormi em pé.

Quando saí, coloquei uma roupa confortável e comecei a preparar o que faltava. Separei as sacolas, conferi os documentos necessários e deixei tudo organizado perto da porta.

Eu só precisava dormir algumas horas antes de começar outro dia.

Mas, quando percebi, meu celular já estava despertando.

— Ah, não! Não é possível! — resmunguei, olhando para a tela.

Eu tinha dormido muito menos do que precisava.

Levantei devagar, tomei outro banho e preparei um café bem forte. O cheiro se espalhou pela cozinha, e eu bebi a primeira xícara tentando despertar.

A segunda foi por necessidade.

A terceira, por desespero.

— Se esse café não me ressuscitar, podem chamar o padre! — murmurei.

Terminei de me arrumar, peguei as sacolas e conferi se estava levando tudo.

Antes de sair, parei por um instante diante do espelho.

Eu estava cansada, com sono e com uma curiosidade que preferia não admitir.

Faltavam apenas duas visitas.

Dois sábados e aquele acordo estaria encerrado.

Eu voltaria a cuidar da minha vida sem precisar encontrar Mandrake toda semana, sem ouvir suas provocações e sem ficar tentando entender por que ele tinha me beijado quando, segundo as fofocas, não costumava fazer isso.

Era simples.

Era só cumprir o combinado e seguir em frente.

Peguei minhas coisas e saí de casa.

Enquanto caminhava, porém, uma pergunta insistia em voltar.

E se aquele beijo tivesse significado alguma coisa?

Balancei a cabeça imediatamente.

— Para com isso, Luna! O homem mal sabe conversar sem bancar o mandão!

Soltei uma risada sozinha e continuei andando.

Eu não estava apaixonada.

Não estava interessada em homem nenhum.

E, definitivamente, não estava ansiosa para rever Mandrake.

Só precisava tomar mais um café.

Ou talvez dois.

Porque, pelo jeito, aquele sábado prometia ser longo.

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