Capítulo 9 BEM SERVIDO ATÉ DEMAIS

MANDRAKE NARRANDO

Mais um sábado, meus amigos!

E, dessa vez, a loirinha ia ter que me aguentar por bastante tempo, porque eu tinha conseguido três horários seguidos. A visita começaria às sete da manhã e só terminaria perto de uma da tarde.

Seis horas de visita.

Quando pensei nisso, quase sorri sozinho. Pelo menos teria tempo suficiente para comer direito, conversar e quebrar um pouco aquela rotina miserável.

Eu já estava na sala quando senti um cheiro gostoso vindo do corredor.

Olhei para a porta.

Nem precisava ser adivinho para saber quem estava chegando.

Luna.

Aquela garota tinha uma mania de aparecer com sacolas suficientes para alimentar um batalhão inteiro. Na semana anterior, já tinha trazido comida de sobra. Agora, pelo cheiro, parecia que tinha resolvido montar uma padaria dentro da sala de visitas.

Quando a porta abriu, lá estava ela, com o cabelo loiro solto e uma expressão de quem precisava urgentemente de uma cama.

Entrou, colocou as sacolas sobre a mesa e soltou um suspiro.

— Bom dia para você também, Mandrake.

Olhei para ela.

— Bom dia, loira. Tu trouxe comida para quantas pessoas?

Ela me lançou um olhar atravessado.

— Para você, seu ingrato! Se não quiser, pode deixar que eu como tudo sozinha.

Soltei uma gargalhada.

— Calma, garota! Estou perguntando porque tem comida aí para alimentar metade do pavilhão.

Ela começou a tirar as coisas das sacolas. Havia café, pão, algumas opções para o almoço e até uma sobremesa.

Fiquei olhando para a mesa, impressionado.

— Caralho, Luna! Tu abriu uma lanchonete e esqueceu de me avisar?

— Engraçadinho. Eu sabia que você teria bastante tempo hoje, então trouxe coisas para o café e para o almoço. Não vou deixar você passar fome.

A resposta me fez observá-la por alguns segundos.

Não havia nenhuma necessidade de ela ter pensado em tudo aquilo. Poderia ter trazido o básico, cumprido o combinado e ido embora sem se preocupar com mais nada.

Mas tinha feito questão de organizar as coisas.

Não falei nada, porém.

Não era muito do meu feitio ficar distribuindo agradecimentos por qualquer coisa, embora eu soubesse reconhecer quando alguém fazia algo legal.

Luna se acomodou no colchão, tirou os tênis e ficou mais confortável, vestindo um blusão e lingerie. Depois, começou a organizar os recipientes, aparentemente satisfeita com o resultado.

Eu estava varado de fome.

— Chega aí e come também — falei, apontando para a mesa. — Tu trouxe coisa para caralho. Não vou comer tudo sozinho.

Ela me olhou com uma expressão desconfiada.

— Você está me convidando para comer com você ou está querendo me dar trabalho?

— Ih, começou!

— Só estou perguntando!

— Estou mandando tu comer, garota. Daqui a pouco vai dizer que eu sou um monstro porque não deixei tu passar fome.

Luna soltou uma risada e se aproximou.

— Você é muito convencido, sabia?

— Já me disseram isso.

— Aposto que foram poucas vezes.

— Tu quer comer ou quer ficar falando da minha personalidade?

Ela pegou um pedaço de pão.

— As duas coisas.

Balancei a cabeça, rindo.

Aquela garota era impossível.

Começamos a comer e, pela primeira vez desde que a conheci, não senti aquela necessidade de preencher cada silêncio com alguma provocação. A conversa acontecia naturalmente, entre uma brincadeira e outra.

Eu a observava de vez em quando, tentando entender como alguém podia ser tão atrevida e, ao mesmo tempo, parecer tão tranquila quando não estava discutindo comigo.

A verdade era que eu estava gostando da companhia dela.

Gostava da maneira como falava o que pensava, da facilidade com que ria das próprias piadas e do fato de não ficar me cobrando atenção a cada minuto.

Eu tinha conhecido mulheres que, depois de um único encontro, já queriam saber quando seriam apresentadas à família, quando conheceriam meus amigos e qual seria o próximo passo da relação.

Luna não.

Ela parecia ter a própria vida para cuidar e não estava disposta a abandonar seus planos por causa de um homem.

Aquilo me deixava confortável.

Faltava apenas mais um sábado depois daquele, e eu já estava pensando se valeria a pena convidá-la para continuar com as visitas.

Não por obrigação.

Mas porque a sintonia entre nós era boa, a atração existia e, pela primeira vez em muito tempo, eu conseguia passar algumas horas com uma mulher sem sentir que precisava me preparar para uma discussão.

Enquanto eu estava perdido nesses pensamentos, Luna pegou um pedaço de bolo.

O problema foi que o recheio acabou ficando no canto da boca dela.

Olhei para aquela cena e precisei segurar o riso.

A garota parecia uma criança que tinha acabado de roubar um doce escondida.

— Que foi? — perguntou, percebendo meu olhar.

— Nada.

— Mandrake!

— O quê?

— Para de me olhar desse jeito!

Soltei uma gargalhada.

— Tu está com recheio na boca, garota!

Ela levou a mão ao rosto, tentando encontrar o lugar.

— Onde?

Apontei para o canto da boca.

Luna limpou, mas acabou espalhando um pouco mais.

Pronto.

Eu não aguentei.

— Caralho, loira! Tu está piorando a situação!

Ela pegou um guardanapo e limpou o rosto, lançando um olhar mortal na minha direção.

— Está rindo de quê, idiota?

— De tu!

— Ah, jura? Pensei que estivesse rindo do presidente!

A resposta me fez rir ainda mais.

Não sei exatamente o que aconteceu naquele instante. Talvez fosse o jeito espontâneo dela, talvez fosse a tranquilidade daquele sábado ou talvez eu simplesmente estivesse cansado de fingir que não gostava de sua companhia.

Só sei que me aproximei e a puxei delicadamente para perto de mim.

Luna arregalou os olhos.

— Qual foi?

Não respondi.

Apenas a beijei.

No primeiro instante, ela ficou tensa, surpresa com a minha atitude. Por um segundo, pensei que fosse se afastar e me dar uma bronca daquelas que só ela sabia dar.

Mas, aos poucos, relaxou e correspondeu ao beijo.

Suas mãos foram parar no meu cabelo, e eu senti um arrepio percorrer minha nuca quando ela me puxou de leve para mais perto.

Quando nos afastamos, fiquei olhando para ela.

Luna também me encarava, como se estivesse tentando decidir se deveria reclamar ou fingir que nada tinha acontecido.

— Que foi? — perguntei, com um sorriso de canto.

Ela estreitou os olhos.

— Você tem mania de fazer as coisas sem avisar, né?

— Quer que eu mande um comunicado oficial da próxima vez?

Ela tentou segurar o riso.

Tentou.

Mas acabou sorrindo.

— Você é um idiota.

— E tu continua aqui.

Luna me deu um empurrãozinho no ombro.

— Não se empolga, Mandrake!

Soltei uma risada e voltei a beijá-la, dessa vez sem a mesma surpresa do primeiro momento.

A proximidade entre nós foi ficando mais intensa, e o restante daquele encontro aconteceu de maneira natural, com carícias, beijos e a mesma atração que já existia desde a primeira visita.

Não havia promessas nem palavras bonitas.

Só duas pessoas que, por algumas horas, pareciam esquecer tudo o que existia do lado de fora daquela sala.

Depois, ficamos deitados por alguns minutos, recuperando o fôlego.

Eu estava mais tranquilo do que havia estado em semanas.

E, para minha surpresa, Luna também parecia relaxada.

Não ficou fazendo perguntas sobre o que aquilo significava, não tentou arrancar declarações de mim e tampouco começou a planejar um futuro que nenhum dos dois tinha discutido.

Apenas se acomodou ao meu lado e soltou um suspiro.

— Estou com fome de novo.

Virei o rosto para ela.

— Tu acabou de comer!

— E daí? Trabalhei a semana inteira! Meu corpo precisa de energia.

Comecei a rir.

— Tu é uma máquina de comer, garota!

— E você reclama demais. Vai comer o resto do almoço e me deixa em paz.

Balancei a cabeça, divertido.

Aquela loira não tinha jeito mesmo.

Como ainda tínhamos bastante tempo, começamos a conversar sobre nossas vidas.

Perguntei sobre o trabalho no salão, e ela contou como Mônica tinha conseguido a vaga. Falou das clientes, das dores nas costas, do cansaço e das dificuldades de começar a viver por conta própria.

Também contou algumas histórias engraçadas do salão, especialmente sobre as fofocas que circulavam por lá.

Aparentemente, naquele lugar ninguém conseguia manter um segredo por mais de cinco minutos.

— E o pior é que elas estavam falando justamente de você! — Luna comentou, rindo.

Ergui as sobrancelhas.

— De mim? O que estavam dizendo?

Ela me contou que algumas mulheres estavam tentando descobrir quem tinha aceitado as visitas daquele mês e que havia gente fazendo suposições sobre a identidade da garota misteriosa.

Quando mencionou que também tinham falado sobre meus hábitos durante as visitas, percebi que ela ficou um pouco mais pensativa.

Não perguntei nada.

Se quisesse me contar, contaria.

Uma coisa eu já tinha entendido: Luna não gostava de ser assunto nas conversas alheias. Preferia manter a própria vida longe dos olhos curiosos das pessoas.

E eu não tinha motivo para espalhar nada.

— Fica tranquila — falei. — Se tu não quer que ninguém saiba, não sou eu que vou sair contando.

Ela me olhou, parecendo surpresa.

— Obrigada.

Dei de ombros.

— Não tem por que agradecer. Cada um cuida da própria vida.

Luna sorriu discretamente e continuou falando.

E, meu irmão, quando aquela garota começava a conversar, parecia que não existia botão para desligar!

Contava uma história, lembrava de outra no meio da primeira, voltava ao assunto inicial e ainda encontrava espaço para fazer uma piada.

Eu ficava ouvindo, às vezes interrompendo apenas para provocá-la.

— Tu respira entre uma frase e outra?

Ela me deu um tapa leve no braço.

— Cala a boca! Estou contando uma coisa importante!

— Importante para quem?

— Para mim!

— Então tá explicado.

Ela me mostrou a língua.

Eu ri.

Era bom.

Simples assim.

Depois de tanto tempo vivendo em um ambiente em que precisava estar atento a tudo, aquela conversa despreocupada me fazia bem. Por algumas horas, eu podia esquecer as preocupações e simplesmente ouvir alguém falar sobre o cotidiano.

Luna não tentava me impressionar.

Não fazia perguntas para descobrir quanto poder eu tinha ou o que poderia conseguir através de mim.

Falava do trabalho, dos planos e das pequenas coisas que pareciam importantes para ela.

E eu gostava disso mais do que estava disposto a admitir.

Em determinado momento, percebi que ela tinha ficado quieta.

Olhei para o lado.

A loira estava dormindo.

Dormindo mesmo!

Tinha se acomodado perto de mim, fechado os olhos e apagado como se estivesse em casa, na própria cama.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos, sem acreditar.

— Caralho, Luna…

A garota nem se mexeu.

A primeira coisa que pensei foi em fazer alguma provocação quando ela acordasse. Depois, reparei no cansaço estampado em seu rosto e desisti.

Ela estava trabalhando a semana inteira, acordando cedo e enfrentando uma rotina nova. Não era difícil imaginar por que tinha apagado daquele jeito.

Deixei que descansasse.

Enquanto isso, voltei para a mesa e comecei a organizar as coisas para comer o restante do almoço.

E preciso dizer uma coisa: aquela mulher sabia cozinhar!

Tinha comida suficiente para mais de uma refeição, tudo preparado com cuidado, e ainda havia sobremesa.

Peguei um prato e me servi, satisfeito.

— Estou bem servido mesmo, hein…

Olhei para Luna, que continuava dormindo tranquilamente.

A visita daquele sábado estava sendo diferente das outras. Não apenas pela intimidade, mas pela maneira como a conversa tinha acontecido, pela facilidade com que tínhamos rido juntos e pelo fato de eu não sentir que precisava representar o papel do homem durão o tempo inteiro.

Eu continuava sendo Mandrake.

Ainda tinha problemas para resolver, responsabilidades e uma vida inteira para reorganizar quando saísse dali.

Mas, naquela sala, ao lado daquela loira atrevida, eu conseguia relaxar um pouco.

E isso era raro.

Terminei de comer, limpei a mesa e voltei a me sentar.

Luna continuava dormindo, alheia a tudo.

Balancei a cabeça, sorrindo de leve.

— Tu ainda vai me dar trabalho, loira.

Ela não respondeu.

Claro que não.

Estava dormindo profundamente, provavelmente sonhando com o salário do salão ou com alguma fofoca nova para me contar no próximo sábado.

Fiquei ali, aproveitando o silêncio.

Faltava apenas mais uma visita para o nosso acordo terminar.

Eu poderia simplesmente deixar tudo acabar ali, agradecer pela companhia e seguir minha vida.

Era o mais sensato.

Mas, pela primeira vez desde que aquela história tinha começado, a ideia de não ver Luna novamente não me pareceu tão boa assim.

E isso, sinceramente, era um problema que eu ainda não sabia como resolver.

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