Capítulo 2 2. NATALY
Nada está certo, e eu posso provar isso. Há dias sinto uma tensão no ar. Sempre tive uma vida confortável; meu pai nunca deixou que me faltasse nada. Porém, de uns tempos para cá, percebo que ele anda inquieto, minha madrasta está cada vez mais nervosa e algumas coisas começaram a faltar dentro de casa. Até a nossa alimentação mudou. Tenho certeza de que algo está acontecendo, mas eles tentam disfarçar para que eu não perceba.
Estou sentada no refeitório da faculdade, com os pensamentos a mil, quando Lisa, minha melhor amiga, chega.
— Nataly, estou vendo preocupação nos seus olhos. — Ela fala antes de me envolver em um abraço.
— Ainda não tenho certeza do que está acontecendo, mas vou descobrir. Meu pai anda estranho demais. Tenho medo de que sejam problemas financeiros. — Respondo, entristecida.
— Financeiros? Será? Se for isso, é realmente horrível, minha amiga.
— Sim. Lá em casa começaram a faltar alguns mantimentos, e as contas estão chegando uma atrás da outra. O que mais me preocupa é a minha faculdade. O meu sonho é me tornar médica cirurgiã. Se realmente estivermos falidos, vou ter que abandonar o curso. Só de pensar nisso já me arrepio.
— Vamos pensar positivo, Nataly Matioli. Falta pouco para você terminar.
— Quase dois anos. Até lá, posso estar completamente falida... e trabalhando como garçonete. — Brinco.
Nós duas caímos na risada.
Nesse momento, Jhon, nosso amigo de faculdade, aproxima-se da mesa.
— Como estão as minhas duas princesas?
— Estamos bem. Só a Nataly que anda preocupada com algumas coisas. — Lisa responde, fazendo um carinho nos meus cabelos.
— E desde quando temos segredos? Pode contar comigo para o que precisar. Somos amigos.
— Está bem. Já que você mesmo disse que não temos segredos...
Respirei fundo e contei tudo o que estava me afligindo. Entre nós três, Jhon é o que possui melhores condições financeiras.
Ele ouviu cada palavra atentamente e, ao terminar, sorriu.
— Se o problema for dinheiro, não se preocupe. Eu consigo uma bolsa de estudos para você.
Fiquei completamente surpresa.
— Sério? Você faria isso por mim?
— Claro! Somos amigos. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar você e a Lisa.
Nós três nos abraçamos. Um enorme alívio tomou conta de mim depois daquele desabafo. Em seguida, voltamos para a sala de aula. Sempre que estudo, consigo esquecer os problemas por algumas horas.
Ao fim das aulas, voltei para casa sorrindo por mais um dia concluído. Como de costume, fui procurar meu pai para lhe dar um abraço.
A porta do escritório estava entreaberta.
À medida que me aproximava, tornou-se impossível não ouvir a conversa entre ele e minha madrasta, Lívia.
— Que monte de contas é esse, Gérard? — Lívia gritou.
— Estou devendo demais, Lívia. Esta casa será hipotecada. Mas, entre todas as dívidas, a que mais me preocupa é o dinheiro que devo à família Montes.
— Montes? Aquela gente? Você está devendo dinheiro para eles?
— Se não fossem eles, nós já teríamos falido há muito tempo. Eles me emprestaram uma boa quantia.
Não consegui ouvir mais nada.
O sobrenome Montes ficou ecoando na minha cabeça.
Não os conheço pessoalmente, mas sei que são extremamente poderosos e muito temidos em Austin.
Mas o que Lívia quis dizer com "aquela gente"?
Peguei o celular rapidamente e pesquisei sobre a família Montes. As informações eram praticamente as mesmas que eu já conhecia: donos de hotéis, pousadas e de grande parte dos negócios da cidade.
Continuei lendo até encontrar uma matéria que chamou minha atenção.
"Há suspeitas de que Romero Montes, filho do poderoso empresário Fausto Montes, seja o líder de uma das maiores organizações de contrabando de Austin. Apesar das investigações, nunca foi encontrada nenhuma prova concreta contra a família."
Levei as mãos à cabeça.
Agora tudo fazia sentido.
Finalmente compreendi o desespero da minha madrasta.
Como meu pai pôde recorrer a dinheiro manchado de sangue?
A situação era muito pior do que eu imaginava.
O que acontecerá se ele não conseguir pagar essa dívida?
Meu coração acelerou.
Subi para o quarto, tomei um banho rápido e tentei organizar os meus pensamentos.
Quando desci, encontrei meu pai sentado sozinho na cozinha, com a cabeça baixa.
— Quer conversar? — perguntei.
Ele levantou lentamente o rosto e enxugou as lágrimas.
— A Lívia foi embora... Me abandonou justamente no momento em que eu mais precisava dela.
Meu coração apertou.
— Ela sempre foi uma boa mulher, pai... mas, pelo visto, ama mais o luxo do que qualquer outra coisa. Sem dinheiro, ela decidiu partir. Como vai ser daqui para frente?
Ele suspirou profundamente.
— Não sei. Hoje de manhã demiti todos os empregados. A Lívia foi embora. A mensalidade da sua faculdade ainda consegui pagar este mês... mas no próximo já não sei.
Aproximei-me dele.
— O senhor está devendo apenas ao banco?
Era a minha tentativa de fazê-lo falar sobre a dívida com os Montes.
Mas ele desviou completamente do assunto.
Aquilo confirmou que a situação era muito mais grave do que eu imaginava.
Meu coração doía.
A única esperança que me restava era a promessa de Jhon de conseguir uma bolsa para mim.
Nem que eu precisasse morar em um abrigo.
Eu terminaria a minha faculdade.
Meu pai saiu de casa algum tempo depois.
Abri os armários da cozinha e encontrei apenas um pacote de macarrão. Preparei o jantar e, enquanto a água fervia, mandei mensagens para Lisa e Jhon confirmando que a falência era real.
Pelo menos a faculdade parecia estar garantida.
Agora... a casa já era outra história.
Chorei de desgosto.
Nunca imaginei ver meu pai, um homem tão inteligente e tão bom administrador, permitir que tudo chegasse a esse ponto.
Caminhei pelos cômodos da casa como uma alma perdida.
Ali vivi os melhores momentos da minha infância.
Mesmo me lembrando pouco da minha mãe, a saudade daqueles tempos felizes apertava o meu peito.
Sentei-me na escada.
Poucos minutos depois, ouvi a porta da frente se abrir.
Era Lívia.
— O que você ainda veio fazer aqui? — perguntei, impedindo que ela subisse.
— Buscar dinheiro não é. Seu pai faliu. Se quer um conselho, faça como eu: vá embora também. Seu pai está envolvido com gente muito perigosa. Eu não vou pagar para ver.
— São os Montes?
Ela empalideceu.
— Claro que são! Essa família controla o maior esquema de contrabando da cidade. Eles são mafiosos.
Afastei-me para que ela passasse.
Ela subiu correndo, pegou outra mala e desceu as escadas às pressas.
Fiquei parada, completamente sem chão.
Então era verdade...
O jornal nunca teve coragem de afirmar aquilo, mas tudo indicava que Romero Montes realmente comandava uma organização criminosa.
O que seria de mim e do meu pai agora?
Jamais o abandonaria.
Se ele estava vivendo o pior momento da vida dele, eu permaneceria ao seu lado até o fim.
