Capítulo 3 3. ROMERO
Só acordei porque o meu telefone tocava sem parar. Abri os olhos devagar e vi que era Gian. Desliguei a chamada e voltei a me deitar, mas pulei da cama no mesmo instante ao lembrar que, dali a pouco, teria uma reunião com o meu pai e com Gian.
Arrumei-me rapidamente e segui para a mansão dos meus pais, que fica a poucos minutos da minha. Se Gian não tivesse insistido tanto em me ligar, com certeza eu chegaria atrasado, e meu pai simplesmente detesta atrasos.
Ao chegar à enorme mansão, fui recebido pela minha querida mãe, como sempre, com um belo sorriso no rosto.
— Bom dia, mamãe. Como vai? — perguntei.
— Melhor agora, meu filho. Não sei qual é o assunto dessa reunião, mas estou muito feliz por você estar aqui. — Ela me abraçou e beijou meu rosto.
Na sala de estar, meu pai e Gian já estavam sentados à minha espera.
— Pensei que fosse se atrasar, Romero. Seja bem-vindo. — Meu pai falou, analisando-me dos pés à cabeça.
— Bom dia para o senhor também, papai. — Respondi em tom irônico.
— Lúcia, onde está a Natasha? Quero todos reunidos para o café da manhã.
Mamãe ia subir para chamá-la, mas Natasha apareceu no alto da escada naquele exato momento. Assim que nos viu, abriu um sorriso debochado.
— Nossa... amanheceu escuro por aqui! Todo mundo vestido de preto. Quem será a próxima vítima?
Respirei fundo. A minha vontade era colar um esparadrapo na boca dela. Revirei os olhos, enquanto meu pai apenas fechou os olhos por um instante, claramente tentando manter a calma.
— Natasha, respeite o seu irmão e também o Gian, que já é da família. — Mamãe falou com toda a paciência do mundo.
Ainda estou para conhecer uma mulher mais calma do que ela.
— Da sua família, talvez, mamãe. Da minha, esses dois nunca serão. — Natasha respondeu sem o menor remorso.
Era impossível não perceber o ódio que ela sentia, principalmente por Gian.
— Esqueça o que a Natasha fala, Gian. — Mamãe tentou amenizar a situação.
Muito tranquilo, Gian apenas sorriu e se sentou ao meu lado.
Tomamos café em silêncio. Meu pai começou a falar sobre o casamento dele com mamãe e sobre como uma família estruturada fortalecia o nome de um homem perante a sociedade. Confesso que não gostei nem um pouco do rumo daquela conversa.
Depois, ele perguntou a Gian como andava a contabilidade das empresas. Após alguns minutos de conversa, levantou-se.
— Vamos para o escritório. O verdadeiro motivo de eu ter chamado vocês é outro.
Entramos no escritório.
Meu pai permaneceu de pé, olhando para nós dois.
— Vou direto ao assunto. Tenho uma dívida para cobrar de Gérard Matioli.
Gian franziu a testa.
— Conheço muita gente, senhor Fausto, mas esse nome não me diz nada.
— Também nunca ouvi falar dele. — Completei.
— Emprestei uma grande quantia para que Gérard alavancasse as empresas dele. Assinou um contrato e agora não está honrando a própria palavra. Eu não sou homem de ser enganado.
Ele fez uma breve pausa.
— Quero que tragam tudo o que tiver valor naquela casa. Descobri que praticamente todos os bens dele já estão hipotecados. O idiota é viciado em cassino e perdeu tudo.
Olhei para meu pai sem entender.
— Essa missão não deveria ficar com os nossos homens? Por que nós dois?
Ele me encarou friamente.
— Romero, eu não preciso justificar as minhas ordens. Apenas cumpra o que mandei. Além disso, vocês estão de folga hoje. Gosto do Gian porque ele nunca questiona o que eu determino. Já você... sempre encontra um motivo para reclamar.
A mensagem estava dada.
Gian levantou-se imediatamente, e eu fiz o mesmo.
Fui até a garagem buscar o Jeep preto que costumávamos usar nas missões.
Ao passarmos novamente pela sala, Natasha, que estava sentada no sofá, resolveu provocar outra vez.
— Os homens de preto já vão trabalhar?
Parei imediatamente.
— Vai procurar alguma coisa útil para fazer, garota. Se você morasse comigo, eu já teria pedido para o papai te internar. Você não conhece limites.
Ela deu uma risada.
— Ninguém manda em mim. Assim que eu me formar, vou fugir dessa quadrilha... e de bandidos como vocês.
Trinquei os dentes.
— Veja muito bem como fala comigo!
Levantei a mão, pronto para lhe dar um tapa.
Natasha encolheu-se automaticamente.
Foi quando senti Gian segurar meu braço.
— Melhor não, Romero. Você vai se arrepender depois. Vamos embora.
Respirei fundo.
— Essa garota é completamente mimada. Não respeita ninguém. Está ouvindo bem, Natasha? Hoje a sua sorte foi o Gian estar aqui para impedir que eu acabasse com essa sua língua.
Saí dali completamente irritado.
Entramos no carro.
Dessa vez, Gian assumiu o volante.
Alguns minutos depois, chegamos ao endereço informado por meu pai.
A mansão estava praticamente abandonada. Não havia seguranças nem qualquer sinal de movimento.
Descemos armados.
Toquei a campainha.
Poucos segundos depois, um senhor abriu a porta.
Estava visivelmente nervoso.
— Quem... quem são vocês?
Aproximei-me lentamente.
— Sou Romero Montes. Imagino que já tenha ouvido falar de mim... ou da minha família.
Empurrei-o contra a parede.
— Agora me diga o seu nome. E trate de responder rápido, porque hoje eu não acordei de bom humor.
O homem tremia.
— Meu... meu nome é Gérard. Eu sei muito bem quem vocês são.
Sorri sem humor.
— Então vai facilitar as coisas. Como pretende pagar a dívida que tem conosco? Ou achou que a família Montes faz caridade?
Ele abaixou a cabeça.
— Eu não tenho mais carros... nem joias... nem nada de valor...
A voz dele falhou.
— Só tenho... a minha filha.
Naquele instante, ouvi um grito vindo do andar de cima.
Levantei os olhos.
Uma jovem desceu as escadas correndo.
Ela chorava.
Tinha um rosto delicado, uma franja levemente bagunçada e uma beleza capaz de prender a atenção de qualquer homem.
— Quem são vocês? Soltem o meu pai, seus bandidos!
Olhei para Gian.
— Cuida dele.
Caminhei até a garota.
Parei tão perto que consegui sentir o perfume suave que vinha dela.
— Escuta aqui, garota... Estou cobrando o que pertence à minha família. O seu pai nos deve muito dinheiro. Então é melhor abaixar esse tom de voz.
Ela continuou me encarando com raiva.
Os olhos brilhavam de indignação.
Subi para o andar de cima disposto a procurar qualquer objeto de valor.
Revirei todos os cômodos.
Nada.
Nem joias.
Nem quadros.
Nem cofres.
Nem mesmo um vaso que prestasse.
A única coisa realmente valiosa naquela casa... era a filha de Gérard.
Peguei o celular e liguei para meu pai.
— Pai... aqui não existe absolutamente nada de valor. O velho falou que a única riqueza que ainda possui é a filha.
Do outro lado da linha, meu pai respondeu sem hesitar.
— Traga a garota, Romero. Podemos vendê-la... ou colocá-la para trabalhar para você.
Passei a mão no rosto.
— Levo o velho também?
— Traga os dois. Quando chegarem aqui, decidiremos o destino de cada um.
Desliguei.
Ao voltar para a sala, encontrei a garota me encarando com ódio.
— Gian... os dois vêm conosco.
Ela imediatamente segurou o braço do pai.
— Nós não vamos a lugar nenhum com vocês! Se tentarem nos levar, eu chamo a polícia!
— Já chega! — gritei.
Segurei-a pelo braço e praticamente a arrastei até o carro.
Ela se debatia sem parar.
— Juro que, se meu pai não tivesse ordenado que você fosse levada viva, eu acabaria com isso agora mesmo.
Ela ergueu o queixo.
— Então por que não faz isso? Está esperando o quê? Você é um covarde.
Minha paciência chegou ao limite.
Peguei uma fita adesiva preta e tampei sua boca.
— Agora, sim... silêncio.
Olhei para ela.
Definitivamente era ainda mais rebelde do que Natasha.
E, para complicar a situação... era absurdamente bonita.
Poucos instantes depois, Gian apareceu trazendo Gérard.
Colocamos os dois no banco de trás.
Por precaução, amarrei pai e filha.
Mesmo sem poder falar, a garota continuava me enfrentando com aqueles enormes olhos negros, marejados de lágrimas.
Não confiava nela nem por um segundo.
Já tinha percebido que Natasha perdia feio para aquela garota quando o assunto era rebeldia.
