Capítulo 4 4. ROMERO.

Gian dirigia em alta velocidade, mantendo os olhos fixos na estrada. O silêncio dentro do carro era sufocante. Apenas o ronco do motor quebrava o clima pesado que se instalara entre nós. De vez em quando, eu olhava pelo retrovisor para conferir se Gérard e a filha continuavam no banco de trás.

A garota permanecia com as mãos amarradas e a fita cobrindo sua boca. Mesmo sem conseguir dizer uma única palavra, os olhos negros não saíam de mim. Havia ódio, medo e coragem ao mesmo tempo. Nunca vi alguém me desafiar daquela maneira.

Depois de alguns minutos, Gian finalmente resolveu quebrar o silêncio.

— Romero... o que o seu pai está aprontando? — perguntou sem desviar os olhos da estrada. — Em todos esses anos trabalhando para a família Montes, nunca vi o senhor Fausto mandar levar alguém para dentro da mansão.

Passei a mão pelo rosto.

— Não faço ideia. O velho é imprevisível. Quando ele coloca alguma coisa na cabeça, ninguém consegue descobrir o que está planejando até que seja tarde demais.

Gian apenas concordou com um movimento de cabeça.

Logo os enormes portões de ferro da mansão começaram a se abrir.

Entramos lentamente.

Assim que o carro parou em frente à entrada principal, avistei meu pai e minha mãe esperando por nós. Para minha surpresa, Natasha também estava ali, com os braços cruzados e uma expressão de pura curiosidade.

Aquilo só aumentou a minha desconfiança.

O que diabos Fausto Montes estava preparando?

Descemos do veículo.

Gian retirou Gérard e Nataly do banco traseiro. Tirou apenas a fita da boca dos dois, mas manteve as mãos deles presas.

Entramos na enorme sala da mansão.

Meu pai permaneceu de pé diante da lareira, como se fosse um rei recebendo visitantes.

O silêncio dominou o ambiente.

Então ele começou a falar.

— Gérard... pelo que estou vendo, você tem uma filha muito bonita.

Os olhos dele analisaram Nataly dos pés à cabeça.

— Uma garota como essa valeria uma fortuna em um leilão de mulheres.

Senti Nataly estremecer ao ouvir aquelas palavras.

Ela tentou esconder o medo, mas era impossível.

Meu pai sorriu de lado.

— Mas hoje estou disposto a fazer um excelente negócio.

Gérard levantou lentamente a cabeça.

— Senhor Fausto...

Meu pai levantou a mão, interrompendo-o.

— Quitarei todas as suas dívidas. Cada centavo.

O velho arregalou os olhos.

— Em troca, você trabalhará para mim... e convencerá sua filha a se tornar esposa do meu filho, Romero.

Por alguns segundos, achei que tivesse ouvido errado.

Meu coração quase parou.

Olhei imediatamente para Gian, que permanecia completamente sério.

Depois olhei para minha mãe.

Ela também parecia surpresa.

Natasha levou uma das mãos à boca.

Aquilo não podia estar acontecendo.

Então era esse o plano do velho.

Casar-me.

E justamente com aquela garota de língua afiada que havia acabado de me chamar de bandido.

Levantei a mão para protestar.

Antes que eu conseguisse abrir a boca, Gian segurou discretamente meu braço.

Seu olhar dizia claramente:

"Não faça isso."

Cerrei os dentes.

Meu pai fez um sinal para um dos homens retirar a fita da boca de Nataly.

Assim que ficou livre, ela respirou fundo e me lançou um olhar carregado de desprezo.

Nunca uma mulher havia me encarado daquela forma.

— Jamais me casarei com um assassino! — gritou, olhando diretamente para mim. — Estão ouvindo? Prefiro morrer a passar um único dia da minha vida ao lado de um homem com as mãos sujas de sangue!

O silêncio tomou conta da sala.

Respirei profundamente para controlar a vontade de avançar no pescoço daquela garota.

Quem ela pensava que era?

Preferia morrer a viver ao meu lado?

Nenhuma mulher jamais ousou me desprezar daquela forma.

Ela ainda iria pagar por cada palavra.

Meu pai permaneceu completamente calmo.

Como sempre.

— Você não está em posição de escolher, garota.

A voz dele ecoou firme pela sala.

— Ou aceita se casar com o meu filho... ou será vendida para uma casa de prostituição.

Ele fez uma pequena pausa.

Depois olhou para Gérard.

— E o seu pai morrerá hoje mesmo.

Pai e filha se encararam.

Gérard começou a chorar desesperadamente.

— Nataly... minha filha... só você pode nos salvar.

Ela fechou os olhos por alguns segundos.

Quando voltou a abri-los, respondeu entre lágrimas.

— Eu não vou casar com esse bandido! Não tenho culpa pelos seus erros, pai!

Cheguei a admirar a coragem daquela garota.

Mesmo vendo o próprio pai naquela situação, ela continuava me enfrentando.

Meu pai perdeu a paciência.

Fez apenas um gesto com a mão.

Um dos nossos homens entrou na sala carregando um fuzil.

Sem dizer uma palavra, apontou a arma para a cabeça de Gérard.

Minha mãe empalideceu.

Natasha arregalou os olhos.

Até Gian demonstrou certo incômodo, embora tentasse esconder.

Meu pai continuava impassível.

— Vou contar até cinco.

A voz dele era fria.

Calculista.

Como se estivesse decidindo o destino de um simples objeto.

— Um...

Nataly começou a tremer.

— Dois...

Gérard fechou os olhos.

As lágrimas escorriam pelo rosto dele.

— Três...

A garota levou as mãos ao peito, tentando controlar o desespero.

— Quatro...

Ela olhou para o pai.

Depois olhou para mim.

Pela primeira vez, enxerguei medo verdadeiro em seus olhos.

Antes que meu pai pronunciasse o último número, Nataly soltou um grito que ecoou por toda a mansão.

— Eu caso com o seu filho!

As lágrimas escorriam sem controle.

— Eu me caso!

O silêncio voltou a dominar o ambiente.

Minha mãe ficou completamente sem reação.

Natasha permanecia de boca aberta, incrédula.

Gérard caiu de joelhos, chorando de alívio.

Olhei para Nataly.

Ela evitava me encarar.

Naquele instante, percebi que meu pai havia conseguido exatamente o que queria.

Mas também tive a certeza de que aquele casamento seria um verdadeiro campo de guerra.

Porque, se existia uma coisa evidente naquele momento, era que Nataly me odiava...

E eu começava a sentir que conviver com aquela mulher seria muito mais difícil do que enfrentar qualquer inimigo armado.

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