Capítulo 5 5.NATALY
Após a saída da minha madrasta, a casa mergulhou em um silêncio assustador. Caminhei até a cozinha e encontrei Dada, nossa governanta de tantos anos, guardando alguns utensílios enquanto tentava esconder as lágrimas. Assim que a vi, corri para abraçá-la.
Ela acariciou meus cabelos e enxugou meu rosto com carinho.
— Tenho que ir embora, Nataly. Como você já deve saber, seu pai nos despediu.
Meu coração apertou.
— Eu queria que tudo isso fosse apenas um pesadelo, Dada.
Ela sorriu com tristeza.
— Também queria, minha menina. Mas agora preciso ir. Prometa que vai se cuidar e nunca perder a sua força.
Assenti em silêncio e a abracei mais uma vez. Permaneci parada na porta até vê-la desaparecer. Pela primeira vez, aquela mansão pareceu grande demais. Peguei o celular e tentei ligar para o meu pai várias vezes, mas ele não atendeu nenhuma das chamadas.
Sem coragem para procurar meus amigos, subi para o quarto. Poucos minutos depois, Lisa me enviou várias mensagens perguntando como eu estava. Fizemos uma chamada de vídeo e contei tudo o que havia acontecido. Ela ficou completamente chocada.
— Nataly, isso é um absurdo! Você não pode enfrentar tudo isso sozinha.
Conversamos por horas. Chorei, desabafei e até consegui sorrir em alguns momentos. Amigos verdadeiros têm esse dom de aliviar a dor, mesmo quando parecem incapazes de resolver nossos problemas.
Depois da ligação, peguei a única fotografia que tinha da minha mãe. Era antiga, em preto e branco, encontrada por acaso entre os pertences do meu pai. Cresci ouvindo que ela morreu durante o meu parto e, naquele momento, senti uma falta enorme de alguém que nunca conheci.
— Como eu queria que você estivesse aqui, mãe... — sussurrei.
Se ela estivesse viva, talvez eu tivesse um colo para me refugiar. Mas a vida me ensinou a enfrentar as tempestades sozinha. Enxuguei as lágrimas e prometi a mim mesma que não deixaria o medo vencer.
A madrugada chegou e o sono não apareceu. Passava da uma da manhã quando ouvi um carro estacionar na frente da casa. Meu coração disparou. Corri escada abaixo e encontrei meu pai cambaleando. Seu rosto estava machucado, a camisa amarrotada e o forte cheiro de álcool denunciava seu estado.
— Papai! Quem fez isso com o senhor? — perguntei, desesperada.
Ele mal conseguia manter os olhos abertos.
— Estou bêbado... Só quero deitar, Nataly.
Enquanto o ajudava a caminhar, percebi outra coisa.
— Onde está o seu carro?
Ele abaixou a cabeça, envergonhado.
— Eu... perdi no cassino.
Senti o chão desaparecer sob meus pés. Meu pai havia perdido o carro enquanto nossa família afundava em dívidas. Sem dizer uma palavra, ajudei-o a deitar no sofá. Em poucos segundos ele adormeceu, vencido pela bebida.
Fiquei observando aquele homem que um dia foi meu herói. A decepção era maior que qualquer outra dor que já senti. Subi para o quarto com lágrimas nos olhos e adormeci pensando que minha vida jamais voltaria a ser como antes.
Na manhã seguinte acordei determinada a conversar seriamente com ele. Fiz minha higiene, troquei de roupa e, antes mesmo de sair do quarto, ouvi gritos vindos do andar de baixo.
Desci as escadas às pressas.
Ao chegar à sala, congelei.
Um homem alto, forte, de cabelos negros e olhos verdes segurava meu pai pelo colarinho sem demonstrar qualquer piedade. Sua presença impunha respeito, mas havia uma arrogância estampada em seu rosto que despertava medo.
— Solte o meu pai! — gritei, avançando em sua direção.
Ele me encarou friamente antes de soltar um sorriso debochado.
— Então você é a princesinha falida.
Meu sangue ferveu. Antes que eu respondesse, ele deu mais um passo em minha direção.
— Meu nome é Romero Montes. Vim buscar o que pertence à minha família por direito.
Naquele instante compreendi que o verdadeiro pesadelo estava apenas começando.
Corri até meu pai e o abracei, tentando protegê-lo. Outro homem permaneceu ao nosso lado, impedindo qualquer tentativa de fuga, enquanto Romero subiu para vasculhar a casa como se tudo ali já lhe pertencesse.
Quando voltou, ordenou que nos levassem. Lutei com todas as minhas forças, empurrando e gritando para que nos soltassem. Minha resistência apenas aumentou sua irritação.
— Chega! — rosnou Romero.
Como continuei enfrentando-o, ele tapou minha boca com uma fita preta. As lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu me debatia inutilmente.
As palavras da minha madrasta ecoaram na minha mente: "Essa gente não conhece piedade." Pela primeira vez, percebi que ela tinha razão.
Fomos colocados em um carro e, depois de um longo trajeto, chegamos a uma mansão gigantesca, mais parecida com um castelo. O luxo do lugar contrastava com o medo que consumia meu peito.
Fomos levados até um amplo salão. No centro, um senhor de aparência imponente estava sentado como um verdadeiro rei. Ao seu lado, duas mulheres nos observavam com pena, enquanto vários homens armados cercavam o ambiente.
O velho me analisou lentamente, como se estivesse avaliando uma mercadoria.
— Bonita... Muito bonita — comentou com frieza.
Senti um arrepio percorrer meu corpo.
Então ele revelou sua proposta.
Todas as dívidas do meu pai seriam perdoadas... desde que eu me casasse com Romero.
Meu coração disparou.
— Nunca! — gritei. — Eu não sou um objeto para ser negociado!
O salão mergulhou em silêncio.
Tentei correr, lutar e me libertar, mas fui contida rapidamente. Foi então que um dos homens apontou um fuzil para a cabeça do meu pai.
O desespero tomou conta de mim.
Olhei para Gérard esperando que ele reagisse, que me defendesse, que recusasse aquele absurdo.
Mas ele permaneceu calado, com a cabeça baixa.
Naquele instante compreendi que estava completamente sozinha.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Se recusasse, meu pai morreria.
Respirei fundo e, mesmo com o coração em pedaços, aceitei aquele destino cruel.
Voltei meu olhar para Romero.
Ele também parecia insatisfeito. Seus olhos demonstravam tanta revolta quanto os meus, deixando claro que aquele casamento também lhe havia sido imposto.
Foi então que um homem chamado Gian pediu a palavra.
— Senhor Fausto, o que faremos com eles? Onde irão morar, já que todos os bens passarão a ser seus?
Fausto respondeu sem hesitar:
— Gérard trabalhará para mim até quitar sua dívida de honra. Nataly passará a morar na casa de Romero imediatamente. Ela poderá concluir a faculdade de Medicina, mas, a partir de hoje, responderá ao meu filho. Depois do casamento, será responsabilidade dele.
Cada palavra era uma sentença.
Meu pai continuava em silêncio.
Nem sequer teve coragem de olhar nos meus olhos.
Baixei a cabeça para esconder as lágrimas. Minha vida havia sido decidida por homens que sequer perguntaram o que eu queria.
Pouco depois fomos separados.
Enquanto levavam meu pai para outro lugar, fui conduzida por Gian até a residência de Romero.
A casa era enorme, elegante e impecavelmente decorada, mas nada daquele luxo conseguia diminuir o vazio dentro de mim.
Assim que entramos, uma senhora de expressão gentil veio nos receber.
— Como vai, Lena? — perguntou Gian. — Esta é a futura esposa do senhor Romero. Cuide muito bem dela.
A mulher me observou com compaixão.
— Seja bem-vinda, minha querida. Está tudo bem?
Permaneci em silêncio.
Depois de tudo o que havia acontecido, eu não conseguia confiar em ninguém ligado àquela família.
Mesmo assim, Lena não insistiu.
Apenas sorriu com delicadeza.
— Sou a governanta desta casa. Venha, vou lhe mostrar o seu quarto.
Segui seus passos pelo enorme corredor.
Quando a porta se abriu, fiquei surpresa. O quarto era luxuoso, com móveis sofisticados, uma varanda enorme e uma vista deslumbrante.
Qualquer pessoa sonharia em morar ali.
Eu só conseguia pensar que aquela era uma prisão.
— Como é o seu nome, querida? — perguntou Lena.
— Nataly.
Ela sorriu.
— Posso ver que está sofrendo. Não sei o motivo de tudo isso, mas quero que saiba que jamais farei qualquer mal a você.
Respirei fundo antes de responder.
— Talvez a senhora seja uma boa pessoa... mas o homem com quem me obrigaram a casar é um criminoso. Fui entregue a ele como se minha vida não tivesse valor algum.
Minha voz falhou.
Toda a dor que eu tentava esconder finalmente veio à tona.
Comecei a chorar compulsivamente.
Sem dizer uma palavra, Lena me abraçou com carinho e passou a mão pelos meus cabelos, exatamente como Dada fazia.
Aquele gesto quase fez meu coração desmoronar.
Fechei os olhos por alguns instantes e, enquanto chorava, fiz uma promessa silenciosa.
Eu poderia estar presa naquela mansão.
Poderia ter sido obrigada a aceitar um casamento sem amor.
Mas jamais entregaria meu coração a Romero Montes.
Mesmo que precisasse enfrentar aquele império sozinha, encontraria uma maneira de recuperar minha liberdade.
Nem que fosse a última coisa que eu fizesse.
