Capítulo 7 7. NATALY
Como duas pessoas podem sentir tanto ódio uma pela outra sem sequer terem convivido de verdade? Essa pergunta martelava minha cabeça desde o momento em que conheci Romero Montes. Nunca imaginei encontrar alguém tão arrogante, frio e prepotente. Bastaram poucas horas ao lado dele para eu perceber que seria impossível suportar sua presença por muito tempo.
Depois das ameaças que fez, Lena recebeu a ordem de me acompanhar até minha antiga casa para buscar meus pertences. Durante todo o caminho permaneci em silêncio, olhando pela janela do carro. Cada quilômetro percorrido aumentava a sensação de que minha antiga vida estava ficando para trás.
Quando atravessei a porta da casa onde cresci, um aperto tomou conta do meu peito.
Tudo permanecia exatamente no mesmo lugar, mas eu já não pertencia àquele lar.
As lembranças vieram de uma só vez. As tardes estudando para realizar o sonho de cursar Medicina, os poucos momentos felizes que vivi ali e, principalmente, a esperança de construir um futuro diferente. Agora, tudo parecia distante.
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
Meu pai destruiu nossa família com as próprias escolhas. Fiz tantos sacrifícios tentando ajudá-lo que, naquele instante, me perguntei se algum deles realmente havia valido a pena.
— Nataly, vamos pegar suas coisas logo. Romero pode ligar a qualquer momento. — A voz tranquila de Lena interrompeu meus pensamentos.
Enxuguei as lágrimas com as costas da mão.
— Quero que Romero vá para o inferno. Não tenho medo dele.
Ela apenas suspirou.
Sem dizer mais nada, subi as escadas rapidamente. Lena e o motorista vieram atrás de mim.
Assim que entrei no quarto, parei por alguns segundos. Passei os olhos por cada detalhe, tentando guardar aquela imagem na memória. Talvez fosse a última vez que pisaria ali.
Peguei uma caixa e comecei a guardar meus livros da faculdade, meus cadernos, anotações e todo o material que tanto me custou conquistar. Depois coloquei algumas roupas simples dentro de uma mochila.
Não fazia questão de levar vestidos caros ou sapatos elegantes.
Se Romero imaginava que eu pisaria ao seu lado como uma esposa exemplar, estava completamente enganado.
Abri a gaveta do criado-mudo e retirei a única fotografia que possuía da minha mãe.
Era uma imagem antiga, em preto e branco, mas representava tudo o que ainda me ligava a ela.
Segurei a fotografia junto ao peito por alguns instantes antes de colocá-la cuidadosamente dentro da mochila.
Lena observava meus movimentos em silêncio.
— Só vai levar isso, Nataly?
Assenti.
— É tudo o que realmente importa para mim.
Ela pareceu surpresa.
— Você tem muitas outras coisas aqui.
Olhei ao redor do quarto.
— Nada disso tem valor quando a liberdade nos é tirada.
Por alguns segundos, Lena permaneceu calada.
Depois falou com delicadeza:
— Talvez você devesse conhecer melhor o senhor Romero antes de julgá-lo.
Balancei a cabeça negativamente.
— Não existe justificativa para o que ele está fazendo comigo. Ninguém que obriga uma mulher a se casar contra a própria vontade merece minha confiança.
Ela não insistiu.
Antes de irmos embora, encontrei uma pasta com os documentos do meu pai.
Entreguei-a a Lena.
— Quando encontrar meu pai, entregue isso a ele. Ele vai precisar.
Ela guardou a pasta e fez um gesto afirmativo.
No caminho de volta para a mansão, meus pensamentos não paravam.
Eu precisava encontrar uma forma de escapar daquele casamento.
Não importava quanto tempo levasse.
Jamais aceitaria viver presa ao lado de um homem como Romero Montes.
Enquanto o carro seguia pela estrada, fiz uma promessa silenciosa a mim mesma.
Eles poderiam controlar meus passos por enquanto.
Mas nunca controlariam minha vontade de lutar pela minha liberdade.
Assim que chegamos à mansão, os seguranças retiraram minhas caixas do carro e as levaram para dentro da casa. Respirei fundo e tentei manter a cabeça erguida. Eu não daria a Romero o prazer de me ver derrotada.
Entrei na sala sem olhar para ele.
Fingi que não estava ali.
— Pare aí. — Sua voz firme ecoou pelo ambiente.
Fechei os olhos por um instante antes de me virar.
Romero caminhava em minha direção segurando uma pequena caixa.
— Me entregue seu celular antigo.
Cruzei os braços.
— Não.
Ele parou diante de mim.
— Vai entregar. A partir de agora, você usará este aparelho. Também quero seus documentos. Não confio em você.
Aquela frase foi suficiente para fazer minha paciência desaparecer.
Abri a mochila, retirei o celular antigo e os documentos e os lancei em sua direção. Os objetos bateram contra seu peito antes de caírem no chão.
— Aí! — reclamou, irritado. — Ficou maluca?
— Você queria as minhas coisas. Agora elas são suas.
Virei as costas e comecei a subir as escadas.
— Nataly! Volte aqui!
Continuei andando.
Antes que chegasse ao corredor, senti sua mão envolver meu pulso com força.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Romero me obrigou a virar de frente para ele.
— Você precisa aprender a me respeitar. Se continuar me enfrentando, vai tornar sua própria vida muito pior.
Puxei o braço, tentando me soltar.
— Já disse que não tenho medo de você.
Ele apertou meu pulso por mais um instante.
— Repito quantas vezes forem necessárias. Prefiro morrer a aceitar esse casamento.
Seu olhar permaneceu fixo no meu.
Havia raiva dos dois lados.
Tentei me afastar novamente, mas minhas costas encontraram a parede do corredor.
Meu coração acelerou.
— Me solta.
Ele permaneceu muito próximo, invadindo meu espaço.
Senti um medo que me revoltou ainda mais. Eu me recusava a demonstrar fraqueza diante dele.
— Você pode me obrigar a morar nesta casa, pode controlar meus passos, mas nunca vai controlar quem eu sou.
Por um breve instante, o silêncio tomou conta do corredor.
Romero me encarou como se quisesse dizer alguma coisa, mas permaneceu calado.
Então, de forma inesperada, aproximou-se ainda mais e me beijou contra a minha vontade.
Fiquei completamente paralisada pelo choque.
Minha primeira reação foi empurrá-lo e tentar me afastar.
Quando finalmente consegui criar distância entre nós, respirei com dificuldade, tomada pela indignação.
Levei a mão aos próprios lábios, sem acreditar no que havia acabado de acontecer.
Ele também parecia tenso.
Depois de alguns segundos de silêncio, falou apenas:
— Amanhã iremos à casa dos meus pais. Precisamos decidir a data do casamento.
Pegou o celular novo, colocou-o em minha mão e saiu pelo corredor sem olhar para trás.
Permaneci imóvel por alguns instantes.
Meu peito subia e descia rapidamente enquanto eu tentava recuperar o controle.
Aquela situação me deixou confusa, revoltada e humilhada.
Passei a mão sobre os lábios, como se pudesse apagar o que havia acontecido.
— Eu odeio você... — murmurei baixinho.
Subi para o quarto e tranquei a porta.
Encostei as costas na madeira e fechei os olhos.
Queria acreditar que tudo aquilo acabaria logo, mas, no fundo, sabia que aquele era apenas o começo.
Peguei o celular que Romero havia me entregue.
Antes mesmo de ligá-lo, imaginei que ele tentaria controlar tudo o que eu fizesse.
Quando a tela acendeu, confirmei minha desconfiança.
Havia apenas um contato salvo.
Romero.
Soltei uma risada amarga.
— Claro... você não deixaria passar essa oportunidade.
Minha vontade era jogar o aparelho pela janela.
Mas sabia que isso apenas provocaria mais conflitos.
Precisava agir com inteligência.
Se quisesse escapar daquele casamento, teria de ser paciente.
No dia seguinte eu voltaria à faculdade. Precisava encontrar Lisa e Jhon pessoalmente. Não confiava naquele celular e muito menos acreditava que minhas conversas estariam protegidas.
Segurei a fotografia da minha mãe, sentei-me na cama e a observei por longos minutos.
— Me dá forças... porque eu vou precisar.
Enxuguei as últimas lágrimas.
Romero Montes podia acreditar que havia vencido aquela batalha.
Mas eu ainda não tinha desistido da guerra.
