Capítulo 4 FRENTE A FRENTE COM O INIMIGO II

Ernest contraiu os lábios, tentando entender. Mas eu não precisa explicar-lhe que comprei o banco para que a dívida fosse minha. Seria entregar-lhe de bandeja parte do que tinha lhe preparado com tanta dedicação nos dez anos que se passaram.

- Eu... Não entendo onde quer chegar, senhor Clifford.

- Irei direto ao ponto, senhor Abertton: quero que sua filha, Olívia, case com meu irmão, Jorel.

Ernest contraiu os lábios novamente e uma sobrancelha ergueu-se, de forma questionadora. Fez menção de falar algo, mas parece que a voz lhe traiu, não saindo.

- Suas dívidas estão atrasadas. E a casa prestes a ser tomado pelo banco. – Expliquei.

- Eu... Botei a empresa à venda – alegou – A concessionária de rodovias poderia ser dada em nome da dívida.

- Não! Tomarei sua casa, confiscarei seus bens, terá que dar a concessionária. Ainda assim não quitará suas dívidas com o banco.

- Os juros... São altos demais.

- Sinceramente, pouco me importo. O senhor assinou o contrato.

- Não entendo porque Olívia está nesta conversa.

- Quero que meu irmão case. Está na hora de ele assumir um compromisso. Simples assim.

- Jorel Clifford... É um homem bem famoso na mídia nacional...

- Sim... – sorri.

- Por coisas ruins. – Engoliu em seco.

- Hum, sua filha é alguma princesa de porcelana por acaso?

- Para mim ela é.

- Entendo... Deve ser por isto que ficou em casa enquanto a família inteira está aqui! – sorri, não me contendo – Estes laços familiares e parentais me dão ânsia por isto! – suspirei – Você poderia voltar em duas vidas que ainda assim não pagaria sua dívida comigo, Abertton.

- Seu irmão não é um bom partido para ninguém.

- Você não está em condições de escolher.

- Jorel Clifford é um bêbado viciado em jogos e mulheres.

Eis uma coisa que eu não sabia: que Jorel jogava. Mas que tempo eu tinha para ler fofocas? Minha vida era corrida demais para servir de babá para Jorel.

- Pelo que sei Olívia nasceu do seu relacionamento com uma destas mulheres de origem duvidosa.

- Você não tem direito de falar assim comigo.

- Sim, eu tenho. Sua casa me pertence. Sua empresa me pertence. O carro que você dirige me pertence. Você me pertence. E sua filha me pertencerá.

- Senhor Clifford, podemos negociar minha filha Rita? – Finalmente se deu por vencido e decidiu fazer uma proposta.

- Não, não tenho interesse em Rita Abertton para ser esposa de Jorel.

A respiração do desgraçado ficou pesada. E se desse um mal súbito ou qualquer outra coisa eu o faria voltar à vida, custasse o que custasse, porque ele não poderia morrer sem pagar cada lágrima que chorei, cada dor que me feriu e cada berro que gritei em meio ao nada, tentando encontrar respostas que não haviam.

- Senhor Clifford, eu não estou entendendo o que o senhor de fato deseja.

- Não deixei claro o bastante que quero sua filha Olívia para esposa de meu irmão Jorel?

- Com todo respeito, mas minha Olívia é uma garota espetacular. Seu irmão... A fará sofrer.

Eu não contive a gargalhada. Estava sendo bem divertido aquele jantar. E eu que achei que ver aquele homem frente a frente pela primeira vez me faria sofrer feito um bicho, como no passado. Mas não! Seria tão fácil destruí-lo e vê-lo sofrer que já nem parecia mais tão engraçado quanto pensei. Porque rápido demais que eu esmagaria aquele verme.

- Costumo trabalhar com objetivos, senhor Abertton. E este já está cumprido! – Levantei-me e fui para o local onde ele havia deixado a família, sentando-me à mesa.

- Boa noite à todas. Sou Gabe Clifford.

Assim que sentei à mesa o maitre trouxe o menu, que ofereceu primeiramente a mim.

- Sou Rita Abertton. – A mulher se apresentou, não me interessando mais do que a escolha do que eu pediria para o jantar.

- Senhor Clifford, conseguiu fazer negócios com meu marido? – A mulher de voz estridente perguntou, fazendo questão de meter-se onde não era chamada.

- Creio que sim – olhei para Ernest totalmente desestruturado e sem palavras sentado à mesa.

- Minha irmã Olívia tem uma foto do seu irmão – a aprendiz de adolescente mencionou, direcionando-se a mim – Está no quarto dela.

- Sua irmã é uma sonhadora? – Sorri, com todo meu sarcasmo.

- Na verdade é apenas uma garota de bom gosto! – ela piscou e bebeu um gole da água que havia na taça.

Notei que elas ainda não haviam feito os pedidos.

- Desejo batatas Chipperbec com champagne Don Perignon e vinagre francês Ardenne, fritas em gordura de ganso e temperadas com sal trufado francês e raspas de trufas italianas e queijo pecorino. Substitua o molho da casa pelo molho Mornay, com queijo suíço. De sobremesa uma cassata italiana saborizada com licor Bailey’s com compota de manga e romã. A base precisa ser de Zabaione. Quanto à bebida... Traga o tive de melhor na casa, por favor. Afinal, estamos comemorando, não é mesmo senhor Abertton?

Logo as mulheres da família começaram a fazer seus pedidos. Esperei que todas escolhessem e chamei o maitre novamente, solicitando mais um prato do menu.

- Você come bastante – a aprendiz de adolescente chamou minha atenção – Nem sei como consegue ser magro.

- Eu não comi ainda! – Olhei diretamente para ela, que seguiu com a cabeça erguida, fixando o olhar no meu. Petulante!

- Minha irmã não pode comer muito. Ela tem diabetes tipo 1. Seu irmão Jorel come tanto quanto você?

Ela estava mesmo me perguntando quanto Jorel comia? Eu não via Jorel comer há no mínimo uns cinco anos. Vivíamos vidas separadas. Só nos falávamos uma vez por mês, quando ele vinha na sede da Clifford pegar o dinheiro. Eu nem sabia se meu irmão era alérgico a alguma coisa. E não tinha obrigação nenhuma de saber.

- Jorel prefere comer outras coisas e não comida. – Não me contive, percebendo o olhar repreensivo da senhora Abertton.

- E então, senhor Abertton? Temos um acordo? – Perguntei.

- Não, senhor Clifford. Infelizmente não temos um acordo. – o homem pagou para ver.

- Como assim você não aceitou um acordo? – A senhora Abertton deixou clara sua insatisfação com o marido.

Esperei que viessem os pratos enquanto ouvia a aprendiz de adolescente falando sem parar. A parte boa é que a aprendiz de modelo não conseguia se inserir na conversa, porque a caçula não deixava. Me dei em conta que não precisava muito para Olívia ser a preferida do pai, já que as duas filhas dele que estavam ali eram simplesmente chatas e inconvenientes.

O dono da concessionária rodoviária Abertton, em processo de falência, já que comprei todas as empresas que competiam com ele e investi pesado a fim de deixá-lo sem ter como lutar contra todas, que na verdade eram só uma, estava tão pálido quanto o guardanapo.

Ele tinha contraído vários empréstimos para concluir trabalhos que havia começado, tentando tirar o nome do negativo para poder concorrer a licitações e no fim já nem tinha mais como pagar os funcionários, que batiam na sua empresa fazendo ameaças. E sim, comprei todos os bancos nos quais ele contraiu dívidas. E a cada um deles usei de contratos cada vez mais impossíveis de serem cumpridos financeiramente. No fim, Ernest devia mais do que era capaz de pagar naquela vida. Na verdade, eu nem sabia como aquele homem ainda mantinha a família comendo e bebendo.

Assim que a comida foi servida, dei uma garfada e olhei para Ernest Abertton:

- Sua resposta final é não?

- Minha resposta final é não. – Confirmou, hesitante.

Levantei-me, afrouxando um pouco a gravata, certo de que estar perto daquele homem monstruoso era o que me deixava quase sem ar.

- Sofra as consequências de sua decisão, senhor Abertton.

Saí sem despedir-me. Antes de deixar o local, avisei ao maitre:

- A conta será paga pelo senhor Abertton. Sinceramente não costumo fazer isto, mas ele insistiu.

Não que eu precisasse dar satisfação a um simples maitre, mas queria deixar claro que Ernest arcaria com o valor. Para mim o valor final de tudo que fora consumido naquela noite era o que eu costumava dar de gorjeta para bons garçons em restaurantes em Dubai, por exemplo. Mas sabia que Abertton suaria frio ao saber que bancaria o consumo. O prejuízo sairia por conta dele e não meu. Eu sabia que Ernest voltaria atrás em sua decisão e uniria o chuchu ao meu irmãozinho playboy e que agora eu havia descoberto que era também um jogador.

Eis o motivo de eu odiar pessoas. Nenhuma valia a pena ser gostada. A única que chegou no meu coração estava morta. E Ernest Abertton pagaria até seu último suspiro por isto.

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