Capítulo 5 CASAREI

POV OLÍVIA

Acordei com vozes vindas de dentro e fora da minha casa. Espreguicei-me e fiquei a imaginar o que estaria acontecendo. Certamente papai tinha feito negócios com o senhor Clifford na noite anterior e aquele tumulto tinha a ver com aquilo.

Fui para o banho e abri a torneira do chuveiro e não tinha água. Como assim acabou a água?

Com toda aquela gente conversando a governanta não me ouviria de jeito nenhum, nem se eu gritasse ao lado dela. Pus um roupão e abri a porta do quarto, vendo homens uniformizados retirando os móveis de nossa casa e levando pela escada. Alguns itens estavam descendo por uma corda, diretamente do mezanino.

Vi Isabelle subindo para seu quarto com uma caneca na mão. Usava o uniforme da escola.

- Bom dia, docinho de coco. Não foi à escola hoje? – Perguntei.

- Não... Pelo mesmo motivo que você não tomou seu banho. – Passou por mim indo em direção ao seu quarto.

- Não foi à escola por que não tinha água?

- Porque estamos ficando sem móveis – riu de forma debochada e parou na porta, fazendo careta – Não viu os noticiários?

Voltei imediatamente para o meu quarto e peguei o celular. As notícias do dia no mundo dos negócios eram “Banco de N.N. anuncia dívida trilionária da Concessionária de Rodovias Abertton, o que certamente obrigará a abertura de falência de uma das mais antigas empresas do ramo no país. Bens de Ernest Abertton estão sendo tomados em nome de parte das dívidas, incluindo a sede da empresa, imóveis e até mesmo ferramentas de trabalho.”(...)

Nem cheguei a ler o final. Corri do jeito que estava na tentativa de encontrar meu pai, que devia estar desesperado. Ele estava na cozinha, com Rose, que em meio ao caos e à casa tomada de pessoas estranhas, tentava fazer uma maquiagem com um pequeno espelho que meu pai segurava próximo do rosto dela.

Estavam levando nossos móveis e Rose queria parecer bonita aos olhos dos carregadores?

- Coração! – meu pai abriu um sorriso quando me viu.

Dei-lhe um beijo na bochecha, ficando na ponta dos pés, já que ele era um homem de 1,90 metros, com um corpo escultural, daqueles que não passava despercebido. Rose era uma mulher bonita, mas não era à toa que escolhera meu pai, que a meu ver era simplesmente um dos homens mais sexys do mundo.

- Pai... Eu sinto muito pelo que está acontecendo – lamentei, louca para dar-lhe um abraço a fim de consolá-lo, impedida pelo espelho que ele segurava – Achei que a noite de ontem seria para fechar bons negócios. O CEO da Clifford não se interessou por Rita? Porque se tivesse dado certo, o dono da Clifford poderia certamente lhe ajudar financeiramente agora.

Rose parou de se maquiar e deu uma gargalhada estridente. Dei um passo para trás, atordoada. Pela primeira vez achei que aquela mulher pudesse ter alguma coisa além de soberba no cérebro... Tipo... Insanidade.

- Tudo isto é culpa sua! – Apontou para mim.

- Minha? – Engoli em seco, tentando em vão entender o que eu, a pobre filha bastarda, Olívia Abertton, tinha a ver com a perda da empresa do meu pai.

- Por favor, Rose, não... – Meu pai pediu.

- Quer poupá-la disto? – ela riu, com escárnio – Não é justo todos nós sofrermos esta perda irreparável por conta dela.

- A culpa não é dela, porra! – papai alterou a voz.

- Culpa? Minha?

- Gabe Clifford comprou todas as dívidas do seu pai. Aliás, acho que ele que deu os empréstimos, já que talvez seja dono de todos os bancos de Noriah Norte – parou um pouco e pensou – E ele quer que você case com Jorel Clifford, o irmão caçula.

Dei um passo para trás, tentando assimilar o que Rose dizia.

- Isto está fora de cogitação, Coração! Você não irá casar com Jorel Clifford. – Papai foi enfático.

Eu ri, incrédula. Desde o início da adolescência eu acompanhava a vida de Jorel Clifford nas redes sociais e toda a internet sonhando um dia conhecê-lo pessoalmente. E agora Rose dizia que o irmão dele queria um casamento arranjado entre mim e o homem dos meus sonhos?

- Qual é a proposta? – Usei um tom sério, certa de que tinha capacidade para decidir por mim mesma e ainda resolver a situação financeira do meu pai.

- Nem pensar... – Ele seguiu sem cogitar a hipótese.

- Jorel é um playboy inveterado e todo o mundo sabe disto – Rose seguiu – Tudo que Gabe Clifford deseja é que o irmão seja visto de forma mais séria. E para a escolheu, Olívia. E juro que morrerei sem entender o motivo de ser você, a pessoa mais sem graça que já vi na vida. Mas sim, está nas suas mãos a chance de não termos que perder tudo e ir morar debaixo da ponte. Não temos dinheiro sequer para a porra de um hotel. E nem saiu nos jornais ainda que seu pai não pagou a conta no restaurante ontem, depois do jantar com o CEO da Clifford.

Estamos fodidos... Totalmente fodidos.

- Há quanto tempo está contraindo dívidas, pai?

Ele abaixou a cabeça, sem dizer nada.

- Faz 10 anos – Rose quem respondeu – Malditos dez anos... – A voz estremeceu e pela primeira vez vi certo temor nos olhos dela, sob toda aquela casca de prepotência e hipocrisia.

- Eu caso com Jorel Clifford – não hesitei um minuto sequer – Faço tudo por você, pai!

O motivo principal daquela decisão claro que era ele e minha família. E eu fazia aquilo até mesmo por Rose, porque apesar de ser insuportável, não era uma pessoa ruim. Quer dizer, poderia ser pior, já que ela nunca me agrediu fisicamente, nem tentou me matar, embora abominava a minha existência. Mas eram poucas as pessoas que não questionavam o motivo pelo qual nasci, então isto não a fazia diferente de praticamente todo o mundo.

- Coração, prefiro morrer a vê-la casada com aquele desgraçado que a fará sofrer pelo resto da vida. Gabe Clifford não tem coração. E Jorel Clifford só pensa com o pau. Ele já comeu todas as mulheres do país que tem uma conta com mais de três dígitos. É um jogador viciado e um homem que não tem nenhuma qualidade. Vive das migalhas do irmão. Foi capaz de jogar uma herança bilionária fora.

- E desde quando você se preocupa com fidelidade, Ernest? – Rose riu com ironia e não tirei a razão dela.

Meu pai abaixou a cabeça, arrasado. Sim, ele tinha errado no passado, mas por que cobrar aquilo a vida inteira? Rose perdoou e quando tomou aquela decisão devia ter feito de coração e não da boca para fora. Todos, absolutamente TODOS os dias ela o lembrava da traição, da qual eu havia nascido.

- Eu mesma não me importo com traição – dei de ombros e sorri – É Jorel Clifford! Eu casaria com ele mesmo que não precisasse ser a única forma de salvação da nossa família – deixei claro.

- Coração, não estamos falando daquele rapazinho que você idolatra por conta das postagens nas redes sociais. Você já tem 19 anos. Precisa entender que vai muito além disto. Sofrerá, minha filha. Não terá um marido. Jorel seguirá a vida e Gabe Clifford deixou isto muito claro. Eles querem me destruir e eu nem sei ao certo o motivo.

- Desde quando você é alguém para Gabe Clifford querer destruir? – Rose descartou a possibilidade – Ele só quer uma esposa submissa para o irmão e certamente viu Olívia em algum lugar e a achou a pessoa perfeita para isto.

- Fui submissa por muito tempo – expliquei a ela – Não sou mais uma menina que todos podem manipular e obrigar a fazer o que querem. Estou escolhendo casar com Jorel e isto é por meu pai e minhas irmãs – deixei claro que o nome dela não estava incluído – Ser submissa é uma coisa. Abrir mão de algumas coisas em nome de quem se ama é outra. Ou seja, não sou submissa a papai e minha família e sim os respeito e amo o suficiente para fazer pequenos sacrifícios em troca da felicidade deles. Casar com Jorel Clifford é uma decisão que requer muita sabedoria para se tomada. E eu não aceitaria se não tivesse certeza que posso mudar o playboy mais amado de Noriah Norte – não contive o sorrisinho ao lembrar daquela carinha dele de “menino travesso” em todas as fotos nas quais posava.

- Não... – Papai tentou fingir que não concordava, mas nos olhos dele percebi que estava aceitando minha explicação.

Peguei o celular do bolso dele:

- Ligue para Jorel. Casarei.

Rose me abraçou. E sim, foi o primeiro abraço desde que a conheci, quando eu tinha dez anos de idade. Se foi sincero? Claro que não. Mas era melhor me dar um abraço do agradecimento do que morar debaixo da ponte não tendo nem onde guardar suas bolsas de marca.

Se aquilo era loucura? Sim, era. Quem, com todas as opções de mulheres do mundo para casar escolheria a mim? Eu não era feia, mas não tinha nada que pudesse me destacar de outras pessoas a não ser a diabetes tipo 1, escrever uma biografia de mim mesma e o otimismo que fazia parte de todo o meu ser. Era o tipo de pessoa que sempre via o copo “meio cheio”. E tinha um bom coração porque acreditava que era a única forma de tocar as pessoas.

Mas submissa? Não, eu não era. E as marcas no meu corpo provavam o quanto lutei para não deixar que fizessem comigo o que bem entendiam no passado. Deveria, pela lógica, ter crescido cheia de traumas e odiando o mundo. Mas acreditava que minha existência era por algum motivo e por isto escrevia minhas memórias ainda viva, num bloquinho, porque quando morresse achariam e publicariam minha biografia: “Olívia Abertton, a mulher que sobreviveu ao caos e a dor”. Talvez eu substituísse futuramente o “dor” por “diabetes”, já que não sabia quanto tempo a doença me deixaria viver. Eu tomava 15 doses de insulina por dia, mesmo seguindo todas as recomendações médicas.

Jorel Clifford seria só a cereja do bolo. A minha recompensa. O homem que tiraria minha virgindade, como sonhei algumas vezes. Sempre imaginei que ele devia ser bom de cama, já que tinha experiência.

- Você está... Sorrindo? – Meu pai tirou-me dos meus pensamentos.

- Sim. Estou feliz. – Deixei claro.

Meu pai fez uma ligação, saindo de perto de nós. Rose e eu ficamos nos encarando.

Depois de um tempo ela disse:

- Não sei quais são seus planos, Olívia! Mas... Obrigada.

Um relampejo de humanidade em Rose Abertton? Por isso eu acreditava que sempre o copo estava “meio cheio”. Ela era horrível? Ah, era. Mas poderia ser pior... Tipo, mandar envenenar a minha comida.

- Falei com a secretária de Gabe Clifford e pedi que fosse marcada uma reunião para que você e Jorel Clifford possam se encontrar. – Papai retornou do canto onde fizera a ligação.

- E ele não aceitou! – Bufei.

- Aceitou. Será hoje à noite, num jantar na residência dos Clifford aqui na capital.

- O quê? – Rose gritou, num misto de desespero e alegria – Iremos conhecer uma das mansões Clifford? Não tenho nem roupa para isto! Preciso de cabelereiro, maquiagem... E um vestido novo, Ernest!

Não morávamos numa mansão? Sempre achei que fosse... Casa grande, em condomínio fechado, com mais quartos do que pessoas, todos suítes, cômodos amplos, móveis caros e de qualidade... Aquela mulher não sabia o que significava pobreza, literalmente. E se fosse posta frente a frente com aquela condição, morreria.

Óbvio que se adaptar à boa vida era muito mais fácil do que a ruim. E por este motivo fui muito dedicada e grata quando cheguei à casa dos Abertton, a fim de nunca decepcionar meu pai ou ser uma vergonha maior do que já era na sua vida.

Indo na contramão de minha madrasta e minha irmã caçula, não usei para o evento em que conheceria meu futuro marido algo de marca reconhecida e confiável, optando pelo que fazia meu estilo.

- Laranja? – Rose disse, inconformada, quando descemos do carro em frente à residência dos Abertton – Quem usa roupa laranja num evento para conhecer o irmão do homem mais rico do país?

- Laranja é o novo nude! – Tentei conter o riso.

- A parte boa é que Olívia fica bem com qualquer tom. – Isabelle, como sempre, me defendeu.

- Realmente está linda, Coração! – papai pôs o braço sobre meu ombro, fazendo questão que eu entrasse praticamente “protegida” por seu corpo.

- Nas revistas de moda a foto chamará muito a atenção para você, por conta da cor. – Rose seguia incomodada com meu look.

- Queria que você fosse a atração principal, mamãe? – Isabelle riu de forma debochada – É Olívia que vai casar.

- O tom é horrível! Desta vez nem é querer os holofotes para mim, juro!

Antes de chegarmos à porta principal, que devia ter uns seis metros de altura e largura, o mordomo estava à nossa espera, vestido de forma totalmente tradicional.

A mansão Collins na capital era graciosa, para não dizer “esplendorosa”. Linda, perfeita, parecia até de mentira. Mas eu tinha certeza de que ninguém além dos funcionários moravam ali, porque não havia sinal de vida... A não ser a que pulsava no meu coração, ansioso por conhecer o homem mais lindo do mundo: Jorel Clifford.

Fomos encaminhados para uma sala gigantesca, com o teto tão alto que parecia a torre de um castelo. E lá estava o meu sonho: “Jorel Clifford”. Queria que meu coração não entregasse toda ansiedade que eu sentia por aquele momento. Mas era impossível, porque ele batia descontroladamente.

Não sei se por conta do nervosismo daquele encontro ou pelo fato de não termos mais um móvel dentro de casa e eu estar sendo usada praticamente como moeda de troca para que meu pai não fosse jogado literalmente na sarjeta, mas meu sangue parecia implorar por açúcar, mesmo já tendo tomado minha dose diária de insulina.

Os Clifford vieram na nossa direção e meus olhos não conseguiram desviar dos de Jorel. Deus, era verdade! Eu tocaria no meu sonhado ídolo sarado e gostoso. E aquele sorriso lindo e exuberante que ele carregava no rosto era para mim?

Os cabelos castanhos escuros eram curtos e cortados num corte moderno. Estavam bem penteados e lisos, mas eu já o tinha visto algumas vezes com os fios mais soltos, que os deixavam levemente encaracolados. Os olhos eram acinzentados, mas nas fotos pareciam castanho claro. Gostei mais do que eu via pessoalmente. Não me decepcionei com a cor, pelo contrário, amei. O olhar era expressivo e dócil. Ele devia ter quase 1,80 metros. Mas comparando com meu pai todo mundo era baixo. Usava um terno Stuart Hughes certamente feito sob medida. E senti um calor emanar do meu corpo ao imaginar o que havia por debaixo daquele monte de tecido.

Os homens cumprimentaram-se cordial e asperamente, exceto meu pretendente, que seguia me encarando com um leve sorriso nos lábios. Nunca imaginei que ele não pudesse ser doce e encantador. Aquilo estava escrito na sua testa, mesmo sob os holofotes da mídia.

- Sou Jorel Clifford. – Ele mesmo se apresentou a mim, oferecendo a mão.

- Olívia... A seu... Prazer... Digo, muito prazer... A seu dispor. – Tentei consertar e não parecer a presidente de um fã clube que ele ainda não conhecia.

Apertei a mão que ele me oferecia e Jorel entrelaçou os dedos nos meus, levando-me para um canto reservado da sala, próximo de uma janela de vidro gigantesca, de onde se avistava um jardim que ficava ainda mais perfeito sob a luz do sol que se punha.

- Tem... Um labirinto no seu jardim? – Me ouvi perguntando, sem acreditar.

- Sim – ele riu – Um labirinto de pequenos arbustos. Mas não costumamos vir muito aqui, nem se preocupe.

- Poderíamos vir sempre. Amei. – Não consegui deixar de admirar o lugar – Ah, meu Deus – pigarreei, envergonhada – Me desculpe... Pelo “poderíamos”... Mas... Pelo que sei, iremos nos casar.

- Ah, sim – ele sorriu e pegou duas taças de champagne que vinham na nossa direção, trazidas por um funcionário ornamentado para a ocasião (ou seria sempre daquela forma?) – Um casamento pelo bem de nossas famílias: seu pai não ficará na rua e eu sem minha mesada.

– Riu, de forma sincera, enquanto levantava a taça na minha direção.

Tilintei a taça na dele e segui sem desviar os olhos:

- Achei que estava sendo direta demais, mas percebi que você pensa como eu. – Bebi um gole do champagne, que desceu queimando, as bolinhas gaseificadas parecendo brincar com o interior da minha garganta.

- Achei você linda! E sinceramente, se a tivesse conhecido hoje, mesmo sem saber da porra deste acordo, a pediria em casamento neste exato momento. Você é a mulher dos meus sonhos!

Não contive o riso, que acabou saindo alto demais. Olhei para trás e todos me observavam, com os semblantes nada satisfeitos. Mas não consegui me controlar. Jorel era exatamente como eu esperava: um fofo. Claro que um fofo mentiroso que queria me levar para a cama. Mas eu não escaparia daquilo mesmo, já que seríamos marido e mulher. E quem não quereria perder a virgindade com um homem como aquele? Só a mais louca das mulheres.

Até que meus olhos encontraram os dele... O único homem daquele lugar que eu não conhecia, mas que sabia quem era, por eliminatória: Gabe Clifford.

Foi como se eu me chocasse com um iceberg no meio do oceano. Eu o Titanic e ele o motivo do meu naufrágio. Nunca, em toda a vida, tive a sensação de que algo poderia me quebrar ou fragilizar, já que meu passado tinha feito tudo para me destruir e não conseguiu. Mas ali estava a minha ruína, o meu martírio, o meu calvário. De imediato eu soube que ele era o meu inferno, sem escalas. E eu seria capaz de toda maldade do mundo para acompanhá-lo ao submundo.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo