Capítulo 2

O ar dentro do Oak Valley Private Thoroughbred Racing Club, em Long Island, Nova York, paira espesso com um coquetel azedo de fumaça de charuto, o fedor de esterco de cavalo e o aroma inebriante de dinheiro antigo.

O local é estritamente exclusivo para membros, proibido para gente comum.

Só clãs da elite de Nova York e da Sicília passam pelos portões — do tipo cujos sobrenomes, por si só, já bastam para fazer policiais fingirem que não viram nada.

A linhagem Rossi pode ter caído de sua antiga glória, mas nosso sobrenome ainda tem peso nesses círculos.

Talia e eu nos apoiamos na cerca do recinto.

Sempre tive um talento quase sobrenatural para escolher cavalos de corrida; um instinto inato me permite detectar, num único olhar, aquela chama lupina e feroz num animal.

Mas, quando se trata de escolher homens? Foram necessários seis anos desperdiçados de sofrimento para eu aprender que apostei no cavalo errado o tempo todo.

A égua castanha é de tirar o fôlego, com pelo lustroso e sedoso e olhos indomáveis, desafiadores. No segundo em que minha palma afunda em sua crina, um calor cheio de vida se infiltra pelas pontas dos meus dedos, e Talia solta um assobio grave exagerado ao meu lado.

— Seu olho pra cavalos é muito melhor do que a escolha do seu velho pra genro, Elara.

Solto um sorriso seco e abro a boca para chamar um tratador e registrar a égua no meu nome—

A entrada principal se escancara.

Killian entra a passos largos com seu séquito, Seraphina Moretti agarrada com força ao braço dele, praticamente colada ao seu lado, com um sorriso enjoativamente doce estampado no rosto.

— Elara! Que coincidência adorável encontrar você aqui. — O olhar dela desliza rápido até o cavalo preto ao meu lado, um brilho ganancioso reluzindo por um instante em seus olhos antes que ela volte à sua expressão arregalada e inofensiva. — Sinto muitíssimo, mas Killian reservou o clube inteiro com exclusividade para passar o dia de corridas só comigo hoje.

Ela puxa o braço dele num choramingo manhoso e petulante:

— Não foi isso, Killian? Me defenda, vai. Senão a Elara vai achar que estou fazendo isso de propósito para atingi-la.

Os olhos de Killian se prendem aos meus, um lampejo de hesitação atravessando seu rosto por uma fração de segundo. No fim, ele apenas desvia o olhar e permanece calado.

Talia já enrolou as mangas, pronta para começar uma briga, e eu apoio a mão com gentileza em seu antebraço para contê-la.

— Tudo bem.

Seraphina não tem a menor intenção de recuar.

Ela solta Killian, marcha direto até o garanhão negro e estende a mão para soltar a corda da guia.

— Esse cavalo é deslumbrante, Killian. Eu quero este aqui.

A paciência de Talia se rompe de vez. Ela avança para bloquear seu caminho, disparando:

— Nem pensar! Foi a Elara que viu esse cavalo primeiro!

Killian se move no mesmo instante. Pura memória muscular o faz dar um passo para o lado e proteger Seraphina, deixando-a meio passo atrás de seu corpo; o reflexo é rápido demais, ensaiado demais.

Ele levanta os olhos para mim, um aviso cortante ardendo em suas pupilas — uma demonstração pública e descarada de lealdade que fere muito mais fundo do que qualquer insulto dito em voz alta.

Ao redor, os ricos lordes e damas abaixam a cabeça, escondendo sorrisos de deboche atrás das luvas ou taças de vinho.

Seguro minha amiga furiosa, minha voz estranhamente calma, quase irreconhecível até para mim mesma.

— Deixa pra lá.

Eu me endireito e limpo a saia de uma poeira imaginária.

— Esse cavalo não é bom o bastante. Não quero mais.

Lanço a Killian um único olhar passageiro ao dizer isso. O pomo de adão dele sobe e desce como se estivesse prestes a falar alguma coisa, mas a risada tilintante de Seraphina abafa todas as palavras não ditas.

Eu me viro e sigo para a saída, percebendo pelo canto do olho o peso do olhar conflituoso dele acompanhando minha retirada.

Assim que passamos pelos portões do clube, Talia abandona de imediato seu jeito brincalhão e se inclina para murmurar baixinho no meu ouvido.

— Consegui informações confiáveis. Seraphina vem se encontrando o tempo todo com membros do clã Moretti e trocando cartas secretas codificadas. Ela está drenando os ativos portuários da Voss no Brooklyn — o núcleo da fortuna que seu pai construiu ao longo de décadas.

Continuo andando sem parar e faço um leve aceno de cabeça.

— Sem pressa. Vamos esperar até que cada um dos planos dela desmorone.

Atrás de nós, o pesado portão de carvalho do clube vai se fechando devagar.

O que eu nunca vejo é Killian parado na fresta da porta que se fecha, os olhos fixos rigidamente no caminho por onde desapareci.

Seu cigarro já queimou o bastante para chamuscar sua pele, mas ele não sente dor nenhuma.

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