Capítulo 3
Depois de entregar o último lote de contas da família Voss, eu me senti como alguém que finalmente tinha sido puxada de águas profundas.
Pela primeira vez em anos, eu conseguia respirar.
O apartamento de Talia fica na 70th Street, em Manhattan, com janelas do chão ao teto voltadas para o sul, que em dias claros captam a luz do sol cintilando sobre o rio Hudson.
Nesses últimos dias, a vida tem sido deliciosamente sem pressa.
Dormimos até acordar naturalmente todas as manhãs, pedimos todos os pratos do cardápio no restaurante mexicano de sempre do bairro dela para o almoço, ficamos largadas perto das janelas, tomando vinho sob o sol da tarde, e, quando escurece, vamos de bar em bar e de clube em clube para absorver a vida noturna de Manhattan.
Talia jura que eu desperdicei os últimos seis anos inteiros vivendo só meia vida.
Eu não discuti.
Porque ela estava certa.
Já tarde da noite, um número sem identificação piscou na tela do meu celular.
Eu conhecia aquela sequência de dígitos perfeitamente; só um homem vivo podia me alcançar por aquela linha privada criptografada.
Talia enfiou a cabeça para fora da cozinha, uma batata chips presa entre os dentes, erguendo uma sobrancelha numa curiosidade muda.
Pousei a taça de vinho na mesa de centro, hesitei por um instante e então atendi.
— Você fechou todos os livros financeiros dos Voss? — a voz áspera de Killian ribombou na linha naquele arrastar preguiçoso tão familiar.
— Até a última entrada foi encerrada e assinada.
— E as três negociações do lado do porto...
— Já foram todas entregues. — Eu o interrompi. — Da papelada do gerente-chefe de finanças até cada uma das chaves dos armazéns subterrâneos, eu passei tudo aos representantes que você indicou. Eu me demiti formalmente de todos os cargos que ocupava.
Um silêncio pesado se instalou do lado dele. Era evidente que ele nunca esperou que eu amarrasse as pontas soltas de um jeito tão limpo e completo.
Por anos a fio, eu tinha ficado presa supervisionando os carregamentos do cais dos Voss, auditando livros-caixa intermináveis do clã, enredada em supostas tarefas de família sem fim que se enrolavam em mim como hera rasteira, me mantendo no lugar sem nenhuma saída viável.
Não mais. Eu já não era o peão descartável dele, tocando toda a operação só para ser descartada em público sempre que Seraphina precisava da atenção dele.
— Por que você não me avisou que pretendia sair? — o tom dele desceu para um registro cortante, glacial.
— Nosso contrato de casamento de sangue foi anulado. — Minha voz permaneceu plana, sem emoção. — Eu não tenho mais obrigação de cuidar dos assuntos da família Voss.
Killian ficou sem palavras.
O silêncio pendurado entre nós era como uma faca sem corte, raspando devagar o ar que separava os nossos lados da ligação. Eu quase conseguia imaginá-lo se debatendo para descobrir como me puxar de volta, exatamente como fizera quatro vezes antes.
— Nós nos casamos de novo no dia vinte do mês que vem. — Ele fez uma breve pausa. — Eu mesma vou buscar você.
Houve um tempo em que, mesmo vendo essa proposta chegando a quilômetros de distância, aquilo teria despertado uma tempestade de emoção dentro de mim — esperança eufórica ou dor lancinante; algum sentimento sempre acabava vindo à tona.
Agora, minha mente e meu coração estavam tão calmos quanto a água parada de um lago. Apoiei-me no encosto do sofá, observando a extensão interminável de luzes da cidade além da janela; todo aquele brilho agitado pertencia a um mundo do qual eu já não fazia parte.
— Tá bom.
Houve uma pausa de um segundo, pesada, do lado de Killian.
— Mais uma coisa. — Ele suavizou o tom de propósito, falando num murmúrio gentil. — O dia dez é o aniversário do nosso juramento de sangue, e cai no mesmo dia do encontro anual do clã. Vou esperar por você no nosso antigo lugar quando o evento terminar; tenho uma coisa para você.
Congelei no meio da respiração.
Um golpe bizarro de azar. Era exatamente a data para a qual eu tinha marcado minha viagem de volta para a Sicília.
— Elara?
— Uhum, recebido.
Então, atravessou o telefone uma inflexão feminina, tênue: o choramingo meloso e afetado de Seraphina, espetando meu ouvido como uma agulha fina.
Em seguida veio um pequeno barulho de alguma coisa sendo derrubada, seguido pelos sons suaves e inconfundíveis de beijos ardentes.
A voz de Killian falhou por um instante antes de ele se recompor. — Então, bem—
— Já ouvi tudo o que precisava. — Interrompi e desliguei na hora.
Talia apareceu pela porta do quarto, sustentou meu olhar, mas não disse nada.
Joguei o celular sobre a mesa de centro e ergui meu vinho mais uma vez.
Forcei meus pensamentos para a logística prática: redigir uma lista confidencial para deixar com Talia antes de eu partir, resolver duas pontas administrativas ainda em aberto na Sicília, finalizar uma pequena pilha de contas pendentes antes do meu voo.
Mesmo assim, a menção casual dele a um presente preparado assombrou meus pensamentos, persistindo como um pesadelo teimoso que eu não conseguia afastar.
Sequei a taça de uma vez e fechei os olhos. Talia me observava com um olhar dividido, inquieto.
— Você realmente... — Ela hesitou. — Realmente não se importa mais?
Não respondi. Porque eu mesma não tinha certeza da resposta.
No segundo em que a tela do celular apagou, notei o tremor leve e incontrolável atravessando as pontas dos meus dedos.
