Capítulo 2
ALERA
Meus olhos se arregalam quando empurro o peito dele, mas o aperto só se intensifica. Os dedos dele se enterram nos meus cachos, me prendendo no lugar, enquanto a boca dele continua implacável.
Tento gritar e me soltar, mas meu protesto é engolido inteiro quando a língua dele desliza para dentro da minha boca.
O calor envolve todo o meu ser. Meus punhos se fecham nas dobras do paletó dele e, em vez de afastá-lo, eu me agarro a ele. Meu corpo se inclina naturalmente, porque, meu Deus, é bom.
Então, tão de repente quanto começou, ele se afasta.
Meus lábios formigam, meu peito sobe e desce ofegante e, quando ergo o olhar, ele está sorrindo. E isso praticamente rouba o ar dos meus pulmões.
Antes que eu consiga sequer processar, os dedos dele deslizam para capturar minha mão. Então ele se vira, me puxando junto.
Eu tropeço atrás dele, atordoada; meu cérebro ainda é uma bagunça embaralhada. Os seguranças não se mexeram. Só encaram, de olhos arregalados, paralisados em silêncio.
Então a estranheza disso tudo não é só coisa da minha cabeça. Excelente.
Ele me conduz até o carro, abre a porta como um cavalheiro e me ajuda a entrar.
Sentada no carro, encaro o vidro fumê, tentando juntar as peças de como diabos eu saio de marchar até as Torres Moretti como alguma vingadora destemida… para ser beijada até quase perder a vida na frente do prédio inteiro.
Tudo por causa de um maldito artigo em que eu fiquei obcecada hoje de manhã. Eu estava, de fato, pronta para o trabalho quando vi a postagem no Instagram. Era Dante na capa da Forbes, celebrado como um gênio dos impérios e por sua suposta visão. Ver ele se dando tão bem enquanto meu pai mal consegue sair da cama, enquanto a gente passa fome e se vira como pode, despertou alguma coisa em mim. Foi por isso que eu marchei até a torre dele. Eu só queria que ele respondesse pelo que fez.
Agora estou aqui e, em vez de respostas, tenho o beijo dele queimando na minha boca.
Eu me viro para ele, mas o homem ao meu lado não é o mesmo que me agarrou e me beijou na frente do prédio inteiro. Aquele homem era quente e expressivo; este aqui é exatamente o bastardo frio que ele é.
— Então — digo, tensa —, além de ladrão, você também é um predador sexual?
Ele finalmente olha para mim, e eu encolho sob o peso daqueles olhos. A boca dele se curva num sorriso lento, predatório.
— Agora eu me lembro de você — ele arrasta as palavras. — Você é a filha do Glover Vance. Eu estava com dificuldade lá fora. Você está tão diferente.
Isso dói.
— Diferente? Você roubou da gente, é por isso! Você afundou a empresa do meu pai na lama, é por isso!
— Isso tudo foi há três anos, senhorita Vance. — A voz dele é fria como gelo. — Eu não entendo por que isso a trouxe até aqui.
— Porque meu pai está doente. E cada dia desde então tem sido um inferno. Estamos endividados, quase sem teto, e é tudo por sua causa e... e da sua ganância. Você fez isso com a gente!
— E o que, exatamente, eu deveria fazer com isso?
Minhas mãos se fecham em punhos. “Quero que você admita que é uma fraude. Assuma a responsabilidade pelo que fez. Fraudes como você não deveriam ser colocadas em pedestais.”
“Você sabe que deveria estar na cadeia agora mesmo.”
Solto uma risada curta e amarga. “Eu? Na cadeia? Por quê? Por dizer a verdade?”
“A verdade?” O maxilar dele se endurece. “O tribunal já decidiu que eu não fiz nada ao seu pai. Seis processos, senhorita Vance. Seis. Ele atrapalhou meus negócios, tentou envenenar meus investidores e, quando todo o resto falhou, tentou me arrastar para baixo com ele. E ainda assim você senta aí me chamando de ladrão?”
“Você é”, rebato, ríspida. “Você entrou na nossa vida, ofereceu a ele uma parceria que a gente nunca pediu e ele aceitou, por causa de todas as suas mentiras. Mas bastaram três meses para tudo desmoronar. Me explica isso, senhor Moretti.”
Os olhos dele se estreitam. “Isso não foi culpa minha. Foi seu pai tomando decisões terríveis. Eu devia ter processado ele por fraude. Ele já estava arruinado antes de eu chegar.” Ele se inclina mais perto, a voz baixa e cortante. “Imagino que o papai nunca contou à princesinha mimada dele que estava falido, contou?”
Aquelas palavras estalam alguma coisa dentro de mim.
“Pare o carro”, eu digo.
Ele não se abala.
“Eu disse, para. O. Carro.”
O motorista continua.
Meu peito se aperta. “Eu não estou brincando, eu juro por Deus...”
Dante suspira e faz um gesto para o motorista.
O carro reduz e encosta no meio-fio.
Antes mesmo de parar completamente, eu puxo a porta e a abro.
“Espero que você apodreça, seu desgraçado manipulador”, cuspo. “Espero que cada dólar que você ganhar vire cinza nas suas mãos. Você é maligno. Você destrói vidas, e um dia vai pagar!”
Bato a porta com toda a força que tenho. O som ecoa como trovão no asfalto.
Então eu vou embora.
Rápida e furiosa. Cega de lágrimas, pela pura estupidez do que eu acabei de fazer.
O que eu achei que ia acontecer? Eu nem consegui me expressar direito. Eu devia ter... eu podia ter exigido dinheiro.
O carro dispara atrás de mim.
Eu não me viro.
Não consigo.
Mas cada passo para longe parece mais pesado.
Meu ritmo diminui.
Eu, burra, idiota. Completamente ingênua. Eu tive a oportunidade de conseguir algum dinheiro e nem pensei nisso. Aquele beijo, aquele beijo teria sido a oportunidade perfeita para conseguir algum dinheiro...
Eu paro de repente. O beijo.
Meus olhos se arregalam, horrorizada.
Eu deixei aquele beijo passar.
Ele me beijou. Na frente de tanta gente. Em público. Sem o meu consentimento.
Meu peito sobe e desce de forma irregular. Eu enxugo o rosto uma vez, duas, mas as lágrimas não param.
Agora faz sentido por que ele deixou a conversa sobre o meu pai se estender por tanto tempo. Ele estava me distraindo.
Aquele golpista.
Meu Deus.
“Filho da puta”, sussurro, engasgando com o próprio ar. “Você vai pagar pra caralho por isso.”
Enxugo as lágrimas com brutalidade e sigo em direção à estação de trem.
Vamos ver o que a polícia acha de beijar estranhas sem o consentimento delas.
