Capítulo 3
DANTE
A porta do carro bate, mas mal faz efeito, porque quem acabou de fazer isso é tão pequena. Quase dou risada, mas não dou.
Eu mal chego a piscar.
As palavras afiadas dela, enganosamente calmas sob aquela voz macia, ecoam na minha cabeça: “Espero que você apodreça, seu desgraçado manipulador.”
Ela sempre pareceu tão correta… quando foi que a senhorita Vance começou a xingar?
Passo as mãos pelos cabelos.
Nossa interação, por mais horrenda que tenha sido, é a menor das minhas preocupações.
Eu vi a Nichole.
Ela estava do outro lado da rua, perto de um café, com o celular apertado com força em uma das mãos, e uns óculos escuros enormes que não conseguiam esconder a peruca ridícula que ela provavelmente achou que a deixava discreta.
Faz meses que não tenho notícias dela. Nossa última interação foi dramática, para dizer o mínimo.
Ela tinha aparecido na minha casa com um vestido curto e ridículo, tentando me seduzir. Eu fiquei irritado, tão irritado, que mandei minha equipe de segurança jogá-la para fora da minha casa, gritando e esperneando, tarde da noite.
Achei que isso teria enfiado na cabeça dura dela que tinha acabado entre nós. Mas, aparentemente, não enfiou. E ela reestrategizou, voltou e ia tentar a mesma palhaçada desta vez, na frente de testemunhas.
Eu tinha esquecido o quanto ela podia ser ardilosa.
Por isso, para vencê-la no próprio jogo, agarrei a mulherzinha à minha frente e a beijei como se minha vida dependesse disso.
Me ver com outra mulher nos braços deveria ser mais do que suficiente. E essa mulher não sendo o meu tipo de sempre talvez fizesse a Nichole repensar.
Eu me recosto no banco e solto o ar, arrastando uma mão pelo rosto.
Idiota.
Eu consegui apaziguar a situação com a garota, fazendo o assunto girar em torno do pai dela. Mas, se ela se lembrar do que aconteceu — e ela com certeza vai —, pode decidir me processar.
Eu não posso lidar com mais processos agora. Estão de olho em mim; tem gente demais esperando eu cometer um único erro, para os abutres mergulharem e destruírem tudo o que eu construí.
Lanço um olhar ao motorista.
— Pegue o caminho mais longo.
— Sim, senhor.
Toco na tela à minha frente.
— Ligue para a Francesca.
Chama uma vez.
— Senhor. — A voz dela é objetiva e atenta, como sempre.
— Quero um dossiê completo sobre a filha do Glover Vance. Escolaridade. Antecedentes criminais. Histórico profissional. A árvore inteira. Ela foi ao meu prédio hoje de manhã.
— A filha do Glover Vance? — ela pergunta.
— Sim. Ela esteve no escritório hoje, e eu preciso de tudo o que você conseguir sobre ela nas próximas vinte e quatro horas.
— Ah. Então foi isso que deixou a recepção em pânico — ela murmura.
Eu não sabia que ela tinha entrado no prédio.
— Ela fez um escândalo? — pergunto.
— Não. A recepcionista lidou bem com isso.
— Relatório completo — eu digo. — Até o fim do dia.
— Anotado.
— E também ligue para o advogado. Marque um encontro com ele hoje à noite. É urgente.
Francesca faz uma pausa.
— Sim, senhor. Senhor, está acontecendo alguma coisa? O senhor nunca pede o advogado.
Fecho os olhos. O que eu digo a ela? Que eu beijei alguém sem consentimento e pode estar vindo aí um caso de agressão sexual?
Não digo isso. Em vez disso, desconverso, lembrando-a de garantir que as tarefas que eu passei estejam concluídas antes de amanhã.
Então encerro a ligação.
Momentos depois, paramos em frente ao lounge privativo na Quinta Avenida, onde eu deveria estar recebendo três investidores estrangeiros e o CEO de uma empresa suíça de cripto. Eu não saio.
Permaneço no carro por um instante, encarando meu próprio reflexo no vidro fumê.
Eu costumava ser melhor do que isso. Eu nunca faço nada sem pensar direito.
Maldita seja você, Nichole.
Quem são as pessoas que ficam incentivando ela, afinal? Eu já sei a resposta para essa pergunta, e isso me irrita num nível indescritível.
Abro meus contatos internacionais, vejo o número de um dos culpados, minha irmã mais velha, Luciana, mas, em vez de tocar nele, passo direto e aperto um número identificado como Casa Moretti, Direto.
A ligação completa no segundo toque.
— Signore Moretti, como o senhor está? — a voz de Rina é suave.
— Ciao, Rina. Ela está acordada?
— Não, signore. Ela adormeceu há meia hora. Sem dor. Almoçou algo leve e quis ouvir o álbum do Verdi em repetição de novo.
— Ótimo.
Não digo mais nada. Só escuto. O fundo está silencioso, exceto por uma música baixa, La Traviata. A favorita da minha mãe.
— Grazie — murmuro. — Me ligue se ela acordar.
— Vou ligar.
Encerro a chamada e, por fim, saio do carro.
São 15h52 quando Francesca liga de novo. Atendo imediatamente.
— Você já tem o re...
— Sr. Dante. Olhe seu celular. Agora. — ela soa muito aflita. É estranho. Francesca nunca fica aflita.
— Eu não acompanho redes sociais. Esse é o seu trabalho.
— Então vou te mandar imagens.
Antes que eu possa dizer qualquer coisa, minha tela explode de notificações, mensagens, e-mails e alertas.
Depois, imagens.
Uma a uma, elas começam a inundar nossa linha de chat segura.
Francesca nem se dá ao trabalho de avisar mais. Só despeja tudo.
E então eu vejo.
Eu.
Beijando a Srta. Vance.
Do lado de fora do meu prédio.
Em plena luz do dia. Ângulo perfeito. Close. Alta resolução.
O lenço dela escorregando para trás. Minha mão no rosto dela. Os olhos dela congelados no meio do choque. A foto parece íntima.
MULHER MISTERIOSA OU NOVO AMOR?
ESTE É O FIM DO UNIVERSO NICOLE?
BILIONÁRIO DA FORBES FLAGRADO EM ROMANCE INESPERADO
Eu deslizo a tela. Mais imagens, gente citando, marcações no Instagram, edições no Twitter e tópicos no Reddit surgindo.
Eu não consigo entender como as coisas voam tão rápido na internet. Quando foi que eu beijei ela? Não faz nem uma hora.
Francesca liga de volta e eu atendo na hora.
— Isso é ruim, Sr. Moretti. Se esse é o motivo do advogado, então é muito ruim.
Eu praguejo baixinho.
— Eu sei, Francesca.
— Acho melhor eu entrar em contato com ela para que ela seja orientada a ficar em silêncio?
— Não! Só consiga as informações dela e ligue para o meu advogado agora! Diga a ele para me encontrar na minha casa agora.
— Sim, senhor.
— Diga à Anita para começar o controle de danos. Quero isso abafado antes do fim do dia. Pague quem tiver de pagar, garanta que eu não veja isso antes do fim de hoje.
Ela suspira.
— Sim, senhor.
— E, Francesca?
— Senhor?
— Quero a Nicole na lista negra.
Ela fica em silêncio.
— Em todo evento. Em toda firma. Em qualquer imprensa em que a gente tenha ações. Ela não passa da porta.
Uma pausa.
— Entendido.
Desligo.
O motorista me olha pelo retrovisor.
— Senhor?
— Me leve para casa.
Encosto a cabeça na janela enquanto saímos, vendo a cidade virar um borrão.
Nichole.
Não vou me surpreender se foi ela quem avisou aqueles fotógrafos. Tenho cem por cento de certeza de que aquele beijo com a garota teria sido com a Nichole se eu não tivesse agido rápido.
Passo as mãos pelo rosto.
Eu não preciso dessa merda agora, nesta fase da minha vida.
