Capítulo 4

ALERA

As portas da delegacia batem com estrondo atrás de mim, e o cheiro de antisséptico me atinge na hora. Meu cabelo está um desastre, meus olhos ainda vermelhos e meu rosto inchado de tanto chorar até aqui. Eu ignoro os olhares das poucas pessoas na fila. Manhattan não liga para as lágrimas de ninguém.

Na recepção, uma policial jovem mal levanta os olhos da tela.

— Posso ajudar? — ela pergunta, com uma voz seca.

— Sim — respondo, tensa. — Eu... eu quero registrar uma ocorrência. Agressão sexual.

A sobrancelha dela se ergue.

— Como é?

— Agressão sexual — repito, mais alto. — Eu fui beijada... contra a minha vontade. E preciso que isso fique documentado.

A policial olha por cima do ombro para um policial homem, provavelmente mais velho, encostado com preguiça na parede. Ele abre um sorriso de deboche.

— Você tá me dizendo que alguém te beijou?

— Sim — retruco. — Foi sem o meu consentimento. Eu tentei empurrar ele. — Por dentro, eu me encolho com a mentira descarada, porque eu gostei muito do beijo. Mas continuo: — E eu preciso que isso conste no registro.

O homem solta uma risada curta e desagradável.

— Pera... pera, pera aí. Segura. Você tá falando sério? Você quer denunciar um beijo.

Eu engulo as lágrimas.

— Sim.

— E quem é esse... agressor?

— Dante Moretti — cuspo, incapaz de tirar o amargor da voz.

— Qual Dante Moretti? Tem um monte de Dante nessa cidade, garota.

— O bilionário Dante Moretti — explico.

O sorriso de deboche aumenta. Ele assobia baixo.

— Ahhh... aquele Dante Moretti. O queridinho dourado de Nova York. Espera aí... por que você veio reclamar? Não é um cara fácil de fisgar. Você não tá nem um pouquinho animada com isso?

Quase me dá ânsia.

— Animada? Você enlouqueceu?

Ele se inclina para a frente, apoiando os cotovelos no balcão, sorrindo.

— Ah, qual é. Um bilionário, bem na sua frente, te beijando em público... Quer dizer, né. Isso tem que valer alguma coisa.

Meu maxilar se contrai.

— Não vale nada. Foi errado. Foi agressão. Eu quero registrar a ocorrência, e quero que levem isso a sério.

Ele dá uma risadinha.

— A sério? Você tá tentando abrir um processo contra o homem mais poderoso da cidade por causa de um beijo?

— Sim — sibilo. — Porque foi sem o meu consentimento. Ele... ele me manipulou e tentou fazer parecer que não aconteceu. Isso é crime, e alguém tem que responsabilizar ele.

A policial atrás do balcão solta o ar, olhando para ele como se estivesse mortificada.

— Talvez... deixar ela falar? — murmura.

Ele faz um gesto para dispensá-la.

— Tá bom. Começa do começo. Hora, lugar e testemunhas. E vê se você tá falando a verdade.

Eu cerro os dentes.

— Eu vi ele do lado de fora das Torres Moretti. Ele agarrou meu cabelo, segurou meu rosto e me beijou de repente, e eu tentei me afastar. Tinha testemunhas. Um monte de gente viu acontecer.

Ele ergue uma sobrancelha.

— Testemunhas, é? Então cadê esse pessoal?

— Eu não sei! — quase grito.

— Então deixa eu ver se entendi: você só vê ele do lado de fora do prédio dele, e ele vai até você e te beija? Sem motivo?

Ouvir ele basicamente repetir tudo de volta para mim agora... parece uma loucura. Eu nem devia ter vindo aqui. Que piada.

— Foi isso que aconteceu — respondo, com a voz baixa.

Ele se recosta na cadeira, com um sorrisinho de canto.

— Clássico. E agora você espera que a gente... o quê? Prenda ele? Confisque o carro dele?

Balanço a cabeça.

— Não! Eu quero isso registrado. Só isso.

Ele inclina a cabeça.

— Hum. Figura pública, é? Gente como ele não costuma ser presa por beijar em público. Você deu sorte de ele não ter prestado queixa contra você pela cena que fez... porque eu sei que você fez alguma coisa... o que te levou até lá? Você é funcionária dele?

Minhas mãos se fecham em punhos.

— Não. E esse não é o ponto. Eu fui violada, contra a minha vontade, em público. Isso é sobre fazer a coisa certa. É sobre ele assumir responsabilidade. Quem sabe quantas mulheres ele já agrediu desse jeito?

Ele ri.

— Responsabilidade? Sério? Você acha que um bilionário vai pra cadeia por te beijar na rua?

— Sim! — disparo, com a voz tremendo. Eu já sabia que isso não ia dar em nada. Mas, pelo menos, eu esperava um mínimo de civilidade.

Ele dá um sorrisinho e balança a cabeça.

— Você é uma gracinha, sabia? Você realmente acha que alguém vai levar isso a sério. Você queria que o Dante Moretti te beijasse, não queria?

O calor sobe pelo meu peito.

— Eu não queria! Por que você diria isso?

A mulher na mesa morde o lábio, visivelmente desconfortável.

— Senhor... talvez deixe ela terminar?

Ele dá de ombros.

— Tá. Começa do começo. E seja breve. Estou curioso pra ver como isso termina.

Cerco os dentes e repito todo o meu calvário, de novo e de novo e de novo.

Às vezes ele me interrompe no meio, sai por uns vinte minutos, volta e eu tenho que repetir.

Na última vez em que conto a história, ele rabisca alguma coisa com preguiça no bloco.

— É, é. Claro. Bom... boa sorte com isso. Não tem muito o que a gente possa fazer por beijos em público de bilionários, sabe.

Meus punhos tremem.

— Você é uma pessoa horrível. — Eu estremeço quando as lágrimas escorrem dos meus olhos.

Ele dá de ombros.

— Aham, aham, já ouvi isso. Faz o seu relatorinho. Mas não se engane: não vai dar em nada.

A atendente me entrega um formulário. Eu leio com cuidado, com as mãos tremendo e a caneta vacilando; declaro que tudo o que eu disse é verdade. Então assino.

Eu me sinto... esvaziada. Não vingada. Não segura. Só... cansada e frustrada. Minha raiva não passou. Mas pelo menos eu dei um passo.

Quando me levanto para ir embora, ele solta um muxoxo.

— Boa sorte pra fazer ele pagar por esse beijo. Sério.

Eu encaro.

— É isso que você acha? Que eu quero dinheiro? Não é isso, senhor.

Ele só dá um sorrisinho, indiferente.

— Aham, claro. O que quer que te ajude a dormir à noite.

Eu giro nos calcanhares e entro no caos de Manhattan.

Bom, isso foi completamente inútil. Enxugo os olhos. Vai saber, eles podem queimar a minha declaração e isso vai ser esquecido.

Ou... e se eu tiver piorado as coisas pra mim?

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