Capítulo 2 Não Fecha os Olhos
Visão de TH
Dor.
Foi a primeira coisa que senti.
Não sabia dizer quanto tempo tinha passado, onde eu estava ou como tinha ido parar ali.
Só existia aquela porra daquela dor queimando meu corpo por dentro.
Tentei puxar o ar.
Erro.
A pontada veio tão forte que minha visão escureceu.
— Caralho…
Minha própria voz saiu baixa.
Levei a mão até o corpo e senti algo quente.
Molhado.
Sangue.
Foi aí que as lembranças começaram a voltar.
A moto.
A rua.
O movimento estranho.
O primeiro disparo.
O segundo.
O filho da puta que sabia exatamente onde eu estaria.
Cerrei os dentes.
Aquilo não tinha sido acaso.
Ninguém me pegava daquele jeito por acaso.
Alguém sabia.
Alguém tinha passado informação.
Tentei me levantar.
Meu corpo não respondeu.
— Porra…
Apoiei uma mão no chão, mas o braço perdeu a força.
Caí novamente contra a parede.
Eu precisava sair dali.
Precisava chegar até algum lugar seguro antes que voltassem para terminar o serviço.
Procurei meu celular.
Nada.
Talvez tivesse caído.
Talvez tivessem levado.
Nem sabia.
Respirei novamente.
Outra pontada.
Fechei os olhos.
Por alguns segundos, pensei na minha mãe.
Não.
Não ia morrer naquela merda de lugar.
Não daquele jeito.
Tentei me mover novamente.
Foi inútil.
Então ouvi passos.
Meu corpo ficou alerta imediatamente.
Abri os olhos.
Não enxergava direito.
Tudo parecia embaralhado.
Passos.
Cada vez mais perto.
Tentei alcançar a cintura.
Nada.
A arma não estava comigo.
Ótimo.
Se fosse quem tinha feito aquilo, eu estava fodido.
— Tem alguém aí?
Uma voz.
Feminina.
Franzi a testa.
Os passos se aproximaram.
Uma luz atingiu meu rosto.
Virei a cabeça.
— Meu Deus.
Ela.
Eu não conseguia enxergar todos os detalhes, mas vi uma mulher vindo rapidamente na minha direção.
— Ei! Você consegue me ouvir?
Ela se ajoelhou.
Instintivamente, meu corpo ficou tenso.
Quem era?
Por que estava ali?
— Quem…
Foi tudo que consegui dizer.
— Não fala. Economiza sua força.
As mãos dela começaram a tocar minha roupa.
Segurei o pulso dela.
— Calma! Eu só estou tentando ver onde você foi atingido.
Olhei para ela.
Meu cérebro tentava entender se aquela mulher era algum tipo de armadilha.
Mas não parecia.
Ela estava assustada.
Muito.
Mesmo assim, não tinha ido embora.
— Você está sangrando bastante.
Eu sabia.
— Preciso ver de onde está vindo.
Ela afastou parte da minha camiseta.
Quando tocou perto do ferimento, rosnei de dor.
— Eu sei. Desculpa.
A voz dela era estranha naquele momento.
Não porque eu conhecesse.
Justamente o contrário.
Eu nunca tinha ouvido aquela voz na vida.
Mesmo assim, ela parecia ser a única coisa me mantendo preso à realidade.
Ela abriu a mochila.
— O que você tá…
— Sou técnica de enfermagem.
Fechei os olhos por um instante.
— Que sorte a sua, hein?
Eu teria rido se não doesse até respirar.
Ela colocou alguma coisa sobre o ferimento e pressionou.
A dor explodiu.
— Caralho!
Tentei empurrar a mão dela.
— Não!
A voz mudou completamente.
A mulher assustada desapareceu.
— Não tira minha mão daqui.
— Tá doendo.
— Eu sei que está doendo.
— Então tira.
— Não.
Abri os olhos.
Ela estava me contrariando?
— Tira…
— Você prefere sentir dor ou continuar sangrando?
Não respondi.
— Foi o que eu pensei.
Filha da puta.
Eu quase sorri.
Quase.
— Preciso chamar uma ambulância.
Meu corpo reagiu imediatamente.
— Não.
Ela pegou o celular.
Segurei seu pulso.
— Não chama.
— Você levou um tiro!
— Eu sei.
— Então sabe que precisa de atendimento.
— Meus homens vão chegar.
Ela parou.
O rosto mudou.
— Seus homens?
Merda.
— Não chama ninguém.
— Você tá perdendo sangue e quer que eu simplesmente fique esperando seus… homens?
Não respondi.
Ela me encarou por alguns segundos.
— Quem é você?
Boa pergunta.
— Ninguém.
— Claro. E eu sou a Beyoncé.
Mesmo naquele estado, soltei uma respiração que quase virou risada.
Arrependi imediatamente.
— Não faz isso — ela reclamou.
— O quê?
— Rir.
— Você que…
— Fica quieto.
Definitivamente ela não sabia quem eu era.
Se soubesse, não estaria falando comigo daquele jeito.
Talvez fosse melhor.
Fechei os olhos novamente.
— Ei!
Senti a mão dela tocar meu rosto.
— Abre o olho.
Ignorei.
— Ei! Olha pra mim.
Abri.
O rosto dela estava mais perto agora.
Foi quando consegui enxergá-la de verdade.
Pele parda.
Cabelos longos, de um tom que lembrava mel, um pouco bagunçados.
Olhos atentos.
Bonita.
Muito bonita.
Mas não foi isso que ficou na minha cabeça.
Foi o jeito que ela me olhava.
Não tinha interesse.
Não tinha bajulação.
Não tinha aquele medo que eu estava acostumado a enxergar quando alguém sabia quem eu era.
Ela estava com medo da situação.
Mas não de mim.
— Isso — falou. — Continua olhando pra mim.
— Você fala demais.
Ela arregalou os olhos.
— Eu tô tentando impedir você de apagar e você tá reclamando?
— Minha cabeça tá doendo.
— Ótimo.
Franzi a testa.
— Ótimo?
— Significa que você ainda consegue reclamar.
Eu queria responder, mas o cansaço estava ficando mais forte.
Pesado.
Meu corpo parecia afundar.
— Ei.
A voz dela voltou.
— Nada de dormir.
— Só um pouco.
— Não.
— Você é chata.
— Pode me odiar amanhã.
Amanhã.
Não sabia se teria amanhã.
Ela pareceu perceber alguma coisa no meu rosto.
— Não faz essa cara.
— Que cara?
— De quem tá desistindo.
Fiquei em silêncio.
Ela apertou ainda mais a compressão.
— Olha pra mim.
Obedeci.
Não porque ela mandou.
Eu não obedecia ninguém.
Mas porque, naquele momento, era mais fácil focar nela do que na dor.
— Qual é seu nome? — perguntei.
— Fernanda.
Fernanda.
Guardei.
— Fernanda…
— Isso. Agora fala o seu.
Não respondi.
— Qual é o seu nome?
— Não importa.
— Importa pra mim.
— Por quê?
— Porque eu preciso continuar conversando com você.
— Pode me chamar de…
Parei.
Não tinha motivo para esconder.
— TH.
Ela franziu a testa.
— Isso é nome?
— Serve.
— Sua mãe colocou TH na sua certidão?
Quase ri novamente.
— Não.
— Então qual é seu nome?
— Você é curiosa.
— E você é teimoso.
— Thiago.
Ela assentiu.
— Pronto. Muito prazer, Thiago. Eu sou Fernanda e você não vai morrer hoje.
A certeza com que ela falou aquilo me fez encará-la.
— Tem certeza?
Por um segundo, ela hesitou.
Só um.
Depois firmou o olhar.
— Tenho.
Mentira.
Ela não tinha.
Eu sabia.
Ela sabia.
Mas falou como se tivesse.
E estranhamente eu quis acreditar.
— Fernanda…
— Hum?
— Se eu apagar…
— Não vai.
— Se…
— Eu falei que não vai.
— Você manda em todo mundo assim?
Ela fez uma careta.
— Só nos pacientes difíceis.
— Não sou seu paciente.
— Nesse momento é.
— Não pedi.
— Nem eu pedi pra encontrar um homem baleado no caminho de casa, então estamos quites.
Dessa vez eu realmente sorri.
Pequeno.
Ela viu.
— Isso. Pode continuar achando graça, mas não fecha os olhos.
Minha visão começou a ficar turva novamente.
Eu precisava do ND.
Precisava saber o que tinha acontecido depois dos disparos.
Precisava descobrir quem sabia do meu caminho.
Principalmente…
Precisava sobreviver.
— Fernanda.
— Estou aqui.
— Fala alguma coisa.
Ela pareceu surpresa.
— O quê?
— Qualquer coisa.
Ela entendeu.
Eu precisava ouvir a voz dela.
— Certo… Eu acabei de sair de um plantão de doze horas.
— Péssima história.
— Cala a boca. Você pediu.
Fechei os olhos por um segundo.
Ela tocou meu rosto.
— Não fecha.
Abri novamente.
— Continua.
— Eu estava indo para casa. Minha mãe acha que eu vim de Uber, mas eu peguei ônibus porque o aplicativo queria me cobrar quase quarenta reais.
— Mentiu pra sua mãe?
— O foco aqui não sou eu.
— Mentiu.
— Uma omissão.
— Mesma coisa.
— Você levou um tiro e quer discutir minha relação com a minha mãe?
— Tô tentando…
Puxei o ar.
Dor.
— …passar o tempo.
Ela ficou séria novamente.
— Respira devagar.
Obedeci.
— Isso.
A mão dela continuava pressionando meu ferimento.
Estava coberta com meu sangue.
Eu olhei.
Ela percebeu.
— Não olha.
— É meu.
— Eu sei.
— Muito?
Ela demorou um segundo.
— O suficiente para você parar de conversar e guardar energia.
— Você acabou de mandar eu conversar.
— Então conversa.
— Decide.
— Meu Deus, você é insuportável.
Sorri novamente.
Minha cabeça tombou para trás.
— TH.
A voz dela.
— TH!
Abri os olhos.
— Eu tô aqui.
— Então olha pra mim.
Olhei.
Não sabia por quanto tempo ficamos daquele jeito.
Talvez minutos.
Pareceram horas.
Ela continuou falando.
Contou que tinha um irmão folgado.
Que queria fazer faculdade.
Que estava louca para tomar banho.
Coisas pequenas.
Coisas que, em qualquer outro dia, eu não teria motivo nenhum para ouvir.
Mas naquela madrugada eu ouvi todas.
E guardei mais do que deveria.
Fernanda.
Técnica de enfermagem.
Tinha um irmão.
Queria fazer faculdade.
Mentia para a mãe sobre pegar Uber.
E falava pra caralho.
Um barulho distante me fez despertar.
Moto.
Depois outra.
Fernanda parou de falar.
— Você ouviu?
Assenti.
Ela ficou tensa.
Mais motores.
Eu conhecia aquele som.
— São eles.
— Eles quem?
— Meus homens.
Ela me olhou como se aquilo continuasse sendo a coisa mais estranha que eu poderia dizer.
— Você fala “meus homens” como se isso fosse normal.
— Pra mim é.
Os motores se aproximaram.
Ela olhou para a saída.
O medo voltou para o rosto dela.
— E se não forem?
Boa pergunta.
Se fossem os mesmos que tinham atirado…
Fernanda estava no lugar errado.
Por minha causa.
— Fica atrás de mim.
Ela me olhou incrédula.
— Atrás de você? Você mal consegue ficar sentado!
— Fernanda…
— Não inventa.
Tentei me mover.
Meu corpo não respondeu.
Ela continuou na minha frente.
Protegendo meu ferimento.
Protegendo um homem que nem conhecia.
Faróis iluminaram a passagem.
Ouvi vozes.
— TH!
ND.
Reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
Soltei o ar.
Fernanda tentou se afastar.
Segurei o pulso dela.
— Fica.
— Seus homens chegaram. Eu preciso ir.
— Fica.
— Eu já fiz o que podia.
ND apareceu correndo.
— Caralho, irmão!
Depois vieram os outros.
Eu deveria ter olhado para eles.
Deveria ter perguntado o que tinha acontecido.
Quem tinha sido atingido.
Quem estava atrás daquilo.
Mas meus olhos continuaram presos nela.
Fernanda.
A desconhecida.
A mulher que deveria ter ouvido os tiros e corrido na direção contrária.
A mulher que poderia ter me deixado ali.
Mas ficou.
— Quem é você? — ouvi ND perguntar.
— Eu encontrei ele aqui. Sou técnica de enfermagem.
ND começou a falar comigo.
Não consegui acompanhar tudo.
Minha visão estava escurecendo.
Senti mãos me levantando.
A dor atravessou meu corpo.
— Caralho!
— Cuidado! — Fernanda reclamou imediatamente. — O ferimento…
Ela começou a explicar alguma coisa.
Onde pressionar.
Como me carregar.
O que tinha feito.
A voz dela foi ficando distante.
Procurei seu rosto novamente.
Ela estava alguns passos atrás.
As mãos sujas de sangue.
Meu sangue.
— Fernanda…
Ela olhou.
Foi a última coisa que consegui enxergar direito.
O rosto dela.
— Não fecha os olhos! — gritou.
Tentei.
Juro que tentei.
Mas dessa vez meu corpo venceu.
Tudo ficou preto.
Ainda assim, antes de apagar completamente, uma coisa permaneceu presa na minha cabeça.
Não os tiros.
Não a dor.
Não o rosto de quem eu suspeitava que pudesse ter me entregado.
Uma voz.
Firme.
Teimosa.
Desconhecida.
Não fecha os olhos.
E um nome que eu tinha certeza de que não esqueceria quando acordasse.
Fernanda.
