A Nova Protegida Do Dono Do Morro

A Nova Protegida Do Dono Do Morro

Amandha Nunes · Atualizando · 206.2k Palavras

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Introdução

Fernanda Oliveira só queria terminar mais um plantão de doze horas e voltar para casa. Aos 23 anos, técnica de enfermagem, independente e determinada a construir um futuro melhor para si e para sua família, ela jamais imaginou que uma única madrugada mudaria completamente sua vida.

No caminho para casa, Fernanda encontra um homem gravemente ferido após ser baleado. Sem saber quem ele é, faz o que sabe fazer: tenta estancar o sangue, mantém o desconhecido consciente e se recusa a deixá-lo morrer.

Só depois descobre a verdade. O homem que salvou é Thiago, o TH — o Dono da Rocinha.

Acostumado a ser obedecido, temido e respeitado, TH não consegue ignorar a mulher que salvou sua vida. Para ele, existe uma dívida que jamais poderá ser paga. E uma promessa: “Você salvou minha vida. Enquanto eu respirar, ninguém tira a sua.”

O problema é que Fernanda nunca pediu proteção. E muito menos pretende aceitar que outro homem decida como ela deve viver.

Entre discussões, ciúmes, provocações, ameaças e uma atração cada vez mais difícil de esconder, o que começou como uma dívida se transforma em algo que nenhum dos dois estava preparado para sentir. Mas o tiro que quase matou TH não foi obra do acaso. Alguém sabia exatamente onde ele estaria naquela noite. Alguém próximo o traiu.

Para ficar ao lado de Fernanda, TH terá de aprender que proteger uma mulher não significa ser dono dela. E Fernanda descobrirá que ser independente não significa precisar enfrentar tudo sozinha.

Capítulo 1

Visão da Fernanda

— Nanda, vai embora antes que apareça outra coisa pra você fazer.

Olhei para Júlia e depois para o relógio na parede.

— Nem brinca com isso.

Ela riu enquanto terminava de prender o cabelo.

Meu plantão tinha acabado havia exatos sete minutos, e eu ainda estava no posto de enfermagem conferindo pela terceira vez se tinha deixado tudo certo.

Depois de doze horas trabalhando, meus pés estavam implorando por descanso, minhas costas doíam e tudo o que eu conseguia pensar era na minha cama.

Ou melhor…

No banho primeiro.

Depois na cama.

— Eu tô falando sério — Júlia continuou. — Se você ficar mais cinco minutos aqui, alguém vai inventar que precisa de você.

— Já tô indo.

— Você disse isso dez minutos atrás.

— Agora é verdade.

Guardei minha caneta no bolso e peguei minha mochila.

— Amanhã você trabalha?

Parei.

Virei lentamente para ela.

— Não fala essa palavra perto de mim.

Júlia começou a rir.

— Que palavra?

— Trabalho.

— Dramática.

— Eu acabei de passar doze horas aqui. Tenho direito.

— Amanhã você está de folga, criatura.

— Exatamente. E pretendo passar o dia inteiro deitada.

— Sei.

— É sério.

— Sua mãe vai deixar?

Fiquei em silêncio.

Ela abriu um sorriso.

— Foi o que pensei.

— Minha mãe não entende o conceito de folga. Se ela me vir deitada às dez da manhã, vai perguntar se eu tô doente.

— Então dorme até nove e cinquenta e nove.

— Boa ideia.

Peguei o celular.

Duas mensagens da minha mãe.

Mãe: Filha, quando sair me avisa.

A segunda tinha chegado quinze minutos depois.

Mãe: E não vem andando sozinha.

Revirei os olhos, mas sorri.

Minha mãe era assim.

Eu tinha vinte e três anos, trabalhava, ajudava em casa e, para Márcia, continuava tendo doze.

Respondi rapidamente.

Eu: Tô saindo agora. Relaxa.

Os três pontinhos apareceram quase imediatamente.

Mãe: Vai vir como?

Eu sabia exatamente onde aquela conversa terminaria.

Eu: Uber.

Mentira.

Abri o aplicativo.

Olhei o preço.

Fechei.

Nem ferrando.

Quase quarenta reais.

Quarenta reais para chegar alguns minutos mais rápido em casa era um luxo que minha conta bancária não estava disposta a bancar.

Ainda faltavam alguns dias para o pagamento, eu tinha ajudado minha mãe com a conta de luz, comprado algumas coisas para casa e pago parte de uma parcela atrasada.

Meu salário tinha uma habilidade impressionante de desaparecer antes mesmo de eu conseguir aproveitar.

Não passávamos fome.

Nunca faltou o essencial.

Mas também não existia dinheiro sobrando.

Na nossa casa, qualquer compra acima do esperado precisava entrar numa espécie de reunião imaginária do conselho financeiro da família.

Eu queria guardar dinheiro.

Queria voltar a estudar.

Desde que tinha terminado o curso técnico de enfermagem, minha vontade era fazer faculdade. Enfermagem mesmo.

Só que vontade não pagava mensalidade.

Por enquanto, eu trabalhava.

Juntava o que conseguia.

E continuava sonhando.

— Tá com essa cara por quê? — Júlia perguntou.

— O Uber tá quarenta reais.

— Misericórdia.

— Exatamente.

— Quer esperar baixar?

— Vou pegar ônibus e andar o resto.

Ela imediatamente fez uma careta.

— Nanda…

— Você também não começa.

— Tá tarde.

— Eu conheço o caminho.

— Sua mãe sabe?

— Claro.

— Mentira.

— Júlia, boa noite.

Ela riu.

— Quando chegar, manda mensagem.

— Sim, senhora.

— E não inventa de parar em lugar nenhum.

— Você e minha mãe fizeram um grupo escondido?

— Estamos planejando sua vida desde 2024.

Mostrei o dedo do meio discretamente.

Ela gargalhou.

Saí antes que realmente aparecesse alguma coisa que me prendesse ali.

Assim que atravessei a porta, senti o ar da madrugada bater no meu rosto.

Respirei fundo.

Liberdade.

Doze horas.

Doze.

Eu gostava do meu trabalho.

De verdade.

Gostava de cuidar das pessoas. Gostava de sentir que, mesmo em dias ruins, eu tinha feito alguma diferença para alguém.

Mas existiam plantões que pareciam ter trinta e seis horas.

Aquele tinha sido um deles.

Criança chorando.

Acompanhante reclamando.

Paciente impaciente.

Gente apertando campainha por qualquer coisa.

E ainda tivemos uma intercorrência perto do fim do turno que deixou todo mundo correndo.

Eu só queria silêncio.

Caminhei até o ponto e esperei.

Enquanto isso, abri novamente o celular.

Tinha mensagem do Lucas.

Lucas: Traz alguma coisa pra comer.

Ri sozinha.

Eu: Você acha que eu sou iFood?

A resposta veio imediatamente.

Lucas: Sim.

Eu: Vai dormir.

Lucas: Traz biscoito.

Eu: Compra.

Lucas: Tô sem dinheiro.

Eu: Problema seu.

Lucas: Eu sou seu irmão preferido.

Eu: Você é meu único irmão.

Lucas: Então tecnicamente sou o preferido.

Idiota.

Mas eu amava aquele idiota.

Lucas tinha dezenove anos e uma capacidade impressionante de me irritar e me fazer rir em menos de dois minutos.

O ônibus apareceu.

Subi, sentei perto da janela e encostei a cabeça no vidro.

Meus olhos quase fecharam.

O celular vibrou.

Minha mãe.

Mãe: Já entrou no Uber?

Fechei os olhos.

Merda.

Eu: Já tô indo, mãe.

Não era exatamente outra mentira.

Eu estava indo.

Só omiti o meio de transporte.

Se eu dissesse que estava no ônibus, ela começaria:

“Fernanda, eu falei para você não ficar andando tarde.”

Como se eu pudesse materializar quarenta reais por força do pensamento.

Minha mãe se preocupava porque conhecia a vida.

Criou dois filhos praticamente sozinha depois que meu pai resolveu que ser pai era uma atividade opcional.

Eu tinha aprendido cedo que contas chegavam independentemente de você estar preparada para elas.

Talvez fosse por isso que eu trabalhava tanto.

Eu queria mais.

Não luxo.

Nunca sonhei com mansão, carro importado ou roupa de marca.

Eu queria abrir a geladeira sem fazer cálculo.

Queria pagar uma conta sem precisar pensar em qual outra poderia esperar.

Queria comprar alguma coisa para minha mãe sem ela perguntar quanto custou.

Queria fazer minha faculdade.

Só isso já seria muita coisa.

Desci do ônibus algum tempo depois.

O restante do caminho eu faria andando.

Não era tão longe.

Coloquei a mochila melhor no ombro e comecei a subir.

A Rocinha àquela hora era diferente.

Ainda havia movimento em alguns lugares, música distante, algumas pessoas conversando, motos passando.

Para quem olhava de fora, talvez parecesse impossível entender.

Para mim, era casa.

Com problemas.

Com barulho.

Com medo às vezes.

Mas casa.

Eu conhecia aquelas ruas.

Conhecia gente em praticamente todo canto.

Sabia onde comprar pão barato, onde a comida era boa, qual vizinha sabia da vida de todo mundo e qual rua evitar quando chovia demais.

Segui andando.

Meu celular marcou bateria fraca.

— Aguenta até em casa, pelo amor de Deus.

Coloquei no bolso.

Eu estava pensando seriamente em tomar banho ou simplesmente cair vestida na cama quando ouvi uma moto acelerando em algum lugar próximo.

Não dei importância.

Continuei andando.

Então ouvi outra.

E mais alguma coisa.

Vozes.

Parei por alguns segundos.

Silêncio.

Franzi a testa.

Talvez fosse apenas o cansaço.

Voltei a andar.

Foi quando escutei.

Um barulho seco.

Meu corpo inteiro travou.

Não.

Fiquei parada.

Outro.

Mais distante.

Meu coração acelerou imediatamente.

Eu conhecia aquele som.

Todo mundo conhecia.

Tiro.

— Merda…

Minha primeira reação foi procurar abrigo.

Encostei-me perto de uma parede e esperei.

Meu coração batia tão forte que eu conseguia senti-lo na garganta.

Mais alguns segundos.

Nada.

Então uma moto passou rapidamente pela rua mais abaixo.

Eu não consegui ver quem estava nela.

Só vi desaparecer.

Vai embora, Fernanda.

Minha cabeça gritava.

Vai para casa.

E era exatamente isso que eu pretendia fazer.

Comecei a andar novamente, dessa vez mais rápido.

Só precisava chegar em casa.

Trancar a porta.

Tomar banho.

Dormir.

Não era problema meu.

Eu tinha aprendido uma coisa vivendo ali: curiosidade demais podia trazer problema.

Dobrei uma esquina.

Foi quando ouvi um som baixo.

Parei.

Olhei para trás.

Nada.

— Eu tô ficando maluca.

Dei mais dois passos.

Ouvi novamente.

Parecia…

Um gemido.

Meu estômago apertou.

Olhei para a entrada estreita de uma passagem lateral.

Escura.

Meu corpo dizia para continuar andando.

Minha consciência dizia outra coisa.

— Tem alguém aí?

Silêncio.

Esperei.

Então veio outra vez.

Mais baixo.

Um gemido abafado.

Fechei os olhos por um segundo.

— Fernanda, não inventa.

Mas meus pés já estavam indo naquela direção.

Acendi a lanterna do celular.

— Alô?

Nada.

Entrei alguns passos.

A luz passou pela parede.

Pelo chão.

Por algumas caixas.

Até parar em alguma coisa escura.

Ou melhor…

Alguém.

Meu coração despencou.

— Meu Deus.

Era um homem.

Estava caído parcialmente encostado na parede, uma das pernas estendida e a outra dobrada.

Corri até ele.

Todo o medo desapareceu por alguns segundos e meu treinamento assumiu o lugar.

— Ei! Você consegue me ouvir?

Aproximei a luz.

Homem jovem.

Alto.

Pardo.

Braços cobertos de tatuagens.

A camiseta estava encharcada de sangue.

Muito sangue.

— Merda.

Ajoelhei.

— Ei! Olha pra mim.

Ele se mexeu.

Pouco.

Mas se mexeu.

— Você consegue falar?

Os olhos dele abriram lentamente.

Escuros.

Pesados.

Desorientados.

— Quem…

A voz saiu quase inaudível.

— Não fala. Economiza sua força.

Afastei cuidadosamente o tecido para tentar identificar de onde vinha o sangramento.

Meu coração acelerou ainda mais.

Ferimento por arma de fogo.

Pelo menos um que eu conseguia identificar naquele momento.

— Certo. Certo…

Minhas mãos começaram a agir quase automaticamente.

Tirei algumas coisas da mochila.

Por sorte, eu tinha material básico que costumava carregar depois do trabalho.

Usei o que tinha para fazer compressão.

O homem gemeu.

— Eu sei. Eu sei que dói.

Ele tentou afastar minha mão.

— Não!

Segurei firme.

— Se você tirar minha mão daqui, vai sangrar mais. Então pode ficar com raiva de mim depois.

Os olhos dele voltaram para meu rosto.

Mesmo quase apagando, havia alguma coisa naquele olhar.

Força.

Desconfiança.

— Quem… é você?

— Fernanda.

Ele respirou com dificuldade.

— Fernanda…

— Isso. E você?

Ele não respondeu.

— Ei.

Toquei seu rosto.

— Não fecha os olhos.

Ele fechou.

— Não! Olha pra mim!

Os olhos abriram novamente.

— Isso. Muito bem.

Minha voz estava mais firme do que eu me sentia.

Por dentro, eu estava apavorada.

Tinha um homem baleado na minha frente.

Eu não sabia quem tinha atirado.

Não sabia se quem fez aquilo ainda estava perto.

E meu celular estava com cinco por cento de bateria.

Peguei o aparelho.

Precisava pedir ajuda.

Antes que eu conseguisse, uma mão segurou meu pulso.

Forte.

Surpreendentemente forte para alguém naquele estado.

Olhei para ele.

— Não…

— Você precisa de atendimento.

— Não chama…

— Você levou um tiro!

Ele tentou falar novamente.

— Meus… homens…

Parei.

Meus homens?

Que porra aquilo significava?

Antes que eu pudesse perguntar, ouvi motores.

Vários.

Meu sangue gelou.

Faróis apareceram na entrada da rua.

O homem abriu os olhos um pouco mais.

Eu olhei para trás.

Motos.

Mais de uma.

Vindo na nossa direção.

— Meu Deus…

Levantei parcialmente, mas ele ainda segurava meu pulso.

— Fica…

— Eu não sei quem são essas pessoas!

— Fica.

— Você tá maluco?

As motos pararam.

Portas de carro bateram mais longe.

Passos.

Muitos.

Meu coração disparou.

Um homem apareceu primeiro.

Alto.

Armado.

Atrás dele vieram outros.

Eu congelei.

— TH!

O homem correu em nossa direção.

Olhei para o desconhecido no chão.

Depois para quem vinha correndo.

TH?

— Caralho! TH, fala comigo!

O homem se ajoelhou do outro lado.

Olhou para mim.

Depois para minhas mãos cobertas de sangue.

— Quem é você?

Engoli seco.

— Eu… encontrei ele aqui. Sou técnica de enfermagem. Ele está perdendo muito sangue.

O homem olhou novamente para o ferido.

— Aguenta aí, irmão. Já estamos aqui.

Irmão?

Outros homens se aproximaram.

Minha vontade era desaparecer.

O homem no chão voltou a abrir os olhos.

E, por algum motivo, olhou diretamente para mim.

Não para os homens.

Não para o sujeito ajoelhado ao lado dele.

Para mim.

— Fernanda…

O outro homem franziu a testa.

— Quem é Fernanda?

Eu ergui a mão suja de sangue, completamente sem graça.

— Eu.

Ele me encarou.

O homem ferido apertou fracamente meu pulso.

— Não deixa…

A voz falhou.

— Ei! — aproximei-me novamente. — Não fecha os olhos.

— TH! — o outro chamou.

— Continua falando com ele — pedi. — Não deixa ele apagar.

Os homens começaram a se movimentar rapidamente.

Eu expliquei onde estava o ferimento, o que tinha feito e que ele precisava de atendimento urgente.

Quando finalmente o levantaram, eu recuei.

Minhas mãos tremiam.

Minha roupa tinha sangue.

Minha mochila estava no chão.

Eu só queria ir embora.

Peguei minhas coisas.

O homem que parecia comandar os demais virou para mim.

— Fernanda, né?

— Sim.

— Eu sou ND.

Assenti, sem saber o que deveria responder.

— Obrigado pelo que você fez.

— Só leva ele logo.

ND me observou por um instante.

— Você mora por aqui?

Meu corpo imediatamente ficou em alerta.

— Por quê?

Ele pareceu perceber.

— Calma. Não vou fazer nada com você.

— Então não precisa saber onde eu moro.

Por incrível que parecesse, ele quase sorriu.

— Entendi.

Virei para ir embora.

— Fernanda.

Olhei.

— Você não viu nada hoje, certo?

Meu estômago gelou.

Encarei ND.

— Eu vi um homem quase morrendo e tentei ajudar. É só isso que eu sei.

Ele sustentou meu olhar.

Depois assentiu.

— Melhor assim.

Fui embora.

Rápido.

Sem olhar para trás.

Só quando já estava longe percebi que minhas pernas estavam tremendo.

Peguei o celular.

Dois por cento.

Tinha seis mensagens da minha mãe.

Mas, antes de responder, uma coisa continuava martelando na minha cabeça.

TH.

Eu já tinha ouvido aquelas letras antes.

Claro que tinha.

Mas meu cérebro cansado ainda não conseguia ligar completamente uma coisa à outra.

Guardei o celular e continuei andando.

Eu só descobriria depois que aquele desconhecido que tinha acabado de manter vivo não era simplesmente um homem chamado TH.

E que, naquela madrugada, enquanto pressionava minhas mãos contra o ferimento dele e mandava que não fechasse os olhos, eu tinha acabado de entrar em uma história da qual seria muito mais difícil sair.

Porque o homem que encontrei sangrando no chão era justamente aquele que todos conheciam.

TH.

O Dono da Rocinha.

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“E se o mundo pegar fogo?”

Minha mão se fecha de leve na cintura de Violet.

“Então eu construo um novo pra ela”, eu respondo. “Mesmo que eu tenha que queimar o velho com as minhas próprias mãos.”

Eu não trabalho para Rowan Ashcroft.
Eu trabalho abaixo dele.

Da minha mesa, eu decido quem consegue acesso ao CEO mais implacável da cidade e quem nunca passa da recepção. Eu administro o tempo dele, o silêncio dele, os inimigos dele. Eu mantenho o mundo dele funcionando enquanto o meu desaba em silêncio sob contas atrasadas, uma mãe internada numa clínica de reabilitação e um irmão que sumiu sem nem se despedir.

Rowan Ashcroft é poder embrulhado num terno sob medida.
Frio. Intocável. Impiedoso.
Ele não flerta. Não sorri. Não enxerga pessoas, só utilidade.

E por muito tempo, eu fui apenas útil.

Até que ele começou a me observar.

No começo, a mudança na atenção dele é sutil. Uma pausa longa demais. Um olhar que se demora. Ordens que me puxam para mais perto em vez de me manterem à distância. O homem que fica de pé acima da minha mesa começa a controlar mais do que a minha agenda, e eu percebo tarde demais que ser notada por Rowan Ashcroft é muito mais perigoso do que ser ignorada.

Porque homens como ele não desejam afeto.
Desejam posse.

Era pra ser só um emprego.
Não um teste dos meus limites.
Não uma descida lenta e calculada para dentro da autoridade dele.

Mas se Rowan Ashcroft decidir que eu pertenço debaixo da mesa dele, que seja.
Sobreviver tem um preço, e as contas não querem saber como eu pago.