Capítulo 3 Quem Eu Salvei?

Visão da Fernanda

Eu ainda conseguia sentir o sangue dele nas minhas mãos.

Mesmo depois de já estar longe.

Mesmo depois de esfregar uma mão na outra, tentando inutilmente limpar o que tinha secado entre meus dedos.

A imagem continuava ali.

A camiseta encharcada.

O rosto perdendo a cor.

A respiração difícil.

E aqueles olhos.

Principalmente aqueles olhos.

— Fernanda…

Ouvir meu nome saindo da boca dele pouco antes de apagar tinha ficado preso na minha cabeça.

Balancei o rosto.

— Para com isso.

Eu precisava chegar em casa.

Só isso.

Aquela história tinha acabado.

Os homens dele chegaram.

Levaram ele.

Agora alguém cuidaria do resto.

E eu nunca mais precisaria ver nenhum deles.

Pelo menos era o que eu queria acreditar.

Meu celular vibrou.

1%.

Abri rapidamente as mensagens.

Oito da minha mãe.

Duas do Lucas.

Uma da Júlia.

Ótimo.

Eu tinha conseguido preocupar a família inteira.

Liguei para minha mãe antes que o aparelho morresse.

Ela atendeu no primeiro toque.

— Fernanda!

Afastei o telefone do ouvido.

— Oi, mãe.

— Onde você está?

— Tô chegando.

— Chegando onde? Você falou que estava vindo faz um tempão!

— Aconteceu uma…

Parei.

O que eu falaria?

Oi, mãe. Desculpa o atraso. Encontrei um homem baleado, enfiei a mão no ferimento dele e depois apareceram vários homens armados para buscá-lo.

Márcia teria um infarto.

— O ônibus demorou — menti.

— Você não estava de Uber?

Merda.

— Eu…

— Fernanda!

— O preço aumentou.

Silêncio.

Eu conhecia aquele silêncio.

Era pior que grito.

— Você mentiu pra mim.

— Não menti.

— Você falou que estava indo de Uber.

— Eu falei que estava indo.

— Fernanda.

— Mãe, eu tô quase em casa. Meu celular vai desligar.

— Você está sozinha?

Olhei para os lados.

— Tô.

— Meu Deus do céu…

— Mãe…

O celular apagou.

— Perfeito.

Guardei no bolso e acelerei o passo.

Quando cheguei em casa, minha mãe estava na porta.

De braços cruzados.

Eu nem tive tempo de inventar uma desculpa.

— Você enlouqueceu?

— Bom dia pra você também.

— Não brinca comigo, Fernanda.

Passei por ela.

— Eu tô cansada.

— E eu quase morri de preocupação.

— Desculpa.

Tirei a mochila do ombro.

Foi quando minha mãe olhou para minha roupa.

O rosto dela mudou.

— Que isso?

Congelei.

Olhei para mim.

Merda.

Havia sangue na parte da frente da minha roupa.

Muito menos do que antes, mas o suficiente.

— Fernanda…

— Não é meu.

Acho que escolhi a pior resposta possível.

— Como assim não é seu?!

— Mãe…

— Sangue de quem é esse?

Lucas apareceu no corredor com o cabelo completamente bagunçado.

— Que gritaria é…

Parou.

Olhou para mim.

— Caralho.

— Olha a boca! — minha mãe reclamou automaticamente.

— Nanda, que porra aconteceu?

— Lucas!

— Desculpa. Mas olha pra ela!

Respirei fundo.

Eu não conseguiria esconder.

Não daquele jeito.

— Encontrei uma pessoa machucada.

Minha mãe empalideceu.

— Que pessoa?

— Um homem.

— Machucado como?

— Baleado.

— O quê?

Lucas arregalou os olhos.

— Tu encontrou um cara baleado?

— Fala baixo!

— Onde?

— Perto daqui.

— E você fez o quê?

Olhei para ele.

— O que você acha?

Minha mãe levou a mão à testa.

— Não. Não, não, não. Fernanda, pelo amor de Deus, me fala que você não parou.

— Mãe, ele estava sangrando.

— E você não sabe quem fez aquilo! Não sabe se tinha gente perto!

— Eu sei.

— Então por que você foi?

— Porque ele podia morrer!

— E você também!

Aquilo me calou.

Minha mãe estava brava.

Mas, por trás da raiva, eu enxergava medo.

Medo de verdade.

Aproximei-me.

— Eu tô bem.

— Dessa vez.

— Mãe…

— Você acha que porque trabalha em hospital precisa salvar o mundo inteiro?

— Não.

— Então?

Suspirei.

— Eu ouvi ele gemendo.

Ela fechou os olhos.

— Eu não conseguiria ir embora sabendo que tinha alguém ali precisando de ajuda.

Minha mãe ficou alguns segundos sem falar.

Ela me conhecia.

Sabia que eu estava dizendo a verdade.

— E cadê esse homem?

— Vieram buscar.

— Quem?

Essa parte era complicada.

— Uns conhecidos dele.

Lucas estreitou os olhos.

— Conhecidos como?

— Sei lá.

— Polícia?

— Não.

— Ambulância?

— Não.

— Então quem?

— Homens.

— Homens?

— É.

— Que explicação ótima.

— Lucas, eu não sei!

Minha mãe continuava olhando para minha roupa.

— Eles estavam armados?

Meu silêncio respondeu.

— Fernanda…

— Eu tô bem.

— Você viu o rosto deles?

— Vi.

— Eles viram o seu?

Outra vez fiquei calada.

Lucas assobiou baixo.

— Ih…

— Para! — reclamei.

— Você falou seu nome?

Fechei os olhos.

— Falei.

— Nome completo?

— Não.

— Onde mora?

— Não.

— Pelo menos isso.

Lembrei de ND perguntando exatamente aquilo.

Você mora por aqui?

Um arrepio percorreu minha coluna.

— Vou tomar banho.

— Fernanda…

— Mãe, por favor. Eu só quero tirar esse sangue de mim.

Ela respirou fundo.

— Depois nós vamos conversar.

— Tá.

Lucas apontou para mim.

— E eu quero saber tudo.

— Vai dormir.

— Nem ferrando.

— Lucas!

— Desculpa, mãe.

Fui para o banheiro antes que começassem novamente.

A água quente escorreu pelo meu corpo.

Fiquei olhando o sangue desaparecer pelo ralo.

Não era meu.

Precisava continuar lembrando disso.

Não era meu.

Mas tinha estado nas minhas mãos.

Esfreguei os dedos.

Uma vez.

Duas.

Três.

Ainda parecia que eu sentia o cheiro.

Fechei os olhos.

E imediatamente vi o rosto dele.

Não chama.

Meus homens.

Pode me chamar de TH.

Abri os olhos.

TH.

Por que aquilo parecia familiar?

Eu tinha certeza de que já tinha ouvido aquele vulgo.

Mas estava tão cansada que não conseguia organizar os pensamentos.

Desliguei o chuveiro.

— Problema de amanhã.

Coloquei uma roupa confortável e fui para o quarto.

Lucas estava sentado na minha cama.

— Sai.

— Não.

— Eu quero dormir.

— Eu quero fofoca.

— Um homem quase morreu.

— Informação.

— Você é doente.

— Só quero entender.

Joguei a toalha nele.

— Sai do meu quarto.

Ele tirou a toalha do rosto.

— Ele era bonito?

Parei.

— O quê?

— O cara.

— Isso é relevante?

— Muito.

— Ele estava quase inconsciente!

— Mas dava pra ver.

Revirei os olhos.

— Você não presta.

— Isso não foi um não.

Peguei meu travesseiro e joguei nele.

— Sai!

Lucas começou a rir.

— Tá bom! Tá bom!

Chegando à porta, virou.

— Mas era?

— Lucas!

Ele fechou a porta rindo.

Idiota.

Deitei.

Puxei o cobertor.

Fechei os olhos.

Era só dormir.

Mas minha cabeça não desligava.

Eu lembrava da mão dele segurando meu pulso.

Da voz fraca.

Do jeito que ele tinha perguntado meu nome.

E, para minha irritação, Lucas tinha razão.

Ele era bonito.

Mesmo coberto de sangue.

Pardo.

Alto.

Corpo forte.

Tatuagens pelos braços.

E aquele olhar escuro que parecia pesado demais.

— Fernanda, pelo amor de Deus…

Virei para o outro lado.

Ele provavelmente estaria sendo atendido naquele momento.

Talvez sobrevivesse.

Talvez não.

Meu peito apertou.

Não.

Ele ia sobreviver.

Precisava sobreviver.

Eu tinha dito isso para ele.

Você não vai morrer hoje.

Não queria descobrir que tinha mentido.

Acordei com alguém batendo na porta.

— Nanda!

Abri os olhos.

— Hm?

— Nanda!

— O quê?!

— Acorda!

Peguei o celular.

Carregado.

Olhei a hora.

— Lucas, eu vou te matar!

Eu tinha dormido pouco mais de quatro horas.

— Abre!

— Vai embora!

— Você precisa ver uma coisa.

— Se for vídeo idiota…

— É sobre o cara de ontem.

Sentei na cama na mesma hora.

— O quê?

Lucas abriu a porta.

— Eu sabia.

— Como assim é sobre ele?

— Você disse TH.

Meu sono desapareceu.

— E?

Lucas entrou segurando o celular.

— Nanda, você não sabia quem ele era?

— Quem?

Ele me encarou como se eu fosse a pessoa mais desinformada do planeta.

— TH.

— Eu sei que ele falou isso.

— Você mora onde?

— Na mesma casa que você.

— Não parece.

— Lucas!

— Você realmente não sabe?

Minha paciência acabou.

— Fala logo!

Ele me entregou o celular.

Havia uma foto.

Não era recente.

Mas era ele.

Sem sangue.

Sem aquela expressão de dor.

Em pé.

Corrente no pescoço.

Braços tatuados.

Olhar sério.

Meu estômago revirou.

— É ele.

— Tem certeza?

— Tenho.

Peguei o aparelho.

Li o que aparecia na tela.

Meu coração começou a bater mais rápido.

Olhei para Lucas.

— Não.

— É.

— Não.

— Nanda…

— Eu encontrei esse homem ontem.

— Eu sei.

— Eu fiquei mandando ele ficar acordado.

— Pelo visto.

— Eu mandei ele calar a boca.

Lucas mordeu os lábios.

— Não ri.

Ele começou a rir.

— Lucas!

— Desculpa!

— Não tem graça!

— Um pouco tem.

— Eu chamei ele de insuportável!

Agora Lucas ria de verdade.

— Para!

— Desculpa, mas você é muito sem noção.

— Eu não sabia!

— Ainda bem.

— Por quê?

— Porque se soubesse talvez tivesse desmaiado antes dele.

Joguei o celular na cama.

— Meu Deus.

Levantei.

Comecei a andar pelo quarto.

— Meu Deus. Meu Deus.

— Calma.

— Você acabou de me falar que o homem que eu encontrei baleado é o Dono da Rocinha e quer que eu fique calma?

— Tecnicamente…

— Não fala “tecnicamente”!

Ele fechou a boca.

Passei a mão pelo cabelo.

Agora tudo fazia sentido.

Os homens.

As armas.

As motos.

ND.

A urgência.

O jeito como aquele homem tinha falado comigo.

Você não viu nada hoje, certo?

Senti um frio no estômago.

— Eu sou uma idiota.

— Você salvou o cara.

— Exatamente!

— E isso é ruim?

Olhei para meu irmão.

— Lucas, alguém atirou nele!

O sorriso dele desapareceu.

— É.

— E eu estava lá.

— Depois.

— Não importa. Eu vi ele. Vi os homens. Eles me viram.

— Você viu quem atirou?

— Não.

— Então pronto.

— Não existe “então pronto”!

Peguei meu celular.

Nenhuma mensagem estranha.

Nenhuma ligação.

Nada.

Melhor assim.

— Nanda…

— Eu não quero saber.

— Saber o quê?

— Nada sobre ele.

— Mas…

— Nada.

Apontei para Lucas.

— Você também não vai sair falando que fui eu que encontrei.

— Eu não sou burro.

— Às vezes parece.

— Obrigado.

— Tô falando sério.

— Eu também.

Sentei na cama.

— Acabou.

Lucas me olhou.

— O quê?

— Essa história.

— Você não sabe nem se ele tá vivo.

Aquilo bateu mais forte do que deveria.

Olhei para ele.

— Ele tá.

— Como sabe?

Não sabia.

Mas precisava acreditar.

— Porque estava consciente quando levaram.

Lucas assentiu.

— Então beleza.

Respirei fundo.

Era isso.

Eu tinha feito minha parte.

Ajudado uma pessoa ferida.

Não precisava existir nada além daquilo.

— Nunca mais quero encontrar esse homem.

Lucas levantou uma sobrancelha.

— Por que eu tenho a sensação de que você acabou de zicar sua própria vida?

— Cala a boca.

Ele riu.

— Só tô falando.

— Vai embora.

— Quer seu celular?

— Não.

— Quer que eu pesquise mais sobre ele?

— Não!

— Tá bom.

Ele foi até a porta.

— Lucas.

— Oi?

— Sério. Não fala pra ninguém.

Dessa vez ele não brincou.

— Não vou.

— Nem pros seus amigos.

— Pode confiar.

Assenti.

Ele saiu.

Fiquei sozinha.

Peguei o travesseiro e abracei.

Meu celular vibrou.

Meu coração disparou.

Olhei imediatamente.

Júlia.

Soltei o ar.

Abri.

Júlia: Bom dia, desaparecida. Sobreviveu?

Digitei.

Eu: Infelizmente.

Ela respondeu:

Júlia: Dramática.

Pensei em contar.

Apaguei.

Não.

Quanto menos gente soubesse, melhor.

Deitei novamente.

Mas agora era impossível dormir.

Olhei para o teto.

TH.

Thiago.

O Dono da Rocinha.

O homem que eu tinha chamado de teimoso.

O homem que segurou meu pulso enquanto perdia sangue.

O homem que, aparentemente, tinha gente suficiente ao redor para fazer metade da comunidade parar quando ele falava.

E eu tinha passado sabe-se lá quanto tempo mandando ele obedecer.

Cobri o rosto com as mãos.

— Que merda, Fernanda.

Minha mãe entrou sem bater.

— O que foi?

— Nada.

Ela estreitou os olhos.

— Lucas te contou?

Parei.

— Você também sabe?

— Ele acabou de me contar.

— Eu vou matar aquele garoto!

— Não vai.

Ela entrou e fechou a porta.

— É verdade?

Assenti devagar.

Minha mãe sentou ao meu lado.

— Você tem certeza?

— Vi a foto.

Ela ficou em silêncio.

— Mãe…

— Você não vai se meter nisso.

— Eu não quero me meter.

— Não vai procurar ninguém.

— Claro que não!

— Se alguém perguntar, você não sabe de nada.

— Foi exatamente o que eu falei pro homem que estava com ele.

Minha mãe virou rapidamente.

— Que homem?

— ND.

Ela fechou os olhos.

— Meu Deus…

— Para de fazer essa cara.

— Que cara você quer que eu faça?

— Uma menos desesperada.

— Minha filha encontrou o Dono do Morro baleado no meio da madrugada!

— Eu sei!

— E mexeu no ferimento dele.

— Eu estava tentando salvar a vida dele!

— Eu sei disso também.

Ela segurou minhas mãos.

— E é exatamente por te conhecer que eu tenho medo. Você vê alguém precisando e esquece de pensar em você.

A raiva que eu estava sentindo diminuiu.

— Eu tô aqui.

— E quero que continue.

Encostei a cabeça no ombro dela.

— Não vou me envolver.

— Promete?

— Prometo.

— Se ele procurar você…

Levantei a cabeça.

— Por que ele me procuraria?

Minha mãe me encarou.

— Não sei.

— Não vai.

— Fernanda…

— Mãe, ele é o Dono da Rocinha. Deve ter umas quinhentas coisas mais importantes para pensar do que a técnica de enfermagem que encontrou ele numa viela.

Ela não pareceu convencida.

Mas eu estava.

Ou queria estar.

— Nunca mais vou chegar perto daquele homem.

Minha mãe apertou minha mão.

— Melhor.

Assenti.

E, naquele momento, eu realmente acreditava.

Eu só não sabia de uma coisa.

Enquanto eu estava sentada na minha cama prometendo nunca mais chegar perto de TH…

Em outro ponto da Rocinha, o homem que eu queria desesperadamente esquecer acabava de recuperar a consciência.

E uma das primeiras coisas que faria ao abrir os olhos seria perguntar por mim.

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