Capítulo 4 Ele Acordou
Visão do TH
Bip.
Bip.
Bip.
Que barulho irritante do caralho.
Tentei abrir os olhos, mas parecia que tinham colocado cimento nas minhas pálpebras.
Minha cabeça pesava.
A boca estava seca.
E, quando tentei mexer o corpo, a dor veio.
Forte.
— Porra…
— TH?
Conhecia aquela voz.
ND.
Abri os olhos devagar.
A primeira coisa que vi foi o teto.
Depois uma luz que me fez querer fechar os olhos de novo.
— Apaga essa merda.
— Olha só quem resolveu voltar pro mundo dos vivos.
Virei a cabeça lentamente.
ND estava sentado numa cadeira ao lado da cama.
Camiseta preta.
Olheiras.
Cara de quem não dormia havia horas.
— Quanto tempo?
Minha voz saiu rouca.
— Quase um dia.
— Onde eu tô?
— Lugar seguro.
Olhei em volta.
Não parecia hospital.
Melhor.
Eu odiava hospital.
— Médico?
— Já veio. E antes que você comece: sim, é de confiança.
Tentei me ajeitar.
A dor me fez parar imediatamente.
— Fica quieto, caralho.
— Não manda em mim.
ND soltou uma risada sem humor.
— Você quase morreu e continua sendo um filho da puta.
— Quase.
— Essa é a parte importante da frase pra você?
— Tô vivo.
— Por pouco.
Fiquei em silêncio.
As lembranças começaram a voltar aos poucos.
A rua.
A moto.
Os tiros.
A dor.
O chão.
Depois…
Ela.
Cabelos cor de mel.
Mãos cobertas de sangue.
Minha mão segurando o pulso dela.
A voz mandando que eu não fechasse os olhos.
Fernanda.
Olhei para ND.
— A garota?
Ele franziu a testa.
— Que garota?
— A que tava comigo.
ND ficou me encarando.
— Você acordou depois de quase morrer e essa é sua primeira pergunta?
— Responde.
— Tá bem.
Soltei o ar devagar.
Só então percebi que estava prendendo a respiração.
ND viu.
Claro que viu.
Aquele desgraçado me conhecia desde moleque.
— Interessante.
— O quê?
— Nada.
— Então fecha a boca.
— Você nem perguntou quem atirou em você.
— Vou perguntar.
— Mas perguntou primeiro pela garota.
— Porque eu sabia que você ia estar aqui.
— Ah.
Ele fez uma cara de filho da puta.
— Para de olhar assim.
— Assim como?
— Como se tivesse alguma coisa.
— Eu não falei nada.
— Nem precisa.
ND levantou e pegou uma garrafa de água.
— Pode beber pouco. O médico falou.
— Desde quando você escuta médico?
— Desde que meu melhor amigo resolveu virar alvo de tiro.
Ele me entregou.
Bebi alguns goles.
Minha cabeça começou a funcionar melhor.
— Encontraram a moto?
A expressão dele mudou.
Agora estávamos falando sério.
— Uma delas.
— Deles?
— Abandonada.
— Placa?
— Roubada.
— Câmera?
— Estamos vendo.
Assenti.
— Quem sabia?
ND não respondeu imediatamente.
— Pouca gente.
— Quantos?
— Do horário e do caminho exato? Pouquíssimos.
— Então alguém abriu a boca.
— Também acho.
Cerrei o maxilar.
Eu tinha inimigos.
Isso nunca foi novidade.
Quem ocupava meu lugar não podia fingir que era querido por todo mundo.
Mas uma coisa era alguém querer me atingir.
Outra era saber exatamente onde eu estaria e qual caminho faria.
Aquilo precisava de informação.
— Ninguém faz nada ainda.
ND me olhou.
— Eu sei.
— Quero certeza.
— Também sei.
— Não quero ninguém fazendo merda porque acha que sabe quem foi.
— Eu não sou novo nisso, TH.
— Não tô falando só de você.
Ele assentiu.
— Já dei o papo.
Fechei os olhos por alguns segundos.
A voz voltou.
Não fecha os olhos.
Abri imediatamente.
ND percebeu.
— Dor?
— Não.
— Então?
Ignorei.
— Como ela foi embora?
— Quem?
Olhei para ele.
ND abriu um sorriso.
— Ah. A garota.
— Vai tomar no cu.
Ele riu.
— Foi andando.
— Sozinha?
— Foi.
— Você deixou?
ND me encarou incrédulo.
— Eu devia fazer o quê? Prender a menina?
— Tava tarde.
— TH…
— E ela tinha acabado de ficar no meio daquela merda.
— Eu perguntei se ela morava perto.
Meu olhar endureceu.
— Pra quê?
— Pra mandar alguém levar.
— E?
— Quase arrancou minha cabeça só com o olhar. Falou que eu não precisava saber onde ela morava.
Apesar da dor, senti vontade de rir.
Era a cara dela.
— E você insistiu?
— Não.
— Fez bem.
ND me observou.
— Ela não sabia quem você era.
— Eu percebi.
— Descobriu depois?
— Não sei.
— Provavelmente já.
Fiquei olhando para o teto.
Provavelmente.
E alguma coisa me dizia que Fernanda não tinha ficado feliz com a descoberta.
— Ela viu alguma coisa?
— Pelo que falou, não. Disse que ouviu os tiros e encontrou você depois.
— Alguém seguiu ela?
— Não.
— Tem certeza?
— Mandei um dos moleques olhar de longe até ela sair daquela área.
Virei o rosto para ele.
— Sem chegar perto?
— Sem chegar perto.
Assenti.
— Certo.
ND voltou para a cadeira.
— Agora posso fazer uma pergunta?
— Você vai fazer de qualquer jeito.
— Por que você tá tão preocupado com ela?
Olhei para ele.
— Ela salvou minha vida.
A brincadeira desapareceu do rosto dele.
— Eu sei.
— Se ela tivesse continuado andando, você provavelmente teria encontrado um cadáver.
ND ficou quieto.
— Ela podia ter ido embora — continuei. — Ou chamado alguém e ficado longe. Mas ficou ali pressionando o ferimento até vocês chegarem.
— Ela fez um bom trabalho.
— Então eu tenho uma dívida.
ND assentiu.
Ele entendia isso.
— Quer que eu faça o quê?
Pensei.
Fernanda tinha dito o primeiro nome.
Nada além.
Eu sabia que era técnica de enfermagem.
Tinha saído de um plantão.
Morava provavelmente naquela região.
Tinha mãe.
Tinha irmão.
Queria fazer faculdade.
E aparentemente não tinha dinheiro para gastar quarenta reais num Uber.
Eu lembrava de tudo.
Por algum motivo.
— Descobre quem ela é.
ND levantou uma sobrancelha.
— Aí está.
— Aí está o quê?
— Nada.
— Nathan.
Ele abriu um sorriso.
Eu só chamava aquele filho da puta pelo nome quando estava perdendo a paciência.
— Tá bom. Vou descobrir.
— Discreto.
— Claro.
— ND.
— Fala.
— Ninguém encosta nela.
A expressão dele ficou séria.
— Nem pra perguntar nada?
— Nada.
— E se precisarmos confirmar o que ela viu?
— Você fala comigo primeiro.
— Beleza.
— Não quero ninguém chegando na casa dela. Não quero ninguém parando ela na rua. Não quero moleque cercando a menina pra perguntar merda.
— Entendi.
— Ela já ficou assustada ontem.
— Ficou.
Isso me incomodou mais do que deveria.
— Então descobre sem ela perceber.
ND me encarou por alguns segundos.
— Posso falar uma coisa?
— Não.
— Vou falar mesmo assim.
Revirei os olhos.
— Você tomou um tiro ontem.
— Eu estava lá.
— Tem alguém dentro da nossa própria área passando informação sobre você.
— Também sei.
— Você ainda nem consegue levantar sozinho.
— Onde quer chegar?
Ele cruzou os braços.
— E mesmo assim tá gastando metade da pouca energia que tem falando da Fernanda.
— Porque ela ficou envolvida.
— Ela encontrou você depois.
— Exatamente. Não deveria ter ficado envolvida e ficou.
— Então você quer garantir que ninguém mexa com ela.
— Sim.
— Só isso?
Encarei ND.
— Só.
Ele segurou o sorriso.
— Beleza.
— Qual é a graça?
— Nenhuma.
— Eu te conheço.
— E eu conheço você.
— Então sabe a hora de calar a boca.
— Infelizmente nunca aprendi.
Peguei o travesseiro com a intenção de jogar nele.
Péssima ideia.
A dor atravessou meu lado.
— Caralho!
ND levantou imediatamente.
— Tá vendo? Quer bancar o saudável e não consegue nem jogar um travesseiro.
— Vai tomar no cu.
— Vou chamar o médico.
— Não precisa.
— Precisa, sim.
— ND.
— Dessa vez você não manda.
— Eu mando sempre.
— Então manda seu corpo parar de sangrar.
Filho da puta.
Ele saiu rindo.
Fiquei sozinho.
O silêncio tomou o quarto.
Minha mão foi instintivamente até perto do curativo.
Não toquei.
Aquela porra doía.
Mas eu estava vivo.
E isso não tinha acontecido só porque meus homens chegaram a tempo.
Quando ND me encontrou, Fernanda já estava ali.
Comprimindo o ferimento.
Me mantendo acordado.
Falando qualquer merda só para impedir que eu apagasse.
Fechei os olhos.
Vi o rosto dela novamente.
Você não vai morrer hoje.
Ela tinha falado com tanta certeza.
Como se pudesse simplesmente decidir aquilo por mim.
Sorri de canto.
Teimosa.
Algumas horas depois, acordei novamente.
Dessa vez não sabia quanto tempo tinha dormido.
A porta abriu.
ND entrou.
Tinha um celular na mão.
— Melhorou?
— Fala logo.
— Bom dia pra você também.
— Descobriu?
Ele parou.
— Você nem sabe o que eu vim falar.
— Tá com essa cara.
— Que cara?
— De quem descobriu alguma coisa.
Ele puxou a cadeira.
— Fernanda Oliveira.
Fiquei atento.
— Vinte e três anos.
Certo.
— Técnica de enfermagem.
Isso eu sabia.
— Trabalha em hospital. Faz plantões puxados pra caramba, pelo que descobri.
— Família?
— Mora com a mãe, Márcia, e o irmão mais novo, Lucas. Dezenove.
Minha cabeça registrou.
Márcia.
Lucas.
— Pai?
— Não parece muito presente.
— Mais?
ND olhou o celular.
— Vida normal. Trabalho, casa. Não achei ligação dela com ninguém que interesse pra gente.
— Namorado?
ND levantou lentamente os olhos do celular.
Merda.
— O quê?
— Nada.
— Fala.
— Você perguntou se ela tem namorado?
— Preciso saber quem anda perto dela.
— Claro.
— Nathan…
— Não achei namorado.
Não sei por que aquela informação me deu uma sensação estranha.
Preferi ignorar.
— Ela já comentou alguma coisa sobre aquela noite?
— Pelo que conseguimos saber, não.
— Ótimo.
— E descobriu quem você é.
— Como sabe?
— O irmão dela conhece seu vulgo. Parece que mostrou alguma coisa pra ela hoje.
Imaginei a reação.
Provavelmente não tinha sido boa.
— Ela ficou assustada?
— Não botei ninguém perto o suficiente pra saber.
Assenti.
Era exatamente o que eu tinha pedido.
ND colocou o celular no bolso.
— Tem mais uma coisa.
— O quê?
— Um dos caras viu um sujeito rondando aquela região algumas horas depois.
Meu corpo ficou alerta.
— Quem?
— Ainda não sabemos.
— Era dos que vieram em mim?
— Não dá pra afirmar.
— Então descobre.
— Já estão vendo.
Fiquei alguns segundos pensando.
Se quem tinha me atacado voltasse ao local…
E descobrisse que alguém tinha me encontrado…
Fernanda poderia virar problema.
Não porque tivesse visto alguma coisa.
Mas porque eles poderiam achar que viu.
— ND.
— Já sei.
— Não, não sabe.
Ele esperou.
— Quero alguém de olho nela.
— TH…
— De longe.
— Ela vai perceber.
— Então coloca alguém que saiba fazer direito.
— Você acabou de falar que não queria assustar a menina.
— E não quero.
— Então?
— Ela não precisa saber.
ND soltou o ar.
— Você percebe que isso tem tudo pra dar merda quando ela descobrir?
— Ela não vai descobrir.
ND começou a rir.
— O quê?
— Você conheceu a mulher por meia hora e ainda não entendeu?
— Entendi o quê?
— Aquela ali tem cara de quem descobre tudo.
Lembrei dela me encarando.
Você prefere sentir dor ou continuar sangrando?
— Então faz direito.
— Tá.
— E ninguém interfere na rotina dela.
— Certo.
— Ninguém fala com ela.
— Certo.
— Se tiver qualquer coisa estranha, você me avisa.
— Certo, chefe.
— Para de graça.
Ele se levantou.
— Mais alguma ordem sobre a senhorita Fernanda?
— Vai se foder.
— Vou considerar um não.
ND chegou à porta.
— E, TH?
— O quê?
— Ela realmente salvou sua vida.
Olhei para ele.
Dessa vez não havia provocação.
— Eu sei.
— Então quando estiver andando de novo, agradece pessoalmente.
Ele saiu.
Fiquei olhando para a porta fechada.
Agradecer.
Parecia simples.
Mas alguma coisa me dizia que Fernanda não seria o tipo de mulher que aceitaria dinheiro, presente ou qualquer outra coisa apenas porque eu queria dar.
Ela provavelmente mandaria eu guardar.
Sorri sozinho.
Depois meu olhar caiu sobre o celular deixado na mesa.
Peguei.
Havia dezenas de mensagens.
Problemas.
Cobranças.
Gente querendo saber como eu estava.
Assuntos que precisavam da minha decisão.
E, acima de tudo, alguém tinha tentado me matar.
Eu precisava descobrir quem.
Deveria ser a única coisa ocupando minha cabeça.
Mas, no meio de toda aquela merda, um nome continuava aparecendo.
Fernanda Oliveira.
A mulher que não sabia quem eu era.
A mulher que tinha ficado quando qualquer pessoa sensata teria corrido.
A mulher que tinha colocado as mãos no meu sangue e decidido que eu não morreria.
Eu ainda não sabia por quê, mas tinha certeza de uma coisa:
Eu precisava vê-la de novo.
Nem que fosse apenas para agradecer.
E, até esse dia chegar, ninguém chegaria perto dela.
Ninguém a assustaria.
Ninguém mexeria com ela.
Porque eu podia ainda não saber exatamente o que Fernanda significaria na minha vida.
Mas uma dívida era uma dívida.
E aquela eu pretendia pagar.
