Capítulo 5 Fernanda

— Fernanda

Visão da Fernanda

Três dias.

Tinham se passado três dias desde que encontrei TH baleado, e eu estava começando a acreditar que minha vida finalmente tinha voltado ao normal.

Ou quase.

Minha mãe ainda perguntava umas cinco vezes por dia se alguém tinha me procurado.

Lucas tinha desenvolvido uma obsessão irritante pelo assunto.

E eu?

Eu estava tentando esquecer.

Tentando.

Porque esquecer de verdade estava sendo um pouco mais difícil.

— Fernanda!

Pisquei.

Júlia estava parada na minha frente.

— Oi?

— Eu te perguntei se você conferiu o prontuário do 302.

— Conferi.

— Tem certeza?

— Júlia, eu posso estar cansada, mas ainda sei trabalhar.

Ela estreitou os olhos.

— Você tá estranha.

— Não tô.

— Tá.

— Não tô.

— Você acabou de colocar açúcar no seu café.

Olhei para o copo.

Merda.

— E?

— Você odeia café com açúcar.

Olhei novamente.

— Hoje eu quis.

— Mentira.

— Meu Deus, você não trabalha, não?

— Trabalho. Inclusive estou trabalhando agora mesmo na investigação do que aconteceu com minha melhor amiga.

Peguei o café e tomei.

Fiz uma careta.

Horrível.

Júlia cruzou os braços.

— Viu?

— Vai cuidar da sua vida.

— A sua é mais interessante.

Passei por ela.

— Não aconteceu nada.

— Então por que você tá aérea há três dias?

— Cansaço.

— Você dormiu praticamente sua folga inteira.

— Talvez eu esteja com falta de vitamina.

— Talvez você esteja escondendo alguma coisa.

Parei.

Ela também.

— Júlia.

— Fernanda.

— Eu não estou escondendo nada.

Ela ficou me encarando.

— Tá bom.

— Obrigada.

— Ainda não acredito.

Revirei os olhos.

Júlia era impossível.

E talvez eu devesse contar.

Era minha melhor amiga.

Nós trabalhávamos juntas havia quase dois anos, e ela sabia praticamente tudo sobre mim.

Sabia das contas.

Da faculdade que eu queria fazer.

Das brigas com Lucas.

Das preocupações da minha mãe.

Sabia até quando eu estava menstruada porque, segundo ela, eu ficava “com cara de quem queria socar o mundo”.

Mas aquilo era diferente.

Quanto menos pessoas soubessem, melhor.

Eu tinha prometido à minha mãe que não me envolveria.

E estava cumprindo.

Não procurei notícias de TH.

Não perguntei a ninguém.

Não fui atrás de nada.

Tá.

Talvez eu tivesse digitado TH Rocinha no celular uma única vez.

Só para saber se tinha aparecido alguma notícia dizendo que ele tinha morrido.

Não apareceu.

E aquilo tinha sido suficiente.

Eu esperava.

— Você vai almoçar?

Olhei para Júlia.

— Se chamarem esse negócio de almoço, sim.

Ela olhou para a bandeja.

— Hoje tá triste.

— Hoje?

— Maldosa.

Sentamos.

Meu celular vibrou.

Mãe: Quando sair me avisa.

Sorri.

Nada tinha mudado.

Eu: Pode deixar.

Outra mensagem.

Lucas: Compra biscoito.

Fechei os olhos.

— Que foi? — Júlia perguntou.

— Meu irmão.

— O que ele fez?

Mostrei a tela.

Ela riu.

— Compra pro menino.

— Ele tem dezenove anos.

— Continua sendo o bebê da casa.

— O bebê tem quase um metro e oitenta.

— Detalhes.

Comecei a comer.

Meu salário cairia no dia seguinte.

Graças a Deus.

Eu já tinha mentalmente dividido o dinheiro antes mesmo de receber.

Conta de internet.

Uma parte da compra de casa.

Passagem.

Cartão.

E eu tentaria separar um pouco.

Tentaria.

Porque sempre aparecia alguma coisa.

Meu celular vibrou novamente.

Olhei.

Número desconhecido.

Meu estômago apertou imediatamente.

Fiquei olhando para a tela.

— Não vai atender? — Júlia perguntou.

— Não conheço.

A ligação parou.

Respirei.

Logo depois chegou uma mensagem.

Número desconhecido: Boa tarde. Falamos da clínica odontológica…

Soltei o ar.

Júlia franziu a testa.

— Você ficou branca.

— Achei que fosse cobrança.

— E desde quando você tem medo de cobrança nesse nível?

— Desde sempre.

Bloqueei a tela.

— Vou voltar.

— Você mal comeu.

— Não tô com fome.

Levantei.

Enquanto caminhava pelo corredor, fiquei irritada comigo mesma.

Aquilo precisava parar.

Qualquer número desconhecido e eu já achava que tinha alguma relação com aquela noite.

TH não tinha motivo para me procurar.

ND também não.

Eu não tinha visto quem atirou.

Não sabia de nada.

Eu era irrelevante para aquela história.

E era exatamente assim que pretendia continuar.

No fim do plantão, minhas pernas estavam destruídas.

Troquei de roupa, prendi o cabelo e peguei a mochila.

— Hoje você vai de quê? — Júlia perguntou.

— Ônibus.

— Sua mãe sabe?

— Por que todo mundo fiscaliza meu transporte?

— Porque aparentemente você tem tendências suicidas.

— Engraçadinha.

— Quer dividir um carro?

— Você mora pro outro lado.

— Eu sei.

— Então para de inventar.

Ela me abraçou.

— Manda mensagem quando chegar.

— Tá.

— E, Nanda…

— Hum?

— Se estiver acontecendo alguma coisa, você sabe que pode me contar.

Meu sorriso diminuiu.

— Eu sei.

— Não precisa resolver tudo sozinha.

— Eu sei.

Ela apertou minha mão.

— Te amo, chata.

— Também te amo.

Saí.

O céu já estava começando a escurecer.

Dessa vez, eu estava saindo cedo o suficiente para pegar bastante movimento na rua.

Melhor.

Depois daquela madrugada, descobri que não estava tão confortável andando sozinha quanto antes.

O que me irritava.

Eu não queria que aquilo mudasse minha rotina.

Coloquei os fones.

Música baixa.

Peguei o ônibus.

Desci algum tempo depois.

Passei numa padaria.

Comprei o maldito biscoito do Lucas.

E estava seguindo para casa quando ouvi:

— Nanda!

Meu corpo travou por reflexo.

Virei.

Quando vi quem era, meu medo se transformou imediatamente em irritação.

Renan.

— Oi.

Ele veio andando na minha direção.

Camiseta branca, bermuda, corrente no pescoço e aquele sorriso que um dia eu tinha achado bonito.

Um dia.

Bem distante.

— Sumida.

— Tô trabalhando.

— Você sempre tá trabalhando.

— É geralmente o que acontece quando a pessoa tem emprego.

Ele riu.

— Continua ignorante.

— Não sou ignorante.

— Comigo é.

— Talvez tenha um motivo.

Continuei andando.

Ele veio junto.

— Vai pra casa?

— Vou.

— Te acompanho.

— Não precisa.

— Não custa nada.

— Renan.

— Que foi?

Parei.

— Eu falei que não precisa.

Ele levantou as mãos.

— Calma.

Voltei a andar.

Renan era conhecido meu havia alguns anos.

No começo, era normal.

Conversávamos.

Às vezes ele aparecia quando eu estava com amigos.

Já tinha me chamado para sair.

Eu recusei.

Depois chamou novamente.

Recusei outra vez.

O problema era que Renan parecia acreditar que “não” significava “insiste mais um pouco”.

E isso tinha começado a me irritar.

— Você podia parar de fugir de mim — ele falou.

— Eu não fujo de você.

— Toda vez que eu te chamo pra sair, você inventa alguma coisa.

— Eu não invento. Eu digo que não quero.

— É diferente.

Parei novamente.

— Não. Não é.

Ele me olhou.

— Você nunca me deu uma chance.

— E eu preciso?

— Não falei isso.

— Parece.

Renan passou a língua pelos lábios.

— Só acho que você cria uma barreira sem motivo.

— Talvez eu simplesmente não esteja interessada.

— Você nem tentou.

— Renan, pelo amor de Deus…

Voltei a andar.

Ele segurou meu braço.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Olhei para a mão dele.

Depois para o rosto.

— Solta.

— Eu só tô conversando.

— E eu mandei soltar.

Ele soltou.

— Nossa. Tá nervosa.

— Não pega em mim desse jeito.

— Eu não fiz nada.

— Então pronto.

Continuei.

Ele ficou parado por alguns segundos.

Achei que finalmente tivesse entendido.

Não.

Logo estava andando ao meu lado outra vez.

— Vai fazer o quê sábado?

— Trabalhar.

— E domingo?

— Trabalhar.

— Você trabalha sete dias por semana agora?

— Quando necessário.

— Tá vendo? É disso que tô falando.

— Falando do quê?

— Você não quer sair comigo.

— Finalmente entendeu.

Ele riu.

Mas não achei graça.

— Um dia eu ainda faço você mudar de ideia.

— Não conta com isso.

Chegamos perto da rua de casa.

— Pode ir — falei.

— Eu te levo até a porta.

— Não precisa.

— Qual é, Nanda?

— Renan.

Meu tom fez ele parar.

— Boa noite.

Ele me encarou por alguns segundos.

O sorriso tinha desaparecido.

— Tá bom.

— Obrigada.

Dei alguns passos.

— Fernanda.

Virei.

— Que foi?

— Cuidado com quem você anda.

Franzi a testa.

— Como assim?

O sorriso voltou.

— Nada.

— Renan.

— Boa noite.

Ele virou e foi embora.

Fiquei parada.

Cuidado com quem você anda.

Que frase idiota.

Eu nem estava andando com ninguém.

Balancei a cabeça.

— Maluco.

Continuei para casa.

Não percebi o homem parado mais acima.

Nem a moto encostada discretamente do outro lado.

E muito menos percebi quando ele pegou o celular.

Visão do TH

— Nome?

Eu estava sentado na cama, puto da vida porque o médico tinha acabado de repetir pela décima vez que eu precisava descansar.

ND mexia no celular.

— Já te falei.

— Quero tudo.

— Você tá ficando obcecado.

Olhei para ele.

— Escolhe melhor as palavras.

Ele riu.

— Fernanda Oliveira. Vinte e três anos. Técnica de enfermagem. Mora com a mãe, Márcia, e o irmão, Lucas.

— Isso eu já sei.

— Então por que perguntou?

— Quero saber se apareceu alguma coisa nova.

ND me observou.

— Nada fora do normal.

— Faculdade?

— Ainda não faz.

— Ela falou que queria.

ND levantou os olhos.

— Quando?

— Naquela noite.

— A menina contou a vida inteira enquanto você sangrava?

— Eu mandei ela falar.

— Romântico.

— Vai tomar no cu.

Ele riu.

— Pelo que descobri, ela fez o curso técnico, começou a trabalhar e ajuda em casa. Parece que quer fazer Enfermagem.

Assenti.

— Problema com alguém?

— Não.

— Dívida?

— Nada relevante.

— Alguém mexendo com ela?

ND demorou um pouco.

Percebi.

— Fala.

— Tem um cara.

Meu maxilar endureceu sem motivo.

— Que cara?

— Renan.

— Quem é?

— Conhecido dela.

— E?

— Insiste em ficar com ela.

— Ela quer?

ND abriu um sorriso.

— Você tá perguntando isso como dono da área ou como Thiago?

— Responde a porra da pergunta.

— Pelo que passaram, não. Ela vive cortando o cara.

— Então por que ele continua?

— Porque homem inconveniente existe desde que o mundo é mundo.

Não gostei.

— Ele já fez alguma coisa?

— Até agora, nada grave.

— “Até agora”?

— Hoje ele segurou o braço dela durante uma conversa.

Meu corpo ficou rígido.

— Ele fez o quê?

ND suspirou.

— TH.

— Eu perguntei o que ele fez.

— Segurou o braço. Ela mandou soltar. Ele soltou.

— E quem tava olhando fez o quê?

— Exatamente o que você mandou.

— Que era?

— Não interferir na rotina dela a menos que existisse risco.

Cerrei o maxilar.

Era verdade.

— E depois?

— Ela foi pra casa. Ele foi embora.

— Só isso?

ND ficou em silêncio.

— Nathan.

— Antes de ir, ele falou uma coisa.

— O quê?

— “Cuidado com quem você anda.”

Minha expressão mudou.

— Exatamente assim?

— Exatamente.

— E ela?

— Não entendeu.

Nem eu.

Mas não gostei.

— Quero saber quem é esse Renan.

— Já mandei puxar.

— Tudo.

— TH…

— Tudo.

ND guardou o celular.

— Você sabe que ela vai descobrir em algum momento que tem gente observando, né?

— Não se fizerem direito.

— E quando descobrir, vai ficar puta.

— Problema meu.

Ele riu.

— Isso é o que você acha.

Ignorei.

— E ninguém encosta no Renan.

— Achei que você ia mandar arrancarem a mão dele.

Olhei para ND.

— Eu não sou moleque.

— Ainda bem.

— Quero saber primeiro se essa frase teve algum significado ou se ele só tava tentando assustar ela.

— Certo.

ND caminhou até a porta.

— E outra coisa.

— O quê?

— Para de mandar relatório de cada passo dela.

Ele se virou.

— Foi você que pediu.

— Pedi pra avisar se acontecesse alguma coisa.

— Um cara insistindo nela aconteceu.

— Certo.

— Então?

— Então continua.

O sorriso dele apareceu.

— Sabia.

— Sai daqui.

— Tá bom, apaixonado.

Peguei a garrafa de água e joguei.

Dessa vez consegui.

Ela bateu na porta depois que ND fechou.

— Filho da puta.

Ouvi a risada dele do lado de fora.

Balancei a cabeça.

Não tinha nada daquilo.

Eu mal conhecia Fernanda.

Ela tinha salvado minha vida.

Só isso.

Eu tinha uma dívida.

E agora havia um homem dizendo para ela tomar cuidado com quem andava.

Podia não significar porra nenhuma.

Mas eu não sobrevivia naquele mundo ignorando coincidências.

Peguei o celular.

Havia assuntos mais importantes.

O atentado.

A moto.

Quem sabia da minha rota.

Quem tinha passado informação.

Mas agora um nome novo tinha entrado no meio.

Renan.

E eu descobriria exatamente quem ele era.

Não porque estivesse interessado na vida amorosa de Fernanda.

Pelo menos era isso que eu dizia para mim mesmo.

Era proteção.

Dívida.

Nada além disso.

Só que, enquanto eu repetia aquela explicação, uma imagem apareceu na minha cabeça.

A mão de outro homem segurando o braço dela.

Meu maxilar travou novamente.

— Caralho…

Eu precisava melhorar logo.

Porque mandar observar Fernanda à distância estava começando a não ser suficiente.

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