Capítulo 3 Capítulo 3

Four Points by Sheraton Juneau ficava a poucos quilômetros do aeroporto e a poucos minutos do Museu Estadual do Alasca. Cercado pela beleza silenciosa das montanhas e pela imensidão do canal Gastineau, o hotel parecia carregar uma mistura curiosa de isolamento e aconchego.

Da entrada, era impossível não notar a movimentação constante. Pessoas chegavam com malas, casais conversavam em voz baixa, funcionários passavam apressados pelo saguão iluminado. Havia uma energia de passagem naquele lugar, como se cada hóspede carregasse consigo uma história que começava ou terminava ali.

Eu estava parada ao lado do elevador, esperando Sebastian terminar o check-in na recepção. Enquanto observava o movimento ao meu redor, tentei ignorar a sensação inquietante de estar prestes a atravessar uma porta que poderia mudar completamente a forma como eu o enxergava.

Quando ele finalmente apareceu, veio com aquele mesmo meio sorriso que parecia esconder mais do que revelava.

— Vem sempre aqui? — perguntei enquanto ele apertava o botão do elevador.

Ele me olhou por alguns segundos antes de responder.

— Não mais.

Ergui uma sobrancelha, curiosa.

— Então costumava vir?

Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.

Antes que eu pudesse insistir, as portas do elevador se abriram. Sebastian segurou minha mão e me guiou para dentro, entrelaçando os dedos aos meus como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.

O silêncio entre nós não era desconfortável. Pelo contrário. Havia uma expectativa crescendo a cada segundo, uma conversa inteira acontecendo sem que nenhuma palavra fosse dita.

Pouco tempo depois, ele abriu a porta do quarto 321.

A primeira coisa que notei foi a vista. Mesmo com a noite cobrindo parte da paisagem, era possível enxergar o contorno das montanhas ao longe. Elas pareciam enormes, imponentes, como se guardassem segredos antigos.

Entrei devagar, deixando meu olhar percorrer o ambiente.

— Quer alguma coisa para beber? — Sebastian perguntou, caminhando até perto da cama. — Um vinho, talvez.

Tirei meu casaco e coloquei sobre a cadeira próxima, observando-o.

Havia algo diferente nele naquela noite. Talvez fosse o lugar. Talvez fosse a forma como ele me olhava. Como se, pela primeira vez, não estivesse tentando esconder o que sentia.

Aproximei-me com calma.

— Talvez depois.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Depois?

Um sorriso provocador apareceu em meu rosto.

— Depois que eu terminar com você.

A surpresa em sua expressão durou apenas um instante antes de ele rir baixo.

— É mesmo?

Não respondi. Apenas me aproximei mais, deixando que a distância entre nós desaparecesse.

O beijo começou devagar, quase como uma pergunta. Um convite silencioso para descobrir até onde aquela noite poderia nos levar.

As mãos dele encontraram minha cintura, segurando-me com firmeza, enquanto eu passava os braços ao redor de seu pescoço. Havia uma familiaridade estranha naquele momento, como se todas as conversas, provocações e olhares trocados até ali tivessem nos conduzido exatamente para aquele ponto.

Por alguns minutos, o mundo pareceu diminuir.

Não existiam preocupações, passado ou futuro. Apenas nós dois naquele quarto, cercados pela noite de Juneau e pela sensação de que algo importante estava acontecendo.

Quando nos afastamos, Sebastian manteve a testa encostada na minha.

— Você tem ideia do efeito que causa? — perguntou em voz baixa.

Sorri.

— Talvez eu tenha uma ideia.

Ele balançou a cabeça, divertido.

— Convencida.

— Apenas observadora.

Ele riu, e aquele som me fez perceber uma coisa que eu não esperava: Sebastian era muito mais do que a imagem controlada e confiante que mostrava para o mundo.

Havia vulnerabilidade escondida nos pequenos gestos. No jeito como me olhava quando achava que eu não estava percebendo. Na maneira como parecia querer se aproximar e, ao mesmo tempo, manter alguma distância.

A noite avançou entre conversas, risadas baixas e momentos em que o silêncio dizia mais do que qualquer frase.

Falamos sobre coisas que normalmente evitávamos. Sobre escolhas, medos, lembranças. Sobre as partes de nós mesmos que raramente deixávamos alguém conhecer.

E, pouco a pouco, percebi que aquela viagem não era apenas sobre fugir da rotina.

Era sobre descobrir quem Sebastian realmente era quando não precisava interpretar nenhum papel.

Mais tarde, deitada ao lado dele, observei o teto enquanto tentava organizar meus próprios pensamentos.

Ele percebeu meu silêncio.

— O que foi? — perguntou, virando-se para mim.

Olhei para seu rosto, para a tranquilidade que ele raramente demonstrava.

Havia algo pendente entre nós. Algo que eu precisava dizer.

Sentei-me devagar, fazendo com que ele acompanhasse cada movimento meu com o olhar.

— Ainda não acabou.

A expressão dele mudou imediatamente. A brincadeira desapareceu, dando lugar à atenção.

— O que quer dizer?

Respirei fundo.

Porque, naquele momento, eu sabia que aquela noite tinha aberto uma porta.

E algumas portas, depois de abertas, nunca mais podiam ser fechadas da mesma maneira.

Sebastian permaneceu em silêncio por alguns segundos, apenas me observando.

Havia uma diferença nele naquele instante. O homem que sempre parecia ter uma resposta pronta, uma provocação na ponta da língua ou um sorriso arrogante escondendo seus pensamentos, agora parecia esperar.

Como se soubesse que o que eu tinha para dizer importava.

— Eu não trouxe você até aqui apenas por causa de uma noite — falei finalmente.

Ele franziu levemente a testa.

— Eu sei.

A resposta rápida me surpreendeu.

— Sabe?

Sebastian se apoiou na cabeceira da cama, mantendo os olhos nos meus.

— Sei que você não é o tipo de pessoa que faz algo sem pensar nas consequências.

Soltei uma pequena risada sem humor.

— Engraçado você dizer isso.

— Por quê?

Desviei o olhar por um instante, encarando a janela onde as luzes distantes da cidade se misturavam ao reflexo do quarto.

— Porque às vezes parece que você acha que sabe tudo sobre mim.

Ele ficou quieto.

E aquele silêncio me deu coragem para continuar.

— Você sempre aparece quando eu menos espero. Sempre sabe o que dizer. Sempre parece estar no controle de tudo.

Voltei a olhar para ele.

— Mas eu não sei quase nada sobre você.

Sebastian respirou fundo, passando uma mão pelo rosto.

Era raro vê-lo sem aquela segurança habitual.

— Talvez porque eu não esteja acostumado a deixar as pessoas chegarem tão perto.

A sinceridade na voz dele me pegou desprevenida.

— Por quê?

Ele demorou a responder.

— Porque quando alguém conhece suas partes mais difíceis, também conhece suas fraquezas.

Aquela frase ficou entre nós.

Pela primeira vez, eu não enxerguei apenas o homem confiante que todos pareciam admirar. Vi alguém que carregava coisas que preferia esconder.

— Você acha que mostrar suas fraquezas faz alguém perder o respeito por você? — perguntei.

Ele deu um sorriso pequeno, mas triste.

— Algumas pessoas usam exatamente aquilo que você entrega contra você.

A resposta parecia vir de uma experiência antiga.

Aproximei-me um pouco mais.

— Eu não sou algumas pessoas.

Sebastian me encarou.

Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.

Lá fora, Juneau continuava silenciosa. As montanhas permaneciam no mesmo lugar, indiferentes aos nossos conflitos, aos nossos medos e às escolhas que estávamos prestes a fazer.

— Você sempre foi assim? — perguntei.

— Assim como?

— Difícil de conhecer.

Ele soltou uma risada baixa.

— Talvez.

— Talvez?

— Eu aprendi cedo que era mais fácil ser alguém que todos esperavam do que mostrar quem eu realmente era.

Aquilo me fez pensar em quantas vezes eu também tinha feito o mesmo.

Vestido uma versão de mim mesma para enfrentar o mundo.

— E quem é você realmente, Sebastian?

Ele me olhou como se aquela fosse a pergunta mais difícil que alguém já tinha feito.

Depois de alguns segundos, respondeu:

— Ainda estou tentando descobrir.

A honestidade daquela resposta me atingiu de uma forma inesperada.

Porque eu esperava uma frase bonita, uma resposta misteriosa ou até uma provocação.

Não esperava verdade.

Sorri de leve.

— Isso foi surpreendentemente sincero.

— Não se acostume.

Revirei os olhos, e ele riu.

A tensão no quarto diminuiu.

Era estranho como, depois de tantas provocações, era justamente aquele momento de vulnerabilidade que parecia nos aproximar mais.

Sebastian estendeu a mão para mim.

Eu hesitei por apenas um segundo antes de segurá-la.

— Eu não quero que isso seja apenas uma lembrança de uma viagem — ele disse.

Meu coração acelerou discretamente.

— Então o que você quer?

Ele olhou para nossas mãos unidas.

— Quero descobrir o que acontece quando a gente para de fugir.

Aquelas palavras ficaram comigo.

Porque, no fundo, talvez fosse exatamente isso que nós dois estávamos fazendo há muito tempo.

Fugindo.

De sentimentos que pareciam grandes demais. De decisões que poderiam mudar nossas vidas. Do medo de admitir que alguém tinha conseguido atravessar barreiras que construímos durante anos.

Encostei minha cabeça em seu ombro.

E, pela primeira vez naquela noite, não senti necessidade de provocar, desafiar ou esconder nada.

Apenas fiquei ali.

Com Sebastian.

Sem saber o que viria depois.

Mas sabendo que alguma coisa entre nós tinha mudado.

A manhã chegou silenciosa em Juneau.

Por alguns segundos, fiquei apenas observando a claridade que atravessava as cortinas do quarto, desenhando sombras suaves pelo chão. A paisagem do lado de fora parecia ainda mais bonita durante o dia. As montanhas, que na noite anterior eram apenas contornos escuros, agora revelavam toda a sua grandiosidade.

Era estranho pensar que, algumas horas antes, eu estava entrando naquele quarto sem saber exatamente o que esperar.

Agora, acordava com a sensação de que alguma coisa tinha mudado.

Não era apenas sobre Sebastian.

Era sobre mim também.

Virei o rosto devagar e encontrei ele ainda dormindo ao meu lado.

Havia algo diferente em vê-lo assim.

Sem o olhar confiante, sem o sorriso provocador, sem aquela postura de homem que parecia sempre saber exatamente o que fazer.

Dormindo, Sebastian parecia mais jovem. Mais humano.

Sorri sem perceber.

Talvez fosse justamente essa versão dele que poucas pessoas conheciam.

Com cuidado, tentei me levantar sem fazer barulho, mas não consegui dar mais do que alguns passos antes de ouvir sua voz.

— Vai fugir?

Parei.

Olhei por cima do ombro e encontrei seus olhos abertos.

— Você sempre acorda assim? Assustando as pessoas?

Ele sorriu.

— Apenas quando acho que estão tentando escapar.

Cruzei os braços.

— E quem disse que eu estava escapando?

Sebastian se sentou na cama, apoiando os braços nos joelhos.

— Seu histórico.

Revirei os olhos.

— Você nem me conhece há tanto tempo.

— Conheço o suficiente.

A resposta me fez ficar em silêncio.

Porque, de alguma forma, ele tinha razão.

Sebastian tinha percebido coisas sobre mim que muitas pessoas próximas nunca notaram.

Ele sabia quando eu estava desconfortável. Quando eu estava fingindo estar bem. Quando eu usava ironia para esconder alguma insegurança.

— Vamos tomar café? — ele perguntou.

A mudança repentina de assunto me arrancou um sorriso.

— Essa é sua forma de fugir de uma conversa?

— Minha forma de ganhar tempo.

— Pelo menos você admite.

Ele levantou, pegando uma camisa enquanto eu observava a vista pela janela.

— Você já esteve em Juneau antes? — perguntei.

— Algumas vezes.

— Sozinho?

Ele demorou um pouco para responder.

— Na maioria delas.

A resposta carregava algo que não foi dito.

Virei-me para ele.

— Por que tenho a impressão de que esse lugar significa alguma coisa para você?

Sebastian ficou parado por um instante.

Depois colocou a camisa e caminhou até a janela ao meu lado.

— Porque significa.

Esperei que continuasse.

Ele observou as montanhas em silêncio.

— Eu vim para cá em uma época em que precisava desaparecer.

A frase despertou minha curiosidade.

— Desaparecer?

— Às vezes, quando tudo ao seu redor parece desmoronar, você sente vontade de ir para algum lugar onde ninguém saiba seu nome.

Aquela resposta parecia carregar uma história inteira.

— E você conseguiu?

Ele sorriu sem alegria.

— Por um tempo.

Fiquei olhando para ele.

Pela primeira vez, Sebastian não parecia o homem que todos admiravam.

Parecia alguém que tinha passado por algo que ainda carregava.

— O que aconteceu?

Ele desviou o olhar.

— Uma parte da minha vida acabou.

Não era uma resposta completa.

Mas era o bastante para eu entender que havia uma ferida ali.

E que ele não estava pronto para tocar nela.

Não insisti.

Algumas histórias precisavam ser entregues no próprio tempo.

Depois de alguns minutos, descemos para tomar café.

O restaurante do hotel estava movimentado, mas havia uma tranquilidade naquele momento. Pessoas conversavam, funcionários organizavam mesas, o cheiro de café fresco preenchia o ambiente.

Sentamos próximos à janela.

Sebastian colocou uma xícara diante de mim antes mesmo que eu pedisse.

Olhei para ele surpresa.

— Como sabia?

— Você pediu ontem.

— Você lembra?

Ele pareceu confuso com a pergunta.

— Claro que lembro.

Era uma coisa pequena.

Mas talvez fossem as pequenas coisas que mais revelavam alguém.

Durante o café, conversamos sobre assuntos simples. Viagens que queríamos fazer, lugares que ainda não conhecíamos, coisas que nos faziam rir.

E percebi que Sebastian era muito mais divertido quando não tentava parecer intocável.

Quando voltamos ao quarto, eu sabia que aquela viagem tinha chegado a um ponto em que não dava mais para fingir que era apenas uma aventura.

Havia algo entre nós.

Algo que assustava justamente porque parecia verdadeiro.

Sebastian pegou minha mão antes que eu entrasse.

— Quero te perguntar uma coisa.

Olhei para ele.

— O quê?

Ele hesitou.

Um segundo.

Dois.

Como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.

— Quando essa viagem acabar... você ainda vai querer me conhecer?

Meu coração apertou.

Porque aquela pergunta dizia muito mais sobre ele do que qualquer declaração.

Sebastian não estava perguntando se eu queria continuar ao lado dele.

Ele estava perguntando se eu queria conhecer todas as partes dele.

Até aquelas que ele escondia.

Apertei sua mão.

— Eu já comecei.

E, pela primeira vez, vi Sebastian perder completamente a capacidade de responder.

Apenas sorriu.

Um sorriso verdadeiro.

E naquele instante eu soube que Juneau não seria apenas uma lembrança bonita.

Seria o lugar onde tudo começou.

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