Capítulo 7 Capítulo 7
O comprimido desce pela minha garganta antes que eu consiga pensar melhor sobre o que estou fazendo.
Não era a primeira vez que eu precisava controlar a ansiedade.
Desde pequena, aprendi que demonstrar medo significava dar espaço para que alguém duvidasse de mim. Minha mãe sempre dizia que médicos precisavam ser fortes, que pacientes não podiam enxergar insegurança nos olhos de quem cuidava deles.
Mas ninguém dizia o quanto era difícil parecer forte quando, por dentro, tudo parecia desmoronar.
Guardo o frasco novamente no bolso do jaleco e respiro fundo.
Uma cirurgia.
Minha primeira cirurgia.
E, de todas as pessoas naquele hospital, a responsável por escolher quem teria essa oportunidade decidiu que seria eu.
Parte de mim queria sentir orgulho.
Outra parte queria correr para o estacionamento e fingir que aquele dia nunca aconteceu.
— Você parece que viu um fantasma.
A voz de April me faz olhar para o lado.
Ela está me observando com uma expressão curiosa.
— Estou apenas pensando.
— Pensando ou entrando em pânico?
Solto uma pequena risada.
— Talvez os dois.
Ela sorri.
— Pelo menos você admite.
Antes que eu consiga responder, meu bip toca.
Meu coração acelera imediatamente.
Ainda não consigo me acostumar com aquele som.
Um simples aviso e, de repente, tudo muda.
Todos os internos parecem ter aprendido a ignorar o nervosismo. Eu ainda estava tentando descobrir como fazer isso.
Olho para a tela.
Não era uma emergência.
Era a preparação para a cirurgia.
Levanto-me.
— Boa sorte — April diz.
Jacob finalmente tira os olhos do livro.
— Não morra.
Olho para ele, incrédula.
— Esse é seu jeito de desejar boa sorte?
Ele dá de ombros.
— É o jeito mais realista.
— Você é sempre assim?
— Geralmente.
Reviro os olhos e saio antes que consiga responder.
No corredor, caminho em direção ao centro cirúrgico tentando lembrar cada passo que aprendi durante anos.
Lavagem das mãos.
Preparação dos instrumentos.
Conferência dos exames.
Tudo parecia simples nos livros.
Mas nada preparava alguém para estar ali.
Para saber que, do outro lado daquela porta, existia uma pessoa confiando que você faria o melhor possível.
Entro no vestiário cirúrgico e troco meu uniforme.
Quando saio, vejo Sebastian.
Novamente.
Dessa vez, não existe surpresa.
Apenas aquela sensação incômoda de que meu corpo reconhece a presença dele antes mesmo que minha mente consiga acompanhar.
Ele está conversando com outro médico, segurando uma prancheta.
Diferente do homem que conheci em Juneau, ali ele parece completamente no controle.
Não existe o sorriso provocador.
Não existe a leveza.
Existe apenas o médico.
O cirurgião.
O herdeiro de um nome que carregava peso.
Como se sentisse meu olhar, ele vira o rosto.
Nossos olhos se encontram.
Por alguns segundos, nenhum dos dois fala.
Era estranho.
Porque eu conhecia Sebastian de uma maneira que ninguém ali conhecia.
Eu sabia como ele ria.
Como ele ficava quando baixava a guarda.
Sabia que por trás daquele homem sério existia alguém muito diferente.
Mas, naquele momento, ele parecia um desconhecido.
— Grace.
Minha atenção volta para a voz da Dra. Sanders.
— Sim?
Ela me entrega alguns documentos.
— Quero que revise novamente os exames da paciente antes de entrar.
Assinto rapidamente.
— Sim, doutora.
Sebastian continua me observando por alguns segundos antes de voltar para o que estava fazendo.
E eu odeio admitir, mas aquele pequeno gesto foi suficiente para bagunçar minha concentração.
Porque agora eu precisava lidar com duas coisas.
Minha primeira cirurgia.
E o homem que eu não deveria estar pensando.
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O centro cirúrgico tinha um silêncio diferente.
Não era ausência de som.
Era concentração.
Cada pessoa ali sabia exatamente o que precisava fazer.
Coloco a máscara e me posiciono.
A paciente estava sedada.
O monitor cardíaco marcava um ritmo constante.
Mesmo assim, minhas mãos pareciam mais pesadas do que deveriam.
— Primeira cirurgia? — pergunta um dos médicos.
Assinto.
— Dá para perceber?
Fico sem graça.
Ele sorri por trás da máscara.
— Não.
Aquilo me tranquiliza mais do que deveria.
A Dra. Sanders assume a liderança.
— Vamos começar.
Durante os primeiros minutos, tudo parece acontecer rápido demais.
Mas, aos poucos, meu treinamento assume o controle.
Eu não era mais a garota insegura que entrou naquele hospital pela manhã.
Eu era uma interna.
Uma futura cirurgiã.
Alguém que passou anos estudando para aquele momento.
Cada orientação da Dra. Sanders era seguida.
Cada movimento precisava ser preciso.
Não havia espaço para distração.
Não havia espaço para medo.
E então percebo.
Eu conseguia.
Eu realmente conseguia.
Quando a cirurgia termina, sinto uma mistura de alívio e orgulho.
Não era perfeito.
Eu ainda tinha muito para aprender.
Mas eu tinha dado o primeiro passo.
Ao sair da sala, retiro a máscara e respiro profundamente.
— Parabéns.
A voz atrás de mim faz meu corpo inteiro ficar alerta.
Sebastian.
Viro lentamente.
— Você estava lá?
— Eu estava acompanhando.
Cruzo os braços.
— Como médico ou como chefe?
Ele entende a pergunta escondida.
— Como os dois.
Fico em silêncio.
Sebastian se aproxima um pouco.
— Você foi bem.
Aquilo deveria ser apenas um elogio profissional.
Mas vindo dele parecia diferente.
— Obrigada.
Ele observa meu rosto por alguns segundos.
— Você está nervosa desde que chegou.
Desvio o olhar.
— Não sei do que está falando.
Ele sorri de leve.
— Continua péssima mentindo.
Reviro os olhos.
— Você gosta muito de repetir isso.
— Porque continua sendo verdade.
Por alguns segundos, esquecemos onde estamos.
Esquecemos os corredores.
O hospital.
As pessoas passando ao nosso redor.
Só existia aquele olhar conhecido.
Aquele que me lembrava de uma noite distante no Alasca.
Mas então um médico passa por nós, chamando Sebastian.
O momento desaparece.
Ele volta a ser o Dr. Reed.
E eu volto a ser apenas uma interna.
— Preciso ir.
Assinto.
— Eu também.
Ele dá alguns passos, mas para.
— Grace.
Olho para ele.
— O quê?
Sebastian hesita.
Uma coisa rara.
— Bem-vinda ao Alasca Reed.
E então ele vai embora.
Fico parada por alguns segundos.
Porque aquela frase parecia simples.
Mas eu sabia que não era.
Ele não estava falando apenas sobre o hospital.
Era como se estivesse dizendo que uma nova fase da minha vida tinha começado.
E talvez tivesse.
Porque naquele dia eu descobri duas coisas.
Eu era capaz de enfrentar meus maiores medos.
E Sebastian Reed seria o maior deles.
