Capítulo 1 -
— Ele vai morrer quando vir você — provocou a cabeleireira atrás dela, enquanto Nia encarava, pelo espelho, a mulher um pouco mais velha. Ela realmente esperava que Alex morresse — bem, figurativamente — quando a visse naquela noite com os cachos novos no cabelo castanho. Eles iam celebrar um marco especial no relacionamento deles hoje. Em vez de irem, como vinham fazendo nos últimos meses, ao restaurante de sempre nessa data, ela tinha decidido cozinhar o prato favorito dele, do cardápio deles. Nia tinha assumido para si mesma a tarefa de aprender a preparar aquela comida. Colocando todo o seu ser no processo, de corpo e alma.
Ela amava Alex, até onde a palavra amor conseguia se esticar para descrever o que ele a fazia sentir. E só queria que ele sentisse o quanto o amor dela era profundo.
— Você acha que esse penteado combina comigo? — perguntou de repente, com uma ponta de dúvida na voz, enquanto examinava o reflexo.
A mão da cabeleireira, que segurava o babyliss, parou no ar. Pelo espelho, os olhos dela se fixaram nos olhos cor de avelã de Nia enquanto avaliava a pergunta.
— Minha querida — disse por fim, com uma voz macia, como se falasse com uma filha. — Você é linda… com ou sem cachos e camadas a mais no cabelo. E se aquele homem não consegue ver isso… — Ela hesitou por um instante antes de continuar. — Então acho que ele não é o homem certo para você.
Nia piscou duas vezes, atônita com as palavras da mulher. Olhou para o próprio reflexo no espelho e então ergueu os olhos até a cabeleireira, sem saber o que pensar daquela última parte — sobre Alex talvez não ser o homem certo. Na verdade, ela tinha certeza de que ele era. A ponto de acreditar firmemente que, na noite do aniversário de um ano deles, ele finalmente faria o pedido. E ela diria sim sem pensar duas vezes.
Mas agora que a mulher tinha sugerido aquilo, especialmente em voz alta, Nia não conseguiu evitar o pequeno lampejo de inquietação que criou raízes no seu peito. Então apenas assentiu de leve, colando um sorriso falso no rosto, antes que a mulher voltasse a mexer no seu cabelo.
Quando marcou aquela sessão, Nia tinha dito que elas trabalhariam dentro de um tempo estipulado. Porque ainda havia muita coisa para fazer em casa com os preparativos — arrumar as mesas, decorar. Tudo isso precisava estar pronto antes de Alex voltar. Felizmente, eram profissionais que seguiam o cronograma e, antes que Nia percebesse, a cabeleireira enrolou a última mecha.
— Pronto — disse a mulher, ajeitando as camadas e dando os retoques finais com spray e outros produtos. Quando terminou, deu um passo para trás, com um sorriso satisfeito, admirando o próprio trabalho. Nia se encarou no espelho, passando os dedos de leve pelos cachos do cabelo castanho que desciam pelas suas costas.
Ela sabia que a mulher tinha feito um trabalho incrível, pelo jeito confiante e impecável que ela parecia no espelho. Tudo o que ela realmente esperava era que Alex gostasse daquela transformação.
Ela voltou feliz para o apartamento que dividiam — mais correu do que caminhou o trajeto todo — com duas sacolas cheias de coisas que tinha comprado nas mãos, e a bolsa bem presa sob a axila. O tempo não estava a favor dela; o sol logo se poria, e Alex também chegaria. O principal ponto de referência antes do prédio deles era um parque deserto, e só quando chegou ali ela diminuiu o ritmo, seguindo com passos tranquilos até alcançar o edifício.
Nia subiu as escadas até o andar do apartamento, procurando as chaves na bolsa enquanto subia dois degraus de cada vez. Estava com dificuldade para equilibrar tudo, mas, de algum jeito, chegou inteira até a porta. Ainda procurando a maldita chave, ela teria continuado revirando a bolsa se um som baixo vindo de dentro não a tivesse feito parar. A primeira coisa que lhe ocorreu foi que talvez fosse a vizinha deles que tivesse entrado para pegar ou emprestar alguma coisa. Mas parecia improvável, porque Isa teria ligado ou mandado mensagem antes de pôr os pés ali.
Então, com o coração tomado pelo medo, ela abriu a porta que deveria estar trancada. E entrou, deixando o objeto de madeira atrás de si aberto caso precisasse sair correndo dali se fosse um ladrão, ou coisa pior. Do outro lado da porta, Nia viu o sapato de Alex e outro desconhecido, e os dois imediatamente fizeram seu coração afundar. Seu namorado tinha voltado para casa, e com um estranho, nada menos. Isso significava duas coisas: sua surpresa de jantar estava arruinada e, mais importante, ele tinha levado alguém para casa. “Alex?”, ela chamou, esperando uma explicação, mas sua voz bateu na parede e voltou sem resposta.
Ela se afastou do espaço estreito da entrada e avançou mais pelo apartamento, os olhos correndo por cada canto, procurando por ele. Na sala de estar, não havia sinal de Alex nem de seu visitante, e então ela sentiu o pulso acelerar com a percepção do que aquilo podia significar. Eles não estavam em lugar nenhum na sala; será que—seus pensamentos foram interrompidos por outro som vindo de mais para dentro do apartamento, especificamente de onde ficavam os quartos.
Nia não queria alimentar esse tipo de pensamento, mas a realidade de tudo estava clara como o dia. Ela balançou a cabeça em descrença; não havia como Alex fazer uma coisa daquelas, ela só precisava vê-lo e tirar aquela ideia da cabeça. Então seguiu para o corredor com três portas e dobrou a esquina. Uma luz forte, vinda do quarto principal onde ela e Alex dormiam dia e noite, preenchia o espaço. Se antes ela tinha tentado se manter sob controle, já não conseguia mais. Seu corpo tremia, sua mente disparava com pensamentos inomináveis, e cada passo que dava parecia mais pesado do que o anterior.
Era a noite do aniversário de um ano deles, porra, ela não merecia passar por aquilo.
Ao chegar à soleira da porta do quarto iluminado, Nia torceu para que não fosse o que estava pensando, mesmo que isso desafiasse toda a lógica. E, quando espiou para dentro do cômodo, encontrou Alex sentado na cama dos dois, parado na beirada com alguém — um homem que ela não reconhecia — ao lado dele. Ela quis soltar um suspiro de alívio, mas as mãos dos dois, unidas de um jeito quase afetuoso, a impediram. Aquele pequeno gesto fez algo se revirar dentro dela, como se tivesse invadido um momento particular, e ela não fosse a pessoa a quem ele era destinado.
“O que está acontecendo aqui?”, ela perguntou, confusa e furiosa ao mesmo tempo. O som da sua voz fez os dois se sobressaltarem, e ambos viraram o rosto para encará-la — a imagem perfeita da culpa, intensificando a sensação de desgraça iminente que ela sentia.
“Precisamos conversar”, Alex disse, com um tom incomumente sombrio. Ele se levantou da cama, dando passos cautelosos em direção a ela, como se Nia fosse um animal selvagem capaz de atacá-lo a qualquer segundo.
“Este é Jordan”, ele disse, como se isso servisse para explicar o elefante na sala, que, naquele contexto, era o homem ainda sentado na cama deles.
“Jordan”, ela repetiu, e o gosto daquele nome deixou algo amargo em sua boca. Nia viu Alex lançar um sorriso suave ao estranho antes de voltar-se para ela com o rosto sério. Ela reconhecia aquele sorriso, o mesmo que ele dava a ela no começo do relacionamento. E agora ele estava repetindo o gesto, o gesto dela, para outra pessoa.
“O que realmente está acontecendo aqui?”, ela perguntou pela segunda vez, a voz já sem raiva, tomada apenas pela confusão.
Alex a encarou por um longo momento, provavelmente pensando no que dizer, e, quando ela achou que não conseguiria nada deles, ele respondeu. “Eu não sabia como te contar”, começou, limpando a garganta rouca. “Eu não sabia como te dizer isso. Mas eu sabia que, quanto mais tempo escondesse, mais estava machucando Jordan, a mim mesmo e você.” O jeito como ele falava fazia Jordan soar como alguém importante na vida dele, e isso só a apavorou ainda mais.
“Estou te deixando pelo Jordan”, seu namorado declarou, sem rodeios.
Ao ouvir aquelas palavras, pareceu que o mundo tinha parado, e Nia estava flutuando — não, não flutuando, caindo. Parecia que ela caía sem nenhuma rede embaixo para impedir o impacto contra a superfície dura. As palavras que saíram dos lábios de Alex remoinhavam em sua mente, fazendo seu coração afundar ainda mais, seu corpo ficar mole e seus pensamentos se tornarem incoerentes. Por mais que tentasse compreender aquelas palavras específicas, ela simplesmente não conseguia. E, quando falou, com a voz saindo pouco mais que um sussurro, torceu para que aquilo fosse uma brincadeira, ou talvez que estivesse sonhando.
