Capítulo 2 O RETORNO
Cidade de Solidão, Noriah Sul, 2023.
POV TAYLA
Eu não vivia no País das Maravilhas, mas assim como Alice, todos os dias de manhã eu sempre pensava em seis coisas impossíveis:
- Voltar para Solidão
- Não ser filha da minha mãe
- Meu gato ter vidas infinitas
- Meu marido ter um pau enorme
- Meu filho só ter o meu DNA
- Deixar de odiar Ryan Palmer
Naquele dia, o universo conspirava contra mim e me trazia de volta ao lugar onde jurei nunca mais pôr os meus pés.
Quando parei meu carro diante do portão enferrujado do Rancho Palmer, olhei pelo retrovisor e vi Lewis dormindo no banco de trás, seus cílios longos projetando sombras sobre as maçãs do rosto cheia de sardas, herdadas de mim. Apertei o pequeno trevo que adornava minha gargantilha, como se fosse um pingente que pudesse me proteger do passado.
Olhei para Cheshire deitado preguiçosamente no banco da frente e perguntei:
- “Para onde devo ir”?
Cheshire levantou levemente a cabeça e me encarou, enquanto se espreguiçava sem pressa.
- “Depende de onde você quer chegar”. É esta a parte que você fala, gato.
Cheshire me ignorou por completo e voltou a dormir.
- “Não me importa muito onde”, digo eu... Então o gato responde: “Então não importa o caminho que você tome.”
Suspirei e olhei para o letreiro debotado que dizia “Rancho Palmer” e meu coração doeu de uma forma que jamais imaginei que doeria novamente. Lembrava exatamente que quando parti, jurei nunca mais voltar. Mas a vida tinha um senso de humor perverso, assim como o Gato de Cheshire: "Quanto mais você corre do passado, mais ele te encontra de boca aberta, pronto para te devorar."
- Bem-vinda ao País das Mentiras, Taylice. – Falei para mim mesma.
Fiquei ali parada, dentro do carro, tentando encontrar coragem para abrir o portão.
Fechei os olhos e respirei fundo. Cada vez que eu fazia aquilo conseguia sentir o cheiro do ar puro do Rancho Palmer, mesmo quando eu estava bem distante dali. Eu amava a minha vida e sabia que qualquer coisa que mudasse no passado teria feito com que meu momento atual, que era maravilhoso, não existisse. Ainda assim aquele era o lugar que eu escolheria sempre como preferido no mundo, embora tenha sido onde meu coração foi partido em mil pedaços.
Toquei minha região pubiana e sorri. Eu ainda tinha a marca registrada que era o “nosso segredo”, o momento mais louco e insano de nossas vidas. E se mil vezes pudesse voltar e nascer de novo, desejaria crescer ao lado dele, por mais dor que eu soubesse que me traria no futuro. Ryan me ensinou tudo que eu sabia. E graças a ele eu sofri de uma maneira inimaginável. Mas também tive forças para superar.
Eu não falava mais com Ryan, mas o via sempre na mídia, fosse em comerciais, programas de televisão e até como figurante em filmes. E se não bastasse vez ou outra em outdoors assim como estampado na lataria dos ônibus. A vida dele estava sempre em evidência e muitas vezes era eu a responsável por aquilo, quando o atacava através do meu podcast: “Alice no país dos prazeres”.
Sim, o podcast mais assistido tinha como host a jovem caipira que saiu do interior depois de ter sido humilhada publicamente da pior maneira possível. E agora eu era uma mulher famosa, embora ninguém ali soubesse quem estava por trás da voz mais ouvida no país.
Ri ao lembrar do episódio daquela manhã, que era sobre o sonho de todo pau:
1. Conquistar o cool
2. Acordar com um belo chups de manhã cedo
3. Estar eternamente dentro da boceta e
4. Jorrar em seios grandes.
Aprendi aquilo tudo com ele e hoje ajudava milhões de mulheres a entenderem sobre sexo, dando as dicas práticas e interessantes.
Ironicamente eu falava o tempo todo em peitões, sendo que não os tinha. E sobre sexo, que eu não praticava, mesmo sendo casada e dormindo com meu marido todas as noites.
Meu sonho sempre foi ter peitos. Quando eu era adolescente não tinha dinheiro para botar. E agora que era adulta e tinha dinheiro faltava coragem, porque eu não lidava muito bem com a dor. Ah, a mulher que não lida muito bem com a dor tem uma tatuagem na região íntima, mais precisamente na parte do “capô” da vagina. E eu nunca saberia se doeu ou não. E tinha um filho, que nasceu de parto normal.
Ri lembrando daquela noite que fizemos a tatuagem... E das outras tantas histórias que eu tinha ao lado de Ryan. Era uma vida juntos, que eu levaria para sempre nos pensamentos.
Ryan era a pessoa que eu mais odiava no mundo. E também a que mais amei até conhecer Lewis, meu filho.
Nossa história começou quando nascemos, no mesmo mês, mais precisamente um setembro. Ele nasceu num dia de sol. Eu num dia de chuva, mas ambos na mesma semana. Nona dizia que nossos destinos estavam entrelaçados desde a barriga. E eu achava aquilo lindo e romântico. Até o dia que desejei nunca o ter conhecido.
O certo é que cada vez que eu fechava os olhos, a imagem dele vinha na minha mente. E não era do famoso Ryan Palmer, o modelo que as adolescentes e mulheres de todas as idades eram fãs. Eu lembrava do meu Ryan, aquele que me mostrou o mundo e me fez conhecer o amor... E depois a pior das dores.
Senti um frio percorrer minha espinha quando lembrei da ligação que recebi de Nona dias atrás.
- Como vai, minha menina?
- Bem, Nona! E feliz com a sua ligação. Está com as malas prontas? Lewis já está perguntando quando você virá.
- Eis o motivo da minha ligação, Tayla: eu não irei.
- Como assim não virá? – Fiquei surpresa com a revelação, já que Nona todos os verões vinha passar alguns dias na minha casa, alternando outros ao lado do neto, Ryan, que não tinha moradia fixa, pois passava a maior parte do tempo viajando a trabalho, já que atualmente era um dos modelos mais famosos do mundo.
- Neste verão vocês virão. Será incrível!
- Não, Nona! – eu ri – Sabe que isto é impossível.
- Por quê? Só porque prometeu que nunca mais pisaria os pés em Solidão?
- Isto não é suficiente? – Ri novamente, por dentro sentindo o amargor do motivo pelo qual tomei aquela decisão.
- Preciso que venha, Tayla. – Ela falou de forma séria.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sim, aconteceu. Este será o nosso último verão.
Engoli em seco, sentindo como se o ar fosse tirado de mim. Eu tinha Nona Sans Palmer como uma mãe (ou uma avó, tanto faz). Eu gostava dela mais do que da minha própria mãe. A avó de Ryan praticamente me criou.
- Como assim, Nona?
- Eu não estava me sentindo bem nos últimos tempos – ela começou, fazendo com que eu sentisse minha barriga contrair-se com uma sensação horrível – E fiz alguns exames. O resultado saiu há dias atrás. Estou com câncer.
Fiquei muda. Não que eu quisesse, mas a minha voz não saiu. O silêncio se fez presente entre nós, uma em cada canto do país, ligadas através de um aparelho celular.
- Tayla, você ainda está aí?
- Nona, isto não é possível! Você é a pessoa mais forte que eu conheço.
- Querida, estou indo para oito décadas de vida! Acha mesmo que sou forte? Meus ossos doem, minha visão é embaçada, tenho preguiça de levantar cedo, estou dormindo antes das galinhas... Então está mais que na hora de eu voltar para onde vim: “dó pó ao pó”.
- Não... Fale isto... Por favor! – Pedi, num fio de voz.
- Sei da situação entre você e Ryan e do quanto o que peço é difícil para ambos.
- Não deve ser nada difícil para ele. Não esqueça que quem fez tudo errado foi Ryan, Nona.
- Engraçado é que ele diz exatamente o contrário.
- Mas você sabe tudo que houve... Sabe que Ryan não tem razão.
- Amo vocês dois, de maneira igual. E atribuo a culpa a ambos.
- Eu... Acho que não é hora de falarmos sobre isto, Nona. – Eu não queria brigar com ela, principalmente depois de receber aquela notícia que me deixou totalmente aterrorizada.
- Pode vir e não falarmos absolutamente nada sobre isto, meu amor. Pedirei o mesmo a Ryan, caso queira. Eu tenho no máximo seis meses com vocês. E sei o quanto os verões eram especiais no Rancho Palmer quando os tinha aqui comigo. Meu último desejo é que possamos passar o último verão juntos, aqui... Eu, você, Ryan, Lewis...
- E... Aydan?
- Claro, claro! Adoro Aydan e ele sempre será bem-vindo na minha casa. O receberei tão bem quanto ele me recebe aí.
Nona e Aydan se davam muito bem. Aliás, era impossível alguém não adorar Aydan. O mesmo acontecia com Nona. Então era meio óbvio que os dois teriam uma relação de respeito, amizade e carinho.
- Nona, você disse seis meses. Sabe que não aceitarei isto, não é mesmo? Precisamos procurar outros médicos, e tratamentos alternativos...
- Eu já tomei a decisão, Tayla: não farei o uso de radioterapias, quimioterapias ou medicamentos fortes. E ninguém me fará mudar de ideia.
- Nem Lewis? – tentei – Sabe o quanto ele sofrerá se você morrer.
- E eu sei que você não contará a verdade a ele, Tayla. Lewis é tudo para mim... Como se fosse o meu bisneto.
- Mas ele... Não é. E... Você sabe disto, não é mesmo? – minha voz falhou ao final – Eu não quero ser indelicada, mas... Lewis é meu. Só meu!
- Achei que fosse também de Aydan, o pai dele.
- Ah... – senti meu coração acelerar – Óbvio que sim.
- Lewis será o único bisneto que conhecerei, já que a considero minha neta de verdade, Tayla. E sabe que Ryan certamente não terá filhos.
Engoli em seco, sentindo as pernas trêmulas. Talvez Nona tivesse sim um bisneto de verdade, o garotinho ruivo de olhos azuis gelados que ela amava como se fosse sangue do seu sangue. Mas eu tinha jurado para mim mesma que jamais faria o teste para confirmar a paternidade de Lewis. Eu preferia morrer com a dúvida, mesmo que impossível, de que pudesse não ser dele.
- Eu irei para Solidão neste verão, Nona – falei, limpando as lágrimas que desceram mornas pela minha bochecha – Não sei quanto a Ryan, mas passo por cima de qualquer coisa para que tenha os melhores dias da sua vida antes de partir. E se é seu desejo que fiquemos todos juntos no Rancho Palmer, assim será. Sabe o quanto será difícil para mim voltar... Mas a amo muito para não atender um pedido seu. – Fui sincera.
- Ah, querida... – ouvi o suspiro dela do outro lado da linha – Não tem ideia do quanto me deixou feliz com esta decisão. Prepararei um quarto incrível para Lewis.
- Nona, não precisa se incomodar.
- Trará Cheshire?
- Bem... Cheshire é parte da família! – Lembrei, sorrindo.
- Ele também terá o seu cantinho, como sempre. E... A casa da árvore ainda está aqui, do mesmo jeito.
Se eu não estivesse sentada, cairia com aquela revelação. Só de tocar no nome “casa da árvore” foi como se eu tivesse sido atingida por um raio diretamente no coração, um redemoinho de lembranças querendo tomar conta de mim. Apertei o pingente de trevo com tanta força que chegou a doer minha mão.
- Nona, sabe que nada mais será como antes, não é mesmo? E... Nunca perdoarei Ryan pelo que houve. Tudo que estou fazendo, é por você. Ainda assim será bem difícil para mim.
- Só tenho a agradecê-la por aceitar fazer esta velha moribunda feliz no seu último verão.
Respirei fundo, tentando não externalizar o quanto aquilo estava me doendo.
- Sei que poderemos convencê-la a fazer um tratamento adequado.
- Não, não poderão – ela riu – E... Eu já fiz o testamento. E gostaria de compartilhar com vocês a minha decisão.
Novamente um frio percorreu minha espinha. Aquilo estava se tornando real demais. E eu não estava preparada para me despedir de Nona... E do Rancho Palmer, para sempre.
- Eu não tenho direito em nada, Nona.
- Se eu a chamei para o testamento, é porque você tem importância suficiente para isto, Tayla.
- Nona, não... Por favor.
- O Rancho Palmer é muito mais que uma grande extensão de terras, minha querida Taylice – o “Taylice” me fez voltar no tempo, como se estivesse prestes a cair no buraco profundo e sinuoso do coelho branco – No Rancho Palmer, como no País das Maravilhas, quase todo mundo é louco. Mas alguns, merecem um final feliz.
Abri o portão e entrei com o carro. A casa principal surgiu à frente, suas janelas refletindo o pôr do sol como olhos vermelhos. Algo dentro dela sussurrou, igual à Alice diante da porta minúscula: "Você está grande demais para este lugar. Nunca vai caber aqui de novo."
Lewis remexeu-se no banco de trás do carro, durante seu sono, murmurando algo incompreensível.
Engoli em seco quando o carro aproximou-se ainda mais da casa e o reconheci, de costas, recostado na parede da varanda de madeira descascada, a silhueta tão perfeita quanto uma moldura. O mesmo ombro largo que carregara minha mochila na volta da escola, a mesma nuca bronzeada que eu costumava beijar escondida na casa da árvore.
Cinco anos haviam se passado. Meu coração acelerou como se o tempo tivesse dobrado sobre si mesmo. Eu podia jurar que ele ficou mais alto, mais largo, mais... perigoso. As cicatrizes da adolescência ainda estavam lá, invisíveis, mas palpáveis: no jeito que ele inclinava a cabeça, nos dedos que batiam inquietamente no corrimão de madeira.
"Bem-vinda de volta à toca do coelho, Tayla Torres. Desta vez, a queda vai te quebrar."
