Capítulo 3 O ENCONTRO (QUASE) SILENCIOSO
POV RYAN
Assim que abri os vidros do carro, percebi que o cheiro de eucalipto ainda era o mesmo, fazendo-me voltar no tempo. Apertei o volante quando a estrada de terra me levou àquele velho portão enferrujado. Rancho Palmer: as letras desbotadas na madeira balançavam com o vento, como um aviso: você não devia estar aqui.
O celular vibrou no banco traseiro, mas não me importei. Ravena abriu os olhos e preguiçosamente o pegou, me entregando e voltando a dormir.
“Fique o mínimo de tempo possível”, alertou meu empresário através de uma mensagem.
Eu ri, com desdém. Ele falava como se fosse possível ficar o mínimo de tempo possível com a minha vó, a pessoa que eu mais amava na vida, que estava em seus últimos dias.
Me passou pela cabeça uma coisa. E se Nona estivesse mentindo? Se tudo não passasse de uma armadilha para promover um encontro em Tayla e eu?
Não! Aquela senhorinha linda, doce, que fazia as melhores comidas do mundo e me amava sem nenhum tipo de barreira jamais faria algo daquele tipo: unir novamente Tayla e eu num mesmo lugar, sabendo o quanto nos odiávamos.
Lembrei da ligação dela, dias atrás, quando pediu que eu passasse o verão inteiro no Rancho Palmer. Claro que a primeira coisa que eu disse era que não podia.
- Por que não pode? – Perguntou, como se não soubesse.
- Porque preciso trabalhar, vó.
- Então venha, fique o verão todo aqui e eu lhe pago.
- Eu não preciso de dinheiro, vó! – Ri.
- Se não precisa de dinheiro, logo não precisa trabalhar para tê-lo. – Constatou.
Gargalhei:
- Eu quis dizer que não preciso do “seu” dinheiro.
- Hum, sei... Agora se acha um homem rico. – Pareceu chateada.
- Bem, digamos que sim.
- Você não é rico, Ryan.
Sério que ela queria discutir meu patrimônio?
- Vó, eu tenho dinheiro... O suficiente para viver bem e ter e fazer tudo que eu quero.
- Você não pode comprar tudo, Ryan. É pobre de amor... E de sinceridade e verdade. Todos ao seu redor são mentirosos e bajuladores. Só falam o que quer ouvir porque precisam de você.
- Está acabando comigo, vó! – eu ri – Acha realmente que ninguém e sincero comigo? Não posso ter amigos de verdade? E uma namorada que goste de mim?
- Você só teve uma amiga de verdade... E coincidentemente ela foi a única namorada que gostou de você.
Suspirei, sentindo o sangue ferver dentro de mim. E eu sabia que não era só por ela estar defendendo Taylice, mas pelo simples fato de ouvir o nome dela através de alguém que a via, que falava com ela, que sabia como ela estava, onde vivia, o que fazia, se ainda estava casada, como se saía enquanto mãe...
- Eu dispenso o “gostar” de alguém que for igual ao dela.
- Não faça drama, Ryan.
- Drama? Por que sempre a defende?
- Não, eu não a defendo. Para mim vocês dois são culpados, na mesma proporção. A única coisa que quero é que venha passar o verão comigo... Todo ele.
- Vó, é muito tempo!
- Pois saiba que Tayla virá.
Engoli em seco:
- Agora mesmo que eu não vou.
- Não quer saber o que fez com que Tayla aceitasse vir passar o verão no Rancho Palmer mesmo sabendo que provavelmente você também estará presente?
Senti meu coração acelerar. Taylice havia aceitado passar um verão inteiro junto de mim, em Solidão? Ela tinha jurado que jamais voltaria. E teria coragem de olhar para todos, depois de tudo que aconteceu? Ela sabia que Davis, assim como Ísis, ainda moravam em Solidão? E que praticamente ninguém além de nós dois havia ido embora?
O retorno dela implicava ver todos novamente. E voltar ao passado, tendo que enfrentar tudo do que sempre fugiu: a vergonha, a humilhação, a verdade.
- Vó...
- Então vou confirmar aqui na minha agenda que este verão você virá passar no rancho Palmer.
- Vó, você não tem uma agenda – eu ri - Mas por que está pedindo isto? Está se sentindo solitária? Está doente? Quer que eu peça para mamãe ficar aí um tempo?
- Sempre estou sozinha e carente de você e Tayla.
Suspirei:
- Um verão inteiro é muito tempo.
Houve um silêncio demorado do outro lado da linha até que ela dissesse:
- Ryan, eu estou com câncer. Tenho pouco tempo de vida!
Engoli em seco, sentindo um frio percorrer minha espinha. Aquilo só podia ser brincadeira. Ela era Nona Sans Palmer. Ela não podia morrer. Era a dona do Rancho Palmer, a minha vó, a pessoa mais especial do mundo inteiro.
- Não pode ser! – Minha voz mal saiu.
- Sim, pode. Chegou a minha hora. E meu último desejo é você e Tayla aqui comigo.
Não houve nenhum pedido meu que ela atendesse: nem que procurasse outro médico, que fizesse um tratamento, que lutasse por mais tempo conosco.
Nona era o tipo de pessoa que quando tomava uma decisão, nada a fazia mudar de ideia. E parecia que ela já havia decidido: queria que seus últimos dias fossem como no passado, quando Tayla e eu preenchíamos todo o vazio que meu avô e meu pai deixaram nela.
Talvez ela sentia falta do mesmo que eu: a casa cheia de risadas divertidas, do cheiro de doce vindo do fogão à lenha, do som dos animais do lado de fora, do cheiro de terra molhada, das conversas ao pé do ouvido diante da lareira... De vida!
Não precisou muito para vovó me convencer a deixar tudo para ir para Solidão, mesmo sabendo que teria que dividir o espaço com Taylice e sua família de comercial de margarina.
Segurei-me para não chorar só de saber que minha vó não estaria mais no mundo em breve. Foi quando ela me perguntou, ainda na linha:
- Ryan, o seu pinto é torto?
Me engasguei com a própria saliva:
- Vó, isto é uma brincadeira?
- Eu ouvi umas garotas falando no mercado. E aposto que disseram em voz alta para que eu ouvisse. E quer saber? Eu disse para elas que mesmo que você tivesse um pinto torto, elas dariam tudo para vê-lo... E dormir com você! O defendi!
- O meu pau não é torto! – Quase gritei, furioso – Maldita garota do podcast! – Bati na mesa, com força.
- Não fique tão irritado, meu amor! As garotas garantiram que dormiriam com você, mesmo se tivesse um pintinho torto. Uma delas até mostrou-me a foto de um ensaio seu, dando um zoom nos seus “documentos”. Querido, não tem vergonha de mostrar suas partes íntimas o tempo todo, para o mundo?
- Vó, eu não mostro minhas partes íntimas. Uso cuecas, que inclusive pagam o meu salário. Iniciei como modelo de cuecas, lembra?
- Claro que lembro, meu querido.
- E vez ou outra ainda poso para algumas marcas famosas, quando pagam um valor irrecusável ou até mesmo para alguns amigos que são donos das marcas. Quanto à garota do podcast, que fica disseminando coisas contra mim, saiba que já tomei as devidas providências.
- Quais?
- Os dias dela estão contados, vovó. Posso até não descobrir quem é a filha da puta, mas o podcast dela vai sair do ar. Estou movendo um processo contra ela. E apoiado pelo melhor advogado do país.
- O doutor Bonotto?
- Ele mesmo.
- Não acredito que você conseguiu um horário com Marco Bonotto! Está mesmo muito famoso, meu neto! Quanto orgulho de você! Mas pega leve com a garota do podcast! Acho que ela ama você.
- Ama? – eu ri – Ela tem me destruído, literalmente. Zomba de mim em todos os sentidos. Certamente eu fiz algo para ela... Só não sei o quê! Esta desgraçada me odeia. E mente!
Ouvi a risada dela de forma divertida do outro lado da linha, pouco se importando com a minha raiva. Acabei rindo também, lembrando de ela ter se referido ao meu pau como “pinto”. Vovó sempre usou aquele termo e eu achava engraçado.
- Ryan, eu fiz um testamento. E quero deixá-los a par do que tem nele.
- Eu não quero nada, vó.
- Mas você e Tayla são meus únicos netos.
- Vó, Tayla não é sua neta de sangue.
- Mas eu a considero como se fosse.
- Se quiser deixar tudo para ela, eu não me importo.
- Mas você não sabe o que estou deixando, Ryan.
- O Rancho Palmer? – Questionei.
Eu amava o Rancho Palmer, mas não queria ficar com nada que me trouxesse lembranças de Tayla Torres. Por mim ela podia ficar com tudo, vender, alugar ou fazer o que quisesse. Ou não! Lutamos tanto por aquele lugar. Não era justo não ficar com um de nós dois.
- Conversaremos sobre o testamento também. – Deixou claro.
Nada nunca mais foi igual desde que me separei de Tayla e deixei Solidão. Tayla Torres foi a pessoa que mais amei na vida. E também a que mais me fez sofrer. Depois dela eu decidi que nunca me envolveria afetivamente com ninguém na vida. E assim foi.
E por aquele motivo eu estava ali, com Ravena Ceballos, uma das angels da Victoria’s Secret, uma mulher extraordinária, que era boa de cama e também não queria um relacionamento sério. Eu não seria louco de ir para o Rancho Palmer sozinho enquanto assistia de camarote à vidinha feliz de Tayla com seu marido e filho.
Finalmente criei coragem e abri o portão, dirigindo em direção à casa grande. O carro parou diante dela. A varanda, onde eu e Tayla costumávamos sentar para conversar ou mesmo trocar beijos escondidos agora estava coberta de trepadeiras secas. E ali, entre as folhas mortas, havia uma figura que fez meu estômago embrulhar.
Desci do carro, procurando não bater a porta para que Ravena não acordasse. Ela não precisava ouvir aquela parte.
- Mãe?
Ela encostou-se na coluna, os dedos finos se enroscando uns nos outros, nervosamente.
- Chegou cedo – observou, num sorriso envergonhado – Tayla ainda não chegou. Mas a vi na cidade. Ela parou para pegar uma água para o garoto.
O nome caiu como uma faca no meu coração.
- O que você faz aqui? – Perguntei, ignorando sua fala sobre Tayla.
- A mesma razão que você: Nona convenceu todo mundo de que vai bater as botas em seis meses - riu, amarga. - A velha sempre foi boa em manipular você e Tayla.
Ignorei o comentário. Tinha perguntas mais urgentes:
- Quando você chegou?
- Ontem.
- E... A criança? Como é?
- Um menino ruivo. Relaxe, não é seu! O garoto tem o que... Quatro anos? Você não vê Tayla há seis.
Engoli em seco. Cinco anos, dez meses e catorze dias. Mas quem estava contando?
- E o marido dela?
- Ah, o milionário? - fez uma careta. – Não o vi no carro. Mas certamente virá. Não a deixaria sozinha com você por um verão inteiro, não é mesmo? Fico pensando: o que aquele homem bonitão viu nela?
Meu coração acelerou. Pelo visto a minha mãe ainda nutria uma raiva ainda maior por Tayla.
Entrei na casa e o cheiro de canela atingiu-me como um soco.
Nona estava na cozinha. Assim que parei no batente da porta, cruzando os braços enquanto a observava, não disfarçando um sorriso no rosto, ela virou-se na minha direção.
- Eu sabia que viria! – Andou até mim, vagarosamente, deixando a colher sobre a pia - Seu quarto está pronto. O mesmo de sempre.
Abracei-a com força e seu cheiro remeteu-me a um sentimento que há muito eu não lembrava: carinho, afeto, cuidado, segurança.
- Estou fazendo doce de leite. – Ela avisou – E seu quarto é do lado do que preparei para Tayla. – Piscou, voltando a pegar a colher e mexer a panela.
- Pare com isto, vó! Você não está morrendo, não é mesmo?
- Não? Então por que você veio?
Eu não respondi, porque ambos sabíamos. Se ela morresse, aquele encontro nunca mais aconteceria. E apesar de tudo, era preciso pôr um ponto final naquela história... Por mais que doesse revirar o passado
- Onde ela está? — minha voz soou mais áspera do que pretendia.
Nona sorriu, lenta, e apontou para a janela. Vi o carro parado ao longe, na entrada do velho portão, enquanto uma figura esguia, ruiva, o abria, com dificuldade. Senti meu coração acelerar e as pernas ficarem trêmulas. Ela veio! E não estava só. Eu sabia que trazia consigo o garoto, seu filho. E como eu precisava vê-lo! A vida inteira ela sonhou com aquela criança, seu Lewis, que não era Carrol. E Cheshire? Viria junto o gato com tantas vidas quanto na ficção? Será que o animal me reconheceria?
Vi Nona saindo e puxando minha mãe pelo braço. Depois rapidamente abriu a porta do carro e acordou Ravena sem nenhum tipo de cuidado, levando-a para um lugar que eu desconhecia... Porque simplesmente não conseguia prestar atenção.
Tudo que eu via era o carro descendo vagarosamente. E nele estava Taylice, voltando para a minha vida depois de tantos anos.
Fui para a varanda e escorei-me na parede, como se não fosse proposital, mexendo no meu celular. Por que a porra do meu coração batia tão forte, como se quisesse deixar meu peito?
Ouvi o som do motor morrendo. A porta se abriu. Virei-me e deparei-me com ela.
“Eu podia contar minhas aventuras a começar desta manhã – disse Alice, um pouco envergonhada – Não adiantaria falar sobre ontem, porque até então eu era uma pessoa diferente”.
Sim, o Ryan do passado estava morto. E partir de agora Tayla Torres conheceria o novo Ryan Palmer, que não mais a amava, que não mais fazia tudo por ela, que não mais se importava mais com ela do que consigo mesmo...
Os olhos verdes encontraram os meus, tão quentes quanto um sol no auge de uma tarde de verão. Ela tocou na região do colo e percebi que tentava esconder algo... O trevo! Ela ainda tinha a gargantilha de trevo no pescoço! Depois de malditos seis anos por que Taylice ainda mantinha aquela porra consigo?
Engoli em seco e disse, quebrando o gelo e o silêncio de cinco anos, dez meses e catorze dias:
- Você... Voltou!
- Voltar implica que algum dia fui bem-vinda! – Falou com a voz cortante, me atingindo feito um chicote.
