Capítulo 4 COMO TUDO COMEÇOU... OU TERMINOU

POV TAYLA

- Mamãe?

A voz de Lewis ecoou dentro do carro e meu corpo estremeceu como se aquele simples encontro de olhares pudesse definir meu futuro. E podia!

Ryan e Lewis se encararam. Os mesmos olhos. O mesmo azul gélido, a mesma intensidade, até a forma idêntica de estreitá-los diante da dúvida. Era como assistir a um espelho do passado refletido no presente. Eles se analisavam em silêncio, mentes aceleradas, perguntas não ditas pairando entre eles.

Meu coração disparou. Minhas pernas ameaçaram ceder e me apoiei na porta do carro, desesperada.

Por quanto tempo eu sonhei com aquilo? Um menino chamado Lewis, com os olhos de Ryan. Um futuro que planejamos juntos, cheio de promessas ingênuas: "Teremos um Lewis e uma Alice, e eles vão adorar o Rancho Palmer, assim como nós. Nas noites de verão, dormiremos todos na casa da árvore e contaremos histórias até tarde."

Eu tive Lewis. Mas a certeza de que Ryan era o pai? Não, eu não tinha!

E agora, diante dos dois, o medo me consumia. Se Ryan sequer cogitasse ser o pai daquele menininho ruivo, lindo e curioso, jamais aceitaria ficar longe do filho. E eu não estava disposta a dividir meu filho. Lewis já tinha um pai: Aydan.

Aydan, que segurou minha mão no parto, que o embalou no primeiro choro, que jurou protegê-lo como sangue do seu sangue.

Mas meu terror ia muito além de uma simples disputa entre Ryan e Aydan. Havia “ele”. E eu rezava intimamente para nunca descobrir a verdade, para que a dúvida permanecesse eternamente como um escudo entre meu filho e aquela herança maldita. Preferia viver na incerteza do que ter a confirmação de que o sangue de Lewis carregava o mesmo DNA daquele homem que havia sido o maior erro da minha vida. Mil vezes a dúvida eterna do que a certeza devastadora.

O chão pareceu tremer sob meus pés, pronto para me engolir viva.

Lembrei daquela madrugada, quando acordei meu filho. Comecei a beijá-lo até que ele se espreguiçou, não parecendo com muita vontade de sair da cama. Abriu os olhos e me encarou, do mesmo jeito que o pai fazia:

- Eu não quero acordar!

- Mas precisa – sorri, beijando seu pescoço e o fazendo gargalhar.

- Eu sonhei com a sua história de criança, mamãe.

- Que história de criança?

- Aquela que você sempre me conta... Da Alice e o País das Maravilhas.

- Hum... – Fui trocando sua roupa - E o que sonhou, afinal?

- Eu era o coelho.

- Então deve saber que ele dizia: “Estou atrasado, muito atrasado”!

Lewis levantou-se, deixando-me com a roupa na mão e sorri ao ver o motivo. Cheshire entrou no quarto, com aquele jeito manhoso, esperando que o menino o pegasse no colo e levasse para a cama, a fim de alisá-lo e mimá-lo.

- Papai disse que a ponta do rabo do Cheshire foi pintada por você, quando ainda era criança.

- Eu? – ri – Já fiz muitas coisas não muito legais, mas pintar o rabo de Cheshire não está na minha lista, menininho! Saiba que Cheshire tem este rabo assim desde que nasceu.

Ouvi uma batida na porta e a empregada entrou, sorrindo:

- Desculpe o atraso, senhora Tayla.

- Tive que tirar um garotinho da cama. Não queria levantar! – Expliquei, divertindo-me com o jeito manhoso e preguiçoso de Lewis para acordar tão cedo.

- Vamos, Lewis, escovar os dentes. – Ela o lembrou.

- Cheshire pode tomar banho para passear? – Ele me olhou.

- Claro que não! Cheshire odeia banho e você sabe disto.

- Mas...

- Nem pensar! – peguei o gato das mãos dele – Vá escovar os dentes e deixe nosso amiguinho em paz.

Lewis riu e correu na minha direção, jogando-se contra meu corpo e dando-me um beijo e um abraço apertado. Sim, tudo aquilo porque iria ao banheiro escovar os dentes sem mim! Depois deu a mão para a nossa ajudante, fazendo uma voz fininha:

- “Estou atrasado, muito atrasado!”

Sorri enquanto o observava, percebendo o quanto tinha os trejeitos do pai.

Botei Cheshire na cama e peguei mais alguns brinquedos que ele gostava e pus na mala, pois tinha esquecido que seriam alguns meses fora de casa. Foi quando encontrei uma foto no chão, minha e de Ryan, quando tínhamos mais ou menos uns seis anos de idade.

Senti meu estômago congelar-se, lembrando exatamente do dia em que foi tirada. Percebi os dois xis riscados nos olhos de Ryan e os dentes de vampiro feitos com caneta hidrocor.

Mordi o lábio com força, para não gritar por Lewis para lhe dar uma bronca por ter estragado a minha foto. Mas o que eu diria? Que ele transformou o homem da foto num vampiro sendo que eu fazia aquilo com todas as folhas impressas em que Ryan aparecia?

Mas como Lewis sabia que aquele menino da foto era Ryan? Haveria tanta semelhança entre o menino e o homem, a ponto de meu filho fazer a constatação de que eram a mesma pessoa?

Olhei para meu filho e Ryan, ainda se encarando, agora de forma levemente hostil. Certamente Lewis lembrou do homem que eu transformava em aberração a cada foto que encontrava impressa em jornais ou revistas.

Observar o semblante de meu filho me fez voltar no tempo, muitos anos atrás, naquele mesmo lugar, onde jamais imaginei que um dia pudesse ter raiva de Ryan Palmer, o garoto que eu mais amava na vida, com o qual estive prestes a casar e com quem fiz planos de vivermos juntos até a fim de nossa existência.

Nona adorava contar como, no nosso primeiro aniversário, eu arruinei o bolo coletivo. Enquanto Ryan e eu assistíamos à festa sentadinhos na mesa, decidi presentear todos com meus pés na cobertura.

Aos dois anos, balbuciei “Ryan” pela primeira vez. E na mesma semana recebi dele meu primeiro tapa. Assim começou nossa história: um nome doce na boca e uma marca amarga na pele.

Quando eu tinha três anos joguei uma pedra em Ryan. Ele foi parar no hospital e levou três pontos. Sempre disse que foi vingança pelo tapa que ele me deu quando eu mal falava seu nome.

Com quatro anos Nona nos pegou debaixo da cama, nos beijando. Levamos uma bronca, mas ela guardou o segredo de minha mãe. Era nossa brincadeira favorita: mamãe e papai.

Quando fizemos cinco anos o pai de Ryan construiu uma casa na árvore gigante. Na primeira subida, caí e quebrei a perna. Ryan ficou mais assustado que eu.

Aos seis anos, enquanto brincávamos de comidinha na nossa “casa”, eu lhe dei uma planta venenosa para comer. Claro que eu não sabia que era perigosa. Ryan foi parar no hospital, tendo que fazer lavagem estomacal.

Com sete anos perdi meu primeiro dente e minha mãe disse que tinha que jogar em cima da casa, oferecendo para algum santo. Lembro que chorei muito, porque não queria jogar meu dente fora. No final da tarde ouvimos um grito e encontramos Ryan no chão. Ele tinha subido no telhado e pegado o meu dente, mas ao cair quebrou a perna. A parte boa é que fiquei com o meu dente e pude guardá-lo. A família de Ryan descobriu que ele era alérgico a componentes usados em analgésicos. Meu amigo ficou alguns dias internado por conta do inchaço e eu achei que ele tinha virado um monstro, já que seus olhos mal apareciam.

Com oito anos eu retirei meu primeiro livro de empréstimo na biblioteca da escola e se chamava “Alice no País das Maravilhas”. Me apaixonei pela história e nunca terei certeza se o amor à primeira vista se deu ao fato de aquele ter sido o primeiro livro que li sozinha. Ryan me deu um gato, que juntos escolhemos o nome: Cheshire.

Quando completei nove anos Ryan me presenteou com Alice no País das Maravilhas e foi o primeiro livro que tive para chamar de meu. Para o seu aniversário lhe dei um chapéu igual ao do chapeleiro maluco. Naquele dia ele fez a barba com a gilete do pai e foi parar no hospital. Parece que ele tinha pouca barba para tirar.

Aos dez anos tivemos a primeira noite na casa da árvore. Nosso primeiro beijo desastrado: dentes batendo, minha boca sangrando. Um castigo de uma semana sem nos vermos.

Com onze anos sangrei enquanto íamos para o rio. Eu disse que o amava e me despedi, achando que estava morrendo. Ele me levou para casa no colo e me pôs na escadaria da casa grande da fazenda e rezou por mim. Daí a Nona me explicou que eu não estava morrendo, que tinha ficado mocinha. E minha mãe disse que eu poderia ter filhos e que não podia mais ficar andando para cima e para baixo com Ryan, porque ele poderia querer botar um bebê em mim. Fiquei alguns meses com raiva dele porque eu não queria ter um bebê. Ryan então deu um beijo em outra garota. E disse que ela sabia beijar de verdade. Lembro que chorei e ele alegou que a menina que era mocinha e não eu. No mês seguinte fingi um desmaio quando menstruei e disse a ele que eu estava morrendo de novo... Só que agora era de verdade. Daí voltamos a ficar amigos, porque Ryan entendeu que todos os meses eu tinha chance de morrer. Ele me explicou que não botaria um filho em mim. Tudo voltou a ser como era antes.

Quando tínhamos 12 anos o pai de Ryan morreu. Foi o dia mais triste da minha vida até então... Porque Ryan estava muito triste. Ele chorou na nossa casa da árvore e eu também chorei. Por uma semana ele não saiu dela e só deixava eu entrar para lhe levar comida. Me senti muito importante, porque Nona e Haidee precisavam de mim para se comunicarem com ele. Lembro que a Nona disse para que a mãe de Ryan que ele precisava daquele tempo sozinho. Será que elas achavam que eu não contava como pessoa? Porque ele não estava sozinho. Tinha eu!

Quando fiz 13 anos depilei as pernas porque todas as garotas faziam aquilo. Não machuquei a pele, mas fiquei bem machucada pelas palavras de minha mãe. Disse que eu estava valorizando meu corpo, estética e beleza mais do que os preceitos da religião. Me chamou de pecadora. E disse que partir daquele momento eu estava também proibida de me maquiar ou usar esmalte nas unhas. Naquele mesmo ano Ryan começou a namorar uma garota da escola. Ele nunca a levou para apresentar a Nona, que sequer quis conhecê-la. Durante aqueles 30 dias que ele esteve com ela eu fiquei sozinha no recreio, porque os dois estavam juntos. Ele me contou que passou a mão dentro da calcinha dela e que ela gostou. Fiquei apavorada. Imaginei que ninguém gostava de mim porque eu não depilava as pernas e as axilas e não usava maquiagem ou pintava as unhas. Tudo passou quando Ryan voltou a ficar só comigo.

No baile de formatura, aos 14 anos, me apaixonei por um garoto pela primeira vez. Fiquei tão encantada que não percebi que Ryan entrou no baile e logo saiu. Descobri depois que passara a noite fora. Quando me explicou sobre sexo, que havia feito pela primeira vez, fugi por uma semana, não acreditando que ele tinha feito aquela coisa nojenta. Naquele ano Cheshire foi atropelado e morreu. Enterramos ele e no outro dia meu gato estava no meu quarto quando acordei. Descobri que gatos tinham sete vidas e restavam ainda seis para o meu.

Quando fiz 15 anos tive uma festa surpresa à fantasia na casa da Nona. Eu era Alice, Ryan o Chapeleiro Maluco. Até que o vi no banheiro, com as calças arriadas, comendo a Branca de Neve. Abandonei minha própria festa, mergulhando em Alice e desejando que o País das Maravilhas fosse real e eu caísse no buraco mágico e nunca mais voltasse.

Depois disto fomos para uma escola de Ensino Médio, que ficava na cidade vizinha. Fazíamos uso do ônibus escolar e íamos e voltávamos juntos. Então eu revi o garoto do baile de formatura do Ensino Fundamental, aquele por quem meu coração bateu diferente. Era praticamente ele que mandava na escola e todos queriam fazer parte do grupo dele. Até mesmo Ryan.

Em poucos meses Ryan já tinha feito sexo com praticamente metade das garotas da escola. E foi exatamente aquilo que fez com que ele chamasse a atenção de Davis Fahy, o garoto que tinha várias tatuagens pelo corpo, o que na minha opinião não o tornava um pecador, como dizia minha mãe. Pelo contrário, eu achava aquela arte que ele tinha no corpo lindíssima.

E foi exatamente ali, naquele encontro com outras pessoas, quando deixamos nosso mundinho secreto, que tudo começou... Ou terminou.

CIDADE DE SOLIDÃO, NORIAH SUL (COMO TUDO COMEÇOU)

Mamãe tirou o bolo do forno e senti o cheiro entrando pelas minhas narinas. Meu estômago chegou a roncar.

- Posso fazer uma cobertura? – pedi, empolgada – De brigadeiro.

- Não, não vamos perder tempo com coberturas.

- Mas... É o meu aniversário, mãe.

- Já estou fazendo muito em lhe dar o bolo, garotinha. Então não peça mais do que eu posso, por favor.

Suspirei e fiquei olhando o bolo na janela, a fumaça branca com cheiro de pão de ló se misturando ao ar fresco do anoitecer. Vi o rosto de Ryan na janela. Ele abriu um sorriso e piscou, fingindo que iria roubar o bolo. Comecei a rir e minha mãe gritou:

- Ryan, não toque no bolo!

Ela adivinhou que ele estava ali, talvez pelos passos, que nem eu mesma ouvi. Ryan entrou e trazia na mão um embrulho.

- Trouxe um presente? – Levantei, empolgada. Eu amava presentes.

Ele riu e sentou-se no sofá, de forma tranquila:

- Só ganhará o presente depois que eu comer o bolo.

- Mamãe, vamos comer o bolo? – Fui rápida.

- Está quente! Quer queimar a boca do seu convidado?

- Ela nem me convidou! – Ryan alegou enquanto levantava os braços e se escorava neles, usando o encosto do sofá de forma preguiçosa.

- E precisava? Você esteve em todos os meus aniversários, mesmo sem eu convidá-lo!

- E estarei nos próximos. – Garantiu, piscando o olho – Se eu não apareço, você não ganha presente!

Fiz careta e a porta se abriu:

- Sim, ela ganha presente! – Sirena entrou, trazendo uma torta.

Arregalei os olhos e corri na direção dela, tentando pegar a torta. Sirena levantou os braços, me impedindo de pegá-la, enquanto ria:

- Primeiro vamos cantar “parabéns a você”.

- Eu não gosto! – Reclamei.

- Mas vai ter que ser cantado. – Deu um beijo na minha bochecha – Afinal, não é todo dia que se faz 17 aninhos! – suspirou – A partir de agora sua vida vai começar de verdade.

- Não enfie coisas na cabeça da sua irmã, Sirena. A vida dela já começou. – Mamãe gritou da cozinha.

Sirena pôs a torta sobre a mesa e olhei, maravilhada.

- Do que é a cobertura? – Perguntei.

- Brigadeiro, seu preferido.

Sorri e minha mãe apareceu, secando as mãos no pano de prato:

- Por que insiste em passar por cima das minhas ordens? – Olhou diretamente para minha irmã, de forma séria.

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