Capítulo 5 PRESENTES

- É só... Um bolo! – o sorriso morreu nos lábios de minha irmã.

- Não precisava ter gastado dinheiro com isto. Eu já tinha feito um para ela.

- Mas não tem cobertura! – Aleguei.

- Não gosto de comemorar aniversários e vocês sabem muito bem disto.

- Pode... Deixar que comemoramos só nós. – Sirena disse com a voz fraca e minha mãe abriu a boca para revidar quando eu tentei amenizar:

- Mãe, todas as garotas da escola têm festas grandiosas de aniversário. Não vamos brigar por causa de um bolo com cobertura, não é mesmo?

- Eu... Vou querer o bolo que a senhora fez, dona Ursula. – Ryan sentou-se à mesa – Parece estar delicioso!

Logo minha mãe deu um de seus raros sorrisos e pegou o bolo da janela, até esquecendo que estava quente. Quando minha irmã puxou o canto de “parabéns a você” Ryan a acompanhou, mas mamãe, embora presente, ficou calada e imóvel. Realmente ela era avessa a comemorações, de qualquer tipo.

Fiquei olhando para minha irmã e meu melhor amigo, sem saber que reação esboçar. Eu amava fazer aniversário porque sempre ganhava um presente legal de Ryan e da família dele. Mas odiava ficar daquele jeito, sendo o centro das atenções.

Quando enfim acabou a cantoria, Sirena cortou o primeiro pedaço de bolo com cobertura e me entregou.

- Neste você não vai pôr os pés pelo menos. – Ryan debochou, lembrando da nossa festa conjunta de primeiro ano de vida, a qual tantas vezes olhávamos as fotos.

- Mas vou pôr o dedo! – Pisquei e passei o dedo na cobertura de brigadeiro, saboreando meu doce preferido.

Comemos o bolo e logo Sirena foi tomar banho. Ela tinha recém chegado do trabalho. Mamãe foi para a cozinha, certamente limpar algo que já estava limpo. Ela fazia tudo, menos sentar ou descansar. Passava o dia limpando, bordando, costurando ou lendo a bíblia. E só parava exatamente às 21 horas, quando dormia. E no dia seguinte, 6 horas da manhã, estava de pé novamente, fazendo com que o aroma de café passado impregnasse os quartos. E nem dava para brigar, porque (ao menos) o café dela era saboroso.

Sirena não voltou para a sala de jantar e mamãe foi dormir quando deu o seu horário. Então Ryan pegou o embrulho e veio até a mesa, me entregando.

Sorri e abri, rasgando tudo de uma vez, ansiosa. Era um livro de Alice no País das Maravilhas, versão adulta.

O olhei, confusa.

- Eu não li – ele confessou – Mas achei interessante uma versão adulta, já que você tem todas as demais.

- Se minha mãe ver isto ela me mata.

- Por isto eu só lhe dei agora. Esconda num lugar seguro. – Sugeriu.

- Acha que tem algo sobre... – olhei para os lados – Sexo? – sussurrei.

- Eu não tenho ideia – ele deu de ombros – Mas se tiver... Você pelo menos saberá um pouco como funciona. – Usou um tom de voz tão baixo quanto o meu.

- Na minha cabeça Alice e o Chapeleiro sempre foram apaixonados. – Suspirei.

- Por isso sempre queria que eu me vestisse de chapeleiro? – Fez careta, rindo.

- Claro que não, seu bobo. – Imediatamente me veio a imagem dele no banheiro com a calça arriada botando o pênis na Branca de Neve e abaixei o olhar, envergonhada e enojada.

- Está... Tudo bem?

- Eu acho que sim. – Levantei – É hora de você ir embora!

- Eu vim até aqui vê-la e é assim que me trata? E ainda lhe trouxe o seu livro favorito!

- Meu livro favorito é Alice no país das Maravilhas, não na versão adulta.

- Mal agradecida! – Direcionou o rosto para frente, quase encostando a face na minha.

Ryan estava tomando corpo de homem. E me perguntei quanto tempo ele ainda cresceria, já que tinha passado de mim na altura há muito tempo. Seus olhos azuis pareciam ficar cada vez mais expressivos e até os lábios estavam ficando maiores e carnudos. Eu já tinha ouvido algumas pessoas se referindo a ele como “um garoto de traços marcantes”. Ele tinha uma mandíbula bem definida e os cabelos castanhos claros já faziam um tempo que não viam um corte.

- Quando você vai cortar os cabelos? – me ouvi perguntando, do nada.

Ele riu:

- Está achando ruim?

- Prefiro quando estão mais curtos.

- Pois saiba que as garotas preferem assim. Fico mais charmoso. – Ajeitou os fios, de forma debochada.

- Ah, seu convencido! – dei um tapinha no peito dele.

- Vamos sair hoje à noite?

- Sabe que eu não posso. – Olhei para ver se ninguém estava escutando a gente.

- Você nunca pôde. E ainda assim sempre saiu. – Ele riu.

- Mas sabe que posso me complicar com a minha mãe se ela souber.

- “Entenda os seus medos, mas jamais deixe que ele sufoque os seus sonhos”. Acho que li isto em algum lugar. – Provocou.

Respirei fundo e dei um passo para trás:

- Pegou pesado, Chapeleiro!

- “Eu não sou louco, minha realidade é apenas diferente da sua”. – Me brindou com um sorriso.

- Você decorou todas as falas do Chapeleiro?

- E eu tinha alguma outra alternativa e não ser me transformar nele?

- Bem, meu sonho nunca foi sair por aí com você na noite do meu aniversário, mas não tenho nada melhor para fazer. – Brinquei – Então... Vou para o meu quarto, enquanto espero um tempo para ter certeza de que todos realmente estarão dormindo.

- Irei para a minha casa, me arrumarei e passo aqui para buscá-la. – Deu um beijo na minha testa e se foi.

Tomei um banho e quando cheguei no meu quarto, Sirena estava sentada na minha cama. Me olhou e sorriu:

- Você está ficando com corpo de mulher!

- Eu... Acho que não muito. – Fiquei envergonhada, sentindo as bochechas pegarem fogo.

- Isto é inevitável, Tayla. Você vai crescer.

- Eu não queria! – suspirei – Conforme os anos vão passando, sinto o coelho branco passando mais depressa com seu relógio, me dizendo: “Está atrasada! Está muito atrasada!”

- Você não está atrasada. Tudo acontece no tempo que tem que ser.

Suspirei e sentei-me na cama ao lado de minha irmã, ainda com a toalha enrolada no corpo:

- Eu ainda nem beijei de verdade. – Confessei.

- De verdade? – ela riu – E o que seria um beijo de mentira?

- Os que eu e Ryan trocamos – falei, sem jeito, lembrando dos episódios de quando éramos crianças – Isto aconteceu... Duas vezes.

Sirena riu:

- Lembrei daquela vez que ele cortou a sua boca.

- Isto faz seis anos – não contive o riso – Fiquei uma semana de castigo.

- E a outra vez? – ela questionou – Hum, lembrei! Quando vocês tinham quatro anos.

- Não lembro de Nona ter contado para alguém. Era um segredo. – Estreitei os olhos, não me recordando de aquele episódio ter saído da fazenda Palmer.

- Ela não contou para mamãe, mas eu fiquei sabendo.

- E por que... Não contou para mamãe?

- Porque eu não gosto muito de contar as coisas para ela.

Nos encaramos e Sirena alisou meu rosto e deu-me um beijo na ponta do nariz:

- Que seu ano seja maravilhoso, assim como todos os outros que virão – suspirou – Parece que foi ontem que você nasceu... Uma garotinha tão pequena que mal cabia nas roupinhas – sorriu – E os cabelinhos eram escuros.

- Depois virei “cabeça de fósforo” – revirei os olhos.

- Acho que era inevitável! – Ela riu.

- Por que você nunca casou, Sirena? – Me senti à vontade naquele momento para perguntar.

- Porque... Tenho que ajudar a mamãe a manter a casa e cuidar de você. – Apertou o meu nariz, de forma divertida.

- Nunca se apaixonou?

- Não! – ela levantou da cama, ficando séria – Eu trouxe um presente para você.

- Além do bolo? – Fiquei surpresa, levantando ansiosa.

Sirena me entregou um envelope:

- Tome! Faça algo divertido com isto.

Abri o envelope e tinha dinheiro dentro. A olhei e devolvi:

- Não posso aceitar.

- Como não? – Estreitou os olhos, confusa.

- Você trabalha todos os dias, até nos finais de semana. Não posso pegar o seu dinheiro! Sei o quanto se esforça e abre mão de tantas coisas para tê-lo.

Sirena sorriu e me entregou de volta:

- Eu tenho um objetivo nesta vida: trabalhar e guardar dinheiro. Porque assim como todo mundo, também tenho um sonho e quero realizá-lo.

- Qual é o seu sonho?

- Talvez algum dia eu compartilhe com você. Mas por hora, saiba que tenho dinheiro e por isto estou te dando esta quantia.

- Não é pouco! – a olhei, enquanto contava brevemente o valor que tinha ali.

- Você não merece pouco, meu amor! – Me deu outro beijo.

Embora ela tivesse dito que não lhe faria falta, fiquei sem jeito de pegar. Sirena passava a vida trabalhando e parecia errado ficar com aquilo.

- Vá se divertir com Ryan. Aproveitei a noite! – Piscou e foi saindo.

- Eu... – A olhei confusa, fingindo não entender.

- Eu sei que você sai escondida à noite – sussurrou, sorrindo – Mas não se preocupe que nunca irei contar.

- Não contará?

- Por que eu faria isto?

- Porque é... Adulta e estou fazendo algo errado?

- Vou te contar um segredo – ela virou-se para mim – Não sou tão adulta assim.

- Mas você já tem 32 anos.

- Quando chegar nesta idade verá que somos ainda crianças, cheias de sonhos bobos e impossíveis – Sorriu – Apenas pense bem e não faça besteiras.

- Obrigada pelo dinheiro.

- Compre um vestido bonito! – Sugeriu e saiu, fechando a porta.

Um vestido bonito! Como comprar um vestido bonito se minhas pernas quase tinham mais cabelos do que as de Ryan?

Pus uma calça jeans, camiseta, tênis e estava penteando os cabelos quando ouvi a batida na janela. Abri e pulei-a, sendo amparada por Ryan.

- Achei que iria se arrumar! – Ele riu, enquanto me analisava.

- Eu me arrumei!

Ryan meneou a cabeça, sem dizer nada. Olhei-me enquanto caminhávamos até a estrada. Fiquei triste porque ele pareceu decepcionado com a minha roupa. E embora eu falasse sobre praticamente tudo com Ryan, não me senti a vontade para perguntar o que ele esperava que eu vestisse para aquela noite.

Eu sabia que ele se envolvia com as garotas mais bonitas da escola. E todas usavam roupas bem curtas e decotadas. Mas Ryan sempre soube que eu não era como elas e nunca se importou com o meu jeito. Estaria ele vergonha de sair comigo agora, só porque eu não era como as outras?

Pegamos um táxi e para minha surpresa o destino era uma pequena boate que havia na cidade vizinha.

- Se tivesse me avisado, eu teria vestido algo mais apropriado! – Reclamei ao observar o letreiro neon do lugar.

- Para onde achou que iríamos? – Ele me encarou.

- A casa na árvore?

Ryan riu:

- Não acha que já estamos crescidinhos o bastante para eu levá-la para sair na casa na árvore?

- É o nosso lugar!

- Precisa conhecer pessoas novas. E se entrosar.

- “O segredo, querida Alice, é rodear-se de pessoas que te façam sorrir o coração.”

- Se não abrir o coração para deixar outras pessoas entrarem, nunca saberá se elas poderão fazê-la sorrir com o coração, querida “Taylice”. – Brincou.

- Sou feliz no meu mundinho pequeno, que é o país das maravilhas.

- Seu mundinho está longe de ser o país das maravilhas e você sabe muito bem disto! – Ele me olhou seriamente e pegou minha mão, levando-me para a entrada da boate.

- Eu não tenho uma autorização para entrar. Sabe que minha mãe jamais assinaria.

- Eu fiz uma.

- Como assim?

- Copiei a assinatura de dona Úrsula. – Falou sem arrependimentos, apresentando as duas folhas de papel na portaria, onde nos autorizaram a entrar.

Assim que vi as luzes coloridas brilhando no teto me senti no verdadeiro país das maravilhas. Haviam tantas pessoas que mal dava para andar.

Ryan foi abrindo caminho entre os desconhecidos que bebiam, conversavam e nos cantos se beijavam. Apertei sua mão com força, com medo que ele me perdesse ali. Corria o risco de nunca mais nos encontrarmos entre aquela multidão.

Descemos um degrau e chegamos numa pista de dança. Me senti horrível com aquela roupa e tive vontade de bater em Ryan por não ter me dito que iríamos naquele lugar. Eu poderia ter me ajeitado melhor e colocado pelo menos uma blusa ao invés da camiseta. E uma calça jeans menos surrada. E teria aberto mão do tênis por uma bota.

Ryan começou a dançar e eu fiquei parada, como uma estátua. Eu não sabia dançar.

- Vamos, dance, Taylice. – Começou a se mover no ritmo da dança, fazendo caras e bocas que me fizeram gargalhar – Eu sei que você gosta de dançar.

- Gosto de dançar quando estamos só nós dois! Eu tenho vergonha!

- Eu sei que você consegue! – Pegou meus ombros, forçando-me a movê-los.

Comecei a rir e Ryan disse no meu ouvido, para ser escutado entre a música extremamente alta:

- Espere aqui que já volto!

- Não me deixe sozinha! – Implorei.

- Vou buscar uma bebida. E então você vai dançar. E não se preocupe, eu jamais a deixaria aqui sozinha.

Se tinha uma pessoa que eu confiava na vida, era o meu amigo. Aliás, eu confiava mais em Ryan do que em qualquer outra pessoa.

O movimento do reflexo das luzes coloridas do teto para a pista, faziam minha roupa brilhar. Abri os braços e comecei a observá-las brincando com a minha pele, ora ficando azuis, ora vermelhas e ora verdes. Aquilo era simplesmente incrível.

Ryan voltou minutos depois, com uma bebida.

- O que é isto?

- Apenas beba. Se sentirá mais confiante depois.

- Eu nunca bebi nada alcoólico! – gritei para ser ouvida.

- Para tudo existe uma primeira vez. Sua primeira vez bêbada é hoje! – Sorriu e me fez abrir a boca e engolir um grande gole da bebida adocicada que desceu queimando a minha garganta.

Depois daquele copo eu bebi mais três. E então descobri que eu sabia dançar muito bem... Até melhor que Ryan.

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