Capítulo 6 UMA BRIGA

Eu e Ryan estávamos dançando quando vi Davis e sua turma adiante, na pista de dança também. Então meus olhos não tiveram mais outro foco a não ser ele.

Davis era forte, e embora só um pouco mais velho que Ryan, tinha um corpo de homem, com braços fortes e corpo musculoso. As tatuagens eram simplesmente perfeitas, chamando a atenção por onde ele passava. Os cabelos castanhos claros eram cortados num estilo diferente, nem curto, nem comprido, mas repicados. Geralmente estavam bagunçados, o que o deixava com um ar de “este homem será o maior pecado da minha vida”. Tinha a sobrancelha grossa e o nariz fino. A mandíbula era aparente e eu simplesmente amava homens que tinham a mandíbula daquele jeito, que quando riam ou falavam ela se movia de forma firme. Os lábios eram finos e, diferente de todos os outros garotos, ele tinha barba. Sempre usava roupas pretas e as camisetas geralmente eram justas no corpo.

- Vou buscar outra bebida – Ryan avisou e saiu novamente.

Eu já nem me importava. Aquela bebida que não tinha gosto bom me deixou mais leve e solta. E até passei a entender porque algumas pessoas viravam alcóolatras. Dava coragem de fazer várias coisas, inclusive... Ir falar com Davis Fahy.

Claro que eu não o interceptaria dizendo que era o garoto mais bonito do mundo e o único que me chamou a atenção desde que reparei em alguém. Iniciaria com uma conversa do tipo: “Ei, nos conhecemos de algum lugar?”. Aquilo sempre dava certo nos filmes. Ele responderia que sim, que me reconhecia da escola. E me daria um beijo de língua, que todos do lugar ficariam boquiabertos. Depois bateriam palmas, porque afinal era eu e Davis Fahy, formando um casalzão que ninguém esperava. E então...

- Oi, gata! – Falou o homem que parou na minha frente.

Olhei para cima, deparando-me com um corpo masculino de 1,90 metros de altura, aparentando mínimo uns 25 anos.

- Não sou uma gata! – Lembrei de Cheshire e comecei a rir sem parar.

- Ah, é sim! – Ele me olhou dos pés a cabeça e senti um certo enjoo.

Minha cabeça estava leve demais. Dei um passo para trás e ele me pegou pela mão:

- Quero um beijo da única ruiva da boate!

- Pois não vai ganhar! – Fui sincera, sem evitar o riso que vinha fácil, mesmo eu não querendo.

Ele me puxou a força e tentei empurrá-lo, me esquivando de qualquer contato. O homem insistiu e quando vi Ryan quebrou o copo da bebida que trazia na cabeça dele, virando parte do líquido em mim.

Vi o sangue escorrer de sua testa e ele encarou Ryan, furioso. O homem dava praticamente dois do meu melhor amigo na altura e na força. Foi quando Ryan o surpreendeu, dando-lhe um soco. Quando o rapaz foi reagir, Davis e os outros garotos da escola entraram na briga, empurrando-o para o chão e dando-lhe socos e pontapés.

Comecei a gritar e pedir para que parassem. Tentei puxar Ryan, que não saiu de cima dele, parecendo totalmente enlouquecido, como se quisesse matá-lo.

Girei o corpo, implorando por ajuda, mas ninguém me dava atenção. Simplesmente ficavam olhando, sem fazer nada!

- Ryan, pare! – gritei – Pare, Ryan... Por favor! – as lágrimas brotavam dos meus olhos e eu não tive coragem de ver aquela covardia toda.

Saí correndo enquanto os seguranças tentavam acessar a briga, a qual já tinha metade dos presentes envolvidos. Passei pela porta e fui andando pela rua escura, limpando as lágrimas que insistiam em cair.

Depois comecei a correr. Tudo que eu queria era chegar o mais rápido possível na fazenda Palmer, na nossa casa na árvore. Aquele era o meu país das maravilhas, o único lugar no mundo onde eu me sentia segura. E feliz. Era o meu abrigo, o lugar que me protegia das coisas ruins do mundo e que só tinha lugar para amor e coisas boas.

Assim que cheguei à fazenda Palmer, segui correndo e subi os degraus de madeira rapidamente, vez ou outra não conseguindo firmar o pé, devido ao efeito do álcool no meu corpo e cérebro. Quando alcancei a casa de madeira no alto da árvore, me encolhi num canto e abracei minhas próprias pernas, chorando alto. Tudo que me vinha à mente era a forma como Ryan bateu naquele homem.

Deitei a cabeça na parede e fechei os olhos, sentindo frio. Não tenho certeza de quanto tempo chorei. Até que adormeci.

Gemi de dor nas costas e senti alguém tocar meu braço. Abri os olhos e deparei-me com Ryan escorado ao meu lado. Me assustei:

- O que você faz aqui? – Olhei para a janela e vi que ainda estava escuro – Preciso... Voltar para casa.

Ryan me puxou, impedindo-me de sair:

- Por que fugiu, Tayla?

- Porque você bateu naquele homem! – estreitei os olhos, lembrando da cena, sentindo um arrepio percorrer meu corpo – Foi horrível, Ryan!

- Ele estava tentando pegá-la a força.

- Eu poderia ter resolvido!

- Não, não poderia. Você não sabe nada da vida, Tayla.

- E você sabe? – eu ri, com deboche – Sabe tanto quanto eu!

- Não é sobre isto, Tayla. Estes homens só se aproveitarão de você.

- Nem todo mundo é como você, Ryan! – Puxei meu braço do domínio dele.

Ryan suspirou:

- Eu só quis ajudá-la – levantou os braços, com as mãos espalmadas, em tom de defesa – Mas se prefere se defender sozinha, tudo bem! – alterou a voz – Ele dava dois de você.

- Ele não faria nada de errado comigo ali, no meio de todo mundo. Eu estava protegida.

- Mas que porra! – Esbravejou.

- Agora você fala palavrão?

- E que mal há nisto?

- Este não é você!

- Eu cresci, “senhora do país das fantasias”! Sinto muito se não fez o mesmo!

- Como se falar palavrões fosse sinônimo de crescer! – ri, com sarcasmo.

- Porra! Porra! Porra! – Falou num tom provocante enquanto me olhava.

Lembrei do que era a tal porra que ele falava e jamais entenderia porque diziam aquilo para reclamar de algo ou explanar indignação quando significava literalmente “esperma”.

Pensei no tal esperma e lembrei daquela noite, na minha festa à fantasia, na casa da fazenda, quando fui ao banheiro e vi o Chapeleiro Maluco, vulgo meu melhor amigo, transando com a Branca de Neve. Ele teria ejaculado dentro dela? Usou preservativo? Ryan comprava preservativos? Onde ele guardava que eu nunca vi? Eu sabia onde ficava tudo no quarto ele. E se ele não usou preservativo e ela estava no período fértil eles poderiam ter tido um filho e... Minha cabeça começou a ficar confusa e tudo rodou.

Fui até a porta da casa na árvore e comecei a vomitar. Ryan segurou meus cabelos enquanto eu jogava toda bebida alcoólica para fora do corpo, esperançosa de que aquela sensação ruim acabasse de uma vez por todas.

Quando já não tinha mais nada no meu estômago, enfim me senti um pouco melhor. Respirei fundo e voltei para dentro da casa.

- Me desculpe, porra! – me abraçou.

Não consegui ficar muito tempo chateada e correspondi ao abraço:

- Nunca mais bata em alguém na minha frente. – Pedi.

- Então não foi por eu tê-la defendido que ficou braba?

- Não... Foi mais por ter batido naquele homem... De forma tão agressiva.

- Eu juro que não sei o que aconteceu comigo! Só tive vontade de bater muito nele. Fiquei cego.

- Não faça de novo, Ryan.

- Não farei. Eu prometo! – ele alisou meus cabelos – E nem falarei “porra”. – riu.

- Pode falar estas coisas aí... – ri também – Deve se sentir mais homem falando palavrões, não é mesmo?

- Não tem a ver com isto!

Ele foi até o frigobar e pegou uma água para mim. Abri a garrafa e bebi no gargalo todo o líquido.

- Chocolate? – ofereceu.

- Não!

- O primeiro porre aos 17 anos – ele gargalhou, parecendo rever a cena da boate – Pelo menos você estava comigo.

- Foi estranho – admiti – Aquila coisa que bebi não era boa, mas deu uma sensação de leveza... Me deu coragem, como se eu fosse capaz de fazer qualquer coisa.

- Você fica chata bêbada. – Ryan fez careta enquanto abria o chocolate.

- Acha que Davis entrou na briga... Por minha causa? – Perguntei, sem jeito.

Ryan estreitou os olhos e riu:

- Não, não foi por você, foi por mim!

- Por você? – Franzi a testa, confusa.

- Temos nos falado vez ou outra. E... Ele sabe do meu interesse pela sua prima.

- Uhum! – lembrei da prima de Davis, que era só mais uma das garotas que interessavam Ryan.

- Ísis é uma gostosa! Eu até já sonhei com ela e acordei de pau duro!

- Pau? – fiquei vermelha só de ouvir aquilo – O nome é pênis, Ryan.

- Se eu falar que acordei de “pênis” duro os garotos vão me zoar – ele riu – Está na hora de você aderir ao vocabulário de adolescente, Taylice! – Me empurrou com o ombro, rindo.

- Nem pensar! Prefiro viver no país das maravilhas a me vender a este mundo ridículo onde se usam palavrões sem sentido.

- Homens tem pau. Mulheres tem boceta.

- Eu não tenho.

- Você tem um pau?

- Se muito eu tenho uma “pepeca”. Porque o nome verdadeiro é vagina.

- Ah, que fofo – ele gargalhou e me deu um beijo no rosto – Por isto que eu não vivo sem você. Quem me faria rir depois de ter levado um soco e quase não conseguir respirar?

- Você levou um soco? – fiquei preocupada, analisando-o.

- Nada sério. – Ele levantou a camisa, mostrando as costas.

A iluminação da casa na árvore vinha daquelas luzinhas artificiais, como as que enfeitam pinheiros de Natal. A gente achava que uma lâmpada comum, ou muito forte, estragaria a "magia" do nosso cantinho. Só que, às vezes, a penumbra atrapalhava, como naquela ocasião em que eu queria tanto ver direito o rosto dele.

- Quer entrar em casa? – perguntei – Podemos chamar a Nona.

- Nem pensar! – ele foi enfático, abaixando a camisa – Se eu tivesse ruim, teria ido ao médico.

- E sua mãe mataria você porque entrou numa briga.

- Não, ela não faria isto! – ele riu – Mas por que perguntou se Davis havia entrado na briga por você?

- Porque... Ele me olhou. E achei que pudesse estar interessado em mim. – Fingi que não era tão importante para mim.

- Davis não é interessado em ninguém. – Falou de forma seca.

- Todas as garotas são loucas por ele.

- Inclusive você! – me olhou.

- Inclusive eu! – Confirmei.

- Eu irei na casa dele amanhã.

- Você, na casa de Davis? – me surpreendi – Não sabia que vocês estavam tão amigos assim! Achei que ele pudesse ter se envolvido na sua briga só porque se conheciam da escola.

- Como eu disse, tenho interesse na prima dele. – Repetiu.

- Uma relação de interesses. Entendi! Até porque você não tem nada em comum com Davis Fahy!

- No que eu não me pareço com ele? – Pareceu interessado.

- Em tudo, Ryan! – me limitei a dizer, indo em direção à porta.

- Ele vai dar uma festa. Os pais dele não estarão em casa.

Voltei e o encarei:

- Me leva junto!

Ryan riu:

- Vou pensar. Se eu soubesse que queria tanto ir na casa do Davis não teria me preocupado em encontrar um livro diferente da Alice no País das maravilhas para você. Poderia lhe dar de presente ser a minha companhia para entrar na festa de Davis Fahy.

Suspirei, revirando os olhos, me recusando a responder aquilo.

- Vai ser à noite? – Perguntei.

- Claro! Imaginou que seria que horas?

- Umas... Dezoito? – Arrisquei, fazendo careta.

- Vinte e três.

Revirei os olhos:

- É bem difícil para mim este horário! Mas farei um esforço, já que você insiste. – Pisquei.

Ryan riu enquanto eu descia as escadas de madeira, já me sentindo bem melhor por ter conseguido colocar todo o álcool para fora do corpo.

Comecei a fazer meu caminho de volta para casa e olhei para trás, percebendo que as luzes amareladas continuavam acesas dentro da casinha. Me peguei pensando quanto tempo ainda caberíamos ali, já que Ryan crescia cada dia mais. E temi o dia que precisaríamos nos despedir daquele lugar.

Ryan não estava de um todo errado. Eu estava me recusando a crescer e talvez fosse hora de tentar me igualar às meninas da minha idade.

Voltei para casa como sempre fazia: abri a janela por fora, tirei minha roupa e fui dormir. A porta estava trancada e minha mãe não acordava durante a noite. A única que vinha vez ou outra me ver no meu quarto era Sirena. E agora ela sabia que eu saía (ou melhor, fugia). Então fiquei um pouco mais tranquila, embora não quisesse causar problemas para minha irmã, pois se algum dia nossa mãe soubesse que ela me encobria, ficaria furiosa... Muito mais com ela do que comigo.

Na manhã seguinte, na escola, esperei Ryan no horário do recreio, na frente da minha sala. Mas ele não apareceu. Olhei no relógio e desci para comer um lanche, porque senão o tempo do intervalo acabaria e eu ficaria sem me alimentar. Então, antes que chegasse na fila da cantina, o vi sentado com Davis e sua turma, rindo, parecendo completamente entrosado. Nossos olhos se encontraram e ele sequer me deu satisfações, como se eu não estivesse ali, sendo que a vida toda, desde o jardim de infância, lanchávamos juntos.

Sorri e fui para a fila. Eu estava feliz porque ele tinha finalmente conseguido fazer outros amigos além de mim. Na verdade, ele sempre teve outros amigos... Eu que me restringia a ele. Suspirei, percebendo que talvez eu pudesse estar perdendo meu melhor amigo para Davis, o único garoto que me interessei a vida inteira.

Por que com tantos garotos justo Davis foi parar na minha mente? Ele só era bonito. Eu sequer o achava agradável. Sem contar que a disputa era praticamente com todas as garotas da escola. E eu era só Tayla Torres, a ruiva nerd desajeitada, que era proibida de sair, se maquiar, pintar as unhas ou se depilar.

- Você que é a amiga do Ryan? – Uma garota do terceiro ano perguntou, parando ao meu lado, junto de outra.

- Ah... Sim. – Sorri, confirmando.

- Será que poderia me apresentar ele?

- Como assim? – Estreitei os olhos, confusa.

- Fala que somos colegas e me apresenta ele. Ou que somos amigas ou algo do tipo. – Sugeriu.

- Mas ele sabe que eu não tenho amigas.

Ela riu:

- Verdade... Ou você está sozinha ou com ele – olhou para a outra e riram – Você é sortuda de tê-lo por perto, protegendo-a.

Fiquei sem palavras, observando-as, sem saber o que dizer.

- Já rolou algo entre vocês?

- Não! – eu disse mais que depressa, tentando dissipar aquela ideia da cabeça delas – Ele é o Ryan! – Ri.

- Ah, ele é tão lindo! – a garota que estava ao lado dela olhou na direção dele, sorrindo.

- Ele... Tem chulé! – revelei – E... Bafo quando acorda!

- Quem não tem? – Ela riu.

- Ele come de boca aberta!

- Que fofo! – as duas se olharam, admiradas.

Franzi a testa:

- Ele diz palavrões.

- Que másculo! – Uma delas vibrou.

- Do tipo “pau” e “porra”.

- Uau! Amo! – As duas se entreolharam novamente – Obrigada, amiguinha do Ryan – Saíram e foram em direção ao grupo de Davis, onde estava Ryan.

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