Capítulo 2 Mulher De Fases
"Complicada e perfeitinha você apareceu..."
Ryan
O estacionamento estava silencioso, com apenas alguns carros espalhados sob a luz suave do começo da tarde. Eu estava saindo com Logan ao meu lado, suado e exausto do nosso treino a caminho do carro, prontos para ir para casa, quando o meu telefone tocou. Vendo o nome de Caleb na tela, atendi de imediato, ignorando qualquer saudação.
“O que você tem pra mim?” perguntei, direto ao ponto.
“Conversei com a assistente da Chloe,” A voz de Caleb soava ofegante, como se ele tivesse acabado de correr uma maratona. “Ela tá com o dia cheio hoje, mas pode te ver depois das seis, quando o expediente dela terminar.”
Soltei um suspiro de alívio, sentindo um peso sair dos meus ombros.
“Isso é perfeito. Além do treino, não tenho mais nenhum compromisso hoje,” respondi. “E já estou indo para casa,”
“Está marcado então, ela estará esperando por você no escritório dela,” Ele me informou.
Eu acenei.
“Obrigada, Caleb. Nos falamos mais tarde,” Falo antes de desligar.
Curioso como ele é, Logan não perdeu tempo.
“E aí, do que se tratava?” ele perguntou.
Soltei outro suspiro, mais pesado, enquanto parávamos ao lado do meu carro.
“Estava tentando conseguir um horário com a minha advogada,” expliquei.
O assunto era sério, não queria falar muito sobre, mas Logan era o meu melhor amigo. Mas o idiota, não pegou meu tom, e ao invés de continuar a questionar, soltou uma risada.
“Ah, claro, oportunidade pra você ficar babando nela.”
Revirei os olhos, mas não consegui evitar um sorriso, porque ele não estava totalmente errado. Chloe realmente era deslumbrante, mas hoje, não era sua beleza que me interessava.
“Vai se ferrar, Logan,” falei, tentando ignorar a provocação.
Logan continuou rindo, claramente satisfeito por ter me atingido.
“Mas sério, por que você precisaria falar com ela, se não for pra babar?”
Minha expressão ficou séria de repente, e senti meus lábios secarem.
“É por causa da Alissa,” respondi, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia.
Logan imediatamente mudou a expressão, seus olhos atentos em mim.
“O que tem a Alissa?” Ele perguntou, com interesse evidente.
Suspirei, sentindo a tensão voltar aos meus ombros.
“Ela finalmente me ligou. Está na minha casa desde ontem à noite,” revelei, observando Logan ficar ainda mais focado no que eu dizia.
“Ela deixou o marido?” Ele perguntou. O tom duro, quase como uma confirmação.
Assenti, sentindo a raiva familiar crescer dentro de mim.
“Sim. Mas precisamos urgentemente de uma ordem judicial para mantê-lo longe dela e conselhos sobre como progredir com o divórcio.”
Logan acenou, seu maxilar travado pela raiva. Era uma raiva que eu compartilhava profundamente.
Alissa havia estado presa em um relacionamento tóxico por três anos, e eu esperei pacientemente pelo dia em que ela finalmente se libertaria. Quando ela me ligou na noite passada, chorando e pedindo ajuda, eu não hesitei. Dirigi uma hora até Greeley para trazê-la para casa, para um lugar seguro.
“Chloe vai saber o que fazer. Ela parece ser bem durona,” Logan comentou, tentando aliviar um pouco a tensão.
Soltei uma risada curta.
“Você não faz ideia do quão durona ela é. A mulher é imbatível. Não há problema que ela não consiga resolver.”
Logan assentiu, ainda sério.
“Espero que sim. Me mantenha informado.”
“Pode deixar,” prometi, sabendo que era sincero. Logan se importava com Alissa tanto quanto eu.
Nos despedimos com um aceno rápido, e eu observei meu companheiro de time caminhar até o carro dele antes de entrar no meu. Dando partida, o motor rugiu suavemente enquanto eu dirigia para casa, determinado a acalmar os nervos da minha irmã. Chloe resolveria tudo, eu tinha certeza disso. Assim que contasse a história de Alissa para ela, sabia que minha advogada saberia exatamente o que fazer.
Pontualmente às seis horas, eu atravessei as portas do escritório de Chloe, sendo guiado por sua secretária. A sala estava impecável, com móveis elegantes em tons neutros, refletindo o estilo refinado de sua ocupante. Chloe estava atrás da mesa de carvalho escuro olhando o computador, ajustando os óculos de armação grossa que, apesar de parecerem grandes demais para seu rosto delicado, adicionavam um charme peculiar à sua aparência. Seu cabelo loiro estava preso em um coque baixo, com algumas mechas caindo suavemente ao redor do rosto, moldando suas feições com uma beleza sutil. Vestida com um terno cinza e uma blusa de seda branca, ela exalava profissionalismo, mas também algo mais — uma presença que sempre me fazia perder um segundo para recuperar o fôlego cada vez que a via. Assim que nossos olhares se cruzaram, precisei de um momento, como sempre acontecia, para absorver o impacto de sua beleza. Logan estava certo; eu definitivamente "babava" nela, mas em minha defesa, era impossível não admirar uma mulher como Chloe.
Ela se levantou da cadeira com uma elegância natural, e seu tom profissional preencheu o espaço.
“Que bom que você conseguiu, Sr. Mitchell.” Seu jeito formal sempre me fazia sorrir por dentro.
Fazia dois anos que eu era cliente dela, e mesmo insistindo para que me chamasse de Ryan, ela mantinha o formalismo.
“Acredite, se você não tivesse arranjado um horário para mim, eu apareceria de qualquer forma e imploraria para ser atendido,” falei, me aproximando da mesa.
Chloe esboçou um sorriso contido, e então, sem perder o tom, olhou para sua secretária, que estava logo atrás de mim.
“Você já pode ir embora Felicity, eu assumo daqui. Obrigada por ter ficado comigo,” disse, agradecendo à jovem provavelmente por ter ficado além do horário.
Eu me virei para a secretária, uma moça de cabelo curto castanho, vestida com calças sociais largas e uma blusa branca de babado. Ela segurava um tablet nas mãos, claramente pronta para finalizar o dia.
“Desculpe por te fazer ficar até mais tarde,” comentei, oferecendo um sorriso sincero.
“Não foi nada demais, Sr. Mitchell,” Ela riu nervosamente, os olhos fixos em mim por um momento, antes de perceber que estava encarando.
Chloe soltou uma pequena risada, o que pareceu acordar a secretária de seu devaneio. Ela corou um pouco, murmurando, “boa noite” antes de sair apressadamente, deixando-nos a sós. Assim que a porta se fechou, Chloe voltou a se sentar, relaxando ligeiramente, mas ainda assim mantendo sua aura profissional.
“O marido e o filho dela são grandes fãs dos Broncos. Você falando com ela diretamente, com certeza fez a noite deles,” comentou, seu sorriso iluminando brevemente o ambiente.
Sorri de volta, apreciando ele.
“Vou mandar algumas camisetas autografadas para o escritório, para compensar o horário extra dela por minha causa,”
O sorriso de Chloe se alargou por um instante.
“Obrigada, eles vão ficar muito felizes.” Logo em seguida, ela recostou-se na cadeira, seus olhos voltando ao modo sério e focado. “Agora, o que o traz aqui com tanta urgência, e o mais importante… Como posso ajudá-lo?”
Aquele foi o momento em que a realidade se impôs novamente, trazendo de volta todo o peso da minha situação. Ajustei-me na cadeira, tentando encontrar as palavras certas. Chloe era incrível em seu trabalho, e eu sabia que podia confiar nela, mas ainda assim, era difícil falar sobre isso. Soltei um suspiro, me preparando para contar tudo, e ajustei-me na cadeira enquanto olhava para Chloe.
Alissa sempre foi minha irmãzinha, e nossa relação era a clássica de irmãos que cresceram cuidando um do outro. Sempre me senti responsável por ela. O irmão mais velho que deveria protegê-la de tudo. Quando ela começou a se envolver com Ed, fiquei de pé atrás, mas com os treinos, as viagens para os jogos e a distância, não consegui acompanhar de perto o desenrolar daquele relacionamento, e quando finalmente o conheci, meses depois, algo no cara me incomodou, mas Alissa parecia feliz. Eu ainda tentei falar com nossa mãe sobre isso, mas ela disse que eu estava sendo superprotetor, que precisava relaxar. Eu deveria ter seguido meus instintos.
Vendo Chloe me observar com sua paciência habitual, limpei a garganta e tomei coragem.
"Minha irmã, está em um casamento horrível há três anos, com um idiota." Comecei, optando por ser o mais direto possível. “Ontem à noite, ela me ligou chorando, pedindo que eu a buscasse no estacionamento de um supermercado em Greeley." Chloe assentiu, atenta a cada detalhe. Continuei: "Eu nunca gostei do cara. Sempre soube que havia algo errado no relacionamento deles, e agora me culpo por não ter feito algo antes."
Chloe franziu levemente o cenho, mordendo o lábio inferior enquanto refletia sobre o que eu acabara de dizer. Sua voz foi cuidadosa quando ela perguntou:
"Ryan, eu preciso perguntar... sua irmã, ela está machucada? Fisicamente, quero dizer."
A ideia do desgraçado do Ed ter batido na minha irmã me fez estremecer. Mudei de posição na cadeira, desconfortável com a simples possibilidade.
“O nome dela é Alissa.” Falei, tentando me acalmar. “E, não, eu não vi nada aparente. Quando perguntei, ela negou, mas... eu não duvidaria que já tenha acontecido. O cara é um babaca, mesmo na frente das pessoas, e eu… eu não estive por perto nesses três anos, com a minha carreira mandando na minha vida ficava difícil vê-la regularmente e quando eu tentava, ela na maioria das vezes dava desculpas para não me encontrar.”
Chloe assentiu novamente, como se processasse cada pedaço de informação.
“Infelizmente, isso é comum em relacionamentos abusivos,” disse, com tom cheio de empatia e entendimento. “A vítima acaba isolada e acha que não pode pedir ajuda a ninguém.”
Soltei um suspiro longo, sentindo-me derrotado, como se tudo isso fosse de alguma forma minha culpa. Chloe me observou por um momento, parecendo me dar o tempo preciso, antes de voltar a falar, agora bem mais direta.
“A primeira coisa que precisamos fazer é pedir uma medida protetiva para manter esse homem longe de Alissa. Vamos também iniciar o processo de divórcio o mais rápido possível.” Ela fez uma pausa, os olhos fixos nos meus. “Eles têm filhos?”
"Não, felizmente." Minha resposta foi rápida, quase aliviada.
Chloe concordou, uma expressão séria no rosto.
“Isso é bom. Uma criança tornaria tudo muito mais complicado.” Concordei em silêncio, Chloe continuou, sua voz retomando o tom prático. “Vou precisar falar com Alissa. Vou marcar um horário amanhã mesmo, e priorizar o caso dela. Ryan, não se preocupe.”
A gratidão tomou conta de mim, substituindo parte da angústia que sentia.
“Obrigado, Chloe. Sério, estou muito mais aliviado agora que falei com você.”
Ela me deu um sorriso contido. Ela realmente era uma profissional incrível, e eu estava bem em ser alguém que “babava” nela.
“A parte mais difícil, Alissa já fez. Ela pediu ajuda e saiu do domínio do abusador. A parte de chutá-lo para fora da vida dela, essa eu faço com muito prazer.”
Eu ri, sentindo um raro momento de leveza em meio a esse caos. Chloe riu junto, e por um instante, a seriedade da situação deu lugar a uma conexão mais leve entre nós. Olhei para ela, percebendo que, de alguma forma, ela parecia ainda mais bonita. Será que isso era possível?
“Você já comeu?” Sem pensar muito, deixei a pergunta escapar.
Ela me olhou surpresa, claramente não esperando aquela mudança abrupta de assunto.
“O quê?” Perguntou confusa.
“Eu perguntei se você já comeu,” repeti, agora sorrindo, achando a surpresa dela meio adorável.
Chloe tirou os óculos, piscando algumas vezes antes de responder.
“Não, geralmente janto quando chego em casa.”
“Então... que tal jantar comigo? Já que eu te prendi no trabalho, o mínimo que posso fazer é te pagar um jantar.”
Ela me estudou por um momento, seus olhos analisando cada centímetro do meu rosto, como se estivesse tentando decifrar minhas intenções. Por fim, um pequeno sorriso apareceu em seus lábios, um sorriso que educado e contido, e assim, eu sabia a resposta antes mesmo de ela dizer.
“Obrigada pelo convite, Ryan, mas estou cansada e prefiro ir para casa.”
Assenti, sem arrependimento por ter tentado.
“Entendo. Bom, então não vou mais te prender.”
Levantamo-nos juntos, e Chloe estendeu a mão para mim. Agradeci novamente pela consulta, enquanto sentia a maciez da pele dela contra a minha. O contraste entre nossas mãos era algo a ser admirado.
Por um breve momento, quis prolongar o contato, mas sabia que seria impróprio.
“Vou pedir para a Felicity ligar para sua equipe pela manhã e agendar o horário com Alissa.”
“Obrigado, Chloe,” repeti pela milésima vez naquela noite.
“Não se preocupe, Ryan,” ela disse, a voz firme e tranquilizadora. “Farei o possível para que essa história termine o mais rápido possível e com o mínimo de danos para Alissa.”
Sorri para Chloe enquanto me despedia, uma parte de mim desejando que ela tivesse aceitado o jantar. Mas, talvez, tenha sido o melhor. Quem sabe se, depois de um jantar, eu conseguiria me contentar apenas com isso? E a última coisa que eu queria era perder uma advogada tão boa quanto Chloe.
